Segregação religiosa

Livres dos Fardos Religiosos

 

Além do ódio e da discriminação, ainda existe a segregação, mais um fruto amargo do preconceito. E quando se fala desse mal, logo recordamos do regime do apartheid na África do Sul.

 

 

image

Descrição: Uma placa que serve de exemplo para mostrar como era a segregação na África do Sul. Ela diz que o local é para o uso de pessoas brancas. Autor: El C. Fonte e licença domínio público.

No século V antes de Cristo, certo homem chamado Secanias, preconceituosamente, acreditou que os hebreus estavam em pecado porque alguns tinham mulheres estrangeiras. Disse ele para o sacerdote Esdras: “Nós temos transgredido contra o nosso Deus, casando com mulheres estrangeiras, dos povos de outras terras.” (Esdras 10.2; RA) [1] Em seguida, ele dá o seguinte conselho: “Agora, pois, façamos aliança com o nosso Deus, de que despediremos todas as mulheres e os seus filhos, segundo o conselho do Senhor e o dos que tremem ao mandado do nosso Deus; e faça-se segundo a Lei.” (Esdras 10.3; RA) [2] Alguns séculos antes, Moisés já havia dito que eles não deveriam casar com mulheres estrangeiras dos heteus, girgaseus, amorreus, cananeus, perizeus, heveus e jebuseus. (Deuteronômio 7.1-4.) [3] Então, o sacerdotes Esdras disse para o povo: “Vós transgredistes casando-vos com mulheres estrangeiras, aumentando a culpa de Israel. Agora, pois, fazei confissão ao SENHOR, Deus de vossos pais, e fazei o que é do seu agrado; separai-vos dos povos de outras terras e das mulheres estrangeiras.” (Esdras 10.10-11, RA.) [4] O povo concordou, e foi feita uma lista dos homens que tinham mulheres de outras nações. (Esdras 10.12-43.) [5] “Eles se divorciaram delas e as mandaram embora com os seus filhos.” (Esdras 10.44, NTLH.) [6] Absurdo! Abandonaram suas esposas e seus filhos simplesmente porque eram descendentes de estrangeiros. Uma mistura de crenças, preconceito, discriminação e xenofobia produziu uma segregação religiosa destruindo famílias.

 

Segregar quer dizer separar, afastar, colocar de lado, desligar, isolar, marginalizar. Segregação é, pois, o afastamento de uma pessoa ou de um grupo de pessoas por outro de maior número ou considerado mais forte socialmente [7] Como podemos ver, a segregação é a discriminação num estágio mais avançado. O que o povo de Israel fez com as suas mulheres estrangeiras e os seus filhos gerados através delas demonstra um exemplo de segregação religiosa.

 

Ainda no século V antes de Cristo, a lei de Moisés foi lida para o povo de Israel (hebreus). Foi lido que nenhum amonita ou moabita podia se juntar ao povo de Deus. Isso porque, alguns séculos antes, os antepassados dessas pessoas não haviam dado comida nem água aos israelitas, quando eles vinham do Egito para Canaã. Em vez disso, esses povos tinham pagado ao profeta Balaão para que ele amaldiçoasse o povo de Israel. Quando eles, os israelitas (hebreus) ouviram isso, expulsaram os estrangeiros do meio deles. (Neemias 13.1-3) [8]

 

Veja que segregação religiosa esquisita determinada por Moisés! Os jovens soldados, cheios de virilidade que, após verem tantas virgens que geralmente eram tomadas dentre os povos, tivessem uma polução noturna (ejaculação involuntária que ocorre durante o sono) tinham que sair do acampamento de manhã e voltar somente no entardecer. Era um vexame. (Deuteronômio 23.10-11.) [9]

 

Jesus não mandou segregar nenhum tipo de pessoa. Podemos ver, nos evangelhos, que ele esteve junto a todos. Por isso, os fariseus e os escribas o criticaram dizendo que ele recebia certos tipos de pessoas e até comia com elas. (Mateus 9:11; Lucas 15:2.) [10] No entanto, com o tempo, a Igreja decidiu trilhar o caminho do preconceito, do ódio, da discriminação e chegou ao ponto de provocar a segregação em vários países.

