Servidão religiosa (Parte II)

Continuação do post anterior.

 

Livres dos Fardos Religiosos

 

Observando a história da Igreja, percebemos que o regime escravocrata caminhou ao lado do cristianismo. A Igreja se omitiu diante do sofrimento daqueles que foram duramente explorados.

 

 

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Descrição: Escrava servindo café. Data: 1747. Autor: Charles-André van Loo (1705–1765). : Reprodução: O projeto de Yorck: 10000 Meisterwerke der Malerei DVD-ROM, 2002. ISBN 3936122202 . Distribuído por Direct Media Publishing GmbH. Fonte e licença domínio público.

Santo Agostinho, em sua obra “A Cidade de Deus”, livro XIX, capítulo 15, declarou que a escravidão seria uma punição para o pecador. [1], [2] Pensamentos absurdos desse tipo se tornaram aceitáveis dentro de uma sociedade gananciosa e sem amor ao próximo.

 

No final da Idade Média, árabes seguidores do islã capturavam e escravizavam católicos europeus. [3], [4] Em retaliação, contrariando o evangelho de Jesus, que diz que não devemos pagar o mal com outro mal, conforme Mateus 5.38-44 e 1 Pedro 3.9, os europeus católicos fizeram o mesmo com os árabes, chamados por eles de sarracenos. [5], [6] E foram mais longe, além de sarracenos, escravizaram ainda pagãos e quaisquer outros incrédulos e inimigos de Cristo, com a aprovação dada pelo papa Nicolau V ao rei de Portugal Afonso V, em 1452, através da bula Dum Diversas que diz:

 

 "Concedemos-lhe [Reis de Espanha e Portugal] por estes presentes documentos, com nossa Autoridade Apostólica, plena e livre permissão de invadir, buscar, capturar e subjugar os sarracenos e pagãos e quaisquer outros incrédulos e inimigos de Cristo onde quer que estejam, bem como os seus reinos, ducados, condados, principados e outras propriedades [...] e reduzir suas pessoas à escravidão perpétua.” [7], [8]

 

Esse mesmo papa Nicolau V, em 1454, emitiu a bula Romanus Pontifex, onde lemos:

 

“Por isso nós, tudo pensando com devida ponderação, por outras cartas nossas concedemos ao dito rei Afonso a plena e livre faculdade, entre outras, de invadir, conquistar, subjugar quaisquer sarracenos e pagãos, inimigos de Cristo, suas terras e bens, a todos reduzir à servidão e tudo aplicar em utilidade própria e dos seus descendentes.” [9], [10], [11]

 

Essas autorizações papais foram reforçadas através de outras bulas emitidas posteriormente como a bula Regis Aeterni do papa Sisto IV de 1481 e a bula Inter Coetera do papa Alexandre VI de 1493. [12], [13], [14], [15], [16], [17], [18] Por isso, na África, mercadores cristãos, com a consciência tranquilizada por essas bulas papais, compraram milhares de negros para serem vendidos nas Américas cristianizadas. [19] Entre os negros de diversas etnias e crenças religiosas não católicas, estavam também grupos seguidores do islã, considerados inimigos de Cristo e que foram chamados de malês aqui no Brasil. [20], [21]

 

É interessante observar que o papa Alexandre VI era espanhol, natural de Valência e, então, emitiu bulas a favor da Espanha, que, na época, ainda era o reino de Castela e Leão, governado pelo casal católico Isabel I, a Católica de Castela e Fernando II, o Católico de Aragão. Esse papa, ligado ao nepotismo e ao favoritismo, não hesitou em beneficiar o casal de reis católicos conterrâneos e amigos. [22], [23] Se Portugal tivesse aceitado os termos dessa bula, o Brasil seria apenas um pedacinho do Nordeste. [24]

 

Além desses documentos papais, uma teoria preconceituosa dizia que os africanos eram amaldiçoados, porque eram descendentes de Cam, filho de Noé. Diz a história bíblica que Noé, após o dilúvio, plantou uma vinha, fabricou vinho e bebeu bastante. Bêbado, tirou a roupa e foi se deitar na sua barraca. Ele tinha três filhos: Sem, Cam e Jafé. O infeliz do Cam descobriu que ele estava nu e foi contar os outros dois irmãos. Então Sem e Jafé pegaram uma capa e, para não verem o pai bêbado, foram de costa até ele e o cobriram. Quando ele acordou da bebedeira e soube que Cam tinha visto ele nu, o amaldiçoou dizendo que ele seria escravo de Sem e Jafé. (Gênesis 9.18-27). [25] Então surgiu a crença dizendo que os africanos são descendentes de Cam e que por isso seriam amaldiçoados, dizendo ainda que, por esse motivo, eles formaram nações pobres, se tornaram escravos e adquiriram graves doenças. Dizem que essa maluquice surgiu nos Estados Unidos. [26], [27]. Mas também alguns afirmam que o padre, missionário e cronista português Manoel da Nóbrega, que veio para o Brasil no século XVI, disse o seguinte: “Por serdes descendentes de Cam e terdes descoberto a vergonha de seu pai deverão os negros serem escravos dos brancos por toda a eternidade”. [28]. O regime de escravidão imposto aos negros africanos era considerado um meio de ajudá-los a se purificarem dos seus pecados e assim poderem se salvar. [29], [30] Dessa forma, carregados desse preconceito, os seguidores do cristianismo se sentiram ainda mais encorajados para escravizarem os africanos.

