Penalidades religiosas

Livres dos Fardos Religiosos

 

Como vimos noutras mensagens, no passado, as religiões eram impostas por meio de atitudes constrangedoras, dentre elas, julgamentos com torturas e duras penas para aqueles que transgredissem certos princípios religiosos.

 

Jesus Cristo andou pela Palestina pregando um novo estilo de vida, totalmente despido das velhas tradições religiosas. Esse novo estilo de vida, que ele chamava de evangelho do reino de Deus, era como se fosse um vinho novo ou um pano novo. Mas não era um pano novo para remendar os velhos panos ou a velha religião dos hebreus, baseada na lei de Moisés, encontrada no Velho Testamento da Bíblia. Não era um vinho novo para colocar nos velhos odres. (Mateus 9.16-17; Marcos 2.21-22; Lucas 5.36-39.) [1] O evangelho de Jesus não é uma reforma do judaísmo, mas uma nova vida, um novo nascimento, um recomeçar. (João 3.1-7.) [2] Por isso, Paulo disse que “quem está unido com Cristo é uma nova pessoa; acabou-se o que era velho, e já chegou o que é novo.” (2 Coríntios 5:17, NTLH.) [3] Mas as pessoas, como disse Jesus, não gostam de vinho novo: preferem o vinho velho, pois o consideram mais excelente. (Lucas 5.39.) [4] Da mesma forma, muitos preferem as velhas tradições religiosas, pois as consideram melhores e mais seguras. Por causa disso, muitos ficam escravos de suas tradições e jamais querem saber de mudanças.

 

No passado, se uma pessoa ousasse propor mudanças religiosas, ela seria julgada e condenada a uma dura pena. Foi exatamente isso que aconteceu com Jesus. Os principais sacerdotes e os escribas, esses que eram os mestres da lei de Moisés, procuravam um jeito de matar Jesus, pois via que o povo admirava os seus ensinamentos. (Marcos 11:18.) [5] Eles procuravam como poderiam prendê-lo à traição e matá-lo, (Marcos 14:1; Lucas 19:47.) [6] Eles não estavam a fim de ver nascer um novo modo de vida, que era como um vinho ou como um pano totalmente novo. Assim, um dia, ele foi preso como se fosse um criminoso. (Mateus 26.47-50; Marcos 14.43-46; Lucas 22.47-54; João 18.1-12.) [7] Pregar mudanças: esse foi o seu “crime”.

 

 

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Descrição: A crucificação de Jesus. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

Como vimos noutra mensagem, entre os hebreus, havia o grande Sinédrio em Jerusalém, que era um tribunal religioso composto de setenta e uma pessoas, incluindo sacerdotes, escribas e anciãos.  Nas demais cidades, foram criados sinédrios menores com 23 juízes. Reunidos, eles julgavam diversas questões criminais, religiosas e administrativas. [8], [9]. Foi para lá que Jesus foi conduzido para ser julgado. E lá, perante as autoridades religiosas dos judeus, ele foi sentenciado à morte. (Mateus 26.57-66.) [10] Então, ele foi coroado com uma coroa de espinhos, foi esbofeteado, cuspido, escarnecido, açoitado e conduzido publicamente pela cidade, carregando uma cruz, até chegar ao monte Calvário, onde foi crucificado entre dois ladrões, diante dos escárnios de muitos. (Mateus 26.67-68; João 19.1-8; Mateus 27.32-56; Marcos 15.21-41; Lucas 23.26-49; João 19.19-30.) [11] Essa foi a humilhante pena religiosa que ele sofreu por causa das acusações dos líderes religiosos judeus da sua época de que ele estava blasfemando. (Mateus 9.1-3; 26.57-66; Marcos 2.3-7; Lucas 5:21; 6.6-11; 11.53-54; 15.1-2; 20.19-26; 23.10.) [12]

 

Penalidades religiosas são as penas, ou castigos, ou punições impostas às pessoas por motivos religiosos, após passarem por um julgamento e serem consideradas como culpadas. Foi o que aconteceu com Jesus.

