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Chauvinismo

Livres dos Fardos Religiosos

 

Um dos piores horrores que a humanidade já viu aconteceu na primeira metade do século XX. Foi o nojento e assustador nazismo, um movimento fascista, belicista, autoritarista, recheado de preconceitos, tudo por causa do maldito chauvinismo, onde uma suposta raça ariana tida como “pura” era considerada superior e teria o direito de dominar o mundo. Essa mazela foi idealizada pelo alemão Adolf Hitler. Judeus, eslavos, ciganos, dentre outros, foram duramente massacrados nos campos de concentração. A política nazista acabou provocando a II Guerra Mundial. Hitler escreveu o livro Mein Kampf (Minha Luta), no qual podemos ver as suas idéias chauvinistas. [1], [2], [3], [4], [5]

 

Chauvinismo é o nacionalismo exagerado, onde as nações estrangeiras são desprezadas. Essa atitude, muitas vezes, é acompanhada de preconceitos, segregação, xenofobia (antipatia a pessoas e coisas estrangeiras) e violência de vários tipos. A palavra é derivada do nome do soldado francês Nicholas Chauvin, que admirava a luta de Napoleão Bonaparte, que quis expandir o domínio francês sobre as outras nações. [6], [7]

 

 

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Descrição: Massacre dos amonitas. Data: século XIX. Autor: Gustave Doré. Fonte e licença domínio público.

Atitudes chauvinistas são encontradas ao longo da história. Algumas têm caráter religioso.

 

Os judeus do passado, também conhecidos como hebreus, promoveram ações semelhantes. Segundo as crenças judaicas, eles eram o povo escolhido por Deus para serem a nação santa. “Porque tu és povo santo ao SENHOR, teu Deus; o SENHOR, teu Deus, te escolheu, para que lhe fosses o seu povo próprio, de todos os povos que há sobre a terra.” (Deuteronômio 7:6, RA. Confira Deuteronômio 14.2.) [8] Para eles, as pessoas do resto do mundo eram gentios ou incircuncisos. [9], [10] Eles conquistaram a terra de Canaã usando o nome de Deus. Massacraram multidões, escravizaram pessoas, raptaram virgens, saquearam rebanhos e riquezas dos povos cananeus. Tudo isso porque acreditavam que eles, os judeus, tinham o direito de dominar boa parte do Oriente Médio. Veja alguns trechos do Antigo Testamento, onde Moisés, em nome de Deus, dá algumas instruções chauvinistas para os judeus.

 

Instruções em relação às cidades que aceitassem a proposta de paz. “Quando te aproximares de alguma cidade para pelejar contra ela, oferecer-lhe-ás a paz. Se a sua resposta é de paz, e te abrir as portas, todo o povo que nela se achar será sujeito a trabalhos forçados e te servirá.” (Deuteronômio 20.10-11, RA.) [11]

 

Instruções em relação às cidades que recusassem a proposta de paz. “Porém, se ela não fizer paz contigo, mas te fizer guerra, então, a sitiarás. E o SENHOR, teu Deus, a dará na tua mão; e todos os do sexo masculino que houver nela passarás a fio de espada; mas as mulheres, e as crianças, e os animais, e tudo o que houver na cidade, todo o seu despojo, tomarás para ti; e desfrutarás o despojo dos inimigos que o SENHOR, teu Deus, te deu. Assim farás a todas as cidades que estiverem mui longe de ti, que não forem das cidades destes povos.” (Deuteronômio 20.12-15, RA.) [12]

 

Instruções sobre algumas cidades que tinham que ser destruídas totalmente. “Porém, das cidades destas nações que o SENHOR, teu Deus, te dá em herança, não deixarás com vida tudo o que tem fôlego. Antes, como te ordenou o SENHOR, teu Deus, destruí-las-ás totalmente: os heteus, os amorreus, os cananeus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus.” (Deuteronômio 20.16-17, RA.) [13] “Quando o SENHOR, teu Deus, te introduzir na terra a qual passas a possuir, e tiver lançado muitas nações de diante de ti, os heteus, e os girgaseus, e os amorreus, e os cananeus, e os ferezeus, e os heveus, e os jebuseus, sete nações mais numerosas e mais poderosas do que tu; e o SENHOR, teu Deus, as tiver dado diante de ti, para as ferir, totalmente as destruirás; não farás com elas aliança, nem terás piedade delas; nem contrairás matrimônio com os filhos dessas nações; não darás tuas filhas a seus filhos, nem tomarás suas filhas para teus filhos; pois elas fariam desviar teus filhos de mim, para que servissem a outros deuses; e a ira do SENHOR se acenderia contra vós outros e depressa vos destruiria.” (Deuteronômio 7.1-4, RA.) [14]

 

Instruções para serem intolerantes com as outras crenças. “Porém assim lhes fareis: derribareis os seus altares, quebrareis as suas colunas, cortareis os seus postes-ídolos e queimareis as suas imagens de escultura. Porque tu és povo santo ao SENHOR, teu Deus; o SENHOR, teu Deus, te escolheu, para que lhe fosses o seu povo próprio, de todos os povos que há sobre a terra.” (Deuteronômio 7.5-6, RA.) [15]

 

