Martírios religiosos

Livres dos Fardos Religiosos

 

Por causa da religião, muitos perderam a vida de forma bastante trágica.

 

 

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Descrição: Martírio de são Estêvão. Data: século XIX. Autor: Gustave Doré (1832-1883). Fonte e licença domínio público.

Estevão foi um diácono do primeiro século. Alguns judeus não gostaram da sua pregação e o prenderam. Preso, ele fez um discurso defendendo a fé cristã. Disse ele, entre outras palavras: “A qual dos profetas não perseguiram vossos pais? Até mataram os que anteriormente anunciaram a vinda do Justo, do qual vós agora fostes traidores e homicidas.” (RC.) Eles ficaram furiosos e rangiam os dentes contra ele. Num certo momento, durante o discurso, eles gritaram com grande voz, taparam os seus ouvidos e arremeteram unânimes contra ele. Expulsaram-no da cidade e o apedrejaram. Debaixo das pedradas furiosas, ele ajoelhou e orou a Deus. E, depois da oração, morreu, saciando, assim, a intolerância religiosa de um bando de fanáticos. (Atos 6 e 7.) [1]

 

Martírio religioso é a tortura e a morte sofridas por aqueles que ousaram sustentar a sua crença religiosa como foi com Estêvão.

 

Jesus alertou: “Por isso, também disse a sabedoria de Deus: Enviar-lhes-ei profetas e apóstolos, e a alguns deles matarão e a outros perseguirão”. (Lucas 11.49, RA.) [2] “E sereis entregues até por vossos pais, irmãos, parentes e amigos; e matarão alguns dentre vós. De todos sereis odiados por causa do meu nome.” (Lucas 21.16-17, RA.) [3] “Então, sereis atribulados, e vos matarão. Sereis odiados de todas as nações, por causa do meu nome.” (Mateus 24.9, RA.) [4] “Lembrai-vos da palavra que eu vos disse: não é o servo maior do que seu senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa. Tudo isto, porém, vos farão por causa do meu nome, porquanto não conhecem aquele que me enviou.” (João 15.20-21, RA.) [5] E assim aconteceu com muitos, além de Estêvão. Embora as fontes nem sempre sejam seguras, alguns relatos descrevem o fim trágico da maioria dos apóstolos:

 

·         Tiago, filho de Zebedeu, apóstolo e irmão de João, foi morto à espada por ordem de Herodes Agripa I, o governador romano da Palestina. (Atos 12.1-2.) [6]

 

·         Pedro foi para Antioquia e, depois, para Roma, dando origem ao patriarcado de Antioquia e, posteriormente, o de Roma, onde, segundo Orígenes, foi crucificado com sua cabeça para baixo. [7], [8]

 

·         André pregou na Capadócia, Galácia, Bitínia, Bizâncio, dando origem ao patriarcado de Constantinopla. Depois, na Trácia, Macedônia, Tessália e Acaia. Também morreu crucificado. [9]

 

·         Tiago, filho de Alfeu (Tiago Menor) cuidou da igreja de Jerusalém cerca de vinte anos. Segundo os historiadores Hegesipo, Clemente de Alexandria e Flávio Josefo, ele foi apedrejado até a morte, de acordo com as ordens do sumo sacerdote Ananias. [10]

 

·         Tiago Maior foi para a região da Espanha. Depois, foi para a Judéia, sendo condenado à morte por ordem de Herodes [11]

 

·         Felipe pregou na Ásia Menor. Foi arrastado pelas ruas por pagãos e crucificado com a cabeça voltada para o chão. [12]

 

·         Bartolomeu foi para a Mesopotâmia, Pérsia, Egito, Armênia, Licaônia, Frígia e Índia. Alguns dizem que ele foi decapitado. Outros dizem que ele também foi crucificado de cabeça para baixo. [13]

 

·         Tomé, segundo acreditam, foi pregar na Índia, tendo sido morto por lanças de quatro soldados. [14]

 

·         Mateus andou pregando na Arábia, Pérsia e Etiópia, onde foi executado por ordem do rei Hirtaco. [15]

 