 

As penalidades sempre estiveram presentes nas religiões. Aliás, a história do Direito se mistura com a história das religiões. O Direito antigo passou pelas mãos dos sacerdotes, que também atuavam como juízes. Era tido como algo sagrado. O Direito egípcio tinha ligação com a religião. O Código de Hamurabi demonstrava a ligação do rei babilônico com os deuses mesopotâmicos. Na índia, o Código de Manu, redigido pelos sacerdotes, tinha fundo religioso. Entre os judeus, a Lei de Moisés era também uma lei religiosa. Todas essas leis antigas determinavam penas cruéis. [13], [14] As principais penas eram:

 

Multas. O código de Hamurabi diz no artigo 59: “Se qualquer um, sem o conhecimento do dono do jardim, deixar cair uma árvore, esta pessoa deverá pagar 1/2 mina em dinheiro ao proprietário.” [15] O código de Manu diz: “O homem que desvia em seu proveito uma parte da água de um reservatório ou represa a corrente de um regato, deve ser condenado a pagar a multa no primeiro grau.”  [16], [17], [18] A lei de Moisés declara: “Quando um homem achar uma moça virgem, que não for desposada, e pegar nela, e se deitar com ela, e forem apanhados, então, o homem que se deitou com ela dará ao pai da moça cinqüenta siclos de prata; e, porquanto a humilhou, lhe será por mulher; não a poderá despedir em todos os seus dias.” (Deuteronômio 22.28-29, RC.) [19]

 

Expulsão (banimento). O código de Hamurabi fala de expulsão. [20] O código de Manu também prevê penas de expulsão. Por exemplo: se um homem de baixa classe resolver tomar o lugar ao lado de alguém de uma classe mais elevada, esse deve ser marcado debaixo do quadril e ser banido. [21], [22], [23]  De acordo com Moisés, ter relações sexuais com mulheres parentes como: a mãe, a mulher do pai, irmã, neta, tia, mulher do tio, nora, cunhada, filha ou neta da esposa; sexo durante a menstruação, relações com a mulher de qualquer outro homem, entregar o filho para servir o deus Moloque, homossexualidade, sexo com animais, tudo isso seria punido com a expulsão. (Levítico 18.6-29.) [24] Quem comesse sangue de animais também podia sofrer a mesma pena. (Levítico 7:27; 17.14.) [25] O mesmo aconteceria se alguém tocasse em qualquer coisa impura. (Levítico 7.21.) [26] Quem sacrificasse animais fora do lugar determinado também recebia essa mesma pena (Levítico 17.2-10.) [27] Contraditoriamente, alguns desses casos, como o adultério ou relações sexuais com a mulher do próximo, a homossexualidade e o sexo com animais, seriam, de acordo com outros textos, punidos com a pena de morte, em vez de banimento. (Levítico 20.10; 13; 15-16.) [28]

 

 

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Descrição: Costas marcados pelos açoites. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

Açoites. No código de Manu, no artigo 646 do livro ou capítulo VIII, está escrito: “Que a pena imposta pelo rei às mulheres, às crianças, aos loucos, às pessoas idosas, aos pobres e aos enfermos, seja de ser açoitado com chicote ou vara de bambu, ou de ser amarrado com cordas.” [29], [30], [31] Na lei de Moisés, em Deuteronômio  25.1-3 diz: “Quando houver contenda entre alguns, e vierem a juízo para que os juízes os julguem, ao justo justificarão e ao injusto condenarão. E será que, se o injusto merecer açoites, o juiz o fará deitar e o fará açoitar diante de si, quanto bastar pela sua injustiça, por certa conta. Quarenta açoites lhe fará dar, não mais; para que, porventura, se lhe fizer dar mais açoites do que estes, teu irmão não fique envilecido aos teus olhos.” (RC.) [32] Jesus foi açoitado (Mateus 27:26; Marcos 15.15.) [33]

 

Mutilações. Na Índia, o sociedade foi dividida em castas.[34] De acordo com o código de Manu, nos artigos 276 e 277 ou 279 e 280 do livro ou capítulo VIII conforme a versão, se um homem de uma classe inferior usar um membro, como a mão ou o pé, para ferir uma pessoa de uma classe superior, essa pessoa inferior deverá ter o mesmo membro mutilado. [35], [36], [37] No código de Hamurabi, no artigo 95, encontramos o seguinte: “Se um filho bater em seu pai, ele terá suas mãos cortadas.” [38]

 

