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Partidarismo religioso

Livres dos Fardos Religiosos

 

Entre os cristãos da cidade grega de Corinto, no tempo do apóstolo Paulo, havia um partidarismo acirrado. Um dizia: “Eu sou de Paulo.” Outro argumentava: “Eu sou de Apolo”. O outro: ”Eu sou de Cefas.” E ainda outro: “Eu sou de Cristo.” Por causa disso, o cristianismo daquele lugar ficou partido, retalhado, dividido. (I Coríntios 1.12.) [1]

 

 

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Descrição: Partidarismo. Data: outubro/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

Partidarismo é a atitude de quem segue uma organização ou uma idéia de forma exagerada. [2] Partidarismo religioso é a grande paixão por uma determinada religião ou por algum líder religioso. É natural gostar de uma religião ou igreja, ou ainda de algum líder religioso. Mas o partidarismo surge quando uma pessoa se torna fanática e deixa de respeitar as demais crenças religiosas, achando que a sua religião é a única que realmente tem valor; quando ela sente, de forma intolerante, o desejo ardente de superar ou acabar com os elementos religiosos diferentes dos seus; quando não escuta e não examina com atenção o que os outros religiosos dizem e desenvolve idéias preconceituosas sobre eles, criando críticas com palavras ofensivas; quando resolve odiar, discriminar e até segregar as pessoas das demais religiões ou igrejas; quando, ao invés de propagar as suas crenças, resolve impô-las em detrimento das demais ou quando acha que o seu líder é o melhor do mundo e quer que ele domine tudo. Todas essas coisas caracterizam partidarismo religioso.

 

No século XVI, quando os espanhóis católicos começaram a explorar a América, o partidarismo religioso veio junto. Para os índios pueblos, por exemplo, não foi pregado o evangelho à moda de Cristo. O catolicismo, a grande paixão religiosa dos espanhóis, foi imposto. As kivas (locais de culto daqueles povos americanos) foram destruídas, e as suas práticas religiosas foram proibidas. Quem desobedecesse poderia ser mutilado. E foi mais ou menos assim que os templos das religiões ameríndias tombaram, e os templos imponentes católicos se ergueram no lugar. Eles, os espanhóis, não trouxeram a verdadeira mensagem de Jesus. Apenas mostraram que o “partido” católico era o mais forte, capaz de sobrepor as antigas religiões ameríndias. [3], [4]

 

Antes, os Países Baixos (Holanda) e a Bélgica faziam parte da Espanha. No século XVI, o rei espanhol Filipe II tentou acabar com o protestantismo, além de outras medidas. As sete províncias do norte, com uma forte burguesia protestante calvinista, provocaram uma rebelião, enquanto as províncias do sul, onde a maioria das pessoas era católica, continuaram ao lado da Espanha. Depois do Congresso de Viena (1814-1815), a Europa foi repartida. A Bélgica e a Holanda ficaram juntas novamente, formando um só país: o reino dos Países Baixos. Mas o povo belga, que era basicamente católico, não aceitou ter um rei protestante, que “puxava a brasa para a sua sardinha”. Os católicos se rebelaram e formaram o reino da Bélgica em 1830. E foi assim que surgiram as duas nações, Holanda e Bélgica, uma divisão provocada pelo partidarismo religioso, numa época em que as pessoas ainda não sabiam viver juntas com idéias religiosas diferentes. [5], [6], [7]

 

Na ilha da Irlanda, viviam os antigos celtas. No século V, a ilha conheceu o cristianismo através de São Patrício. Mais tarde, a ilha foi invadida pelos vikings. No século XII, com o apoio do papa Adriano IV, o rei Henrique II da Inglaterra conquistou a ilha. Mas no século XVI, o rei Henrique VIII rompeu com a Igreja Católica, fundou a Igreja Anglicana e fortaleceu a dominação inglesa sobre a ilha. Elizabeth I, quando se tornou rainha, resolveu retirar os católicos da vida pública. A partir daí, colonos protestantes tomaram as terras dos irlandeses. No século XVII, protestantes colonizaram o norte da ilha. Inconformados com o domínio protestante, os católicos irlandeses lutaram até conseguirem a independência em 1949. Mas os seis condados do Norte, de maioria protestante, permaneceram ligados ao Reino Unido. A partir de então, católicos e protestantes passaram a viver em guerra. Uma ilha, dois países, duas religiões, dois partidos dentro dum cristianismo dividido. [8], [9]

 

Muitos desejam ver a sua religião sendo a religião universal. Têm o sonho de ver a sua organização religiosa tragando as demais religiões. Por isso, já fizeram de tudo nesse mundo: excomunhões, torturas, prisões, chacinas, depredações, guerras religiosas e tudo mais que pudesse enfraquecer o poder religioso dos outros.

 

Hoje, o partidarismo tem outra forma. Os líderes das igrejas modernas estão usando o chamado marketing evangélico para mostrarem que são os melhores. Estão inventando qualquer coisa que possa atrair o povo, mesmo atropelando a verdadeira mensagem de Cristo. Aquele clima da concorrência comercial é sentido entre as igrejas. Uma quer engolir os crentes ou clientes das outras. A disputa é acirrada. Em algumas igrejas vale tudo, excluindo as antigas táticas de violência. Estão disputando a conquista dos fiéis para serem seus dizimistas e dos clientes para comprarem os seus produtos. Nessa disputa acirrada, os grupos religiosos, principalmente os mais poderosos, estão brigando entre si. Basta entrar nos sites sociais para ver um monte de textos e vídeos, onde uns procuram denegrir os outros.

 

Jesus Cristo não fundou nenhum partido ou organização religiosa. Ele simplesmente pediu que as pessoas tivessem fé em Deus Pai, que fossem bondosas, solidárias, que promovessem a paz, o amor, o perdão, a justiça e outras virtudes e que deixassem de lado as coisas erradas. Ele pregou o evangelho do reino, mas deixou bem claro que o seu reino não é deste mundo. Se o seu reino fosse deste mundo, como ele disse, os seus servos pelejariam para que ele não fosse entregue aos judeus. (João 18.36.) [10] O evangelho de Jesus é apenas uma nova maneira de viver, onde as pessoas devem deixar tudo que não presta para viver uma vida correta, respeitando todos os outros. Não é um partido religioso para brigar com as diversas religiões do mundo, tentando impor o seu domínio. Por isso, ninguém precisa promover discussões, brigas, lutas, disputas por causa de nenhuma religião. Mas os cristãos deturparam o evangelho e criaram vários partidos religiosos. E a igreja que deveria ser um só corpo espiritual se transformou em várias organizações religiosas nesse mundo material. Agora temos milhares de igrejas, cada uma tentando ser a melhor, querendo ser a maior.

 

O evangelho que eu prego para você é apenas uma mudança de vida. Não é uma mudança de partido religioso. Não tenho e nem defendo nenhuma igreja ou religião institucionalizada.

 

Acabe de vez com a paixão partidária carregada de fanatismo religioso. Isso jamais vai melhorar o mundo.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br .