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Assassinatos religiosos

Livres dos Fardos Religiosos

 

Quando o tema é religião, muitos acham que ela é um ambiente de paz, amor, vida... Mas a realidade é outra, e, muitas vezes, a religião também significa ódio e morte.

 

Nos mitos religiosos, criados na imaginação dos povos, encontramos vários relatos envolvendo homicídios. Na mitologia egípcia, Seth matou o seu irmão Osíris. [1] Na mitologia grega, os filhos de Urano o mataram. [2] Édipo assassinou Laio, o seu pai. [3] E Tiestes tirou a vida de Atreu. [4] Na mitologia romana, os irmãos gêmeos Rômulo e Remo foram os fundadores de Roma. Quando estavam criando essa cidade, Rômulo, com tantos desentendimentos, acabou com a vida do seu irmão Remo. [5]

 

 

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Descrição: A morte de Abel. Data: século XIX. Autor: Gustave Doré (1832-1883). Fonte e licença domínio público.

Chamamos de assassinato religioso qualquer homicídio envolvendo a religião.

 

Infelizmente, os assassínios não estão apenas na mitologia, nos cinemas e nos videogames. Em muitas religiões, também encontramos diversos homicídios.

 

Diz uma biografia de Zoroastro, o fundador da religião conhecida como zoroastrismo, que ele, aos 77 anos, foi assassinado por um sacerdote da velha religião persa. [6]

 

A Bíblia apresenta a realidade desse mal ao descrever vários assassínios praticados até mesmo por alguns personagens bíblicos famosos.

 

Caim. No primeiro livro da Bíblia, nos primeiros capítulos, já podemos encontrar essa peste. Caim, carregado de ciúmes do seu irmão Abel, depois de realizarem rituais religiosos, matou o seu irmão Abel.  (Gênesis 4.1-8.) [7]

 

Lameque. Ainda no primeiro livro, Lameque, descendente de Caim, matou duas pessoas e ainda disse triunfante: “Matei um homem porque ele me feriu; e um rapaz porque me pisou. Sete vezes se tomará vingança de Caim, de Lameque, porém, setenta vezes sete.” (Gênesis 4.23-24, RA.) [8]

 

Moisés. A história de Moisés, o homem que tirou os hebreus do Egito, começa com um assassinato, depois que ele atingiu a vida adulta. Êxodo, o segundo livro da Bíblia, registra: “Naqueles dias, sendo Moisés já homem, saiu a seus irmãos e viu os seus labores penosos; e viu que certo egípcio espancava um hebreu, um do seu povo. Olhou de um e de outro lado, e, vendo que não havia ali ninguém, matou o egípcio, e o escondeu na areia.” (Êxodo 2.11-12, RA.) [9]

 

Samuel. O profeta Samuel cortou Agague, rei dos amalequitas, em pedaços. (I Samuel 15.33.) [10]

 

Joabe. Descendentes de Saul e Davi disputavam o trono de Israel. Abner estava do lado da família de Saul e era inimigo de Davi. Depois ele se desentendeu com Isbosete, filho de Saul. Então ele procurou Davi e passou para o seu lado e prometeu lutar para que o restante das tribos de Israel também passasse para o lado dele. Davi fez um acordo de paz com ele. Mas Joabe, um dos oficiais de Davi, não achou que Abner estivesse falando sério. Pensou que fosse uma forma de espionagem da parte dele. Então mandou chamá-lo e o levou para o lado do portão, como se quisesse falar com ele em particular, e enfiou um punhal na barriga dele. (II Samuel capítulo 3). [11]

 

Recabe e Baaná. Isbosete, filho de Saul, tentou ser o rei dos hebreus após a morte do seu pai. Mas o profeta Samuel já havia colocado Davi para reinar em seu lugar. Um dia, Isbosete estava dormindo em seu quarto depois do almoço. Dois de seus homens, Recabe e Baaná, chegaram e entraram na casa como se fossem apanhar trigo. Foram no seu quarto e o viram dormindo.  Então o assassinaram, cortaram a sua cabeça e a levaram para Davi para tentar agradá-lo. Davi não gostou da idéia e mandou matar os dois. Depois cortaram as suas mãos e os seus pés e os penduraram perto de uma represa. (II Samuel capítulo 4.) [12]

 

Davi. Esse rei, tão famoso entre judeus e cristãos, um dia mandou sequestrar Bete-Seba, uma mulher casada com Urias, que era um dos seus capitães. Ela foi trazida a Davi, e ele teve relações sexuais com ela. Passado alguns dias, aquela mulher enviou uma noticia para Davi dizendo que estava grávida dele. Ele então mandou uma carta a Joabe, o chefe do seu exército, dizendo para colocar Urias na linha de frente, onde a luta era mais pesada e que o deixasse ali para que ele fosse morto. Assim foi. “Tendo, pois, Joabe sitiado a cidade, pôs a Urias no lugar onde sabia que estavam homens valentes. Saindo os homens da cidade e pelejando com Joabe, caíram alguns do povo, dos servos de Davi; e morreu também Urias, o heteu.” (II Samuel 12.16-18, RA.) Foi um homicídio qualificado idealizado pelo grande rei dos hebreus. (Essa história está registrada em II Samuel capítulos 11 E 12.) [13]