Pena de talião. A pena de talião é muito antiga. O delinquente era penalizado com o mesmo mal que ele praticara. Por isso, existe a expressão “olho por olho, dente por dente”. No código de Hamurabi, nos artigos 198, 197 e 200, lemos: “Se um homem arrancar o olho de outro homem, o olho do primeiro deverá ser arrancado.” “Se um homem quebrar o osso de outro homem, o primeiro terá também seu osso quebrado.” “Se um homem quebrar o dente de um seu igual, o dente deste homem também deverá ser quebrado” [39], [40] Na lei de Moisés, em Levítico 24.19-20, está escrito: “Quando também alguém desfigurar o seu próximo, como ele fez, assim lhe será feito: quebradura por quebradura, olho por olho, dente por dente; como ele tiver desfigurado a algum homem, assim se lhe fará.” (RC.) [41]

 

Pena de morte ou pena capital. O código de Hamurabi, no artigo 3, declara: “Se alguém trouxer uma acusação de um crime frente aos anciões, e este alguém não trouxer provas, se for pena capital, este alguém deverá ser condenado à morte.” [42], [43]  O código de Manu ordena: “Que o rei condene à morte os que fazem falsos éditos, os que causam dissensões entre os ministros, os que matam mulheres, crianças ou Brâmanes e os que estão em inteligência com os inimigos.” [44], [45], [46]  A lei de Moisés, no livro do Êxodo 21:15, encontramos: “O que ferir a seu pai ou a sua mãe certamente morrerá.” Como já vimos anteriormente, Jesus recebeu essa pena. (RC.) [47]

 

Jesus não ensinou para os seus discípulos a prática de tais penalidades. Para os homens que estavam loucos para apedrejarem uma mulher adúltera, conforme mandava a lei de Moisés, ele falou: “Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela.” Depois de ouvirem essas palavras, nenhum dos homens se sentiu dignos de condenarem aquela mulher. Ele também não a condenou, mas disse: “vai-te e não peques mais.” (João 8.3-11. Textos entre aspas da tradução RC.). [48] Se alguém está em pecado é como se estivesse enfermo. E o enfermo é que precisa de médico conforme ele disse em Mateus 9.12. [49] Ele disse ainda: “Não julgueis, e não sereis julgados; não condeneis, e não sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados.” (Lucas 6.37, RA.) [50] Ele disse para não arrancar o joio do meio do trigo. Isso será feito pelo Senhor no fim do mundo. (Mateus 13.24-30 e 36-43.) [51] Não podemos julgar pela aparência. (Mateus 7.24.) [52] Devemos apenas identificar os falsos e tomar cuidado com eles. (Mateus 7.15-20.) [53]

 

Jesus falou ainda: “Se o seu irmão pecar contra você, vá e mostre-lhe o seu erro. Mas faça isso em particular, só entre vocês dois. Se essa pessoa ouvir o seu conselho, então você ganhou de volta o seu irmão. Mas, se não ouvir, leve com você uma ou duas pessoas, para fazer o que mandam as Escrituras Sagradas. Elas dizem: ‘Qualquer acusação precisa ser confirmada pela palavra de pelo menos duas testemunhas.’ Mas, se a pessoa que pecou não ouvir essas pessoas, então conte tudo à igreja. E, se ela não ouvir a igreja, trate-a como um pagão ou como um cobrador de impostos.” (Mateus 18.15-17, NTLH.) [54]

 

Nas epístolas apostólicas lemos: “Assim que, não nos julguemos mais uns aos outros; antes, seja o vosso propósito, não pôr tropeço ou escândalo ao irmão.” (Romanos 14.13, RC.). [55]Irmãos, se algum homem chegar a ser surpreendido nalguma ofensa, vós, que sois espirituais, encaminhai o tal com espírito de mansidão; olhando por ti mesmo, para que não sejas, também, tentado.” (Gálatas 6.1, RC.). [56]A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando ao Senhor com graça em vosso coração.” (Colossenses 3.16, RC.). [57]Mas, se alguém não obedecer à nossa palavra por esta carta, notai o tal, e não vos mistureis com ele, para que se envergonhe. Todavia não o tenhais como inimigo, mas admoestai-o como irmão.” (II Tessalonicenses 3.14-15, RC.). [58] “Não repreendas asperamente os anciãos, mas admoesta-os como a pais, aos mancebos como a irmãos, às mulheres idosas, como a mães, às moças, como a irmãs, em toda a pureza.” (I Timóteo 5.1-2, RC.). [59] “Que pregues a palavra, instes, a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a longanimidade e doutrina.” (II Timóteo 4.2). [60]Pelo que exortai-vos, uns aos outros, e edificai-vos, uns aos outros, como, também, o fazeis.” (I Tessalonicenses 5.11, RC.). [61] Segundo o apóstolo Paulo, essa é a relação que devemos ter com aqueles que cometem faltas no seio do cristianismo. 