 

·        Os judeus foram tratados com preconceito, foram odiados, discriminados e, por fim, segregados, em bairros separados, conhecidos como judiarias ou guetos judeus. [11], [12]

 

·        A rainha Isabel de Castela e o rei Fernando de Aragão se casaram unindo as duas coroas, formando o território espanhol. Em 1492, esses “piedosos” reis católicos expulsaram milhares de judeus de seus domínios, através do Decreto Alhambra, também conhecido como o Édito de Expulsão. Para isso, eles, os judeus, foram ameaçados com a pena de morte ou confisco de bens. [13], [14], [15] Muitos fugiram para Portugal, o país vizinho, onde puderam viver em paz por algum tempo. [16]

 

·        Em 1496, D. Manuel I assumiu o trono de Portugal. Logo em seguida, casou-se com D. Isabel de Aragão, filha dos reis católicos Isabel e Fernando da Espanha. [17], [18] “E a vaca foi pro brejo.” Um dos acordos do casamento era a expulsão dos judeus e mulçumanos do reino português. [19] As crianças judias (veja que maldade!) foram separadas de seus pais e levadas para as ilhas da Madeira e de Açores, onde passaram a viver com casais católicos. [20], [21], [22]

 

·        Em 1496 e 1497, o rei D. Manuel de Portugal expediu documentos que exigiam a saída deles do país, no prazo de dez meses. Quem não fosse embora poderia ser morto ou ter os seus bens confiscados. [23]

 

·        No século XIX, na época do Segundo Grande Despertar, surgiram várias novas igrejas nos Estados Unidos. Mas o preconceito e a discriminação rondavam por lá. Em algumas igrejas, negros ficavam em galerias separadas. Por isso, líderes negros resolveram fundar igrejas livres para os descendentes africanos. [24], [25], [26], [27]

 

·        Leis antimiscigenação proibindo o casamento e o sexo entre raças diferentes foram criadas em algumas nações ligadas ao cristianismo, como os Estados Unidos, a Alemanha e a África do Sul, por exemplo. [28]

 

·        Os aborígenes australianos também provaram o veneno da discriminação e da segregação semeado pelos colonizadores ligados ao cristianismo inglês. [29]

 

·        Na África do Sul, colonizada por cristãos calvinistas holandeses e os cristãos ingleses, foi criado o regime do apartheid, onde milhares de negros sofreram os horrores da segregação durante 42 anos, de 1948 a 1990. Locais públicos foram reservados para determinada raça. Praias, ônibus, hospitais, escolas e universidades foram segregados. Placas com os dizeres "apenas para brancos" tiveram seu uso difundido em locais públicos, incluindo até mesmo bancos de praças. [30] (Que cristianismo é esse que os brancos levaram para a África?)

 

·        Nos Estados Unidos, de acordo com leis estaduais e locais, conhecidas como leis de Jim Crow, as escolas públicas e diversos locais públicos, como trens, ônibus, banheiros, restaurantes e bebedouros, determinaram instalações separadas para brancos e negros. [31]

 

·        Nos Estados Unidos, em pleno século XX, com a população acima de oitenta por cento cristã (principalmente metodistas, luteranos, presbiterianos, batistas e católicos), os negros ainda eram duramente tratados com atitudes discriminatórias e segregacionistas, desde o século XIX. Negros não podiam frequentar escolas destinadas aos brancos. [32], [33], [34]. Rosa Parks, uma mulher negra, foi presa porque recusara a ceder o seu lugar a uma passageira branca num ônibus. Os assentos dos ônibus da cidade de Parks eram separados entre brancos e negros. E, no caso de haver algum passageiro branco de pé, o negro assentado tinham que ceder o seu lugar para ele. [35] (Que coisa feia, hem Tio Sam?)

 

·        O Brasil, com a maioria da população católica, teve a imigração de muitos judeus. Aqui como na Europa, eles, até o século XIX, juntamente com mulatos, negros e mouros, não podiam entrar para uma ordem religiosa católica ou instituição assistencial, ocupar algum cargo público, frequentar universidade ou colégio religioso, etc. Esses eram tidos como raças de sangue impuro. [36] No século XX, na época de Getúlio Vargas e dos integralistas, com a proliferação de idéias antissemíticas, judeus foram deportados do Brasil para os países nazistas europeus, onde muitos morreram. [37] 

 

Esse mal é pior do que possamos imaginar e esteve presente em várias partes do mundo. [38] A Igreja não conseguiu dar um bom exemplo, pregando o verdadeiro evangelho de Cristo, onde não há espaço para a separação. Mas ainda é tempo de resgatar o que o Mestre ensinou.

 

Chega de tanta distinção! Basta! Não queremos mais os “guetos”! Chega de “sowetos”!  Não somos marranos, não somos porcos pra aguentar essa porcaria. Vamos nos separar de todo mal sem, contudo, separar pessoas. Somos todos diferentes culturalmente, religiosamente, emocionalmente, fisicamente... Mas estamos todos juntos num só planeta.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



[32] Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda