Guerras religiosas (parte V)

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Livres dos Fardos Religiosos

Muitos tentam afirmar que as guerras dos hebreus foram justas porque Deus, por meio deles, resolvera punir os povos idólatras de Canaã. E os outros povos idólatras do mundo? Qual povo santo, não idólatra, foi escolhido para puni-los?  Além disso, eles não guerrearam apenas contra outros povos, mas também houve guerras internas entre tribos e facções. Houve muitas guerras civis entre eles. (Guerra civil é aquela guerra praticada entre partidos ou grupos de um mesmo povo.) [1]

 

Guerras civis do povo hebreu

Envolvidos

Consequências desastrosas

Citação bíblica

Juiz Abimeleque e os seus homens contra população de Siquém.

Morte da população de Siquém. Muitos se refugiaram numa grande torre. Mas Abimeleque e os seus homens botaram fogo na torre, onde morreram mil homens e mulheres queimados e sufocados pela fumaça.

Juízes 9.34-49 [2]

Homens de Gileade contra os habitantes da tribo de Efraim.

Morte de 42 mil efraimitas.

Juízes 12.1-6 [3]

Hebreus das diversas tribos de Israel contra Habitantes da tribo de Benjamim.

A tribo de Benjamim matou vinte e dois mil homens no primeiro ataque. No segundo ataque, mais dezoito mil. No terceiro ataque, apenas trinta Todavia, os hebreus das demais tribos mataram vinte e cinco mil e cem homens de Benjamim. Depois, atacaram o resto dos benjamitas e mataram mais homens e animais, e destruíram tudo o que encontraram, além de queimarem todas as cidades da região.

Juízes 20 [4]

Seguidores de Davi contra seguidores de Is-Bosete filho de Saul.

Conflitos diversos na longa guerra entre a casa de Saul e a casa de Davi.

2 Samuel 3:1 [5]

Seguidores de Absalão contra seguidores do rei Davi, o seu pai.

Morticínio de 20 mil homens e a morte de Absalão.

2 Samuel 18.1-17 [6]

Seguidores de Seba contra seguidores do rei Davi.

Assassinato de Amasa e de Seba.

2 Samuel 20  [7]

Israelitas da tribo de Judá e Benjamim contra israelitas das demais tribos.

Morte de Adorão e a divisão do reino, gerando guerras continuamente entre os dois reinos.

1 Reis 12, 1 Reis 14.30; 15.6; 2 Crônicas 10 [8]

Abias do reino de Judá contra Jeroboão do reino de Israel.

500 mil mortos e a tomada de várias cidades de Israel.

2 Crônicas 13 [9]

Seguidores de Baasa do reino de Israel contra seguidores de Nadabe do mesmo reino.

Assassinato do rei Nadabe e de todos os seus irmãos.

1 Reis 15.25-29 [10]

Seguidores de Zinri contra seguidores do rei Elá do reino de Israel.

Assassinato do rei Elá, dos seus parentes e amigos e Zinri torna-se rei.

1 Reis 16.8-13 [11]

Rei Asa de Judá contra o rei Baasa de Israel, envolvendo Ben-Hadade, rei da Síria contra o reino de Israel.

Conquista de várias cidades de Israel, gerando guerras contínuas entre os dois reinos.

1 Reis 15.16-20, 32; 2 Crônicas 16 [12]

Seguidores de Tíbni contra seguidores de Onri dentro do reino de Israel.

Morte de Tibni. Onri torna-se rei de Israel.

1 Reis 16.21-23 [13]

Jeú e seus seguidores contra Jorão rei de Israel.

Assassinato dos rei Jorão de Israel e de Acazias rei de Judá, de Jezabel, mãe de Jorão, dos setenta filhos do falecido rei Acabe, irmãos de Jorão, dos parentes do rei Acabe que moravam em Jazreel, dos parentes do falecido rei Acazias e de todos os parentes de Acabe que viviam em Samaria.

2 Reis 9 e 10 [14]

Amazias, rei de Judá, contra Jeoás, rei de Israel.

Prisão de Amazias, fuga de seus soldados e saques.

2 Reis 14.8-14; 2 Crônicas 25.17-24 [15]

Conspiradores contra o rei Amazias de Judá.

Morte do rei Amazias.

2 Reis 14.19; 2 Crônicas 25.27 [16]

Salum contra Zacarias, rei de Israel.

Morte do rei Zacarias.

2 Reis 15.10 [17]

Peca contra Pecaías, rei de Israel.

Assassinato de Pecaías.

2 Reis 15.25 [18]

Oséias contra Peca, rei de Israel.

Morte de Peca.

2 Reis 15.30 [19]

Peca, rei de Israel, contra Jotão e depois contra Acaz reis de Judá.

Sem informações.

2 Reis 15.37, 2 Reis 16.5; 2 Crônicas 28.5 [20]

 

Não dá para calcular o total de pessoas que perderam a vida nas diversas guerras judaicas em Canaã. Em algumas batalhas, encontramos o número aproximado de homens guerreiros que morreram. Não temos o número de crianças, mulheres e velhos massacrados nas diversas batalhas. Também não temos a quantidade de pessoas escravizadas e feridas e nem o número de virgens raptadas. Da mesma forma, não dispomos do número de animais mortos, mas podemos perceber que foram milhares. A quantidade de depredações e saques também foi enorme. É difícil acreditar que Deus teria aprovado atos selvagens e absurdos como esses para punir os pecadores daquela terra. Será que Deus pune pecados com outros pecados? Será que esses atos não são crimes e pecados?

