Translate, traduzir

Ódio religioso

Livres dos Fardos Religiosos

 

A árvore do preconceito produz amargos frutos: o ódio é um deles. Enquanto houver pessoas estabelecendo idéias precipitadas sem nenhum compromisso com a verdade, sempre haverá pessoas, doutrinas e organizações odientas e odiadas.

 

Nos palcos da história, entre os adeptos de várias religiões do mundo, sempre encontramos pessoas religiosas detestando os seguidores de outras crenças.

 

 

clip_image002

Descrição: Pichações anti-semitas em San Pedro Sula, Honduras. Data: 10 de outubro de 2009. Autor: NYC2TLV. Fonte. Licença CC BY-SA .

Ódio religioso é o nojo, a repugnância, a antipatia, a abominação, a detestação que as pessoas sentem das outras religiões, de outras doutrinas ou de certos líderes religiosos. Quando ele se torna muito forte, as pessoas acabam promovendo difamações, discriminações, segregações, perseguições e até assassinatos e guerras contra a fé dos outros.

 

Quando Jesus surgiu pregando o amor, a paz, a bondade e outras virtudes que os judeus não tinham, eles, divididos em odientos fariseus e saduceus, não gostaram das suas pregações. A antipatia deles foi tão grande que eles acabaram promovendo a sua execução. (Mateus 26.66; Marcos 14.64.) [1] Então, ele foi entregue para as autoridades, que o executaram de acordo com o costume dos romanos da sua época. (Lucas 24.20.) [2]

 

Um dos pontos principais do evangelho é o amor. O cristão tem que amar a todos, incluindo as pessoas contrárias, aquelas que são de outras religiões e até mesmo os seus inimigos. (Romanos 12:10; Mateus 5:44 ; João 13:35.) [3] Essa é uma das grandes virtudes cristãs. Mas a Igreja tem se esquecido dos verdadeiros ensinos de Cristo e, no lugar do amor, cultivaram o ódio.

 

Católicos e ortodoxos sempre se odiaram mutuamente desde o século IV, quando a capital do Império Romano, que havia sido dividido em duas partes, teve a sua capital transferida de Roma para Constantinopla. Essa divisão política acabou causando a divisão da Igreja também, e um ódio tolo foi sendo alimentado ano após ano. Observe alguns pontos de vários séculos do asco do cristianismo dividido:

 

·       No século IV, Roma era a capital do império e acabou se tornando também a capital religiosa, e o imperador romano ganhou o título de Sumo Pontífice ou Pontifex Maximus. [4], [5], [6].

·       Nessa mesma época, o I Concílio de Nicéia deu ao bispo de Roma a primazia sobre os demais bispos.  [7]

·       Mas em 330, Constantino reconstruiu a antiga cidade grega de Bizâncio, transformando-a na nova capital do império e chamando-a de Nova Roma. [8]. A antiga cidade de Roma deixava de ser a capital política. Sem o imperador, com o título de Sumo Pontífice, ela corria o risco de deixar de ser a capital religiosa também.

·       Então, no século IV, em 343, o sínodo de Sárdica reconheceu o bispo de Roma como instância suprema. [9]. (Seria alguma manobra para impedir o enfraquecimento de Roma?)

·       Em 381, no I Concílio de Constantinopla, a nova capital romana criada por Constantino se tornou um patriarcado da Igreja. [10], [11]. Esse foi o estopim que acedeu a rivalidade histórica entre as igrejas do Ocidente e do Oriente. Roma era a antiga capital, sendo por isso o principal patriarcado. Constantinopla, a nova capital política, a Nova Roma, agora como um novo patriarcado, já em segundo lugar, corria o risco de se tornar a capital religiosa.

 

 

image

Descrição:Católicos X ortodoxos. Data: outubro/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

·       Em meados do século V, o imperador romano do Ocidente Valentiniano III promulgou o Edito de Supremacia Papal, confirmando o papa como suprema autoridade da Igreja. [12]. (Será que o imperador do lado ocidental queria manter a hegemonia da Igreja a partir do Ocidente dando mais poder ao patriarca romano?)

