Infanticídios religiosos

Livres dos Fardos Religiosos

 

Muitos religiosos condenam o aborto. Eu também sou contra essa prática, que é uma forma de infanticídio.  Mas a maioria dos pregadores das igrejas são incoerentes, pois condenam o aborto e não se importam com os assassinatos de crianças do Antigo Testamento. Como podemos seguir o caminho do bem, uma vez que muitos sermões, livros, músicas e outras mídias têm como pano de fundo os assassinos dos velhos tempos, incluindo os infanticidas?

 

Uma cantiga de ninar portuguesa diz:

 

 

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Descrição: Madonna della Sedia. Autor: Rafhael (1483-1520). Fonte e licença domínio público

 

“Vai-te papão, vai-te embora de cima desse telhado.

Deixa dormir o menino um soninho descansado.” [1]

 

O bicho-papão, de acordo com as crenças populares, é um ser imaginário das mitologias infantis luso-brasileiras, presente também noutras partes da península Ibérica. Trata-se de um monstro assassino que come crianças. Muitos pais têm incutido essa figura fictícia na cabeça de seus filhos pequenos. [2] Mas deixando a fantasia de lado, podemos dizer que muitos seres humanos têm sido verdadeiros bichos-papões por causa da prática do infanticídio. (Ah! Se as criancinhas não fossem tão inocentes saberiam que o bicho papão, muitas vezes, é o próprio ser... Humano?)

 

O Código Penal Brasileiro de 1940 interpreta como infanticídio a morte, sob a influência do estado puerperal, do próprio filho, durante o parto ou logo depois. [3] Todavia, por extensão, já que a infância vai do nascimento até a puberdade, então podemos considerar como infanticídio o assassínio de pessoas ainda no período da infância, quando são chamadas de crianças. [4]

 

Infanticídio religioso é o assassinato de criança envolvendo questões religiosas.

 

O livro bíblico de Gênesis diz que Deus pôs Abraão à prova, pedindo para ele o seu único filho Isaque em sacrifício, no monte Moriá. Parece que Abraão sentiu as influências das religiões que tinham o costume de sacrificar seres humanos. Não ficou registrado como foi que ele ouviu a voz de Deus: se foi através de sonhos, se foi apenas um pensamento ou se foi por meio de algum mensageiro. O certo é que ele foi até o monte Moriá com a decisão de sacrificar o menino. Ele seria assassinado com um cutelo e queimado sobre a lenha. Felizmente o fato não foi consumado. Um anjo teria impedido o acontecimento trágico. (Gênesis 22.) [5] E Deus teria dito: “Agora sei que você teme a Deus, pois não me negou o seu filho, o seu único filho.” (Gênesis 22.12b, NTLH.) [6]

 

Pense bem: se Deus é onisciente, então porque ele teria que submeter Abraão a um teste rigoroso, para então concluir que ele (Abraão) temia a Deus de verdade? Aqui no mundo, precisamos aplicar testes nas pessoas para ver se elas têm condições de assumir certas funções e responsabilidades. Mas Deus não precisa disso, pois ele sabe todas as coisas. A própria Bíblia afirma isso no Salmo 139 ou 138 conforme a versão. [7] Então, esse fato na vida de Abraão é muito estranho e contraditório, dando a impressão que Deus não tinha certeza de sua fidelidade. Vemos nele uma ameaça de infanticídio terrível, com uma boa dose de fanatismo religioso.

 

No tempo de Moisés, sabendo do costume de sacrificar crianças que havia na terra de Canaã, ele ordenou em nome de Deus: “Entre ti se não achará quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha.” (Deuteronômio 18.10a, RC.) [8] Em outras palavras: “Não ofereçam os seus filhos em sacrifício, queimando-os no altar.” (A mesma citação de acordo com a NTLH.)