·         Tadeu anunciou o evangelho na Judéia, Samaria, Iduméia, Síria, Mesopotâmia e Líbia antiga, além de Beirute e Edessa. Esses últimos lugares, para alguns, teriam sido evangelizados por outro Tiago. Ele foi martirizado com Simão, o Zelote, na Pérsia. [16]

 

·         Simão, o Zelote, passou pelo Egito, Mauritânia, Líbia, Numidia, Cirenia, Abjásia e Bretanha. Como já foi dito, ele foi martirizado na Pérsia com Tadeu. [17]

 

·         Matias, aquele que ocupou o lugar de Judas, pregou na Judéia, Síria, Etiópia e, depois, foi apedrejado por ordem do sumo sacerdote Ananías. [18]

 

Apenas João morreu naturalmente, apesar de ter sido exilado na ilha de Patmos, no mar Egeu, sem falar de Judas que se suicidou após ter traído Jesus. [19], [20]

 

Existem literaturas religiosas históricas que narram a vida de várias pessoas que foram perseguidas por causa da fé cristã. O Livro dos Mártires do inglês John Foxe do século XVI e textos do bispo Eusébio de Cesaréia do início do século IV, que foi um grande historiador da Igreja são alguns exemplos com narrativas muito fortes. [21] Observe este trecho do bispo Eusébio, falando sobre os mártires das cidades do Ponto. 

 

“Os mártires das cidades do Ponto padeceram sofrimentos terríveis: alguns tiveram os dedos perfurados com bambus pontiagudos a partir da extremidade das unhas; para outros, fazia-se liquefazer chumbo e, quando a matéria ardia e fervia, era derramada nas costas da vítima e as partes vitais do corpo eram queimadas. Outros sofreram, em seus membros mais íntimos e nas vísceras, torturas repugnantes, cruéis, intoleráveis mesmo só de ouvir.” [22], [23]

 

 

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Descrição: A Última Oração dos Mártires Cristãos. Na imagem, podemos ver um grupo aguardando serem devorados pelas feras, num anfiteatro romano, como espetáculo para a multidão. Observe que há pessoas crucificadas também, de acordo com o costume romano. Data: entre 1863 e 1883. Autor: Jean-Léon Gérôme (1824–1904). Foto: Museu de Arte Walters. Fonte e licença domínio público.

    Em meados do século I, o imperador romano Nero Cláudio César Augusto Germânico (54-68) perseguiu os cristãos, martirizando muitos deles. Observe o que disse o historiador romano Públio Cornélio Tácito:

 

“Em suas mortes, eles foram feitos objetos de esporte, pois foram amarrados nos esconderijos de bestas selvagens e feitos em pedaços por cães, ou cravados em cruzes, ou incendiados, e, ao fim do dia, eram queimados para servirem de luz noturna.” [24], [25], [26]

 

Segundo algumas fontes, foi esse imperador que mandou decapitar Paulo em Roma e crucificar Pedro de cabeça para baixo. [27], [28]

 

    No ano 92, Tito Flávio Domiciano (81-96) outro imperador romano, também tornou-se um perseguidor daqueles que seguiam as mensagens de Jesus. [29] Um ano depois da morte de Domiciano, no primeiro ano do imperador Nerva César Augusto, Clemente de Roma foi atirado ao mar com uma pedra amarrada ao pescoço. [30], [31]

 

    Na época do imperador Marco Úlpio Nerva Trajano (98-117) não foi diferente. Nessa ocasião, o bispo Inácio de Antioquia, depois de preso, foi lançado aos leões num anfiteatro romano. [32] Simeão, bispo de Jerusalém, foi crucificado. [33], [34]

 

    No século II, na época do imperador Marco Aurélio Antonino (161-180) mais mortes trágicas aconteceram. Foi nessa época que Policarpo, bispo de Esmirna, foi queimado vivo numa estaca. [35] E o filósofo e teólogo Justino foi decapitado em 165. [36]

 

    O imperador Lúcio Septimio Severo (193-211) também foi cruel com os cristãos. Perpétua e Felicidade foram decapitadas no anfiteatro de Cartago em 203. [37]

 