 

Muitos gostam de se defender dizendo que a Igreja não foi omissa, lembrando que alguns papas condenaram esses males. Realmente isso aconteceu.

 

·         No século XV, o papa Eugênio IV, através da bula Sicut Dudum, pediu que os cativos das ilhas Canárias ganhassem a liberdade.

·         No século XVI, o papa Paulo III, por meio da bula Sublimus Dei e da encíclica Veritas ipsa disse que os índios "das partes ocidentais, e os do meio-dia, e demais gentes", eram seres livres por natureza.

·         No final desse mesmo século, o papa Gregório XIV publicou a bula Cum Sicuti.

·         Na primeira metade do século XVII, o papa Urbano VIII fez o mesmo na Commissum Nobis.

·         No século XVIII, o papa Bento XIV, na Immensa Pastorum, também deu a sua contribuição.

·         No século XIX, o papa Gregório XVI também falou sobre o tema na bula In Supremo.

·         Em 1888, na época da abolição, o papa Leão XIII, na encíclica In Plurimis, dirigida aos bispos do Brasil pediu que eles apoiassem ao imperador Dom Pedro II e a Princesa Isabel para que a abolição pudesse acontecer. [31], [32], [33], [34], [35]

 

 

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Descrição: No Brasil, na época do ciclo da cana-de-açúcar, os senhores de engenho eram católicos e tinham, em sua propriedade: uma casa grande, um engenho, uma senzala para abrigar os escravos e uma capela para a celebração dos rituais católicos (que hipocrisia!). Data: fevereiro/2014. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

Mas a Igreja não procurou corrigir esses erros gravíssimos como deveria. Ela, que patrocinara cruzadas e a Inquisição com todas as forças, não conseguiu ou não quis montar uma campanha eficaz contra a escravidão. Ela tinha poder para impor suas doutrinas e seus rituais com ferro e fogo, e foi assim com o Santo Ofício. [36]  Todavia, não lutou eficazmente contra o regime escravocrata. Não usou o poder que tinha contra esse mal. Não promoveu uma mobilização verdadeira além de meros documentos papais. Por isso, até setores da Igreja tinham seus escravos. [37], [38] Os grandes líderes da Igreja não corrigiram esse mal e, por causa disso, essa asneira manchou a história do Brasil ao longo de três séculos. (Trezentos anos de sofrimento! Isso é muita coisa diante de uma instituição milenar que conseguira preservar seus dogmas e suas tradições, mobilizando reis e sacerdotes.) Na segunda década do século IX, havia cerca de um milhão e duzentos mil escravos negros no Brasil. [39] Podemos ver, em muitos lugares históricos, igrejas construídas por escravos. [40] Mais humilde foi o papa João Paulo II que, para corrigir o catolicismo desse e de outros abusos contra a humanidade, ao contrário de muitos, pediu perdão, reconhecendo essa falta da Igreja. [41], [42]. Entretanto, se esse mal foi erradicado, o mérito ficou por conta dos negros que lutaram conscientes de que podiam ser livres e dos abolicionistas. [43] A Igreja, na verdade, apesar desses documentos papais, estava lá, ao lado dos senhores de engenho, com sua capela, onde também estavam as senzalas, ouvindo os gemidos dos negros no pelourinho, sendo “corrigidos” pelos tiranos católicos que os massacravam como se fossem bagaços de canas. [44], [45], [46], [47]. E o que precisava mesmo ser consertado permanecia torto. A pergunta é: por que a Igreja não mandou pra fogueira quem insistia em mandar o negro pro tronco? Se ela pode condenar quem tinha crenças e práticas religiosas diferentes, por que não condenou quem escravizava o próximo? Poder pra isso ela tinha, mas deixou os coitados no sofrimento. Apenas foram emitidos alguns documentos condenando esse mal, mas nada de concreto foi feito.

