Discriminação feminina religiosa

 

Livres dos Fardos Religiosos

 

De acordo com o livro do Gênesis, Adão e Eva viviam num paraíso chamado jardim do Éden. Ali eles tinham tudo de bom. Podiam comer as frutas de todas as árvores, menos a fruta de uma árvore que ficava no meio do jardim. Mas uma serpente tentou a mulher para que ela comesse do fruto proibido. Eva apanhou uma fruta e comeu. Deu também ao homem, e ele também comeu. Então tudo deu errado. O pecado entrou no mundo. (Gênesis 2 e 3.) [1] A mulher foi a culpada. Assim ela se tornou vítima do preconceito e da discriminação.

 

 

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Descrição: A tentação de Adão e Eva na Catedral de Notre-Dame de Paris, França. Observe que a serpente possui busto e rosto feminino. Data da foto: 13 de março de 2011. Autor da foto: Jebulon. Fonte. Licença domínio público.

De acordo com lendas antigas, a primeira mulher de Adão, relatada em Gênesis 1.26-28, não teria sido Eva, descrita no capítulo 2, mas Lilith que teria se rebelado contra Adão, fugindo dele e tornando-se um demônio feminino, que teria tentado Eva algum tempo depois, na figura de uma serpente. [2], [3], [4].  Por causa disso, alguns artistas representaram a serpente do Éden com rosto, busto e seios de mulher. Uma escultura na fachada da Catedral de Notre-Dame de Paris mostra a serpente dessa forma. [5].  O afresco de Michelangelo de 1510, na Capela Sistine, no Vaticano, é outro exemplo. [6] A Pintura de Rafael Sanzio de 1508 também foi feita de forma semelhante. [7] Essas crenças mitológicas e essas artes míticas contribuíram para que a mulher fosse vista como uma criatura inferior, causadora do mal no mundo. Ela se tornou como uma espécie de serpente venenosa, como um demônio, uma tentação, um pecado, vista com certo desprezo, sendo então colocada em segundo plano. De acordo com essa crença, todos os males do mundo tiveram origem na mulher. Um tremendo absurdo.

 

Deus é Espírito. (João 4:24.) [8] Isso quer dizer que ele é invisível, não sendo como qualquer ser desse mundo. Então ele não é do sexo masculino e nem feminino. Foi dito, na Bíblia, que ele não é um ser humano. (Números 23:19; Jó 9:32.) [9] Mas, de forma figurada, Moisés disse que ele é homem de guerra. (Êxodo 15:3.) [10] Embalados nessa idéia de um Deus masculino e contradizendo a idéia de que ele é um ser espiritual, artistas representaram-no como se fosse um homem maduro de barba comprida. Um afresco de Michelangelo, também na Capela Sistine, no Vaticano, mostra Deus como se fosse um homem. [11] Artes dessa natureza divinizaram o sexo masculino, enquanto a mulher continuou sendo demonizada.

 

Discriminação feminina religiosa é o tratamento diferenciado que as mulheres têm recebido no meio religioso.

 

A doutrina que diz que o pecado entrou no mundo por causa da mulher é uma crença muita aceita desde os tempos remotos. Devemos respeitar as crenças religiosas, mas não podemos deixar de dizer que essa crença é preconceituosa. Ninguém pode provar que realmente o mal do mundo teve início com a mulher. É apenas uma questão de fé.  Por causa dessa crença, a mulher tem sido bastante discriminada em diversas culturas.

 

A Índia, habitada há mais de 2500 anos antes de Cristo pelos drávidas ou dravidianos, por volta de 1750, foi invadida e dominada ao norte pelos arianos vindos da Pérsia. Com base em suas tradições religiosas, conhecidas como hinduísmo, os arianos formaram a civilização hindu. Os sacerdotes dessa religião, que são conhecidos como brâmanes, estabeleceram as leis por meio do Código de Manu. [12], [13]·,[14], [15],[16]. Nesse código, no artigo 420 diz: “Uma mulher está sob a guarda de seu pai, durante a infância, sob a guarda de seu marido durante a juventude, sob a guarda de seus filhos em sua velhice; ela não deve jamais se conduzir à sua vontade.” [17], [18]

 

A Bíblia, escrita sob as influências de outras civilizações, apóia o preconceito e a discriminação contra a mulher em muitas passagens. A lei de Moisés trata o sexo feminino de forma diferenciada. Observe alguns exemplos.

