Depredações religiosas

Livres dos Fardos Religiosos

 

Uma manifestação pública pode ser legítima e democrática. Mas quando algumas pessoas começam a quebrar, queimar e destruir patrimônios públicos e privados, então a manifestação se transforma em um ato totalmente ilegal, insensato, desordeiro...

 

Depredação é o dano causado à propriedade alheia. [1] É ato ou efeito de depredar, assolar, destruir. [2]

 

 

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Descrição: Intolerância religiosa dos hebreus, destruindo as esculturas religiosas dos cananeus. Adorar ídolos não é algo conveniente. Mas atos de intolerância jamais vão servir para abrir os olhos dos idólatras. Apenas servirão para estimular o ódio. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

A depredação foi muito comum entre os povos antigos. Até na Bíblia, podemos encontrar vários exemplos. Isso mesmo, na Bíblia, no Antigo Testamento, podemos encontrar fatos que podem servir de incentivo às depredações. É um crime, mas apesar disso, muitas destruições foram praticadas usando o nome de Deus e com a suposta aprovação dele. É preciso ter bom senso, pois ficar dizendo que a Bíblia é a Palavra de Deus infalível, sem erros, capa a capa pode se tornar uma apologia a esse e a muitos outros tipos de delitos.

 

·         Certa vez, Moisés, o líder dos hebreus, se descontrolou e quebrou as placas de pedra onde estavam escritos os dez mandamentos. (Êxodo 32:19.) [3]

·         Outra vez, ele mandou os hebreus atacarem os midianitas, e eles destruíram, com fogo, as cidades e os acampamentos desse povo. (Números 31:10.) [4]

 

Esse mesmo líder orientou os hebreus no sentido de depredar os elementos religiosos dos antigos habitantes da terra de Canaã. Observe o que ele deixou escrito:

 

·         “Guarda-te que não faças concerto com os moradores da terra aonde hás de entrar; para que não seja por laço no meio de ti. Mas os seus altares transtornareis, e as suas estátuas quebrareis, e os seus bosques cortareis.” (Êxodo 34.12-13, RC.) [5]

·         “Porém, assim lhes fareis: Derrubareis os seus altares, quebrareis as suas estátuas, cortareis os seus bosques e queimareis a fogo as suas imagens de escultura.” (Deuteronômio 7.5, RC.) [6]

·         “Totalmente destruireis todos os lugares onde as nações que possuireis serviram os seus deuses, sobre as altas montanhas, e sobre os outeiros, e debaixo de toda a árvore verde; E derribareis os seus altares, e quebrareis as suas estátuas, e os seus bosques queimareis a fogo, e abatereis as imagens esculpidas dos seus deuses, e apagareis o seu nome daquele lugar.” (Deuteronômio 12.2-3, RC.) [7]

·         “Lançareis fora todos os moradores da terra diante de vós, e destruireis todas as suas figuras; também destruireis todas as suas imagens de fundição, e desfareis todos os seus altos.” (Números 33.52, RC.) [8]

 

Moisés morreu antes de chegar à terra de Canaã. Josué foi quem assumiu o comando do povo. No seu livro, podemos ver que, em nome de Deus, os hebreus realizaram grandes devastações. Veja alguns exemplos:

 

·         Quando invadiram a cidade de Jericó, eles queimaram tudo que havia nela e pegaram a prata, o ouro, os vasos de bronze e de ferro e colocaram-nos no tesouro da casa do Senhor. (Josué 6.24.) [9]

·         Josué mandou o povo colocar fogo na cidade de Ai. Ele acreditava que Deus os tinha mandado fazerem isso. Por isso, eles invadiram a cidade e a incendiaram. (Josué 8.8; 28.) [10]

·         Josué também queimou a cidade de Hazor. (Josué 11:11.) [11]

 

Depois que eles conquistaram a terra de Canaã, eles ficaram sob o comando de juízes. Naquele tempo, eles ainda não tinham um rei. No livro dos juízes, também podemos ver mais alguns maus exemplos de depredações.