 

Diante do sofrimento dos africanos escravizados e da frieza do clero, o abolicionista Joaquim Nabuco disse:

 

“Em outros países, a propaganda da emancipação foi um movimento religioso, pregado do púlpito, sustentando com fervor pelas diferentes igrejas e comunhões religiosas. Entre nós, o movimento abolicionista nada deve, infelizmente, à Igreja do Estado; pelo contrário, a posse de homens e mulheres pelos conventos e por todo o clero secular desmoralizou inteiramente o sentimento religiosos de senhores e escravos. No sacerdote, estes não viam senão um homem que os podia comprar, e aqueles a última pessoa que se lembraria de acusá-los. A deserção, pelo nosso clero, do posto que o Evangelho lhe marcou, foi a mais vergonhosa possível: ninguém o viu tomar a parte dos escravos, fazer uso da religião para suavizar-lhes o cativeiro, e para dizer a verdade moral aos senhores. Nenhum padre tentou, nunca, impedir um leilão de escravos, nem condenou o regime religiosos das senzalas. A Igreja Católica, apesar do seu imenso poderio em um país ainda em grande parte fanatizado por ela, nunca elevou no Brasil a voz em favor da emancipação.” “Nem os bispos, nem os vigários, nem os confessores, estranham o mercado de entes humanos; as bulas que o condenam são hoje obsoletas.” “Nem os bispos, nem os vigários, nem os confessores, estranham o mercado de entes humanos; as bulas que o condenam são hoje obsoletas.” “Grande número de padres possuem escravos, sem que o celibato clerical o proíba.” “Que lhe aconselha a Igreja, cujos bispos estão mudos vendo os mercados de escravos abertos?” (O Abolicionismo, Joaquim Nabuco, publicado em 1884.) [48]

 

Diante das ordens do papa que diziam que os pagãos, os inimigos de Cristo, as suas terras e os seus bens, tudo podiam ser reduzido à servidão e tudo podia ser aplicado em utilidade própria e dos seus descendentes, espanhóis e portugueses fizerem isso também com os índios. [49], [50], [51] Mais tarde, a escravidão dos indígenas foi desencorajada pela Igreja, mas não totalmente. O papa Paulo III, em 1537 até escreveu a bula Veritas ipsa falando sobre isso, onde vemos que a escravidão indígena era real, mas esse papa declarou que os índios e todos os outros povos, mesmo vivendo fora da fé ou sendo de outros países, podiam livremente e legalmente usar, possuir e desfrutar da liberdade e da propriedade e não deviam ser escravizados. [52], [53] Todavia, nas guerras defensivas, índios ainda eram escravizados. [54] A partir do século XVI, bandeirantes saíram capturando índios pelo interior do Brasil. [55] Na América espanhola, encomenderos submetiam os índios à conversão ao catolicismo e aos trabalhos forçados. [56] Os dominicanos como o frade Bartolomé de las Casas (1474-1466) foram contra esses males. Mas nem todos os setores da Igreja ajudaram. [57] Os jesuítas nos dão a impressão que protegiam os indígenas, mas, na verdade, nas missões (reduções) dos jesuítas, índios trabalhavam nas comunidades e não podemos dizer que eram pessoas realmente livres. Viviam como uma seita rígida e fechada [58], [59] O padre jesuíta José de Anchieta, lamentavelmente, declarou sobre os índios: “Para este gênero de gente não há melhor pregação do que espada e vara de ferro" [60], [61]

 

Muitos cristãos protestantes e católicos do sul dos Estados Unidos tiveram a sua economia baseada no trabalho escravo. O número de escravos chegou à casa de quatro milhões. Isso acabou causando a Guerra Civil Americana, onde os estados do norte, onde praticamente não havia escravos, lutaram contra os estados do sul, onde estava concentrada a mão de obra escravagista. [62], [63] Quando ouvir uma música gospel, saiba que esse gênero musical tem suas raízes no sul dos Estados Unidos, entre os negros cristãos, provenientes da maldita escravidão. [64] Eis o clamor pela verdadeira liberdade.

 

 

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Descrição: Mapa dos Estados Unidos mostrando os estados onde predominou o trabalho escravo. Data: 14/10/2010. Autor: Golbez. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

Estados escravagistas

 

Estados livres

 

Como podemos ver, a escravidão do Antigo Testamento prevaleceu no cristianismo, mesmo sem o apoio de Jesus Cristo. Os seguidores de um cristianismo deturpado exploraram a mão-de-obra forçada de milhões de pessoas sem a dor na consciência, talvez influenciados pelas idéias dos antigos povos religiosos. Em 43 a.C., havia na República Romana 4,5 milhões de homens livres e 3 milhões de escravos, ou seja: mais de 66% da população era escrava. [65], [66]. Será que a cristantade seguiu mais essa façanha romana?

 

Não adianta, como João Fernandes Vieira, realizar uma série de atos religiosos e, ao mesmo tempo, oprimir, explorar, maltratar o nosso semelhante. Cristão que se preza não faz algo dessa natureza. Quando servimos o outro sem esperar receber nada em troca, estamos servindo com amor e liberdade. Mas se somos forçados a servir alguma pessoa, então perdemos a nossa liberdade. E a pessoa servida transforma-se em um opressor e perde a verdadeira liberdade proposta por Jesus. Que possamos todos ser verdadeiramente livres. Que ninguém ouse cometer esse crime contra a humanidade. Leia e respeite a Bíblia. Mas aprenda a descartar dela qualquer sombra de mal, como a escravidão, venha de onde vier, mesmo que seja usando o nome de Deus.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2014. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br