 

Quando uma mulher dava à luz a um menino, ela era considerada imunda por sete dias e depois mais trinta e três dias. Mas se fosse menina, então o tempo era dobrado. Quatorze dias mais sessenta e seis. (Levítico 12:2-5.) [19] Como podemos ver, a parturiente era considerada impura ao dar à luz a um menino e duplamente impura ao dar à luz a uma menina.

 

 

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Descrição: Afresco mostrando Adão e Eva e a serpente com busto e rosto de mulher.  Data: 1508-1512. Autor: Michelangelo Buonarroti (1475–1564). Reprodução: O projeto de Yorck: 10000 Meisterwerke der Malerei DVD-ROM, 2002. ISBN 3936122202 . Distribuído por Direct Media Publishing GmbH. Fonte e licença domínio público.

De acordo com a mesma  lei, se o homem desconfiasse da sua mulher, então, ele a levava ao sacerdote, com uma oferta de farinha de cevada, para ser julgada por ele. O sacerdote colocava água santa num jarro, apanhava terra do chão e misturava na água. Em seguida, a mulher devia concordar com um juramento dito pelo sacerdote. O juramento dizia que, caso a mulher fosse inocente, após beber aquela água, nenhum mal lhe aconteceria. Caso contrário, ela passaria mal. As maldições eram escritas num livro e, em seguida, as palavras escritas eram lavadas dentro do recipiente de água com a mistura de terra. Então, a mulher bebia a água. Se ela se sentisse mal, ela seria considerada adúltera. Caso contrário, seria considerada inocente. (Números 5.11-31.) [20] A mulher, para não ser discriminada, devia ter o direito de fazer o mesmo com o seu marido. Mas essa lei só valia para o homem.

 

Ainda de acordo com a lei mosaica, se um homem se casasse com uma mulher e nela não encontrasse os sinais de virgindade, e se ele pudesse provar isso para as autoridades, ela seria assassinada a pedradas. (Deuteronômio 22.13-21.) [21] O mesmo não podia ser feito com o homem.

 

Os escravos israelitas masculinos tinham que ser libertados no sétimo ano, depois de trabalhar de graça seis anos. (Êxodo 21.2.) [22] Mas a lei deixa bem claro que se um homem vendesse a sua filha para ser escrava, ela não teria esse direito. (Êxodo 21.7.) [23] Além do pai ter o direito de vender a sua filha como se ela fosse uma mercadoria, ela ainda era discriminada em relação aos escravos machos. Eles deveriam ser libertos depois de sete anos de trabalho. Mas ela não seria liberta.

 

Um homem podia dar carta de divórcio à sua mulher caso não agradasse dela depois de casado. “Quando um homem tomar uma mulher e se casar com ela, então, será que, se não achar graça em seus olhos, por nela achar coisa feia, ele lhe fará escrito de repúdio, e lho dará na sua mão, e a despedirá da sua casa.” (Deuteronômio 24.1, RC.) [24] O homem tinha esse direito. A mulher tinha a obrigação de ficar com o homem gostando ou não dele. Ela não tinha o mesmo direito.

 

Se não fossem os hormônios sexuais masculinos, talvez a figura feminina tivesse sido eliminada da face da terra. Mas o seu corpo atrativo e a capacidade de gerar novos seres masculinos conseguiram salvar a sua pele do veneno do preconceito.

