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Julgamentos religiosos

Livres dos Fardos Religiosos

 

Ao longo da história, encontramos diversos julgamentos religiosos absurdos. No passado, havia muitos métodos loucos para achar supostos culpados, causando grande inquietação e sofrimento nas sociedades.

 

Julgamento é o ato de julgar, como juiz, através de certos recursos, pessoas acusadas ou situações, gerando conceitos e tomando decisões a respeito delas. [1]

 

Os loucos julgamentos dos velhos tempos eram conhecidos como ordálios. Nesse tipo de julgamento, o acusado, caso não confessasse a sua culpa, era submetido a uma situação de perigo. As pessoas acreditavam que os deuses ou Deus, por meio de um milagre, livrariam ou livraria o inocente dos males que a prova poderia causar. Caso contrário (um absurdo) o acusado sofreria as consequências. [2], [3]

 

 

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Descrição: Afogamento. Data: 17 de novembro de 2011. Autor: Michael N. Erickson. Fonte. Licença CC BY.

De acordo com o código de Hamurabi, religiosamente escrito por volta do século XVIIII a.C., na Babilônia, para decidir se uma pessoa era ou não culpada, ela deveria pular no rio. Se fosse tragada pelas águas, ela levaria a culpa. Caso contrário, seria considerada inocente. Essa idéia bizarra está registrada no artigo 2 desse código. [4], [5], [6] (Se esse tipo de julgamento fosse eficiente, o problema dos corruptos seria facilmente resolvido. Os políticos culpados já estariam afogados, boiando por ai. Mas as coisas não são tão simples assim, por isso, eles continuam nadando no mar de lama.)

 

Na Índia, de acordo com o código de Manu, escrito talvez por volta de 1500 anos antes de Cristo, também de caráter religioso, nos artigos 98 e 99 ou 114 e 115 do livro ou capítulo VIII, conforme a versão, os acusados podiam ser submetidos a uma prova com fogo ou água. Esse ordálio consistia em colocar fogo nas mãos do acusado ou mergulhá-lo na água. Seria considerado inocente aquele que não fosse queimado ou que não se afogasse. Os filhos e a mulher do acusado também poderiam passar pela prova. [7], [8], [9]

 

Os hebreus também tinham, de acordo com a lei de Moisés, seus métodos estranhos para julgar pessoas e situações. Eles, por exemplo, acreditavam que podiam descobrir as possíveis traições de suas mulheres através de alguns procedimentos bizarros. Se o homem hebreu desconfiasse da sua mulher, então, ele a levava ao sacerdote, com uma oferta de farinha de cevada, para ser julgada por ele. O sacerdote colocava água santa num jarro, apanhava terra do chão e misturava na água. Em seguida, a mulher devia concordar com um juramento dito pelo sacerdote. O juramento dizia que, caso a mulher fosse inocente, após beber aquela água, nenhum mal lhe aconteceria. Caso contrário, ela passaria mal. As maldições eram escritas num livro e, em seguida, as palavras escritas eram lavadas dentro do recipiente de água com a mistura de terra. Então, a mulher bebia a água. Se ela se sentisse mal, ela seria considerada adúltera. Caso contrário, seria considerada inocente. (Números 5.11-31.) [10] É interessante como esse ordálio era usada apenas em favor dos homens.

 

