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Servidão religiosa (Parte I)

Livres dos Fardos Religiosos

 

O regime de escravidão foi um mal presente nas diversas culturas do mundo antigo. Moisés, líderes dos hebreus, não eliminou essa mazela. Jesus pregou a liberdade. Mas a Igreja também não lutou eficazmente contra esse costume opressor.

 

 

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Descrição: Um escravo sendo açoitado. Data: 1848. Autor: professor C. Heck (Tekenaar). Henry Winkles (Graveur). Fonte. Licença CC BY-SA.

Num documento do século XVII (1663), podemos ver o senhor de engenho João Fernandes Vieira, dando instruções para o seu feitor-mor, encarregado da administração de um dos seus engenhos no nordeste brasileiro, dizendo que ele devia mandar, todas os anos, os negros para realizarem o sacramento da confissão. Também devia mandá-los para missa todos os domingos e dias santos. E as crianças negras tinham que ser batizadas. Por outro lado, no mesmo documento, o feitor é instruído sobre a disciplina dos pobres escravos. Eles deviam ser açoitados, cortados com navalhas ou facas. Sobre as feridas devia ser colocado sal, sumo de limão e urina. Depois, os mesmos deveriam ficar alguns dias, acorrentados. [1], [2]

 

Como podemos ver, João Fernandes era extremamente zeloso com as práticas religiosas católicas, mas não se preocupava com a dor dos pobres escravos. Como esse homem, muitos religiosos, insensivelmente, usaram o trabalho escravo.

 

Servidão é a condição de servo ou escravo. [3] Servidão religiosa é o uso de servos ou escravos no meio religioso.

 

Toda religião devia ser a favor da liberdade, mas, infelizmente, muitas apoiaram o regime de escravidão. João Fernandes, um fiel católico, como muitos outros religiosos, possuía vários escravos. O regime de escravidão sempre estivera presente entre os diversos povos da Antiguidade, lado a lado com a religião. Na Babilônia, Egito, Grécia, Roma, China, Índia e em muitos outros lugares, havia pessoas trabalhando como escravas, muitas vezes envolvendo a religião.

 

No século XVIII a.C., na Babilônia, Hamurabi tornou-se rei e criou um código de leis com 282 artigos para todos os seus súditos, baseado em antigas leis dos sumérios. No prólogo do texto, ele citou os diversos deuses, dos quais supostamente recebera o poder para governar. Ao longo do texto, o vocábulo escravo é citado várias vezes. [4]

 

Entre 200 a.C e 200 da era cristã, na Índia, sacerdotes do hinduísmo escreveram o Código de Manu, baseado em princípios antigos. Esse livro fala, além de outros assuntos, sobre o regime de escravidão e identifica sete tipos de escravos.   [5], [6], [7]  

 

Quando alguém diz que a Bíblia Sagrada é a santa, verdadeira e infalível Palavra de Deus, imaginamos encontrar nela tudo de bom. Não imaginamos que possa haver nela a aprovação de qualquer crueldade praticada contra o ser humano. Mas não é bem assim. O uso do trabalho escravo, sendo algo comum nas antigas civilizações, não foi diferente entre os hebreus. Vamos ver alguns exemplos interessantes.

 

Abraão, o patriarca dos hebreus, tinha escravos comprados e nascidos em casa. Todos foram submetidos ao ritual religioso da circuncisão. (Gênesis 17.23.) [8] Ele usou sexualmente a escrava Hagar, e ela teve um filho dele. (Gênesis 16.1-3.) [9]

 

Jacó, filho de Abraão, gerou filhos com duas escravas de sua casa: Bila e Zilpa. (Gênesis 30.1-14.) [10] Além de serem escravas ainda foram desrespeitadas sexualmente.

 

Moisés, um dos grandes líderes religiosos do povo hebreu, deixou a sua lei escrita em quatro livros da Bíblia. E lá estão as regras para o uso do trabalho escravo pelos hebreus.