    Caio Júlio Vero Maximino (235-238) também mostrou suas unhas. As suas perseguições causaram mais martírios. Ponciano, bispo de Roma, foi desterrado para ilha de Tavolara na Sardenha e, depois de dois anos, foi morto a pauladas. Antero teve a cabeça cortada. E Bárbara da Nicomédia foi degolada pelo próprio pai que era seguidor de outra religião. [38], [39]

 

    Durante o reinado do imperador romano Caio Méssio Quinto Trajano Décio (249-251), os cristãos continuaram sendo duramente perseguidos. [40] Em Alexandria, segundo uma carta de São Dionísio a Fábio, alguns cristãos foram martirizados. Observe um trecho da carta:

 

“Uma mulher chamada Quinta foi levada até diante do altar dos ídolos, onde os pagãos tentaram obrigá-la a um ato de adoração: tão logo ela retesou o corpo com profunda sensação de desgosto, foi amarrada e arrastada pelos pés através da cidade, fazendo com que batesse contra as grandes pedras do duro calçamento. Levando-a ao mesmo lugar suburbano, delapidaram-na.” [41], [42]

 

    No reinado do imperador romano Públio Licínio Valeriano (253-260), bispos e diáconos foram condenados e morreram martirizados. O diácono Lourenço, por exemplo, padeceu numa chapa quente. [43]

 

    O imperador Caio Aurélio Valério Diocleciano (284-305) também resolveu ser intolerante com o cristianismo. [44], [45] Muitos foram martirizados nessa época como os irmãos gêmeos Cosme e Damião, que, depois de serem torturados, morreram decapitados por uma espada. [46] Em 286, o soldado romano Sebastião foi flechado e atirado num rio. Não tendo morrido, apesar dessa barbaridade, ele foi espancado até a morte e atirado num esgoto. [47]

 

Em 313, o imperdor Constantino assinou o Edito de Milão, concedendo liberdade aos cristãos e demais religiões. [48], [49] Mas apesar disso, ainda houve perseguições. Em 320, em Sebástia (Armênia menor) quarenta cristãos foram mortos porque não quiseram realizar um sacrifício oferecido aos ídolos. Eles foram colocados nus, durante a noite, no auge do inverno, sobre um reservatório gelado de água, onde morreram. [50], [51], [52]

 

Falta-nos espaço para descrever o martírio de tantas outras pessoas.

 

A Igreja chama de mártires aqueles que foram mortos por defenderem a fé cristã, mais precisamente do lado católico e chama de hereges aqueles que foram mortos pela Inquisição. Mas, na verdade, todos que foram executados por intermédio dos tribunais eclesiásticos, os inocentes massacrados nas cruzadas, as vítimas do massacre dos albigenses, os moribundos huguenotes nas guerras religiosas francesas, os cientistas, filósofos e muitos outros que perderam a vida na prisão perpétua ou na fogueira porque tinham idéias diferentes dos dogmas católicos, todas essas pessoas foram verdadeiros mártires, vítimas do catolicismo. Também foram mártires os negros escravos que morreram nas garras dos senhores católicos que iam à missa, confessavam, comungavam e não ouviam o padre dizer que tudo aquilo era pecado.

 

É incrível ver e judaísmo e a Igreja ensinando o mandamento “não matar” e, hipocritamente, carregando a história de tantas vidas ceifadas em nome de Deus.

 

Em muitas outras religiões também encontramos pessoas que foram barbaramente massacradas por causa da sua fé e pessoas que vitimaram adeptos de outras crenças.

 

Que cada um saiba defender a sua fé sem massacrar o fiel de outras religiões e igrejas. Que todos possam morrer em paz, longe dos loucos que, em nome de Deus, têm sede de coisas diabólicas. Todos têm o direito de seguir a sua religião. Mas saiba que a área religiosa pode ser um terreno perigoso. Portanto, caminhe com prudência. Cuidado com os fanáticos e com o fanatismo. Mas, como disse Jesus: “Não tenham medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma.” (Mateus 10:28, NTLH.) [53] 

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2014. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



[25] Tácito, Annales, XV. 44.