·       Ainda nesse século, em 476, a invasão dos povos bárbaros acabou com Império Romano do lado ocidental, e o papa tornou-se a autoridade máxima do Ocidente, agora independente do Império Romano, que permaneceu de pé apenas do lado oriental. [13], [14], [15] [16]. Sem as interferências do imperador romano oriental, que era considerado o Sumo Pontífice, o patriarca de Roma, que na época era o papa Simplício, naturalmente seria visto como uma espécie de novo rei teocrático do Ocidente. [17]. A partir de então, com o documento de supremacia papal e com a queda do Império Romano do Ocidente, ele se tornaria, de fato, a única autoridade suprema da igreja ocidental.

·       No século VI, o patriarca João IV (João Faster) de Constantinopla chamou a si mesmo de Patriarca Ecumênico. [18], [19]. Em outras palavras, ele considerou ser o patriarca de todo o mundo.

·       Então, o seu contemporâneo, o papa Gregório I rebateu chamando a si mesmo de Servus Dei servorum (Servo dos servos de Deus). [20].

·       Em 1054, o patriarca de Constantinopla, Miguel Cerulário e o papa Leão IX se excomungam mutuamente. (Que vergonha para os dois grandes líderes religiosos!) [21], [22].

·       Em 1182, latinos que viviam em colônias na antiga Constantinopla foram trucidados por uma multidão de fiéis, instigados pelos líderes da Igreja Ortodoxa. [23], [24]

·       Em 1202, durante a IV Cruzada, o bando de cruzados católicos atacou Constantinopla e formou o Império Latino de Constantinopla, fruto do ódio entre as duas igrejas. [25], [26], [27] E esse ódio ainda pôde ser sentido nos diversos conflitos ocorridos nos Bálcãs, onde católicos e ortodoxos muitas vezes se enfrentaram. [28], [29] Se ambos os lados fossem cristãos de verdade, as guerras balcânicas não teriam acontecido e ateus não estariam criticando a cristandade. [30]

 

E foi assim que, no cristianismo, contradizendo os ensinos de Cristo, surgiu a cultura do ódio. Nos séculos seguintes, novos cismas e novas igrejas surgiram, e o ódio sempre esteve presente. E, em vez de amar uns aos outros, a “cristandade” aprendeu, com os patriarcas romanos e constantinopolitanos, a odiar.

 

Hoje em dia, muitos ficam horrorizados ao ver o nojo que Adolf Hitler tinha dos judeus, a ponto de promover o holocausto, uma política de extermínio desse povo. [31] Porém, ele não foi o único. O antissemitismo (atitudes contra os judeus) já existia há centenas de anos, desde os primeiros séculos.

 

·        Em 1391, houve uma grande carnificina de judeus na Espanha. [32], [33]

·        Em 1449, em Toledo, também na Espanha, o veneno do ódio fez outro confronto entre cristãos e judeus e mais um massacre. [34]

·        Em 1478, os reis católicos Isabel de Castela e Fernando de Aragão estabeleceram um decreto oficializando a Inquisição espanhola com o objetivo de punir os falsos convertidos ao cristianismo, principalmente judeus e mulçumanos. [35]

·        Em 1492, os reis católicos da Espanha expulsaram milhares de judeus que não quiseram seguir o catolicismo. Muitos fugiram para Portugal, o país vizinho. Mas ali, mais tarde, eles foram batizados à força. As crianças judias (veja que maldade!) foram separadas de seus pais e levadas para as ilhas da Madeira e de Açores, onde passaram a viver com casais católicos. Muitos fugiram, inclusive para o Brasil. [36], [37]

·        Em 1496 e 1497, o rei D. Manuel de Portugal expediu documentos que exigiam a saída deles do país, no prazo de dez meses. Quem não fosse embora poderia ser morto ou ter os seus bens confiscados. [38]

 

 

image

Descrição: Memorial do Holocausto em Berlim. Uma lembrança do ódio que muitos europeus tiveram do povo judeu. Data da foto: 7 de fevereiro de 2008. Autor: Txalapartari. Fonte. Licença CC BY.

