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Violência religiosa

Livres dos Fardos Religiosos

 

Violência: um mal impregnado nas páginas da história das religiões.

 

O que você diria se ouvisse uma notícia dizendo que um pregador religioso cortou uma pessoa em pedaços? Você exclamaria mais ou menos assim: “Que horror! Um assassino frio que fala sobre Deus!” Pois foi isso que Samuel fez, e muitas pessoas não ficam escandalizadas. Ele cortou Agague em pedaços. Alguns até acham bonito e heróico o que ele fez perante o Senhor. (I Samuel 15.33.) [1]

 

 

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Descrição: A morte de Agague. Data: século XIX. Autor: Gustave Doré (1832-1883). Fonte e licença domínio público.

Violência é o ato de usar a força bruta ou a coação. [2] É uma atitude encontrada em diversas religiões. Na Bíblia, por exemplo, encontramos muitos atos de violência como: guerras, chacinas, assassinatos, mutilações, saques, e outras barbaridades, com o suposto apoio de Deus.

 

Você acha que se uma pessoa desobedecer a um preceito religioso, ela deve morrer por isso? Acha que toda a sua família inocente deve ser massacrada também? Qualquer pessoa normal responderia que NÂO. Mas a Bíblia diz que certo homem chamado Acã cometeu um pecado de desobediência. Por causa do seu pecado, ele e a sua família foram mortos a pedradas pelos religiosos hebreus. Seus corpos foram queimados com tudo que ele tinha. Toda essa barbaridade foi praticada com o consenso do líder religioso Josué. (Josué 7.) [3]

 

Você concorda em usar trabalhadores forçados? Você gostaria de trabalhar à força para alguém? Claro que não! Mas Salomão, o terceiro rei dos hebreus fez isso. Para construir o templo de Jerusalém, onde o povo pudesse adorara a Deus, o seu palácio, uma fortaleza chamada Milo, as muralhas de Jerusalém e reconstruir as cidades de Hazor, Megido e Gezer, ele usou o trabalho forçado de uma leva de gente composta de trinta mil homens. Quem eram essas pessoas? Não eram, é claro, nenhum hebreu, mas eram amorreus, heteus, ferezeus, heveus e jebuseus. Esses povos, segundo Moisés, deveriam ser totalmente eliminados. (Deuteronômio 20.16-17, RA.) [4] Mas os hebreus não conseguiram destruí-los totalmente durante as guerras. Esses que não foram mortos viraram trabalhadores forçados. (I Reis 5.13; 9.15 e 9.20-21.) [5] O sábio Salomão sabia explorar. E ele também era chauvinista.

 

O que diria ao ver um grupo de pessoas que adoram a Deus atacando outro grupo, matando os homens e levando as mulheres e as crianças cativas e depois violando elas para saber quem é virgem e quem já teve algum relacionamento sexual? Qual seria a sua reação ao ver esse grupo de religiosos ficando com as virgens (mulheres, adolescentes, meninas) e matando os meninos entre as crianças e as mulheres que não são virgens?  “Mas que pergunta absurda!” você pode imaginar. Mas o povo hebreu, seguindo a ordem de Moisés, fez exatamente isso. Confira Números 31.17-18. [6]

 

Você gosta de animais? Tem pena de ver algum animal sendo prejudicado? Você acha isso correto? Mas Josué, Davi e os seus homens jarretaram muitos cavalos. Jarretar quer dizer, cortar os jarretes. [7] Jarrete é a parte da perna atrás da articulação do joelho. [8] Isso quer dizer que Davi aleijou os pobres cavalos cortando suas penas nesse lugar. Confira Josué 11.9 e II Samuel 8.3-4. [9]

 

O que você diria se visse um homem religioso, com o seu grupo de pessoas, andando por ai, matando homens e mulheres e roubando as suas coisas? Outra pergunta maluca! Isso é simplesmente ridículo. É um crime e tanto. Mas Davi fez isso, e muitos não o denunciaram reprovando essa nojeira. Alguns até o elogiaram por isso.