 

Nem todos obedeceram aos mandamentos dados por Moisés. O rei Acaz ofereceu o próprio filho queimando-o como oferta aos ídolos, segundo o costume da religião dos cananeus. (II Reis 16.2-3.) [9] O rei Manasses também fez a mesma coisa. (II Reis 21.6.) [10] As repreensões dos profetas Jeremias e Ezequiel mostram que várias pessoas cometeram esse mal. (Jeremias 19.3-5; Ezequiel 23.37.) [11]

 

Mas os infanticídios não aconteceram apenas nos rituais religiosos. Eles foram numerosos durante os combates.

 

Os hebreus atacaram os amorreus do reino de Seom, destruíram suas cidades e apoderam-se de seus bens. (Deuteronômio 2.26-34; Números 21.21-31) [12] De forma triunfante, o texto diz: “Naquele tempo, tomamos todas as suas cidades e a cada uma destruímos com os seus homens, mulheres e crianças; não deixamos sobrevivente algum.” (Deuteronômio 2:34, RA.) [13] Nesse massacre dos amorreus, como podemos ver, não escaparam ninguém, nem mesmo as inocentes e indefesas crianças.

 

O mesmo foi feito com os amorreus do reino de Ogue, onde, além dos adultos, todas as crianças foram assassinadas. “Destruímo-las totalmente, como fizemos a Seom, rei de Hesbom, fazendo perecer, por completo, cada uma das cidades com os seus homens, suas mulheres e crianças.” (Deuteronômio 3:6, RA.) [14]

 

 

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Título: Pastorinha. Autor: Gabriel Ferrier (1847-1914).  Data: ?Reprodução: Jean-Marc Pascolo. Data: ? Fonte. Licença CC BY-SA

 

O profeta Samuel, em nome de Deus, mandou o rei Saul massacrar os amalequitas, incluindo meninos e crianças de peito, além dos animais. (1 Samuel 15.3.) [15] Até aquelas que ainda estavam sendo amamentadas foram marcadas para morrem. Se a menina da figura fosse uma amalequita, ela e o seu bichinho seriam mortos.

 

Numa guerra contra os midianitas, o povo hebreu levou prisioneiras mulheres e crianças. Moisés mandou matar as mulheres que não eram virgens e as crianças do sexo masculino, deixando para eles as mulheres virgens e as crianças do sexo feminino. (Número 31.) [16] Assim foi feito. (Imagine aquelas menininhas sendo levadas cativas, vendo os seus irmãozinhos cortados, pelo chão, mortos pelas espadas dos hebreus... É uma cena extremamente macabra. É algo assustador para estar num livro que todos dizem ser a perfeita palavra de Deus para toda a família. Precisamos muito das orientações do Espírito de Deus e não de letras e dogmas de homens que muitas vezes nos matam.)

 

Outro infanticida bíblico foi rei Saul, que mandou matar todos os habitantes da cidade de Nobe, incluindo as crianças. (I Samuel 22.19.) [17]

 

Um salmista escreveu: “Babilônia, você será destruída! Feliz aquele que fizer com você o mesmo que você fez conosco — aquele que pegar as suas crianças e esmagá-las contra as pedras!” (Salmo 137.8-9, NTLH.) [18] Dependendo da tradução é o Salmo 136.8-9. [19]) Que absurdas são essas palavras!

 

Mas não pense que os hebreus assassinaram apenas crianças estrangeiras. Eles mataram os pequeninos do seu próprio povo, como aconteceu em Jabes-Gileade, uma cidade da tribo de Manassés. [20] O povo de Israel (os hebreus) numa reunião, decidiram enviar para lá doze mil homens dos mais valentes com a seguinte ordem: “Ide e, a fio de espada, feri os moradores de Jabes-Gileade, e as mulheres, e as crianças.” (Juízes 21.10, RA.) [21] Lendo todo o contexto, descobrimos que o motivo foi dos mais absurdos. [22]

 

O Velho Testamento, como podemos ver, é uma coletânea de livros cheios de coisas estranhas, impróprios para as nossas crianças.