 

·        Em 1499, mais de cem pessoas judias foram queimadas vivas na Espanha. [39], [40]

·        Em 1506, aconteceu o Massacre de Lisboa, quando uma multidão de judeus foram assassinados e saqueados. [41]

·        Em 1525, Marinho Lutero fundou a Igreja Luterana e demonstrou ser um perseguidor do povo judeu. Em algumas de suas obras, ele destilou o seu ódio contra esse povo, a ponto de um pastor alemão declarar, em 1933, que "Hitler não teria sido possível, sem Martinho Lutero". [42] Ele teria dito que a Alemanha devia ficar livre de judeus, aos quais, após serem expulsos, deviam ser despojados de todo dinheiro e jóias, prata e ouro, e que fossem incendiadas suas sinagogas e escolas, sendo suas casas derrubadas e destruídas. [43], [44]

·        Em 1946, Julius Streicher, editor do jornal Nazista Der Stürmer, quando estava em julgamento por crimes contra a humanidade, se defendeu dizendo “que nunca havia dito nada sobre os judeus que Martinho Lutero não tivesse dito 400 anos antes" [45]

·        Em 1881, na Rússia, religiosos da igreja russa, em mais de 200 cidades, destruíram os bens desse povo. Nos anos seguintes, vários deles foram perseguidos, feridos, saqueados e até assassinados pelos fiéis ortodoxos. [46], [47]

 

Os judeus do passado, de acordo com as histórias do Antigo Testamento, como sempre digo, cometeram muitos absurdos usando o nome de Deus. Inclusive, Jesus foi vítima dos judeus. Mas não podemos generalizar. Não podemos, como eles fizeram no passado, tratar todos os judeus com ódio por causa do erro de seus ancestrais. A igreja ou algumas igrejas fizeram isso e cometeram injustiças. Muitos judeus perseguidos jamais fariam o que os seus antepassados fizeram. Nenhum judeu merece ser penalizado por causa de sua história macabra. Por isso, apesar dos absurdos praticados pelos judeus (hebreus) do Antigo Testamento, não os odeio e nem desejo que ninguém faça isso. Nenhum judeu merece ser odiado, perseguido ou penalizado por causa de sua história suja. Muitos têm sido pessoas dignas, merecedoras de todo respeito. Não podemos fazer com eles o que eles fizeram com os inocentes amalequitas. (I Samuel 15.) [48]

 

Entre católicos e protestantes, também encontramos o asqueroso asco “sagrado”. Em 1572, dia de são Bartolomeu, os católicos franceses resolveram fazer algo diferente. Esqueceram-se que Bartolomeu foi apóstolo do Cristo, que pregou o amor, a paz, o perdão e que disse não ao ódio. Enojada com protestantes huguenotes, a mamãe piedosa Catarina de Medice aconselhou o seu filho, o rei Carlos IX, que tinha apenas 22 anos de idade, a matar os líderes desse grupo. Ele, rapazinho obediente, foi em frente. O massacre começou naquela noite e se estendeu por vários dias, quando milhares de huguenotes foram assassinados. [49]

 

O ódio entre católicos e protestantes se alastrou por centenas de anos. Preconceitos, difamações e guerras foram promovidas por causa desse ódio maldito.

 

Entre as diversas igrejas protestantes e evangélicas ainda existe ódio. Muitos pastores, por causa do zelo ou com medo de perder seus membros, acabam excitando a repugnância entre as religiões. Um determinado pastor de uma grande igreja evangélica, falando sobre as doutrinas das Testemunhas de Jeová, fez questão de repetir quase trinta vezes a expressão: “supostas Testemunhas de Jeová.” Esse pastor chega dizer que as doutrinas dessa religião são malignas. No final, ele aconselha o querido irmão na fé a expulsar de sua casa ou de sua presença, em nome de Jesus, qualquer jeovista. E ainda faz questão de dizer que eles são portadores de doutrinas diabólicas. Não sou da religião das Testemunhas de Jeová, mas jamais os trataria dessa forma.

 

Jesus disse: “Ouvistes que foi dito: “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mateus 5.43-44, RA.) [50] Amar apenas as pessoas do nosso grupo é fácil, e muitos fazem isso. Mas o amor que Cristo pregou é muito mais forte. Temos que amar os que são diferentes e tolerar aqueles que não nos agradam. Não somos obrigados a concordar com tudo, entretanto precisamos aprender a suportar as diferenças. Esse é um dos pontos chaves do verdadeiro evangelho original que muitos ainda não descobriram.

 

Não somos obrigados a aceitar ou concordar com a religião dos outros. Mas não temos o direito de ofender nenhuma crença diferente. Podemos criticar, mas temos que fazer isso com palavras respeitosas, procurando esclarecer as coisas, ajudando os outros, mas sem excitar o ódio. Precisamos tratar das diferenças com respeito. Vamos juntos, trilhar esse caminho.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br