Instruções para escravizar os estrangeiros. “Se precisarem de escravos ou escravas, vocês poderão comprá-los dos povos vizinhos do seu país. Também poderão comprar os filhos dos estrangeiros que moram no meio de vocês. Essas crianças que nascerem na terra de Israel poderão ser compradas como escravos, e os seus donos poderão deixá-los como herança aos filhos, a quem esses escravos deverão servir a vida inteira. Mas um israelita não pode ter outro israelita como escravo, nem pode tratá-lo com crueldade.” (Levítico 25.44-46, NTLH.) [16]

 

Como podemos ver, alguns povos tinham que ser destruídos totalmente. De outros, eles podiam escravizar pessoas, podiam deixar para si os rebanhos, as riquezas, as mulheres virgens e crianças. Foi o que eles fizeram com os midianitas. (Números 31.) [17]

 

Moisés cometeu uma grande contradição quando escreveu: “O estrangeiro não afligirás, nem o oprimirás; pois estrangeiros fostes na terra do Egito.” (Êxodo 22.21, RC.) [18] “Também não oprimirás o estrangeiro; porque vós conheceis o coração do estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egito.” (Êxodo 23.9, RC.). [19] “Pelo que amareis o estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egito.” (Deuteronômio 10.19, RC.) [20] Será que o ato de matar, roubar, raptar e escravizar estrangeiros não significa maltratar?

 

Em pleno século XXI, facções religiosas radicais israelenses não aceitam os acordos de paz entre palestinos e israelenses. Eles querem um grande Estado judeu, como nos tempos do rei Davi. E, como esse rei, não se importam em matar. O mesmo acontece com as facções islâmicas fundamentalistas. [21], [22]

 

Jesus, há mais de dois mil anos, mostrou que chauvinismo não tem lugar no seu evangelho. Ele não compactuou com as idéias chauvinistas judaicas. Ele disse que o seu reino não é deste mundo. Sendo assim, o seu evangelho não é um grupo nacionalista para subjugar outras nações. Ele mandou pregar a sua mensagem em todas as nações, não para dominá-las, mas para libertá-las do mal. Não para impor o domínio do seu reino, mas para proclamar a verdadeira liberdade. Não foi à toa que ele foi detestado pelos judeus que queriam um novo líder capaz de restaurar o reino que eles tinham perdido.

 

No final do século X a.C. dez das tribos de Israel se rebelaram contra o rei Roboão, filho e sucessor do rei Salomão, por causa dos pesados tributos e criaram o reino de Israel, em oposição ao reino de Judá, onde permaneceram duas tribos. (I Reis 12.) [23] No século VIII a.C., os assírios conquistaram o reino de Israel. Algumas pessoas foram deportadas. Nessa época, colonos estrangeiros da Mesopotâmia vieram habitar nas cidades da região, também conhecida como Samaria, e se misturaram com os remanescentes. (II Reis 17.24-41.) [24] A partir desses episódios, os hebreus do reino de Judá (judeus) passaram a discriminar os samaritanos, os hebreus misturados com estrangeiros do lado de Israel.

 

Quando um doutor da lei perguntou a Jesus quem era o seu próximo, Jesus contou a parábola do bom samaritano para mostrar que qualquer pessoa, até mesmo um estrangeiro, é o nosso próximo. (Lucas 10.25-37.) [25] O encontro de Jesus com a samaritana demonstrou isso mais uma vez. (João 4.) [26] Para Jesus, diferente de muitos judeus de sua época, os samaritanos eram pessoas dignas de respeito e amor.

 

 

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Desc.: Ataques entre garimpeiros e índios americanos. Data: 1850. Autor: Desconhecido. Reprodução: 28/10/2006. Autor: NorCalHistory. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

Mas esses ensinos de Jesus não foram observados por muitos que diziam ser cristãos. E as crenças chauvinistas judaicas, no lugar do verdadeiro evangelho, influenciaram atitudes de chauvinismo pelo mundo afora. Os europeus, quando saíram navegando pelos quatro cantos da terra, se sentiram no direito de poderem dominar todos os demais povos. Por isso, criaram colônias em todos os continentes e, como os judeus, praticaram genocídios, escravizações, política de segregação, intolerância religiosa e outras barbaridades. [27], [28] É bom lembrar que eles tinham bagagens religiosas judaicas na cabeça. Foram intolerantes até mesmo com os judeus, com os quais, certamente aprenderam a praticar esse mal. As perseguições contra esse povo, muitos séculos antes do nazismo, certamente ajudaram a alimentar a mente doentia de Hitler.

 

No Brasil, os bandeirantes, que saíram pelas densas matas escravizando, massacrando e saqueando as nações indígenas, são considerados heróis. São louvados com estátuas, nomes de avenidas e rodovias. [29], [30], [31]

 

Os governos americanos, no século XIX, com o pretexto de colonizarem o Oeste, ocupado pelo México e por índios diversos, divulgaram a idéia do “destino manifesto”. Eles acreditavam que os norte-americanos tinham sido escolhidos por Deus para ocuparem a área entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Certamente teriam sidos contaminados pelas crenças judaicas. O resultado foi uma série de guerras contra os indígenas, a guerra contra o México e a expansão do território dos EUA, hoje a quarta maior nação do mundo com um território acima de 9.800.000 km2. [32], [33]

 

Nesse caminho chauvinista, muitos se enveredaram. Um grande pecado cometido por muitos. Mas, na verdade, todos os povos devem dar as mãos livres das armas. O planeta é de todos: de todos os seres humanos, independente de qualquer nacionalidade. Temos que promover o respeito mútuo e jamais correr atrás de exclusividades nacionalistas exacerbadas.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2014. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br