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Impunidades religiosas

 Livres dos Fardos Religiosos

 

Impunidade é coisa antiga. Muitos políticos e religiosos escaparam de serem punidos. Politicamente, por causa da posição privilegiada. Religiosamente, por causa do temor de alguma divindade que as pessoas têm de julgar um homem ligado à religião.

 

Quando o povo de Israel estava no deserto do Sinai, Moisés subiu ao monte para buscar a Deus e demorou muito lá em cima. O povo ficou impaciente e não quis mais saber do Deus dele. Mandou Arão, irmão de Moisés, fazer um bezerro de ouro fundido para ir à frente deles.

 

 

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Descrição: O bezerro de ouro. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

Arão pegou os brincos de ouro do povo, derreteu-os e derramou o ouro fundido num molde e fez um bezerro de ouro.  Fez também um altar e, no dia seguinte, fizeram uma festa, onde houve holocaustos, ofertas pacíficas, comida, bebida e folgança.

 

Quando Moisés se aproximou do povo, após descer do monte, ficou furioso, vendo a idolatria do seu povo. Queimou o bezerro, moeu-o, colocou o pó dele na água e fez o povo beber. Disse também para quem estivesse ao lado do Senhor para pegar sua espada e praticar a pena de morte, matando irmão, amigo e vizinho, por causa do mal que fizeram. Mas Arão, irmão de Moisés, o primeiro Sumo Sacerdote de Israel, o fabricante do bezerro, não foi punido. (Êxodo 32.) [1] Por quê será? Ele morreu mais tarde no monte Hor. E o motivo da sua morte foi outro. (Números 20.27-29.) [2]

 

Impunidade religiosa é a falta de punição dos erros cometidos no meio religioso. O caso de Arão é um exemplo. A pena de morte certamente foi um absurdo. Aqueles hebreus idólatras poderiam ter ficado vivos como Arão e se converterem da idolatria. Mas todos, incluindo Arão, o fabricante do bezerro, o mais digno de punição, poderiam ter sido disciplinados de outra forma. Porém, muitos foram mortos, e Arão ficou impune.

 

Entre muitas religiões, muitos abusos já foram cometidos. Muitas vezes, por causa da posição, muitos não foram punidos. A cegueira religiosa muitas vezes não deixa as pessoas verem os males cometidos e, por isso, não punem os responsáveis. Preconceitos, discriminações, assassinatos, chacinas, guerras, raptos, abusos sexuais e muitos outros crimes têm ficado sem punição.

 

 

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Descrição: O bezerro de ouro. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

Em II Samuel, nos capítulos 11 e 12, vemos o caso Bate-Seba, envolvendo Davi, o famoso rei do povo de Israel. O texto diz que, numa tarde, Davi, foi passear no terraço da sua casa real. De lá de cima, ele avistou uma mulher muito formosa. Procurou saber quem era ela e descobriu que era Bate-Seba, a mulher de Urias, um dos seus soldados, que estava na guerra. Então Davi enviou homens para buscá-la. Ela foi trazida a Davi, e ele teve relações sexuais com ela. (Será que ela foi raptada e estuprada, ou ela estava querendo isso mesmo?) Passado alguns dias, aquela mulher enviou uma noticia para Davi dizendo que estava grávida dele. Davi então mandou uma carta a Joabe, o chefe do seu exército, dizendo para colocar Urias na linha de frente, onde a luta era mais pesada e que o deixasse ali para que ele fosse morto. Assim foi. [3] Os versículos 16 a 18 do capítulo 11 dizem: “Tendo, pois, Joabe sitiado a cidade, pôs a Urias no lugar onde sabia que estavam homens valentes. Saindo os homens da cidade e pelejando com Joabe, caíram alguns do povo, dos servos de Davi; e morreu também Urias, o heteu. Então, Joabe enviou notícias e fez saber a Davi tudo o que se dera na batalha.” (RA.) [4] E os versículos 26 e 27 do mesmo capítulo relatam: “Ouvindo, pois, a mulher de Urias que seu marido era morto, ela o pranteou. Passado o luto, Davi mandou buscá-la e a trouxe para o palácio; tornou-se ela sua mulher e lhe deu à luz um filho. Porém isto que Davi fizera foi mal aos olhos do SENHOR.” (RA) [5]

 

Davi cometeu um possível rapto, seguido de um possível estupro. Caso a mulher tenha ido com o seu consentimento, pelo menos eles cometeram um adultério. Na sequência, houve ainda um homicídio qualificado. De acordo com a lei de Moisés, ele deveria ser punido com a pena de morte. Em Levítico 20.10 está escrito: “Também o homem que adulterar com a mulher de outro, havendo adulterado com a mulher do seu próximo, certamente morrerá o adúltero e a adúltera.” (RC.) [6] Havia também a mesma pena para quem cometesse homicídio. (Êxodo 21.12; 14; Levítico 24.17; 21; Número 35.16-21.) [7] Mas ele permaneceu vivo ao lado da sua nova mulher. (Será que existia imunidade real?) Adultério e homicídio, além de um aparente rapto e um possível estupro, nada disso serviu para incriminar aquele homem majestoso. Como acontece ainda hoje em dia, muitas vezes, a punição ficam apenas para os mais fracos. Há penas para os fracos. Para os poderosos, nem sempre.

 

O mundo tem assistido milhares de casos de pedofilia praticados por líderes católicos. Muito deles, muitas vezes, são transferidos de um lugar para outro. Muitos casos foram abafados. A cúpula, muitas vezes, não agiu com seriedade e deixou de punir os responsáveis. A falta de punição fez com que o número de padres pedófilos aumentasse consideravelmente. Virou uma epidemia social e religiosa em todo o mundo. (Por que a Igreja têm deixado os seus líderes impunes?)

 

É Deus que vai julgar as pessoas. Não somos nós. Todavia, algumas pessoas que ocupam certos cargos dentro das religiões não podem viver de qualquer maneira, dando maus exemplos para a sociedade. Certos crimes têm que ser castigados, não com as penas antigas, mas de acordo com a justiça atual. E as religiões têm que destituir essas pessoas dos seus cargos. Não pode haver impunidade religiosa.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br