 

Is-Bosete, filho de Saul, tentou ser o rei dos hebreus após a morte do seu pai. Mas o profeta Samuel já havia colocado Davi para reinar em seu lugar. Um dia, Is-Bosete estava dormindo em seu quarto depois do almoço. Dois de seus homens, Recabe e Baaná, chegaram e entraram na casa como se fossem apanhar trigo. Foram no seu quarto e o viram dormindo.  Então o assassinaram, cortaram a sua cabeça e levaram para Davi para tentar agradá-lo. Davi não gostou da idéia e mandou seus moços matar os dois. Eles fizeram o serviço e ainda cortaram as mãos e os pés dos dois cadáveres e os penduraram perto de uma represa. (II Samuel capítulo 4.) [10] Violência pra todos os lados.

 

Os hebreus, como muitos outros povos da Antiguidade, apesar de serem religiosos, adoravam praticar violência. Por isso, o profeta Isaías disse que Deus não ouvia as orações deles, porque as suas mãos estavam cheias de sangue. (Isaías 1.15 e 59.2) [11]

 

Jesus foi totalmente contra a violência. Quando ele e seus discípulos iam para Samaria, os samaritanos não os receberam. Tiago e João disseram se queria que mandassem descer fogo do céu par os consumir. Ele disse que não havia vindo para destruir vidas, mas para salvá-las. (Lucas 9.51-56.) [12] Pedro cortou a orelha de Malco, servo do sumo sacerdote que estava junto à multidão perseguindo Jesus. Ele disse para Pedro guardar a espada e restabeleceu a orelha daquele servo. (Lucas 22.47-51.) [13] Ele não seguiu as idéias de Moisés que mandou o povo praticar a pena de talião. Observe o que Moisés disse; “Se alguém desfigurar o seu próximo, como ele fez, assim lhe será feito: quebradura por quebradura, olho por olho, dente por dente; como ele tiver desfigurado algum homem, assim lhe será feito.” Mas Jesus falou para os seus discípulos: “Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra.” (Mateus 5.38-39.) [14]Amai os vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem.” (Mateus 5.44.) [15]

 

Se você não gostaria de ser espancado, estuprado, roubado, assassinado, torturado ou sofrer qualquer outro tipo de violência, então não deve fazer nada disso com os outros também. Devemos fazer aos outros apenas aquilo que gostaríamos que eles fizessem conosco. Foi o que Jesus ensinou: “Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós, porque esta é a lei e os profetas.” (Mateus 7.12.) [16]

 

Mas o cristianismo perdeu a noção desses ensinos. Preferiram imitar os velhos religiosos do Antigo Testamento. Não precisamos repetir os inúmeros casos de violência envolvendo a Igreja. Prisões, torturas, penas de morte na fogueira, decapitações, chacinas, guerras e outros males fizeram parte da história da Igreja. As nações cristãs se envolveram com muitas guerras, escravizações e muitas outras maldades.

 

Muitos religiosos são verdadeiros hipócritas quando pregam contra a violência, mas não denunciam os males praticados ou apoiados pelos líderes da igreja e pelos personagens da Bíblia Sagrada. Não fazem isso porque entre milhares de pessoas torturadas, assassinadas, roubadas e escravizadas, ninguém era da sua família. Entre as virgens que os hebreus usaram em nome de Deus, nenhuma era a sua filha. Entre as mulheres presas e mortas, não estava a sua irmã nem a sua mãe. No meio dos milhares de corpos sangrando nos campos de batalha, não estava o seu pai, irmão, marido ou amigo.

 

Devemos dizer não à violência de qualquer tipo. Nada justifica os atos dessa natureza. Chega de desse evangelho falso. Estamos cansados de tanta hipocrisia. Não queremos pregadores falando de Deus diante das luzes dos altares e corrompendo as crianças nos seus aposentos, às escondidas. Estamos cansados de ver pregadores “passando a mão na cabeça” daqueles que amaram a violência. Nenhuma religião que pratica essas coisas merece o nosso elogio. Religiosos desse tipo, lamentavelmente, são bandos de criminosos. Basta! Chega de atos violentos e de apologia religiosa à violência.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2014. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br