Veja essa outra situação, que não era um ordálio, mas era bastante esquisito. Se um homem casasse com uma mulher, e ele, ao coabitar com ela, descobrisse que ela não era virgem, veja como o caso era julgado: “Se um homem casar com uma mulher, e, depois de coabitar com ela, a aborrecer, e lhe atribuir atos vergonhosos, e contra ela divulgar má fama, dizendo: Casei com esta mulher e me cheguei a ela, porém não a achei virgem, então, o pai da moça e sua mãe tomarão as provas da virgindade da moça e as levarão aos anciãos da cidade, à porta. O pai da moça dirá aos anciãos: Dei minha filha por mulher a este homem; porém ele a aborreceu; e eis que lhe atribuiu atos vergonhosos, dizendo: Não achei virgem a tua filha; todavia, eis aqui as provas da virgindade de minha filha. E estenderão a roupa dela diante dos anciãos da cidade, os quais tomarão o homem, e o açoitarão, e o condenarão a cem siclos de prata, e o darão ao pai da moça, porquanto divulgou má fama sobre uma virgem de Israel. Ela ficará sendo sua mulher, e ele não poderá mandá-la embora durante a sua vida. Porém, se isto for verdade, que se não achou na moça a virgindade, então, a levarão à porta da casa de seu pai, e os homens de sua cidade a apedrejarão até que morra, pois fez loucura em Israel, prostituindo-se na casa de seu pai; assim, eliminarás o mal do meio de ti.” (Deuteronômio 22.13-21, RA. Grifo meu.) [11] Como podiam provar, com roupas, que uma moça era virgem até o dia do seu casamento?

 

 

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Descrição: Acã morto a pedradas depois de ser julgado por meio de um sorteio. Data: século XIX. Autor: Gustave Doré (1832-1883)  Fonte e licença domínio público.

Quando Josué e os hebreus estavam conquistando a terra de Canaã, eles foram derrotados pelos moradores da cidade de Ai. A causa da derrota, segundo a crença deles, seria o pecado de alguém. Como julgaram essa situação? Fizeram um sorteio. Todas as tribos foram reunidas, e o sorteio indicou a tribo de Judá. Então, na sequência, foram reunidos os grupos de famílias dessa tribo. O grupo de Zera foi indicado. Depois, as famílias desse grupo foram convocadas, e a família de Zabdi foi sorteada. Então os homens dessa família foram chamados, um por um, e Acã foi indicado.  Então o povo matou Acã e a sua família a pedradas e queimou os corpos com tudo o que ele tinha. (Josué 7.) [12] Você acha justo julgar uma situação por meio de um sorteio?

 

Um dia, quando o rei Saul e os seus soldados estavam em guerra contra os filisteus, ele consultou a Deus dizendo: “Descerei atrás dos filisteus? Entregá-los-ás na mão de Israel?” Como não obteve uma resposta, então imaginou que alguém, entre os seus soldados, havia pecado. Então o que fizeram para julgar quem era o culpado? Fizeram um sorteio, e Jônatas foi sorteado e considerado o culpado. (1 Samuel 14.24-45. A parte entre aspas e da Bíblia RC.) [13]

 

Eles acreditavam tanto que Deus respondia suas dúvidas por meio de sorteios, que o sumo sacerdote até tinham duas pedras destinadas ao julgamento. Essas pedras, conhecidas como Urim e Tumim, eram usadas num método pelo qual o sacerdote, supostamente, podia saber a vontade de Deus. Não ficou bem claro o que exatamente eram. Mas podemos ver que se tratavam de pequenos objetos colocados numa dobra do peitoral, uma espécie de bolso colorido preso às vestes do sumo sacerdote. Possivelmente seriam pedras sagradas, que eram lançadas como dados, para saber uma resposta negativa ou positiva da parte de Deus. Há muitas passagens bíblicas falando sobre isso (Êxodo. 28.30, Números 27.21; 1 Samuel 28.6). [14]

 

Mas os antigos, incluindo os hebreus, também usaram meios mais inteligentes. Desde os tempos remotos, os homens mais velhos, também chamados de anciãos, das tribos primitivas, considerados mais sábios e mais experientes, formavam um conselho, um grupo, que representavam o povo e julgavam muitos casos. Era tradição ouvir a opinião, os conselhos e as decisões desse grupo de idosos na hora de resolver certas questões mais complicadas. [15]. Em muitos lugares, na Bíblia, encontramos também os anciãos de Israel. (Deuteronômio 21:20; 22:15; 22:16; 22:17; 22:18; 25:7; 25:8; 25:9; 27:1; 29:10; 31:9; 31:28; 32:7, etc.) [16], [17], [18], [19], [20], [21]. No tempo de Moisés, foi formado um conselho de 70 anciões. (Números 11.) [22]. Mais tarde, não se sabe exatamente quando, entre os hebreus, foi criado o grande Sinédrio em Jerusalém, que era um tribunal religioso composto de setenta e uma pessoas, incluindo sacerdotes, escribas e anciãos.  Nas demais cidades, foram criados sinédrios menores com 23 juízes. Reunidos, eles julgavam diversas questões criminais, religiosas e administrativas. [23], [24]. Mas é claro que nem tudo era julgado corretamente, como aconteceu com o julgamento de Jesus.

