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Intolerância religiosa

Livres dos Fardos Religiosos

 

Em 1705, na cidade do Rio de Janeiro, nasceu o dramaturgo Antônio José da Silva, conhecido como o Judeu. (Mas por que ele recebeu esse apelido? Porque ele era descendente de judeus.) Em 1713, agentes do Santo Ofício chegaram a Cidade Maravilhosa e prenderam os cristãos novos (nome que os judeus convertidos à fé cristã receberam). Suspeitos de continuarem praticando rituais judaicos, esses judeus foram enviados a Lisboa, Portugal. A sua mãe foi torturada e presa, deixando Antônio com apenas oito anos. (Pobre mãe! Pobre menino!) Mas ele deu a volta por cima tornando-se um grande dramaturgo. Com 28 anos de idade, iniciou a divulgação das suas peças teatrais. Mas a sua vida foi uma tragédia real. Com 32 anos, ele também foi preso pelos agentes da Inquisição católica. Dois anos depois, com apenas 34 anos, esse dramaturgo luso-brasileiro morreu entre as chamas de mais uma fogueira promovida pela “Santa Inquisição”, numa praça pública de Lisboa –– palco da sua última e trágica apresentação. Foi mais uma dos milhares de vítimas do espetáculo da intolerância religiosa católica. Um homem do Rio morto no fogo do falso cristianismo com os seus nojentos autos de fé. [1], [2]

 

Intolerância religiosa é a falta de tolerância com aqueles que têm crenças, doutrinas e outros elementos religiosos diferentes. Essa atitude pode também ser chamada de intolerantismo. [3]

 

 

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Descrição: Intolerância religiosa dos hebreus, destruindo as esculturas religiosas dos cananeus. Adorar ídolos não é algo conveniente. Mas atos de intolerância jamais vão servir para abrir os olhos dos idólatras. Apenas servirão para estimular o ódio. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

Desde o passado distante, as divergências religiosas têm produzido esse veneno mortal. Na Bíblia, a história do povo hebreu é marcada por essa atitude perniciosa. Eles atacaram os diversos povos da terra de Canaã com os seguintes mandamentos de Moisés, dados em nome de Deus: “Não façam nenhum acordo com os moradores da terra para onde vocês vão, pois isso poderia ser uma armadilha mortal para vocês. Pelo contrário, derrubem os altares deles, destruam as colunas do deus Baal e cortem os postes-ídolos.” (Êxodo 34.12-13, NTLH.) [4] “Destruam os deuses deles e quebrem as colunas do deus Baal.” (Êxodo 23.10, NTLH.) [5] “Quando vocês atravessarem o rio Jordão e entrarem na terra de Canaã, expulsem todos os moradores daquela terra. Destruam todos os seus ídolos de metal e de pedra e todos os seus lugares de adoração.” (Números 33.51-52, NTLH.) [6]  Portanto, derrubem os altares desses povos, quebrem as colunas do deus Baal, cortem os postes-ídolos e queimem todas as imagens.” (Deuteronômio 7.5, NTLH). [7] “Depois de expulsarem os povos daquela terra, arrasem completamente todos os lugares onde eles adoram os seus deuses, tanto nas montanhas como nas colinas e debaixo das árvores que dão sombra. Derrubem os altares, quebrem as colunas do deus Baal, cortem os postes-ídolos e queimem todas as imagens, para que ninguém lembre mais dos deuses daqueles povos.” (Deuteronômio 12.2-3, NTLH). [8] “Mas, quando conquistarem as cidades que ficam na terra que o SENHOR, nosso Deus, está dando a vocês, matem todos os moradores. Conforme Deus mandou, acabem com todos estes povos: os heteus, os amorreus, os cananeus, os perizeus, os heveus e os jebuseus. Matem todos, para que eles não ensinem vocês a imitar as cerimônias nojentas que praticam quando adoram os seus deuses. Isso seria um pecado grave contra o SENHOR, nosso Deus. (Deuteronômio 20.16-18, NTLH.) [9] Agora observe esses atos de intolerância e violência contra toda uma cidade e até contra os seus animais por causa de alguns homens que porventura viessem a propagar alguma crença diferente dos israelitas. “Quando vocês estiverem morando nas cidades da terra que o SENHOR, nosso Deus, vai lhes dar, talvez vocês ouçam dizer que em certa cidade alguns homens perversos levaram os moradores a adorar deuses que vocês nunca adoraram. Aí vocês deverão examinar o caso com todo o cuidado. Se ficar provado que, de fato, foi cometido um pecado tão grave no meio do povo de Israel, então vocês deverão matar à espada todos os moradores daquela cidade. Matem também os animais e arrasem a cidade.  Depois peguem todos os objetos de valor que encontrarem, amontoem na praça e queimem tudo e também a cidade, como oferta ao SENHOR, nosso Deus. Vai ficar só um montão de ruínas, e nunca mais será construída uma cidade naquele lugar. (Deuteronômio 13.12-16, NTLH.) [10] Matem, destruam, quebrem, derrubem, cortem, expulsem, queimem, arrasem... Essas são as palavras de ordem de Moisés para o seu povo contra as religiões cananéias.

