Guerras religiosas (parte VI)

Continuação do post anterior

 

Livres dos Fardos Religiosos

 

Jesus, com uma mensagem bem diferente, contradisse os ideais de guerra vividos pelos hebreus. Ele ordenou: “Vivam em paz uns com os outros.” (Marcos 9.50, NTLH.) [1] E declarou: “Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus.” (Mateus 5.9, RC.) [2] “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; eu não vo-la dou como o mundo a dá.” (João 14.27, RC.) [3] Enquanto Moisés disse que o Senhor é homem de guerra (Êxodo 15.3.) [4] Paulo, discípulo de Jesus, disse que ele é o Deus da paz. (Romanos 15.33; 16; 20; Filipenses 4.9; 1 Tessalonicenses 5.23.) [5] Disse ainda que as mensagens de Jesus são o evangelho da paz (Efésios 3.15.) [6] Moisés mandou o seu povo massacrar os demais povos da terra de Canaã com a guerra. Mas Jesus mandou seus discípulos irem a todas as nações para anunciarem a sua mensagem de paz, amor e vida. Moisés mandou matar e escravizar estrangeiros. Jesus mandou anunciar a vida e a liberdade a todos. Por isso, “o povo que estava assentado em trevas viu uma grande luz; e aos que estavam assentados na região e sombra da morte a luz raiou.” (Mateus 4:16, RC.) [7]

 

Diferenças entre a lei de Moisés e o evangelho do reino de Deus pregado por Jesus

Lei de Moisés

Evangelho de Jesus Cristo

Reino de Israel terreno

Reino de Deus espiritual

Ódio a outras nações

Amor a todos os povos

Mortes e mais mortes

Vida para todos

Vinganças

Perdão

Escravização de pessoas

Libertação

 

A Igreja dos primeiros séculos transmitiu o verdadeiro evangelho de Jesus. Aqueles cristãos primitivos não brigaram com espadas, como os zelotes, querendo implantar um reino religioso terreno. [8] Mas lutaram com as armas espirituais para implantarem o reino invisível do Deus em todo o mundo, um reino no interior, no coração, na alma de cada um. (Atos 8:12; Atos 19:8; Atos 20:25; Atos 28:23; Atos 28:31.) [9]. Uma nova maneira de viver em paz, amor, solidariedade, sem preconceito, sem divisões, sem injustiças... Não um reino de palavras, mas de virtudes. (1 Coríntios 4:20.) [10]. Não um reino, como o reino de Salomão, cheio de comida e bebida, mas de justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo. (1 Reis 4.22-23; Romanos 14:17.) [11].  Mas com o tempo, o cristianismo ficou esculhambado, e a guerra voltou a fazer parte da vida religiosa de muitos. A cristandade se transformou em instituições religiosas beligerantes. Por isso, Jesus profetizou: “Vocês pensam que eu vim trazer paz ao mundo? Pois eu afirmo a vocês que não vim trazer paz, mas divisão. Porque daqui em diante uma família de cinco pessoas ficará dividida: três contra duas e duas contra três. Os pais vão ficar contra os filhos, e os filhos, contra os pais. As mães vão ficar contra as filhas, e as filhas, contra as mães. As sogras vão ficar contra as noras, e as noras, contra as sogras.” (Lucas 12.51-53, NTLH.) [12] E assim, encontramos família divididas entre diversas igrejas institucionalizadas, brigando umas com as outras por causa de doutrinas, dogmas, rituais, usos e costumes religiosos impostos por igrejas que agem como se fossem reinos terrenos, lutando para conquistar pessoas e territórios. É claro que Jesus, na verdade, não veio promover divisões, literalmente falando. Mas ele sabia que o seu evangelho seria deturpado e acabaria virando um monte de instituições que mais parecem pequenos reinos, onde cada um tenta ser maior e melhor que o outro.

 

Não se engane: a verdadeira paz está no reino de Deus, que não é desse mundo, que está dentro de nós, que não tem aparência exterior. (João 18:36; Lucas 17:20-21.) [13] Nesse reino espiritual é impossível fazer guerras. Mesmo que matem o nosso corpo, não poderão matar nossa alma. (Mateus 10:28.) [14]

 

 

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Descrição: A entrada dos cruzados em Constantinopla. Data: 1840. Autor: Eugène Delacroix (1798-1863). Reprodução: The Yorck Project: 10.000 Meisterwerke der Malerei. DVD-ROM, 2002. ISBN 3936122202. Distributed by DIRECTMEDIA Publishing GmbH. Fonte e licença domínio público.

Jesus foi contra as guerras. Mas a igreja, longe do verdadeiro evangelho, permitiu que ela fosse ressuscitada com mais veemência. O que Jesus realmente ensinou caiu no segundo plano. E foi com guerras que alguns países europeus se expandiram por todo o mundo, devorando nativos e pagãos, conquistando ilhas e continentes.

 

Em 804, o imperador dos francos Carlos Magno, apaixonado pela sua religião, depois de ser coroado pelo papa Leão III, através das armas, forçou a conversão dos saxões ao catolicismo. Eles ficaram entre a cruz e a espada, e tiveram que escolher: seguir o crucial catolicismo medieval ou morrer sob as cortantes espadas dos francos. [15], [16], [17]

 

De 1096 a 1099, aconteceu a Primeira Cruzada, também conhecida como Cruzada dos Nobres, convocada pelo papa Urbano II com destino ao Oriente e promovida pelos senhores feudais da Europa. Causou a morte de judeus e mulçumanos, incluindo velhos, mulheres e crianças. E foi conquistada uma grande faixa de terra, onde foram implantados os reinos latinos. [18], [19] Como os hebreus, lutaram na terra de Canaã (Palestina) por eles chamada de Terra Santa, se esquecendo que o reino pregado por Jesus não é deste mundo.