 

E, por falar em Jesus, ele, é claro, não estabeleceu nenhum método esquisito para julgar pessoas. Ele disse, por exemplo, que surgiriam falsos profetas com o objetivo de enganar as pessoas. Como julgar se uma pessoa é falsa ou verdadeira? Não é pela aparência, não é por meio de nenhuma prova maluca, mas pelos frutos. Disse ele: “Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores. Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? Assim, toda árvore boa produz bons frutos, porém a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons. Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo. Assim, pois, pelos seus frutos os conhecereis. (Mateus 7.15-20, RA.) [25] Disse também: “Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça.” (João 7:24, RA.) [26] Uma pessoa pode ter aparência de ovelha e ser um lobo.

 

Ao contrário do que muitos imaginam, a igreja não recebeu de Jesus nenhuma ordem para se tornar um tribunal para julgar pessoas como culpadas ou inocentes. O seu papel é anunciar o evangelho de Jesus a todos, ensinando a todos a obedecer ao que ele mandou. (Mateus 28.19-20; Marcos 16.15.) [27] No entanto, por meio de cristãos sábios, ela pode decidir certas questões difíceis. (Mateus 18.15-17; 1 Coríntios 6.1-6.)

 

No início da igreja, percebemos que os apóstolos quiseram manter a tradição de deixar as pessoas idosas decidirem certas questões complicadas. Então eles resolveram eleger, em cada igreja local, um conselho de anciões, também chamados de presbíteros. “E, havendo-lhes por comum consentimento eleito anciãos em cada igreja, orando com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido.” (Atos 14:23, RC.) [28]. Paulo, escrevendo para o seu cooperador Tito, disse: “Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam e, de cidade em cidade, estabelecesses presbíteros, como já te mandei.” (Tito 1.5, RC.) [29]. Por isso, em toda parte, havia presbíteros, como na região da Judéia, por exemplo. (Atos 11.29-30.) [30]. Esse conselho de idosos recebeu o nome de presbitério. (1 Timóteo 4:14.) [31].  

 

Os apóstolos acharam que certas questões da igreja deveriam ser julgadas por eles, juntamente com os anciões. Assim como os sacerdotes, escribas e anciões de Israel se reuniam para julgar as questões do judaísmo, os apóstolos e os anciões da igreja se reuniam para julgarem os casos mais complicados da igreja. Eles atuavam como uma espécie de juízes das comunidades cristãs. Em Atos 15, vemos os apóstolos se reunindo com os anciões, também chamados de presbíteros, para resolverem se os cristãos deviam ou não seguir certos preceitos da lei de Moisés como a circuncisão, que estava sendo exigida por alguns. [32]. Na assembléia em que os apóstolos se reuniram com os anciões em Jerusalém, ficou decidido que as únicas coisas necessárias em relação à lei mosaica seria: abstenção das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição. (Atos 15.29.) [33]. Mas esse conselho em cada igreja local não era para dominá-la, mas um meio para buscar consenso entre as partes. Suas decisões eram anunciadas, mas não eram impostas por meio de nenhum constrangimento. As decisões do concílio de Jerusalém, por exemplo, foram anunciadas sem nenhum punição para aqueles que não as seguissem. (Atos 15.19, 29.) [34]

 

Com o tempo, a idéia original dos apóstolos foi deturpada. Os anciões da igreja deixaram de ser um conselho de pessoas idosas e idôneas junto às igrejas locais e passaram a ser vistos como líderes sobre o povo. Passaram a ser tratados como supervisores (bispos) e sacerdotes. Então passaram a dominar o povo. [35], [36], [37] Esses continuaram realizando os concílios religiosos para tomar certas decisões. [38] O problema é que eles acabaram se desviando do evangelho original e tomaram decisões erradas com influências judaicas e pagãs.