 

Não estou, de forma alguma, querendo defender a religião dos cananeus. Mas creio que sair destruindo os elementos religiosos de qualquer religião não é o caminho correto. Atos de intolerância como esses apenas despertarão o ódio nos dois lados. Não podemos, jamais, acatar esses mandamentos de Moisés, apesar de ter dado essas ordens em nome de Deus. Mesmo não concordando com as demais religiões, atos como esses são crimes. Infelizmente a lei de Moisés tem incentivado muitas pessoas a praticarem graves atos de vandalismo religioso. Seguir os conselhos de Moisés é trilhar o caminho da criminalidade.

 

Jesus não instigou ninguém a realizar atos de intolerância. Pelo contrário, ele preparou os seus discípulos falando de possíveis perseguições. “Expulsar-vos-ão das sinagogas; vem mesmo a hora em que qualquer que vos matar cuidará fazer um serviço a Deus.” (João 16.2, RC). [11] “Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós.” (João 15.20b, RC.) [12] Ele foi perseguido o tempo todo até ser preso e morto por causa do intolerantismo dos judeus de sua época. Os primeiros cristãos também foram duramente perseguidos pelos judeus. (Atos 8.1-3.) [13] Mas os cristãos, que outrora foram perseguidos, também aprenderam a usar o mesmo veneno. Veja, a seguir, alguns exemplos.

 

·         Ano 380. O imperador Teodósio, com o Edito de Tessalônica, proclamou o cristianismo como religião oficial do Império Romano. A partir daí, as demais religiões foram aniquiladas. [14]

·         385. Prisciliano foi executado como herege. As suas idéias religiosas estavam fazendo surgir uma nova religião. O cristianismo romano não tolerava uma fé diferente. [15]

·         389. Teófilo, patriarca de Alexandria, promoveu uma violenta campanha com o objetivo de destruir todos os templos não cristãos. [16]

·         412. Cirilo, sobrinho e sucessor de Teófilo, também patriarca de Alexandria e doutor da Igreja, perseguiu os novacianos dessa cidade. Foi também acusado de promover a destruição das sinagogas dos judeus alexandrinos os fazendo fugirem, enquanto os seus bens foram saqueados pelos fiéis. [17]

·         1198. O papa Inocêncio III liderou uma perseguição contra os albigenses (protestantes franceses) onde aconteceram execuções em massa. [18]

·         1209. Milhares de albigenses foram mortos pelos cruzados católicos. [19]

·         1215. A religião dos valdenses (também protestantes franceses) foi condenada no IV Concílio de Latrão. [20]

·         1416. Jan Hus, sacerdote tcheco, da religião oficial da Boêmia, conhecida como hussismo, foi condenado à fogueira. Logo em seguida, foi desencadeada uma guerra religiosa contra os seus seguidores. [21]

·         1428. Papa Martinho V ordenou que os ossos do reformador religioso John Wycliff fossem desenterrados, queimados e as cinzas lançadas num rio. [22], [23]

·         1572. Milhares de protestantes foram assassinados em Paris, na Noite de São Bartolomeu. [24]

 

Os protestantes também não ficaram atrás. O tratamento que alguns evangélicos têm dado às outras religiões são claros exemplos de intolerantismo. Rousseau escreveu sobre os protestantes do passado: “A intolerância do protestantismo certamente não foi menor do que a do Catolicismo e, com certeza, mais reprovável.” [25]

 

A intolerância vivida pelo cristianismo certamente foi influenciada pelas atitudes intolerantes promovida pelos judeus do Antigo Testamento. Quando um determinado bispo de certa igreja evangélica chutou a imagem da Senhora de Aparecida, ele certamente foi influenciado pelo comportamento dos antigos judeus, instruídos pela intolerante lei de Moisés.

 

Não somos obrigados a acreditar naquilo que os outros acreditam. Com respeito, podemos emitir as nossas opiniões sobre qualquer religião. Podemos e devemos reprovar as atitudes negativas. Mas não podemos perseguir e nem ridicularizar ninguém por causa da suas crenças religiosas. Perseguições, escárnios, depredações, torturas e assassinatos de pessoas com elementos religiosos diferentes não podem jamais se repetirem. Não aceite aquilo que você não acredita. Mas tolere a religião dos outros. Diga não aos atos criminosos de intolerância religiosa.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br