 

 

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Descrição: Sansão incendiando as plantações dos filisteus. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

·         Os homens da tribo de Judá atacaram os moradores de Jerusalém e puseram fogo nela. (Juízes 1.8.) [12]

·         Gideão derrubou a torre de Penuel. (Juízes 8:17.)  [13]

·         Abimeleque destruiu a cidade de Siquem e espalhou sal no chão. (Juízes 9.45.) [14]

·         Em seguida, juntamente com Abimeleque, os hebreus queimaram uma fortaleza com cerca de mil pessoas dentro. (Juízes 9.49.) [15]

·         Sansão, um dos juízes famosos, “caçou trezentas raposas, amarrou-as duas a duas pelos rabos e prendeu em cada par de rabos uma tocha. Pôs fogo nas tochas e soltou as raposas nas plantações de trigo dos filisteus. E o fogo queimou não só o trigo que já havia sido colhido, mas também o que ainda estava nas plantações. Também os bosques de oliveiras foram queimados.” (Juízes 15.4-5, NTLH.) [16]

·         Os hebreus da tribo de Dã atacaram Laís, uma cidade de povo pacífico e calmo, mataram os seus moradores e queimaram a cidade. (Juízes 18.27.) [17].

 

Depois dos juízes, veio a época dos reis. E não foi diferente.

 

·         Na época do profeta Elias e do rei Acabe de Israel, o povo havia derrubado os altares. (1 Reis 19:10; 14.) [18]

·         O rei Jorão de Israel derrubou a coluna do deus Baal (2 Reis 3.2.) [19]

·         Sob o comando do rei Jeú de Israel, os guardas tiraram e queimaram as colunas do templo de Baal, derrubaram o templo e o transformaram em privadas. (2 Reis 10:26-27.) [20] 

·         Na época do rei Joás de Judá, excitados pelo sacerdote Joiada, o povo invadiu o templo do deus Baal e o derrubou, despedaçando os altares e os ídolos que estavam lá. (2 Reis 11.17-18.) [21]

·         O rei Jeoás de Israel foi a Jerusalém e derrubou cerca de duzentos metros das muralhas da cidade. (2 Reis 14:13.) [22]

·         O rei Ezequias de Judá “destruiu os lugares pagãos de adoração, quebrou as colunas do deus Baal e derrubou o Poste-ídolo. Também fez em pedaços a cobra de bronze que Moisés havia feito e que era chamada de Neustã. Até aquela época o povo de Israel queimava incenso em honra dela.” (2 Reis 18:4 , NTLH.) [23]

·         O rei Josias de Judá “fez em pedaços as colunas do deus Baal, derrubou os postes-ídolos e cobriu de ossos de gente o lugar onde eles haviam estado.” . (2 Reis 23:14, NTLH.) [24]

·         “Josias também derrubou o lugar de adoração que ficava em Betel e que havia sido construído pelo rei Jeroboão, filho de Nebate, que tinha feito o povo de Israel pecar. Josias derrubou o altar, quebrou as suas pedras em pedaços e as esmigalhou até virarem pó. Ele também queimou o Poste-ídolo.” (2 Reis 23:15, NTLH.) [25]

·         “Em todas as cidades de Israel, Josias derrubou todos os lugares pagãos de adoração.” (2 Reis 23:19, NTLH.) [26]

·         Uzias, rei de Judá, quebrou os muros de três cidades dos filisteus. (2 Crônicas 26:6.) [27]

·         Certa vez, na época do rei Ezequias de Judá, depois da celebração da festa da Páscoa, todos que estavam na festa em Jerusalém saíram às cidades de Judá, Benjamim, Efraim e Manassés e derrubaram altares, imagens, colunas e os lugares de adoração de outra religião. (2 Crônicas 31:1.) [28]

 

Não estou, de forma alguma, querendo defender os falsos deuses adorados por alguns, como Baal, por exemplo. Mas seguir esses maus exemplos dos hebreus, destruindo os elementos religiosos de outras pessoas não é o caminho certo. Se fôssemos seguir esses exemplos bíblicos, certamente iríamos provocar ódio e inúmeras guerras religiosas pelo mundo.

 

Os hebreus depredaram não apenas patrimônios dos estrangeiros, mas também dos seus compatriotas.

 

·         Eles puseram fogo nas cidades da tribo de Benjamim. (Juízes 20.48.) [29]

·         O juiz Jefté foi ameaçado pelos homens da tribo de Efraim, que disseram que iriam colocar fogo na casa dele com ele dentro. (Juízes 12.1.) [30]

·         Absalão, um dos filhos do rei Davi, também praticou esse crime. Ele mandou os seus servos queimar o campo de cevada de Joabe. (2 Samuel 14.29-30.) [31]

 

Jesus não mandou ninguém realizar nenhum tipo de depredação. Mas a Igreja resolveu seguir esse mau caminho.