 

Entre 1147 a 1149, foi a vez da Segunda Cruzada. O papa Eugênio III convocou o povo para ir para ao Oriente lutar mais uma vez. Os reis Luís VII da França, Conrado III da Alemanha e os reis da Polônia e da Boêmia ajudaram a promover tudo.  Foram derrotados pelos mulçumanos. [20], [21]

 

De 1189 a 1192, tivemos a Terceira Cruzada, também conhecida como Cruzada dos Reis, convocada pelo Papa Gregório VIII, com o apoio dos reis Filipe Augusto II da França, Ricardo I, Coração de Leão da Inglaterra e o imperador do Sacro Império Romano-Germânico Frederico I Barba-Roxa, também com destino ao Oriente. Apesar de algumas vitórias, mais uma vez, os cruzados foram derrotados. [22], [23]

 

Do final do século XII e no século XIII, aconteceram as Cruzadas do Norte (Cruzadas do Báltico) na época do papa Celestino III, quando os reis católicos da Dinamarca e Suécia, mais as ordens militares alemãs dos Livonianos e dos Teutônicos e seus aliados lutaram contra os povos pagãos do norte da Europa, próximos das costas sul e leste do mar Báltico. [24], [25], [26]

 

Entre 1202 a 1204, aconteceu a Quarta Cruzada, conhecida como Cruzada Comercial, convocada pelo Papa Inocêncio III e financiada por Veneza, outra vez com destino ao Oriente, porém desviada para o império bizantino. Zara e Constantinopla foram saqueadas e, com a guerra, foi fundado o Reino Latino de Constantinopla, aumentando as desavenças entre as Igrejas Católica e Ortodóxica. [27], [28]

 

De 1209 a 1229, foi a vez da Cruzada Albigense, também convocada pelo papa Inocêncio III, com o objetivo de combater a religião dos protestantes albigenses na França, também conhecidos como cátaros. Poucos adeptos dessa religião sobreviveram e foram perseguidos pela Inquisição. [29], [30]

 

Em 1212, tivemos a Cruzada das Crianças, promovida pelo pastor francês Estevão de Blois, com destino à Terra Santa. Apesar do nome, segundo pesquisas realizadas, ela não era composta de crianças. Ainda de acordo com pesquisas, houve outro grupo chefiado pelo pastor alemão Nicholas. Dos seus integrantes, alguns naufragaram, outros foram assassinados, outros vendidos como escravos. Ninguém atingiu o objetivo final. [31], [32]

 

De 1217 a 1221, aconteceu a Quinta Cruzada, convocada pela iniciativa de Inocêncio III e colocada em prática pelo Papa Honório III, também com destino à Terra Santa. Conseguiu reconquistar Jerusalém. Foi liderada pelo rei da Hungria, pelo duque da Áustria e pelo rei Frederico II do Sacro Império Romano. [33], [34]

 

Entre 1228 a 1229, foi a vez da Sexta Cruzada, promovida pelo imperador do Sacro Império Romano, Frederico II, com destino ao Oriente. Conseguiu conquistar as cidades de Jerusalém e Belém, além de um corredor para o mar e uma trégua de dez anos. [35], [36]

 

De 1248 a 1250, tivemos a Sétima Cruzada, comandada pelo rei francês Luís IX, mais tarde canonizado pela Igreja como São Luís. Conseguiu recuperar a cidade egípcia de Damietta, mas acabou ficando prisioneiro por algum tempo. [37], [38]

 

Em 1270, aconteceu a Oitava Cruzada, também promovida pelo rei francês Luís IX, com destino ao Oriente. Foi derrotada por uma peste no norte da África. [39], [40]

 

Entre 1420 a 1434, foi a vez da cruzada contra os hussitas. Após a Igreja Católica condenar o reformador religioso Jan Hus numa fogueira, os seus seguidores ficaram revoltados e provocaram as Guerras Hussitas, onde católicos e protestantes se digladiaram. [41]

                            

De 1618-1648, aconteceu a Guerra dos Trinta Anos, que teve motivos dinásticos, territoriais e comerciais, mas que teve como ponto de partida as desavenças religiosas entre católicos e protestantes. As discórdias entre o Sacro Império Romano-Germânico do lado católico e as diversas cidades e principados do lado protestante acabaram envolvendo outros países na guerra como: Dinamarca, Polônia, Suécia e França. [42], [43]

 

Entre 1751-1757, houve a Guerra Guaranítica, quando jesuítas e guaranis catequizados do sul do Brasil enfrentaram tropas de Portugal e Espanha. [44]

 

Entre 1861-1865, na Guerra Civil Norte-Americana, os estados do norte lutaram contra os estados do sul. As igrejas protestantes foram usadas como postos de recrutamento. As tropas saiam para a batalha após a celebração de um culto. [45] O bispo episcopal da Luisiana Leonidas Polk atuou como general no exército sulista, que defendia o escravagismo. [46].

 

De 1991-1995, tivemos a Guerra da Antiga Iugoslávia, quando os croatas (católicos), os sérvios (ortodoxos) e os bósnios (muçulmanos) partiram para a luta armada. [47], [48], [49], [50]

 

Na Irlanda do Norte, nacionalistas católicos e unionistas protestantes têm vivido longos anos de conflitos, onde muitos já perderam a vida. [51], [52]

 

Esses são alguns exemplos de guerras de caráter religioso. Embora a religião não tenha sido a única causa, podemos ver que princípios religiosos têm sido combustível para muitas batalhas.

 

Continuaremos no próximo post.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2014. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br