 

Absalão. Amnom, filho de Davi se apaixonou pela sua irmã Tamar e, através de um artifício, a estuprou.  Absalão, seu irmão, não disse nada, mas ficou com ódio dele. Inventou um banquete para levá-lo até a sua casa. Ali ele foi assassinado pelos empregados de Absalão. (II Samuel 13.1-29.) [14]

 

Davi, Salomão e Benaías. Quando Davi estava à beira da morte, ele chamou o seu filho Salomão, feito rei em seu lugar, e deu para ele alguns conselhos sobre os caminhos de Deus. Mas também deu instruções para que ele matasse duas pessoas: Joabe e Simei. (I Reis 2.1-10.) [15] Salomão, rapazinho obediente, seguiu os conselhos do papai e mandou Benaías assassinar os dois. Joabe foi apagado primeiro. (I Reis 2.29 e 34.) [16] Depois foi a vez de Simei. (I Reis 2.46.) [17] Davi foi o primeiro mandante dos dois crimes, Salomão, o segundo, e Benaías foi o executor.

 

Em II Samuel 23.1-2 lemos: “São estas as últimas palavras de Davi: ‘Palavra de Davi, filho de Jessé, palavra do homem que foi exaltado, do ungido do Deus de Jacó, do mavioso salmista de Israel. O Espírito do SENHOR fala por meu intermédio, e a sua palavra está na minha língua.’” (RA.) E Diante de uma crença desse tipo, Salomão certamente achou que estava fazendo a coisa certa. [18]

 

Zinri. “No vigésimo sexto ano de Asa, rei de Judá, Elá, filho de Baasa, começou a reinar em Tirza sobre Israel; e reinou dois anos. Zinri, seu servo, comandante da metade dos carros, conspirou contra ele. Achava-se Elá em Tirza, bebendo e embriagando-se em casa de Arsa, seu mordomo em Tirza. Entrou Zinri, e o feriu, e o matou, no ano vigésimo sétimo de Asa, rei de Judá; e reinou em seu lugar.” (I Reis 16-8-10, RA.) [19]

 

Os hebreus praticaram inúmeros assassinatos apesar das repreensões de diversos profetas como:

 

Isaías: “Mas as vossas iniqüidades fazem divisão entre vós e o vosso Deus, e os vossos pecados encobrem o seu rosto de vós, para que vos não ouça. Porque as vossas mãos estão contaminadas de sangue, e os vossos dedos, de iniqüidade; os vossos lábios falam falsamente, e a vossa língua pronuncia perversidade.” (Isaías 59.2-3, RC.) [20] “Os seus pés correm para o mal e se apressam para derramarem o sangue inocente...” (Isaías 59:7a, RA) [21]

 

Jeremias: “Até nas orlas das tuas vestes se achou o sangue da alma dos inocentes e necessitados.” (Jeremias 2.34a, RC.) [22] “Não façais violência, nem derrameis sangue inocente neste lugar.” (Jeremias 22:3c, RC.) [23]

 

Ezequiel: “Assim diz o Senhor JEOVÁ: ‘Ai da cidade que derrama o sangue no meio dela, para que venha o seu tempo!’” (Ezequiel 22:3a.) [24] “Homens caluniadores se acharam em ti, para derramarem o sangue; e em ti sobre os montes comeram e perversidade cometeram no meio de ti.” (Ezequiel 22:9, RC.) [25]

 

Oséias: “Gileade é a cidade dos que praticam a iniqüidade, calcada de sangue.” (Oséias 6:8, RC.) [26]

 

Joel: “O Egito se tornará uma assolação, e Edom se fará um deserto de solidão, por causa da violência que fizeram aos filhos de Judá, em cuja terra derramaram sangue inocente.” (Joel 3:19, RC.) [27]

 

Miquéias: “Pereceu o benigno da terra, e não há entre os homens um que seja reto; todos armam ciladas para sangue; caça cada um a seu irmão com uma rede.” (Miquéias 7:2, RC.) [28]

 

Habacuque: “Ai daquele que edifica a cidade com sangue e que funda a cidade com iniqüidade!” (Habacuque 2:12, RC.) [29]

 

Por fim, Jesus:Portanto, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas; e a uns deles matareis e crucificareis; e a outros deles açoitareis nas vossas sinagogas e os perseguireis de cidade em cidade, para que sobre vós caia todo o sangue justo, que foi derramado sobre a terra, desde o sangue de Abel, o justo, até ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que matastes entre o santuário e o altar.  Em verdade vos digo que todas essas coisas hão de vir sobre esta geração. Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste!  Eis que a vossa casa vos ficará deserta. (Mateus 23.34-37.) [30]