 

E aquelas bizarrices? Na Europa, durante a Idade Média, segundo as leis dos povos bárbaros que ocuparam o território europeu, depois do fim do Império Romano, era comum o julgamento através de ordálios. Os europeus acreditavam que a divindade protegiam os inocentes de qualquer dano. Caso contrário, a pessoa era tida como culpada. [39], [40] Os ordálios ,mais conhecidos usados nos julgamentos medievais eram:

 

·       Andar cerca de três metros sobre brasas ou segurando uma brasa. Por causa dessas loucas provas de fogo, a nossa querida Wanderléia, de forma figurada, durante a Jovem Guarda, cantava: “Essa é uma prova de fogo. Você vai dizer se gosta de mim”. [41], [42], [43] Isso serviu para inspirar alguns filmes também. [44]

·       Remover uma pedra de uma panela de água fervente, óleo ou chumbo era outro método. O mergulho podia ser até o punho ou até o cotovelo, dependendo do número de acusações. Se a queimadura não se curasse em três dias, a pessoa era considerada culpada. [45]

·       Como nos tempos mais antigos, também jogavam as pessoas na água. [46]

·       Num outro ordálio, o acusado e o acusador estendiam as mãos ao lado de uma cruz e permaneciam assim por um tempo. Se o acusado abaixasse as mãos primeiro, ele era culpado. Caso contrário, era inocente. Brincadeira de criança? Não! Mas foi uma idéia do rei católico Carlos Magno. (Coitado daqueles que tinham músculos fracos ou que não tinham um bom preparo físico.) [47]

 

 

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Descrição: Ordálio em água fervente. Data: Setembro/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

Às vezes uma terceira pessoa era provada, representando o acusado. [48] (Caramba! Tinha que ser um amigão de fé.) Por isso, surgiu o costume de dizer que a gente coloca ou não coloca a mão no fogo por alguém. [49]

 

A Igreja participou dessas loucuras. Nos julgamentos, um padre examinava as queimaduras das pessoas para declará-las como inocentes ou culpadas. Depois, a Igreja arrumou métodos mais brandos como dar pão e queijo secos para o acusado ingerir. Seria considerado inocente caso não se engasgasse. [50]

 

Felizmente, os ordálios foram condenados por alguns papas. [51] Mas não foi o fim dos sofrimentos para as pessoas. No século XIII, em 20 de Abril de 1233, o Papa Gregório IX oficializou a maldita Inquisição ou Santo Ofício, que já vinha sendo colocada em prática desde o século XII. Esse tribunal nojento foi matido por mais de 700 anos, durante o reinado de quase 100 papas, até que o papa Pio X, em 1908, teve a dignidade de acabar com ela. Com a Inquisição, a Igreja virou uma espécie de tribunal eclesiástico e, por meio de métodos anticristãos, como a tortura, julgou milhares de pessoas como culpadas. Não se importaram com os seus frutos, mas julgaram muitas pessoas como bruxas, hereges ou falsas, apenas observando a aparência religiosa de cada uma. Por exemplo: uma pessoa, mesmo tendo as melhores virtudes do mundo era considerada uma herege, caso não acreditasse no dogma da Trindade.[52]

 

Precisamos entender que a igreja não é um tribunal para julgar as pessoas. Temos que ser uma comunidade de pessoas que vivem e anunciam os ensinos de Cristo. Todos têm a liberdade de decidir o que fazer da sua vida. Não podemos julgar ninguém. É Deus quem vai julgar a cada um com toda a sua onisciência e segundo a sua reta e soberana justiça. Chega desses julgamentos bizarros, carregados de crendices, que em vez de revelar um criminoso, geram mais criminosos. Eu não sou louco para colocar a mão no fogo por esse evangelho deturpado.

 

Cuidado! A água, o fogo e a religião têm seus benefícios, mas você poderá se afogar, se queimar ou se perder entre as ondas ou em meio às chamas do fanatismo.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



[40] Igreja Católica -  Encyclopaedia Britannica do Brasil Publicações Ltda.