 

 

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Descrição: Mortos após a batalha contra Jericó e a preservação de Raabe e sua família. “E mataram, com as suas espadas, todos os que estavam na cidade: homens e mulheres, crianças e velhos. Também mataram os bois, as ovelhas e os jumentos.” (Josué 6.21, NTLH.) [21] Data: século XIX. Autor: Gustave Doré. (1832–1883). Fonte e licença domínio público.

O salmista e rei Davi disse: “Aparta-te do mal, e faze o bem: busca a paz, e segue-a” (RC. Salmos 34.14 ou 33.15 em outras versões). [22], [23] Esse rei era um homem de guerra e derramou muito sangue. (1 Crônicas 28.3.) [24] Isso não é uma hipocrisia da parte de Davi? Falar de paz e promover a guerra ao mesmo tempo?

 

O profeta Joel deixou escrito: “Proclamai isso entre as nações, santificai uma guerra; suscitai os valentes; cheguem-se, subam todos os homens de guerra. Forjai espadas das vossas enxadas e lanças das vossas foices; diga o fraco: Eu sou forte.” (Joel 3.9-10, RC.) [25]

 

Como podemos ver, o povo bíblico do Antigo Testamento, em termos de guerra, não foi diferente das demais nações do passado. A diferença veio com o verdadeiro Cristo, que foi contra todo tipo de mal.

 

Apesar da grande força guerreira impulsionada pela religião, os hebreus acabaram sendo dominados. A Assíria, no final do século VIII a.C., dominou o povo hebreu do Norte (Reino de Israel) por mais de 100 anos. Durante essa época, parte do povo foi levada para o cativeiro na Média. [26]. A Babilônia, no início do século VI a.C., através do rei Nabucodonosor, dominou os reinos de Israel e Judá. Os hebreus foram levados cativos para a Babilônia, onde permaneceram quase 50 anos. [27]. O Império Persa, no final do século VI a.C., conquistou a Babilônia, e os hebreus passaram a ser súditos desse novo império. [28]. Alexandre Magno do Império da Macedônia, no século IV a.C., conquistou o Oriente. Então, o povo hebreu ficou sob o jugo desse império por mais de 200 anos. [29]. Entre os séculos II e I a.C., houve um período de cerca de cem anos de independência, após a Revolta dos Macabeus contra os governantes herdeiros do império de Alexandre. [30].O Império Romano, no século I a.C., conquistou a Palestina, e os hebreus ficaram sob o domínio dos romanos. [31].

 

No meio de todas essas adversidades, o profeta Isaías falou sobre a vinda do Príncipe da Paz. (Isaías 9.6.) [32] E ele, Jesus Cristo, veio com uma nova proposta. No século I, um grupo de revoltosos agia contra o domínio romano. Eram os zelotes. [33]. Ainda nesse tempo, na região da Galiléia, Jesus já era bem jovem e, num lugar deserto, foi tentado para possuir todos os reinos do mundo. Talvez tenha pensado entrar numa luta, procurando libertar o seu povo do jugo romano, tornando-se rei dominador de um grande império como o de Alexandre Magno e como o de Roma. Mas ele não caiu nessa tentação. Ele sabia que o mundo não precisava de um grande império teocrático dominador. Não adiantaria libertar o seu povo e colocar outros povos sob o seu domínio. Ele amava a todos os povos da terra. Ele teria que mostrar o caminho da paz e da libertação para todo o mundo. Então, venceu a tentação de construir um grande império terreno, e trouxe uma nova proposta para a humanidade: o reino espiritual de Deus para todos os povos da terra. (Mateus 4.8-10.) [34]. Ele saiu pelas terras da palestina pregando o evangelho do reino de Deus, que não é um estado teocrático nesse mundo, mas uma nova maneira de viver em liberdade com Deus.

 

Disse ele: “O reino de Deus não é anunciado por sinais visíveis, nem se poderá dizer que começou aqui ou acolá, porque está entre vocês.“ (Lucas 17:20-21, OL.) [35]. Ele deixou bem claro que o reino de Deus não tem aparência exterior. Ninguém pode dizer que ele está aqui ou ali, pois o reino de Deus está dentro de nós. (Lucas 17.20-21.) [36]. O seu reino, como ele falou, “não é deste mundo” (João 18:36.) [37]. Ele não quis um reino terreno exclusivo para os israelitas. Quis um reino espiritual para todos os povos. Por isso, disse para os seus discípulos: “Toda a autoridade no céu e na Terra me foi dada, disse aos discípulos. Portanto, vão e façam discípulos entre todos os povos. Baptizem-nos em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo. Ensinem-lhes a obedecer a todos os mandamentos que vos dei. Fiquem certos de que estou sempre convosco até ao fim do mundo.” (Mateus 28.19-20, OL.)

 

Continuaremos no próximo post

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2014. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br