Ira religiosa

Livres dos Fardos Religiosos

 

Passear pelas páginas do Velho Testamento da Bíblia Sagrada, tentando encontrar um ambiente de paz, tranquilidade e serenidade, é pura utopia. Dentre tantos males existentes por lá, encontrará pessoas carregadas de ira, aprontando os piores horrores.

 

A Bíblia diz que o juiz Jefté lutou contra o povo amonita. Ele venceu a batalha. Mas os homens da tribo de Efraim ficaram zangados, porque eles não haviam participado da guerra contra os amonitas. Aproximaram-se dele e, cheios de ira, disseram: “Por que é que você saiu para combater os amonitas e não nos chamou para irmos também? Por causa disso nós vamos queimar a sua casa com você dentro.” (Juízes 12.1, NTLH.)

 

 

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Descrição: Ira. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

Essa ameaça tola acabou provocando uma guerra entre as duas tribos dos hebreus: Gileade e Efraim. E morreram 42 mil pessoas. Tudo por causa de um motivo insignificante, alimentado pela ira. (Juízes 11.12-33 e 12.1-6.) [1]

 

Ira é, segundo o dicionário Aulete, um “sentimento muito intenso de raiva, de ódio, de rancor, de indignação, que resulta ger. de alguma ofensa, injúria, ou atentado físico ou moral, sofridos, ou de fato, acontecimento ou situação que causa revolta, grande desgosto etc.” [2] Ira religiosa é exatamente isso envolvendo assuntos religiosos ou pessoas ligadas à religião. A atitude dos efraimitas foi um triste exemplo desse mal. Eles ficaram indignados com Jefté por não terem participado de uma guerra e quiseram se vingar dele, provocando outra guerra.

 

Certo fazendeiro, chamado Nabal, recebeu a visita de alguns homens enviados por Davi, o futuro rei dos hebreus, para pedir-lhe uma ajuda. Mas Nabal negou dizendo: “Quem é Davi, e quem é o filho de Jessé? Muitos são, hoje em dia, os servos que fogem ao seu senhor. Tomaria eu, pois, o meu pão, e a minha água, e a carne das minhas reses que degolei para os meus tosquiadores e o daria a homens que eu não sei donde vêm?” (1 Samuel 25.10-11, RA.)

 

Então os rapazes de Davi se puseram a caminho e, voltando, vieram anunciar-lhe todas estas palavras. Davi ficou totalmente possuído de cólera ao ouvir o que ele tinha dito e quis se vingar dele. Pediu que cada um dos seus homens pegasse a sua espada. Ele também pegou a sua espada e foram atacar a propriedade de Nabal. Ele disse que destruiria tudo que fosse daquele homem. Não deixaria nenhum varão sobrando. (1 Samuel 25.2-44.) [3]

 

As pessoas, mesmo sendo muito religiosas como Davi e o seu povo, muitas vezes ficam iradas. Os hebreus, considerados o povo santo de Deus, se iravam com qualquer coisa com muita facilidade e ficavam com uma sede ardente de matar e destruir.

 

Qualquer pessoa fica enraivecida diante de certas situações. Porém, não devemos ficar alimentando a raiva e também não devemos guardá-la para o dia seguinte. Enquanto ela vai sendo nutrida, vai ficando cada vez mais forte. Então começamos a insultar o outro, e o desejo de vingança vai ficando cada vez mais acentuado e acabamos cometendo coisas graves. Paulo disse para os efésios: “Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira.” (Efésios 4.26, RA; RC.) Em outras palavras: “Se você ficar com raiva, não deixe que isso o faça pecar e não fique com raiva até o por-do-sol.” (Efésios 4.26, NTLH.) [4] Jesus disse: “Eu, porém, vos digo que, qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão, será réu de juízo; e qualquer que disser a seu irmão: Raca, será réu do sinédrio; e qualquer que lhe disser: Louco, será réu do fogo do inferno.” (Mateus 5.22.) [5] Mas muitos não seguiram esses conselhos.

 

No início do século XV, Jan Hus, um sacerdote católico da capela de Belém em Praga, condenava os abusos do catolicismo, além de defender doutrinas diferentes dos dogmas católicos. Essas coisas serviram para despertar a raiva da cúpula da Igreja. Em 1410, ele foi excomungado pelo papa. E no Concílio de Constança, poucos anos depois, foi condenado a morrer numa fogueira. Foi o que aconteceu em 1415. [6] E enquanto o fogo era aceso para queimá-lo, os hussitas, seus seguidores, também já estavam com uma grande ira incendiada. Encolerizados, partiram para uma insurreição, onde os dirigentes da cidade de Praga foram atirados pelas janelas da sede do governo. Cólera pra lá e cólera pra cá. Foi a primeira defenestração de Praga. [7] Defenestração é o ato de atirar alguém ou alguma coisa pela janela. [8] Essa é uma terrível manifestação de ira.

 

Em 1618, um grupo de nobres protestantes tchecos ficaram aborrecidos com a violação de um acordo real que permitia a construção de templos protestantes na Boêmia. Cheios de cólera e influenciados pelas atitudes dos protestantes hussitas, eles atiraram dois conselheiros do rei por uma janela do castelo de Praga. Essa segunda defenestração foi o início da rebelião protestante que culminou na Guerra dos Trinta Anos, onde protestantes e católicos, totalmente irados, se embrenharam numa luta que durou três décadas. [9] (Que praga!)

 

A pessoa que alimenta a sua raiva acaba fazendo bobagens como os efraimitas. Se esse bando de selvagens tivessem controlado a sua cólera, eles não teriam provocado uma guerra fratricida além de muitas outras loucura do Antigo Testamento. Se os católicos e os protestantes tivessem controlado a indignação, não teríamos os trinta anos sangrentos registrados na história do Antigo Continente.

 

Muitas besteiras a humanidade tem praticado no meio religioso simplesmente por causa de uma ira descontrolada.

 

Que todos aprendam a fazer o que disse Tiago: “Todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar.” (Tiago 1.19, RC.) [10] “Quero, pois, que os homens orem em todo o lugar, levantando mãos santas, sem ira nem contenda.” (1 Timóteo 2:8, RC.) [11] “Mas, agora, despojai-vos também de tudo: da ira, da cólera, da malícia, da maledicência, das palavras torpes da vossa boca.” (Colossenses 3:8, RC.) [12]

 

Lembre-se: a ira é uma pequena chama que, se for colocada pra fora, poderá causar um grande incêndio, um estrago enorme. Apague esse fogo antes que ele se alastre. Não siga os irados exemplos bíblicos e eclesiásticos.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br