 

De acordo com o pensamento de muitos teólogos, todas essas matanças do Antigo Testamento, incluindo esses massacres de inocentes, foram atos de justiça de Deus. De acordo com a lei de Moisés, Deus visita a iniquidade dos pais nos filhos e nos filhos dos filhos, até à terceira e quarta geração. (Êxodo 20.5; 34.7; Deuteronômio 5.9.) [23] Isso quer dizer que ele condena os filhos, os netos, os bisnetos e os trinetos daqueles que pecaram. (Justiça estranha!) Então, esses coitadinhos, para esses teólogos, foram assassinados por causa do pecado de seus pais, avós, bisavós ou trisavôs. Mas o profeta Ezequiel, contraditoriamente, diz: “A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniqüidade do pai, nem o pai, a iniqüidade do filho; a justiça do justo ficará sobre ele, e a perversidade do perverso cairá sobre este.” (Ezequiel 18:20, RA.) [24] E Paulo também contradiz dizendo: “Assim, cada um de nós prestará contas de si mesmo a Deus.” (Romanos 14.12.) [25]Portanto, essa idéia maluca de matar inocentes por causa de pecados de seus antepassados e essa suposta justiça de Deus em cima de crianças, tudo isso não passa de desculpas para tentar justificar os malfeitos dos hebreus e manter o dogma de que a Bíblia é a perfeita e infalível Palavra de Deus, em vez de admitir que nela encontramos princípios de Deus em meio às maldades humanas.

 

Em outras religiões e culturas antigas, também encontramos casos de infanticídio. Os antigos árabes, por exemplo, tinham vergonha de terem filhas e, por isso, praticavam o infanticídio feminino. O Alcorão diz: "Quando a algum deles é anunciado o nascimento de uma filha, o seu semblante se entristece e fica angustiado. Oculta-se do seu povo, pela má notícia que lhe foi anunciada: deixá-la-á viver, envergonhado, ou a enterrará viva? Que péssimo é o que julgam." (Surata16:58/59.). [26], [27] Felizmente, com o surgimento do islã, essa prática foi combatida.

 

Hoje, a legislação dos diversos países considera tal prática como crime. Mas mesmo assim têm aparecido algumas pessoas religiosas com essa idéia absurda.

 

No Estados Unidos, em 2007, uma mulher achava que o seu filho, com pouco mais de um ano, estava possuído pelo demônio, porque ele não dizia amém antes das refeições. Por causa disso, orientada pela sua líder religiosa, ela interrompeu a alimentação da criança, que morreu de inanição (enfraquecimento por falta de alimentação.) [28], [29]

 

No Brasil, no estado de Goiás, uma mulher religiosa tentou sacrificar a sua filha de apenas nove meses, alegando ser um pedido de Deus. Ela foi presa em fragrante depois de dar alguns golpes de tesoura na criança. [30]

 

Atos como esses são reprovados por qualquer pessoa normal. Todavia muitos judeus e cristãos acham bonito o que Abraão fez e nunca reprovaram os infanticídios cometidos, em nome de Deus, pelo povo hebreu do passado.

 

A proposta de Jesus é a vida. Nunca a morte. Ele denunciou a violência e nos ensinou como agradar a Deus com atitudes de amor, bondade e respeito ao próximo. Sobre as crianças ele disse: “Deixai os pequeninos, não os embaraceis de vir a mim, porque dos tais é o reino dos céus.” (Mateus 19.14, RA.) [31]

 

Escreveu Tertuliano: “Em nosso caso, para os cristãos, a morte foi de uma vez por todas proibida. Não podemos nem mesmo destruir o feto no útero, porque, mesmo então, o ser humano retira sangue de outras partes de seu corpo para sua subsistência. Impedir um nascimento é simplesmente uma forma mais rápida de matar um homem, não importando se mata a vida de quem já nasceu, ou põe fim a de quem está para nascer. Esse é um homem que está se formando, pois tendes o fruto já em sua semente.” (Apologia IX.) [32]

 

Temos que respeitar todas as religiões, mas não podemos aceitar nenhum elemento religioso que cause dano aos outros, inclusive aos infantis indefesos. Por isso, todas as atitudes religiosas que maltratam qualquer criança têm que ser tratadas como crime. Não podemos aceitar isso, nem mesmo na Bíblia.

 

Vão embora, bichos-papões! Deixem as nossas crianças dormirem em paz.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2014. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br