Liberdade religiosa

Livres dos Fardos Religiosos

 

O inglês William Penn, no século XVII, seguidor da religião dos quacres, também conhecida como Sociedade de Amigos, depois de ser perseguido e preso por causa das suas convicções religiosas, com o rei inglês Carlos II, conseguiu uma autorização para criar, no continente americano, então colônia da Inglaterra, uma região, onde todos pudessem ter a liberdade religiosa. Em 1682, deixou para trás a Europa conturbada pelo catolicismo e pelas novas correntes cristãs que haviam surgido depois da Reforma. Chegou à América a bordo do navio Welcome e fundou uma província com o nome de Silvânia, que mais tarde, em sua homenagem, passou a se chamar Pensilvânia. [1]

 

 

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Descrição: Paisagem da Pensilvânia. Essa foto nos dá uma sensação mística de liberdade. Data: 27 de dezembro de 2006. Autor: Nicholas A. Tonelli.  Fonte. Licença CC BY.

Liberdade religiosa é o direito que cada um tem de poder seguir a religião que quiser. O artigo XVIII da Declaração Universal dos Direitos Humanos expressa muito bem essa liberdade: “Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular.” [2], [3]

 

Na Pensilvânia, onde os quacres desenvolveram uma política de tolerância religiosa, luteranos, amish, menonitas, moravianos, metodistas, batistas, presbiterianos, católicos, judeus e  adeptos de outras religiões e até não-religiosos puderam viver em paz. [4]

 

No passado, muitas nações tinham a sua religião oficial. Nação e religião se misturavam. Os territórios das nações eram também áreas religiosas. Quem fazia parte de um reino, também tinha que seguir a sua religião determinada. Os cidadãos eram obrigados a seguir as crenças, as leis, os rituais e outros elementos religiosos impostos pelos líderes. Assim foi a nação dos hebreus. E foi o que aconteceu com o Império Romano no final do século IV, quando o imperador Teodósio I, o Grande, fez a grande besteira de acabar com a liberdade religiosa que ali havia. No século V, o Império Romano do Ocidente se acabou. Mas a Igreja daquele grupo que tivera o apoio de Roma resolveu continuar dominando as pessoas com a religião. [5]

 

Diz a mitologia grega que uma bela jovem chamada Europa brincava em uma praia. Zeus, apaixonado, se transformou num touro branco e ajoelhou-se aos pés dela, e ela, encantada, não resistiu e montou sobre ele. E ele a raptou para a ilha de Creta. [6] Mas a Igreja Católica se transformou num touro bravo, e a Europa da vida real foi obrigada a “montar” nele. As pessoas não foram levadas para Creta, mas ficaram prisioneiras da religião em sua própria terra. Quem não quis concordar com isso, foi pisoteado. Judeus, islamitas, albigenses, arnaldistas, valdenses, hussitas, huguenotes, dentre outros grupos religiosos diferentes, foram duramente perseguidos com guerras, massacres, pogroms, prisões e até morte na fogueira. Tudo isso mostrou que a fúria do touro romano não podia ser dominada por qualquer toureiro de meia-pataca. Enquanto a Espanha das touradas, em nome dessa fera, perseguia judeus, os reformadores religiosos da Europa central conseguiam tirar o catolicismo da centralização da fé. [7] Com a Reforma protestante, o touro foi vencido, mas algumas nações ligadas ao protestantismo abraçaram uma religião estatal. E as pessoas ainda sentiram o gosto amargo da falta de liberdade religiosa. Na Suíça, João Calvino se tornou o governante político e religioso de Genebra. Nesse cantão suíço, ele agia com autoritarismo, a ponto de eliminar seus opositores. Na Suécia, o rei Gustavo I Vasa fez do luteranismo a religião do seu reino. [8] Na Boêmia, o utraquismo foi oficializado. [9] Na Escócia, com o apoio do reformador John Knox, o presbiterianismo se tornou oficial. [10] Na Inglaterra, foi criada a Igreja Anglicana, após a ruptura do rei Henrique VIII com a Igreja Católica, tornando a igreja estatal. [11], [12], [13]

 

Em muitos desses lugares, apesar da Reforma, a liberdade ainda estava comprometida. [14] Por isso, alguns correram atrás da liberdade. [15] Além de William Penn, muitos outros lutarem para ver o mundo verdadeiramente livre. Em 1948, a ONU aprovou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, onde garante a liberdade religiosa. Todavia, no século XXI, vários anos depois, muitas pessoas ainda sofrem preconceitos, discriminações e perseguições por causa de da sua fé. (Até quando vai existir ser humano dominando ou sendo dominado por meio da religião?)

 

Jesus prometeu a verdadeira liberdade. (João 8.36.) [16] Ele mandou seus discípulos saírem pelo mundo pregando a paz, o amor, a fé, a liberdade, o perdão, a vida, a bondade, a humildade; dizendo não à guerra, ao ódio, ao orgulho, à ganância. Ele não mandou impor uma religião para governar o mundo. Mandou anunciar o caminho da verdadeira liberdade. Por isso, devemos coibir apenas as religiões que prejudicam as pessoas e o meio ambiente.

 

Em muitas nações, ainda há falta de liberdade religiosa. Em muitos lugares, muitos ainda não são livres para exercerem a sua fé e os seus cultos. [17] Até mesmo em muitos países, onde as leis garantem liberdade religiosa, muitos ainda são discriminados. Por isso digo: “Bem-vindo outros ‘navios Welcomes’ com novos ‘Penns’! Bem vindo, ó liberdade! Bem-vindo sejas, em nossas praias, onde um dia desembarcaram homens religiosos indomáveis! Não queremos mais ser ‘Europas’ dominadas ou pisoteadas.” Que todos sejam religiosamente livres, com ou sem religião ou igreja. Que ninguém jamais venha tentar impor qualquer elemento religioso.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br