 

·         Em 389, Teófilo, patriarca de Alexandria, teria promovido uma violenta campanha com o objetivo de destruir todos os templos não cristãos. [32]

 

·         Em 391, o templo de Serápis e a sua biblioteca foram destruídos ainda sob a fúria de Teófilo e de Teodósio I. [33]

 

·         Em 412, Cirilo, sobrinho e sucessor de Teófilo, também patriarca de Alexandria e doutor da Igreja foi acusado de promover a destruição das sinagogas dos judeus alexandrinos. [34]

 

·         Ano 1186, o Concílio de Verona estabeleceu a "Santa Inquisição ou Santo Ofício" que foi oficializada em 1231 pelo papa Gregório IX. Entre os diversos tipos de penas cruéis, estavam a destruição da casa do condenado e o confisco de seus bens. [35], [36]

 

·         Do começo do século XV ao fim do século XVIII, na época das grandes navegações, as nações ditas cristãs saíram pelos quatro continentes colonizando diversos territórios, e os patrimônios religiosos de diversos povos foram depredados. [37]

 

Outros grupos também aprontaram essas barbaridades.

 

No século VI a.C., o rei Nabucodonosor da Babilônia “queimou a Casa do SENHOR e a casa do rei, como também todas as casas de Jerusalém; todas as casas dos grandes igualmente queimou. E todo o exército dos caldeus, que estava com o capitão da guarda derribou os muros em redor de Jerusalém.” (2 Reis 25:9-10, RC.) [38]

 

No ano 70, o imperador romano Tito Flávio Vespasiano destruiu o templo juntamente com a cidade de Jerusalém. [39]

 

Em Éfeso, uma cidade antiga no oeste da atual Turquia, em 550 a.C., foi construído um grande templo, adornado com esplêndidas obras de arte. Estamos falando de uma das sete maravilhas do mundo antigo, o templo de Ártemis. Mas em meados do século IV a.C., ele foi incendiado por um homem que queria ficar famoso. Foi reconstruído em seguida. Entretanto, em 262 da era cristã, os godos invadiram a cidade, e o templo foi para sempre destruído. [40]

 

Em 846, mulçumanos saquearam a sede da Igreja Católica em Roma. [41]

 

Numa pequena cidade do interior do Brasil, havia uma pequena igreja evangélica, que era duramente criticada pelo pároco local. Um dia, pela primeira vez, morreu um adepto daquela igrejinha. Mas o pároco decidiu que ele não seria enterrado no cemitério da cidade. Houve um grande rebuliço. Alguns católicos resolveram colocar fogo na casinha do falecido.

 

Numa outra cidade, algumas pessoas evangélicas entraram num templo de outra religião e quebraram, em nome de Jesus, as imagens de escultura que encontraram. [42] Cometeram um crime e se deram mal. Eles fizeram isso talvez influenciados pelos maus exemplos encontrados na Bíblia.

 

Em 12 de outubro de 1995, um bispo de uma determinada igreja evangélica chutou a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Alguns fiéis católicos, inconformados, apedrejaram templos da igreja do bispo. [43] Atitudes erradas dos dois lados.

 

Muitos outros atos poderiam ser descritos aqui. Mas apenas esses exemplos são suficientes para mostrarem quão nojento são essas atitudes.

 

Precisamos entender que Jesus não mandou ninguém fazer isso. Isso é coisa de Moisés, tida como ordem de Deus, há mais de três mil anos atrás. Não construiremos um mundo melhor ofendendo os outros. A humanidade precisa aprender a respeitar a fé dos outros. Não podemos lesar nenhuma religião com destruições e saques. Não estamos aqui querendo defender Ártemis, Baal ou qualquer outra suposta divindade. Apenas queremos dizer que cada um tem o direito de viver a sua fé e que ninguém tem o direito depredar a religião dos outros. A mensagem do evangelho é uma mensagem de paz e respeito entre todos os povos e religiões.  O evangelho de Cristo é para ser anunciado. Não é para ser imposto com qualquer tipo de destruição constrangedora. Seja uma pessoa exemplar anunciando o evangelho puro com boas atitudes. Não seja um vândalo religioso.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2014. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br