 

Jesus foi totalmente contra a violência. Quando ele e seus discípulos iam para Samaria, os samaritanos não os receberam. Tiago e João disseram se queria que mandassem descer fogo do céu par os consumir. Ele disse que não havia vindo para destruir vidas, mas para salvá-las. (Lucas 9.51-56.) [31] Pedro cortou a orelha de Malco, servo do sumo sacerdote que estava junto à multidão perseguindo Jesus. Ele disse para Pedro guardar a espada e restabeleceu a orelha daquele servo. (Lucas 22.47-51; Mateus 26.51-52.) [32] Ele não mandou ninguém cometer nenhum tipo de violência. Mas, infelizmente, muitos assassinatos aconteceram no seio da Igreja. Vamos ver apenas alguns poucos exemplos.

 

    Em 882, o papa João VIII teria sido morto por envenenamento e pancadas na cabeça por membros de sua corte. [33] , [34]

    Em 897, o papa Estêvão VI (VII) foi estrangulado. [35]

    Em 974, o antipapa Bonifácio VII comandou uma facção que prendeu e estrangulou o papa Bento VI, usurpando, em seguida, o trono papal. [36], [37]

    Em 984, o antipapa Bonifácio VII aprontou mais uma. Promoveu a morte do papa João XIV e tentou ocupar o seu lugar. [38]

    Em 928, faleceu o papa João X. Houve suspeitas de que alguém teria provocado a sua morte por sufocamento. [39]

    No início do século X, o antipapa Cristovão e o papa Leão V teriam sido os assassinos do papa Sérgio III. [40], [41], [42]

    Em 1047, morreu o papa Clemente II sob suspeita de ter sido envenenado pelo papa Bento IX. [43]

    Em 1774, o papa Clemente XIV morreu com indícios de ter sido envenenado. [44]

 

Muitos papas morreram subitamente deixando suspeitas de que teriam sido assassinados por envenenamento. [45], [46] Por outro lado, muitos pessoas de diversas religiões e igrejas, em toda a história, em diversos lugares do mundo, têm sido assassinadas por motivos religiosos. Por exemplo: Emenegildo, filho do rei Leovigildo, aderiu ao catolicismo e, por isso, seu pai mandou executá-lo por que ele deixara o arianismo. [47] Em 1118, Bogomil, o líder da seita dos bogomilos, foi executado a mando do imperador bizantino Aleixo I Comneno. Falta espaço para falar dos diversos assassinatos realizados, tanto no cristianismo como em outras religiões. [48]

 

As nações ditas cristãs estão manchadas de sangue. Disputas religiosas, políticas e econômicas estão carregadas de assassínios de vários tipos. Uma vergonha para aqueles que deviam levar para o resto do mundo a verdadeira mensagem do príncipe da paz. Não podemos nos esquecer das milhares de pessoas mortas nas cruzadas e nas guerras religiosas, nos genocídios, nos infanticídios, na Inquisição em outros episódios macabros da história religiosa.

 

Hoje a humanidade se diverte vendo cenas de homicídios nas telas dos cinemas e da televisão. As crianças se entretêm com games sangrentos. Armas de brinquedos são vendidas como se fossem entretenimentos inocentes. As crianças brincam de matar. E muitas, quando ficam adultas, continuam brincando como bem disse J. G. de Araújo Jorge:

 

A criança estava brincando de matar...

Um dia, ela será homem...

... e continuará a brincar... [49]

 

Estamos cansados de ver diversas notícias de assassinatos todos os dias. Muitos procuram a paz e correm para as religiões. Mas se decepcionam ao ver os diversos assassinatos religiosos escancarados na história, porém ofuscados pelos pregadores hipócritas.

 

Jesus, por causa da suas mensagens contra a religiosidade dos judeus, foi condenado à morte numa cruz. Numa linguagem figurada, o seu corpo e sangue na cruz, por causa da sua mensagem, acabaram virando, simbolicamente falando, um sacrifício agradável a Deus. Não é o assassinato de Jesus que literalmente agradou a Deus. Mas a sua coragem de dizer a verdade sem se importar com a morte que aqueles seus compatriotas religiosos fanáticos lhe causariam.

 

Do jeito que muitos pregam sobre a sua morte, dá a impressão que Deus é um deus sanguinário, que gosta de assassinato bárbaro, que ama o homicídio, o sangue derramado, de tal maneira que deu o seu único filho para ser crucificado e ver seu sangue correr pelo madeiro abaixo. Se fosse assim, seus acusadores, caluniadores, traidores, condenadores e torturadores teriam feito um favor par todos nós.

 

Basta! Temos que seguir as orientações de Jesus e dizer não à violência. Vamos deixar Deus tirar a vida das pessoas. Ele deu a vida. Ele pode tirá-la. Vamos deixar de ser hipócritas. Que as nossas religiões realmente sejam a favor da vida, e não da morte provocada. Que naõ seja mais um campo minado.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2014. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br