Irreverência

Livres dos Fardos Religiosos

 

Em 1766, na França, um jovem passou perto de uma procissão, sem tirar o chapéu. Segundo algumas fontes, além disso, ele teria sido acusado de ter praticado outros atos como: mutilar um crucifixo, defecação em outro crucifixo, cuspir em imagens sagradas, dentre outras coisas. Por causa de tudo isso, mesmo sem provas claras, ele foi preso, torturado, decapitado e depois queimado. [1], [2], [3]

 

 

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Descrição: Placa sob a estátua de Chevalier de la Barre, Paris, França. Esse foi o jovem barbaramente morto por causa de supostos atos de irreverência. Data: 29 de setembro de 2010. Autor da foto: Moonik. Fonte. Licença CC BY-SA.

Irreverência aqui tratada é a falta de respeito às coisas sagradas. Não podemos confundir irreverência com indiferença. Se eu não gosto de uma determinada religião, posso deixá-la de lado. Isso não é irreverência: é indiferença. Mas se eu começar a atacá-la com vilipêndios, injúrias, blasfêmias, profanações e coisas parecidas, então estarei sendo irreverente. O jovem condenado, na realidade, não foi irreverente. Ele não havia causado nenhum dano à procissão. Ele apenas não fez o que muitos faziam. Da mesma forma, não somos obrigados a nos curvar diante de outros deuses, não temos que fazer gestos de adoração diante de entidades nas quais não acreditamos. A questão não é o que devemos fazer. Mas o que não devemos fazer. Mas caso o jovem realmente tenha praticado os outros atos, então, ele realmente foi irreverente com suas atitudes vilipendiosas, mesmo não merecendo a pena capital.

 

Nabucodonosor II, rei da Babilônia, no século VII a. C., mandou fazer uma grande estátua de ouro. Em seguida, ordenou que todas as autoridades viessem à cerimônia de sua inauguração. Na cerimônia, foi ordenado que todas as pessoas se ajoelhassem e adorassem a estátua, caso contrário seriam jogados numa fornalha acesa. Os judeus Sadraque, Mesaque e Abede-Nego tinham outra religião e não quiseram adorar aquela estátua. Por causa disso, o rei ordenou que eles fossem jogados na fornalha. Felizmente eles se salvaram milagrosamente. (Daniel 3.) [4]

 

Esses três homens judeus não foram irreverentes com a religião de Nabucodonosor. Eles simplesmente não quiseram adorar a sua escultura. Mas o rei foi irreverente com a religião dos judeus, que não permitia adorar ídolos.

 

Dizem que um cavaleiro tentou entrar na igreja de Nossa Senhora Aparecida a cavalo e foi castigado. [5] Ninguém é obrigado a crer e prestar culto a Virgem Maria. Todavia, fazer uma coisa desse tipo é falta de respeito.

 

Numa igreja evangélica de uma pequena cidade, as pessoas estavam reunidas, celebrando um culto. De repente, enquanto o pastor pregava, no púlpito, pedras foram atiradas por alguém que passava pela rua. Nenhuma pessoa precisa aceitar a mensagem de um pastor. Entretanto, pessoa alguma pode realizar atos como esse.

 

Algumas pessoas evangélicas entraram num templo de outra religião e quebraram, em nome de Jesus, as imagens de escultura que encontraram. [6] Cometeram um crime e se deram mal. Eles fizeram isso talvez influenciados pelo seguinte trecho da Bíblia, onde Moisés disse para o povo hebreu em nome de Deus: “Totalmente destruireis todos os lugares onde as nações que possuireis serviram os seus deuses, sobre as altas montanhas, e sobre os outeiros, e debaixo de toda a árvore verde; e derribareis os seus altares, e quebrareis as suas estátuas, e os seus bosques queimareis a fogo, e abatereis as imagens esculpidas dos seus deuses, e apagareis o seu nome daquele lugar.” (Deuteronômio 12.2-3). [7] Eles não observaram que Jesus não mandou ninguém fazer isso. Isso é coisa de Moisés, tida como ordem de Deus, há mais de três mil anos atrás.

 

Uma casa, onde se praticava o candomblé, foi invadida por cerca de trinta membros de uma igreja neopentecostal famosa. Eles entraram e jogaram sal grosso e enxofre nas pessoas que estavam ali reunidas. [8] Isso não é evangelismo: é irreverência.

 

Eu não preciso beijar um santo, mas não posso cuspir nele. É um direito que todos têm de não acreditar na Bíblia, no Alcorão, no I Ching ou qualquer outro livro sagrado. No entanto, nenhum desses livros pode ser desrespeitado com atitudes agressivas.

 

Muitas pessoas são irreverentes até mesmo com a sua própria religião. O que dizer das outras então?

 

Na verdade temos que reverenciar quaisquer elementos religiosos: os nossos e os dos outros.  Não somos obrigados a adorar outros deuses, praticar rituais de outras crenças, possuir ou seguir elementos de outras religiões. Mas isso não significa que podemos tratá-los com desrespeito. Não somos obrigados a tirar o chapéu pra ninguém e não podemos ser condenados por isso. Mas não podemos causar danos à religiosidade dos outros.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2014. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br