 

·         Eles podiam comprar escravos dos povos vizinhos deles e também podiam comprar os filhos dos estrangeiros que viviam no meio deles. (Levítico 25.44-45.) [11]

·         Os seus donos podiam deixá-los como herança para os seus filhos a quem esses escravos deveriam servir a vida inteira. (Levítico 25.46.) [12]

·         Também podiam ter escravos hebreus, mas esses, após seis anos de trabalho, tinham que ser libertos sem nenhum pagamento, no sétimo ano. (Êxodo 21.2.) [13]

·         Se um escravo hebreu tinha mulher antes de se tornar escravo, então, ele podia levar a sua mulher consigo, quando fosse liberto. Mas se tivesse arrumado mulher depois de se tornar escravo, então a mulher tinha que ficar para trás. Tinha que ir embora sozinho. Ficava livre, mas perdia a mulher. (Êxodo 21.3.) [14]

·         Se depois de se tornar escravo, o seu dono arrumasse para ele uma mulher, então, ela e os filhos que ela tivesse gerado ficavam para trás. Ganhava a liberdade, entretanto, perdia a família. (Êxodo 21.4.) [15]

·         Se o escravo não quisesse ser posto em liberdade para não se separar da sua mulher e dos seus filhos, então ele era marcado com um furo na orelha e tinha que ser escravo para sempre. (Êxodo 21.5-6.) [16]

·         Se uma filha dos hebreus fosse vendida como escrava, ela não tinha o direito de ser libertada depois de seis anos de trabalho, como os homens. (Êxodo 21.7.) [17]

·         Se o comprador não gostasse dela e não a desposasse, então ela teria que ser vendida novamente para o pai dela. Não podia ser vendida para estrangeiros. (Êxodo 21.8.) [18]

·         Se o seu dono arrumasse outra escrava para ser sua mulher, a primeira tinha de continuar recebendo os mesmos direitos sempre, caso contrário poderia deixar o seu senhor sem nenhum pagamento. (Êxodo 21.10-11.) [19]

·         O escravo, muitas vezes, era castigado com pauladas. O seu dono só receberia castigo se o coitado morresse na hora da pancadaria. Mas se morresse depois de dois dias ou se sobrevivesse, então, nada de castigo para seu dono. (Êxodo 21.20-21.) [20]

·         Se alguém ferisse o olho do seu escravo, e ele perdesse a vista, ele teria que ser libertado como pagamento pelo olho furado. Da mesma forma, se alguém quebrasse um dente do seu escravo, ele teria que ser libertado como pagamento pelo dente perdido. Essa lei valia também para as escravas. (Êxodo 21.26-27.) [21]

·         A lei de Moisés punia com a pena de morte quem adulterasse com a mulher do outro. Tanto o homem como a mulher, ambos eram assassinados. (Levítico 20.10.) [22] Mas se um homem tivesse relação sexual com uma escrava desposada de outro homem, porém, ainda não comprada nem posta em liberdade, então, o castigo não era a morte, mas seriam açoitados. (Levítico 19.20.) Isso quer dizer que não havia punição para os homens que tivessem relações com escravas não desposadas.

·         Nos dez mandamentos, em vez de proibir o trabalho escravo, Moisés disse para ninguém cobiçar o escravo dos outros. (Êxodo 20.17.) [23]

 

Josué fez dos gibeonitas escravos. No seu livro, está escrito o seguinte: “Josué protegeu os gibeonitas e não deixou que fossem mortos. Mas, daquele dia em diante, ele os obrigou a serem carregadores de água e rachadores de lenha para o povo de Israel e para o altar de Deus, o SENHOR. E até hoje eles continuam fazendo isso, trabalhando no lugar escolhido por Deus para a sua adoração.” (Texto da NTLH. Veja o texto completo em Josué 9.) [24]

 

Salomão comprou servos e tinha servos nascidos em casa. (Eclesiastes 2.7) [25]

 