 

Jesus não discriminou as mulheres. Por uma questão de ética, ele não colocou nenhuma mulher no grupo dos doze apóstolos. Não era conveniente, naquele tempo, ele criar um grupo de homens para andar com mulheres solteiras e, principalmente, casadas. Mas ele provou que elas tinham valor. Deu atenção a uma mulher cananéia, instruiu uma mulher samaritana, não apedrejou uma adúltera conforme mandava a lei, ajudou uma viúva com um filho morto. (Mateus 15.22-28; João 4.1-30; 8.3-11; Lucas 7.12-15.) [25] Ele não deu nenhum mandamento contra a pessoa feminina. Após a sua morte, mulheres foram visitá-lo no sepulcro. Elas o valorizaram porque ele as valorizou. (Marcos 16:1-2.) [26]

 

Mas a Igreja, logo no início, não conseguiu se livrar do preconceito e da discriminação feminina. Paulo disse para os coríntios: “As mulheres estejam caladas nas igrejas, porque lhes não é permitido falar; mas estejam sujeitas, como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma coisa, interroguem em casa a seus próprios maridos; porque é indecente que as mulheres falem na igreja.” (I Coríntios 14.34-35, RC.) [27] De acordo com esse texto, entendemos que somente os homens podiam falar. Alguns explicam dizendo que Paulo disse isso porque as mulheres conversavam demais nas reuniões da Igreja e perturbavam o culto. Essa explicação é preconceituosa. Será que os homens ficavam caladinhos, e somente elas falavam o tempo todo? Paulo e Pedro disseram que elas têm que serem submissas aos vossos próprios maridos. (Colossenses 3.18 e I Pedro 3.1.) [28] Paulo disse ainda: “As mulheres devem aprender em silêncio e com toda a humildade. Não permito que as mulheres ensinem ou tenham autoridade sobre os homens; elas devem ficar em silêncio. Pois Adão foi criado primeiro, e depois Eva. E não foi Adão quem foi enganado; a mulher é que foi enganada e desobedeceu à lei de Deus. Mas a mulher será salva tendo filhos se ela, com pureza, continuar na fé, no amor e na dedicação a Deus.” (I Timóteo 2.11-15, NTLH.) [29]

 

Apesar dos belos ensinos, dos grandes exemplos de vida cristã dados pelos apóstolos, percebemos que eles ainda continuaram embaraçados em algumas tradições antigas. É claro que eles não conseguiram mudar tudo em uma geração. Mas hoje, depois de tanto tempo, precisamos de novos frutos do bem, no lugar de tantos frutos podres.

 

Não encontramos, na Igreja, ao longo da história, nenhuma mulher tomando grandes decisões eclesiásticas. Os concílios, a seleção dos livros do Novo Testamento, a criação de doutrinas e tantas outras coisas não contaram com a participação da mulher. Apenas algumas igrejas evangélicas ousaram permitir a presença feminina nos assuntos mais sérios da Igreja. Hoje podemos ver bispas, pastoras, missionárias e diaconisas. Mas muitas igrejas ainda não permitem a liderança feminina.

 

A velha crença preconceituosa e as discriminações religiosas foram um péssimo exemplo para o mundo secular. Ao longo da história, a mulher sempre foi desmoralizada. O voto feminino foi aceito, em larga escala, somente no século XX. [30] E em pleno século XXI, muitas ainda recebem salários menores em relação aos homens. [31] Além disso, como nas velhas religiões, muitos homens tratam suas esposas como se elas fossem meras escravas do lar e do sexo. E ainda temos religiões tratando suas adeptas com o mesmo rigor dos tempos antigos.

 

“Dizem que a mulher é o sexo frágil. Mas que mentira absurda!” disse Erasmo Carlos em uma de suas canções. [32] Quando uma mulher tem oportunidades, demonstra ter a mesma competência dos homens. Por isso, nenhuma mulher deve ser tratada com discriminação. Todos nós somos iguais. Apesar da genitália diferente, ninguém é inferior. Um completa o outro. Homens e mulheres têm os mesmos direitos e deveres.

 

O machismo parece ser o veneno de algum fruto que o homem comeu e deu para muitos outros comerem. Até quando a serpente do preconceito, da discriminação e da segregação feminina rondará os pomares dos nossos quintais?

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br