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Matanças religiosas

Livres dos Fardos Religiosos

 

Enquanto o mundo fica chocado com os assassinatos em série provocados por criminosos do presente, muitos religiosos ainda insistem em defender as matanças das religiões do passado.

 

As histórias do judaísmo e do cristianismo, distantes do verdadeiro evangelho do homem simples da Galiléia, lamentavelmente, são escarlates, estão manchadas de sangue, muito sangue...

 

 

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Descrição: Dois de Maio. Data: 1814. Autor: Francisco de Goya (1746–1828).  Reprodução: O projeto de Yorck: 10000 Meisterwerke der Malerei DVD-ROM, 2002. ISBN 3936122202 . Distribuído por Direct Media Publishing GmbH. Fonte e licença domínio público.

Em 1804, o papa Pio VII, numa cerimônia religiosa, na catedral de Notre-Dame de Paris, sagrou Napoleão Bonaparte como o imperador da França. [1], [2] Mas em maio de 1808, tropas desse homem consagrado fuzilaram centenas de espanhóis que não quiseram se submeter ao domínio francês. [3] Essa matança foi representada pelo pintor espanhol Francisco de Goya nas telas “Dois de Maio” e “Três de Maio”. [4], [5], [6], [7] Se é duro ver essas pinturas, imagine ser vítima real desse homem consagrado?

 

Matança é o assassinato de diversas pessoas ao mesmo tempo. É muitas vezes chamada de chacina, morticínio, mortandade, carnificina, carniçarias. [8], [9], [10] Ainda que possa ser inacreditável, isso tem acontecido bastante no cenário religioso.

 

A Bíblia relata que no tempo em que Josué e os hebreus estavam conquistando a terra de Canaã, eles foram derrotados pelos moradores da cidade de Ai. A causa da derrota, segundo a crença deles, seria o pecado de alguém. Como julgaram essa situação? Fizeram um sorteio. Todas as tribos foram reunidas, e o sorteio indicou a tribo de Judá. Então, na sequência, foram reunidos os grupos de famílias dessa tribo. O grupo de Zera foi indicado. Depois, as famílias desse grupo foram convocadas, e a família de Zabdi foi sorteada. Então os homens dessa família foram chamados, um por um, e Acã foi indicado.  Então o povo matou Acã, seus filhos, suas filhas, seus bois, seus jumentos, suas ovelhas e queimou os corpos juntamente com tudo o que ele tinha. (Josué 7.) [11] Uma chacina contra uma família inteira por causa do pecado de um homem. O que foi mais terrível: o pecado de Acã que foi levar para si alguns despojos da guerra ou esse morticínio macabro com pedradas e fogo? Um monte de corpos ensanguentados pelas pedradas, ardendo no fogo não seria algo muito mais horrendo?

 

O pessoal da tribo de Efraim começou uma briga com Jefté – uns dos juízes de Israel – ameaçando queimar a casa dele. Isso fez desencadear uma batalha entre as duas tribos: Gileade e Efraim. E morreram 42.000 pessoas por causa de uma briga sem motivo. (Juízes 12.1-6.) [12] Um grande massacre promovido por aqueles que foram chamados de “o povo santo de Deus”.

 

Em Juízes, capítulos 19, 20 e 21, vemos uma história com extrema violência, praticada em nome de Deus, para tentarem punir um caso de abuso sexual, acontecido na tribo de Benjamim. Essa tribo não quis entregar os criminosos para serem punidos. Por causa disso, as demais tribos dos hebreus desencadearam uma briga, onde morreram mais de 90 mil homens. Eles queimaram várias cidades, mataram velhos, mulheres, crianças, moças e animais. Quase eliminaram a tribo de Benjamim. Sobraram cerca de 600 homens, que fugiram para o deserto. A tribo de Benjamim estava praticamente aniquilada. Aqueles homens que restaram não tinham mais mulheres para poderem gerar novos filhos. Os hebreus das demais tribos tinham jurado que não dariam as suas filhas para nenhum homem da tribo de Benjamim e juraram que matariam os homens que não comparecessem à reunião para tratarem do caso. Os homens da cidade de Jabes-Gileade não foram à assembléia. Então os hebreus atacaram aquela cidade e mataram mais homens, mulheres e crianças. [13]  Esse massacre aconteceu com o suposto apoio de Deus.