Jesus não apoiou essas coisas. Um dia, ele lavou os pés dos seus discípulos. Depois que lhes lavou os pés, ele disse: “Vocês entenderam o que eu fiz? Vocês me chamam de ‘Mestre’ e de ‘Senhor’ e têm razão, pois eu sou mesmo. Se eu, o Senhor e o Mestre, lavei os pés de vocês, então vocês devem lavar os pés uns dos outros. Pois eu dei o exemplo para que vocês façam o que eu fiz. Eu afirmo a vocês que isto é verdade: o empregado não é mais importante do que o patrão, e o mensageiro não é mais importante do que aquele que o enviou. Já que vocês conhecem esta verdade, serão felizes se a praticarem.” (João 13.1-17, NTLH.) [26] Moisés ordenou que os hebreus tivessem servos. Jesus não deu instruções para que seus discípulos tivessem escravos, mas ensinou que devemos ser servos uns dos outros. Para Jesus não existem servos e senhores: todos somos iguais com o dever de, livremente, ajudar uns aos outros. Todos nós devemos servir uns aos outros com o verdadeiro amor de Deus. As suas mensagens mostram que não devemos oprimir ninguém, que devemos amar a todos e que ninguém pode ser explorado e que temos que agir com justiça.  Mas com o tempo a Igreja se esqueceu desses ensinos.

 

Na epístola do apóstolo Paulo, enviada ao cooperador Filemon, encontramos um assunto interessante. O escravo Onésimo pertencente ao cristão Filemon havia fugido e fora encontrado por Paulo. Esse pregou o evangelho para ele. Depois de tornar-se cristão, Paulo o enviou de volta ao seu dono Filemon. Paulo e Filemon vacilaram: eles ignoraram a escravidão. Na carta, ele não diz nada contra esse regime. Onésimo, além de ser escravo, ainda poderia estar causando prejuízo para o seu dono. [27]

 

Paulo disse para os efésios: “Vós, servos, obedecei a vosso senhor segundo a carne, com temor e tremor, na sinceridade de vosso coração, como a Cristo.” (Efésios 6.5, RC.) [28] Disse para os colossenses: “Vós, servos, obedecei em tudo a vosso senhor segundo a carne, não servindo só na aparência, como para agradar aos homens, mas em simplicidade de coração, temendo a Deus.” (Colossenses 3.22, RC.) [29] Escreveu para o bispo Timóteo: “Todos os servos que estão debaixo do jugo estimem a seus senhores por dignos de toda a honra, para que o nome de Deus e a doutrina não sejam blasfemados. E os que têm senhores crentes não os desprezem, por serem irmãos; antes, os sirvam melhor, porque eles, que participam do benefício, são crentes e amados. Isto ensina e exorta.” (I Timóteo 6.1-2, RC.) [30] Pedro também escreveu: “Vós, servos, sujeitai-vos com todo o temor ao senhor, não somente ao bom e humano, mas também ao mau; porque é coisa agradável que alguém, por causa da consciência para com Deus, sofra agravos, padecendo injustamente.” (I Pedro 2.18-19, RC.) [31] No Didaquê 4.11, um resumo da doutrina dos apóstolos do século I, está escrito: “Vós, servos, sede submissos aos vossos senhores como se eles fossem uma imagem de Deus, com respeito e reverência.”  [32] 

 

 

Como podemos ver, esses apóstolos não condenaram o trabalho servil. Paulo e Pedro deram excelentes ensinos para os cristãos e que devemos seguir. Mas eles eram seres humanos e também erraram. Embalados num costume tradicional antigo, acabaram apoiando o regime escravocrata. Isso prova que a Bíblia não é perfeita e infalível Palavra de Deus capa a capa, como muitos, equivocadamente, estão ensinando. É melhor dizer que a Bíblia contem princípios de Deus em meio às falhas humanas. Não podemos permitir que esse dogma, carregado de bibliolatria, nos cegue, não nos deixando ver as coisas como deveriam ou devem ser.

 

Continuaremos no próximo post.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2014. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br