 

 

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Descrição: Queima de Joana d’Arc, Panthéon de Paris. Data: 1889. Autor:  Jules Eugène Lenepveu (1819-1898). Reprodução: Tijmen Stam (IIVQ ). Data da foto: 11 de fevereiro de 2007. Fonte. Licença CC BY-SA.

Nos primeiros séculos, a única pena aplicada a aqueles que cometiam erros contra a igreja era a excomunhão – pena aplicada pela liderança da igreja, segundo a qual uma pessoa era excluída da comunidade dos cristãos. [62], [63], [64], [65] Com a institucionalização da igreja, penalidades cada vez mais severas foram se tornando comuns. O imperador romano Teodósio II impôs duras penas para aqueles que não seguiam corretamente a religião oficial do império, a Igreja Católica. As penas eram exílio, confisco de bens e pena de morte. [66], [67]. Mas não ficou por ai, os atos disciplinares foram bem mais longe. Mais tarde, no Concílio de Verona, em 1184, foi instituída a Inquisição, que foi oficializada em 1231. Por todos os lados, havia tribunais da Inquisição para julgarem a vida religiosa das pessoas. Os condenados eram penalizados de alguma forma: Práticas de piedade como orações, jejuns, peregrinações; multas, flagelações, exílio, destruição da casa do condenado, confisco de bens, prisão temporária, prisão perpétua, pena de morte, além de outros procedimentos humilhantes como usar o sambenito e sinais estampados nas suas vestes para desfilar pelas ruas. [68], [69], [70], [71], [72], [73], [74], [75]

 

Entre os protestantes também houve certos exageros. Há quem diga que os tribunais protestantes foram tão severos como a Inquisição católica, causando a morte de muitas pessoas. [76], [77], [78] Entre os puritanos dos Estados Unidos, certa época, quem faltava ao culto dominical podia ser multado ou preso num tronco. [79] Ficar sem tomar a ceia tem sido uma espécie de pena muito comum.

 

Temos que parar com essa mania de querer defender os erros do passado. Não somos responsáveis pelos erros dos hebreus, dos católicos e dos protestantes doutros tempos. Mas quando alguém tenta defendê-los acaba tornando-se cúmplice de suas barbaridades. Eles usaram a religião com os seus métodos nojentos para policiarem as pessoas. Talvez muitos não tiveram a oportunidade para reconhecerem os seus erros. Mas hoje podemos muito bem reconhecer que muitas atitudes foram falhas horríveis que precisam ser descartadas. Todos são livres para pertencerem a qualquer religião ou igreja. Mas todos precisam ter a coragem e a dignidade para não compactuarem com os erros de sua instituição. Quando defendemos coisas, como a Inquisição, corremos o risco de ver esse mal se repetir como uma forma de controle religioso do mundo.

 

Hoje, a disciplina no cristianismo se tornou mais amena. Todavia, ainda há coisas inaceitáveis. Medidas disciplinares são adotadas como se a igreja fosse uma mera instituição. Quando uma pessoa faz parte de uma organização religiosa, seu nome pode ser riscado do rol de membros. Mas se a pessoa faz parte do Reino de Deus, somente Deus pode riscá-lo do livro da vida. Se a igreja não é uma organização religiosa, não podemos excluir pessoas, tampouco podemos aplicar qualquer outro tipo de pena. O julgamento das pessoas, no sentido religioso, pertence somente a Deus. Não cabe ao ser humano, que está sempre errando.

 

Não podemos deixar de denunciar o pecado sempre. Essa é a nossa missão. Mas as condenações pertencem a Deus. Sempre haverá joio e trigo juntos. Somos todos falhos e podemos arrancar o trigo na tentativa de eliminar o joio. A única coisa que podemos fazer é ignorar certas pessoas que insistem em viver mergulhadas em certos erros, mesmo depois de serem exortadas. Mas somente Deus pode aplicar uma pena justa para cada um.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br