 

Antes de se tornar rei, mas já ungido pelo profeta Samuel, Davi fugiu da presença do rei Saul, que o perseguia, e foi para a caverna de Adulão, e ajuntaram-se a ele homens que se achavam em aperto, endividados e amargurados de espírito; e ele se fez chefe deles; havia com ele cerca de quatrocentos homens. (I Samuel 22.1-2.) [14] Ele e os seus homens subiam e davam sobre os gesuritas, e os gersitas, e os amalequitas e matavam todos os homens e mulheres e tomavam as suas ovelhas, gado, jumentos, camelos e roupas. (I Samuel 27.8-9.) [15] Mesmo assim, o profeta Samuel disse que Davi era um homem segundo o coração de Deus. (1 Samuel 13.14; Atos 13.22.) [16] Qual a sua opinião, ao ver que ele, depois de ser ungido pelo profeta Samuel, andava com um bando de homens cometendo assassinatos em série?

 

Durante essa fuga de Saul, Davi havia passado em Nobe, uma cidade da tribo de Benjamim, ao norte de Jerusalém, onde, na época do rei Saul, ficava o tabernáculo e os sacerdotes. (Naquela época, ainda não havia o templo de Jerusalém.) Ali ele comeu pão sagrado e levou uma espada. Quando Saul ficou sabendo, reuniu os seus homens, e foram pra lá. Então Saul deu ordens ao seu servo Doegue para matar os sacerdotes. E foram assassinados oitenta e cinco sacerdotes. Em seguida, Saul mandou matar homens, mulheres, meninos, criancinhas, bois, jumentos e ovelhas. (1 Samuel, capítulos 21 e 22). [17] Essa carniçaria, tudo por causa da rixa entre Saul e Davi.

 

Por causa de uma crendice do rei Davi, ele entregou sete pessoas inocentes para os gibeonitas, que enforcaram todos eles num monte em Gibeá. Foi uma carnificina extremamente macabra. (II Samuel 21.) [18]

 

O profeta Elias matou 450 profetas de outra crença religiosa. (I Reis 18.19 e 40.) [19] Muitas pessoas acham isso muito bonito. Pensam assim porque ninguém da sua família jamais foi membro da religião de Baal. Jamais serei seguidor de Baal ou de qualquer outro falso deus. Entretanto, será que alguém pode tirar a vida daqueles que seguem uma religião considerada falsa? É justo uma carnificina em cima daqueles que acreditam noutros deuses?

 

 

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Descrição: A Matança dos Profetas de Baal. Data: Século XIX.  Autor: Gustave Doré (1832-1883). Fonte e licença domínio público.

Depois de uma batalha, o rei Jorão de Israel estava cuidando dos ferimentos. Enquanto isso, o profeta Eliseu enviou um homem para ungir Jeú para ser o novo rei do reino de Israel. Jeú então assassinou o ferido rei Jorão e ocupou o seu lugar. Também mandou matar o rei Acazias do reino de Judá, que estava visitando Jorão. Em seguida, mandou lançar Jezabel, a mãe do rei Jorão, de uma janela. Na cidade de Samaria, os setenta filhos do falecido rei Acabe, irmãos de Jorão, também foram assassinados, e as suas cabeças foram cortadas e enviadas para Jéu. Depois, todos os outros parentes do rei Acabe, pai de Jorão, que moravam em Jezreel, também foram trucidados. Enquanto ia de Jezreel para Samaria, Jéu encontrou alguns parentes do falecido rei Acazias de Judá, que iam visitar os filhos da falecida rainha Jezabel. Então eles também foram assassinados. Chegando a Samaria, ele, Jéu, matou todos os parentes de Acabe que ali viviam. Naquela cidade, ele ainda mandou matar todos os adoradores de Baal. (Veja os detalhes nos capítulos 9 e 10 de II Reis.) [20] Jéu, ungido pelo profeta Eliseu, promoveu todas essas carnificinas. O que você tem a dizer?

 

No reino de Judá, quando Atalia, a mãe de Acazias soube do assassinato do seu filho, também promoveu uma chacina. Mandou matar todos os seus netos e tornou-se a rainha de Judá. Sobrou apenas Joás, que foi coroado como rei. E a rainha, a sua avô, também foi morta. (II Reis 11.) [21]

 

No tempo das perseguições religiosas promovidas por alguns imperadores romanos, nos três primeiros séculos, houve muitas chacinas de cristãos. Segundo o Livro dos Mártires, houve uma carnificina em Alexandria e outra em Tebaida, no Egito. Há também uma descrição sobre um morticínio em Tiro da Fenícia e outra em Ponto, Ásia Menor (atual Turquia). Também encontramos relatos sobre o extermínio dos cristãos silitanos na Numídia, norte da África. Quarenta jovens cristãos de Sebástia (Armênia menor) também foram eliminados cruelmente. [22] Em Nicomédia, no tempo do imperador Diocleciano, também aconteceram chacinas. [23]

 

A Igreja, que um dia foi caça, virou caçadora e promoveu várias carniçarias e fez vista grossa diante das mortandades provocadas pelos seus fieis poderosos.

 

·         Entre 1209 e 1229, na França, milhares de albigenses são mortos pelos cruzados católicos. [24]

·         Em 1391, ocorre uma grande carnificina de judeus na Espanha. [25], [26]

·         Em 1449, em Toledo, também na Espanha, o veneno do ódio faz outro confronto entre cristãos e judeus e mais um massacre. [27]

·         Em 1499, mais de cem judeus são queimados vivos na Espanha. [28], [29]

·         Em 1506, é a vez do Massacre de Lisboa, em Portugal, quando entre duas a quatro mil pessoas judias são assassinadas e saqueadas. [30]

·         Em 1527, soldados protestantes invadem Roma e massacram milhares de pessoas e pilham a cidade. [31]

·         Em 1572 acontece o grande morticínio de milhares de protestantes huguenotes, incluindo homens, mulheres e crianças, conhecido como Noite de São Bartolomeu. [32], [33]

·         Entre 1524 a 1526, é desencadeada a Guerra dos Camponeses contra a opressão dos nobres na Alemanha. Os rebeldes lutavam por liberdade. Martinho Lutero, o reformador religioso, que tinha rompido com a Igreja Católica, apoiava as reivindicações dos camponeses e condenava a opressão dos nobres, mas queria que fosse uma luta pacífica. Mas os nobres não se importaram com as exortações de Lutero, e os camponeses não quiseram esperar e partiram para o ataque. Lutero, que estava mais do lado dos príncipes, acabou apoiando a matança dos camponeses e disse duras palavras concordando com o seu extermínio, falando em chicotear, decapitar, estrangular, enforcar, queimar, e torturar. [34], [35], [36] O resultado foram milhares e milhares de mortos. Mais tarde, ao ser criticado pelo apoio dado aos nobres a favor da carnificina, ele respondeu: “Fui eu, Martinho Lutero, quem matou a todos os camponeses na insurreição, já que fui eu quem ordenou que os matassem. Todo o seu sangue está sobre os meus ombros. Mas, eu o lancei sobre nosso Senhor Deus que me mandou falar desta maneira.” [37], [38], [39]

 

Outras religiões também têm provocado mortandades como os atentados terroristas praticados pelos grupos radicais islâmicos. [40]

 

Jesus, como já disse outras vezes, foi extremamente contra qualquer tipo de violência. Ele, o Príncipe da Paz, apenas falou de vida o tempo todo. Quando ele e seus discípulos iam para Samaria, os samaritanos não os receberam. Tiago e João disseram se queria que mandassem descer fogo do céu par os consumir. Ele disse que não havia vindo para destruir vidas, mas para salvá-las. (Lucas 9.51-56.) [41] Quando os judeus perseguiam Jesus, ele disse para Pedro guardar a espada. Não reagiu nem mesmo para se defender. (Lucas 22.47-51; Mateus 26.51-52.) [42]

 

Aqueles que chamam a si mesmos de cristãos, mas matam ou concordam e defendem todas essas mortandades, estão equivocados. São falsos cristãos. De que adianta participar de uma cerimônia religiosa hoje e amanhã cometer uma atrocidade? De que adianta combater os crimes atuais se muitos daqueles que dizem estar pregando o evangelho, na verdade exaltam as maldades dos hebreus?

 

Muitos estão vivendo outro evangelho, não o verdadeiro evangelho de Jesus, quando mergulham no Antigo Testamento, tentando conciliar os ensinos de Jesus com toda essas carnificinas.

 

Precisamos deixar o verdadeiro Espírito de Deus guiar nossas vidas, nos fazendo produzir os verdadeiros frutos do bem. Ninguém precisa se submeter a uma organização religiosa cristã. Mas pode muito bem seguir o seu ideal de não-violência.

 

Que nenhum “Goya”, com um pincel na mão, nos próximos anos encontre cenas arrepiantes de pessoas sendo assassinadas nas mãos de falsos cristãos.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2014. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



[34] El. ed. 15, 276, citado por O’Hare, em “Os fatos sobre Lutero, TAN Books, 1987, p. 235

[38] Martinho Lutero, Werke, edição de Erlangen, Tomo 59, p. 284.