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Execuções religiosas

Livres dos Fardos Religiosos

 

Depois de julgadas e condenadas, muitas pessoas, discriminadas ao extremo, receberam, de presente, a maior dose do ódio religioso: a morte trágica.

 

 

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Descrição: Queima de Joana d’Arc, Panthéon de Paris. Data: 1889. Autor: Jules Eugène Lenepveu (1819-1898). Reprodução: Tijmen Stam (IIVQ). Data da foto: 11 de fevereiro de 2007. Fonte.  Licença CC BY-SA.

Na Praça do Mercado Velho, na cidade de Rouen, na França, despontou o sol do dia 30 de maio de 1431. Mas a cristandade, religiosamente falando, estava na idade das trevas, distante da luz do mundo. Naquele dia, se apagou, nas chamas brilhantes de mais uma fogueira da Inquisição, o belo rosto de Joana d’ Arc. A  “Donzela de Orléans”, como era chamada, tinha um carisma especial. Por isso, foi tratada como uma bruxa e uma herege e acabou sendo vítima de mais uma execução religiosa, promovida pelo fervoroso bispo Pierre. Foi mais um “churrasco” preparado pela santa madre Igreja, que, mais tarde, reconheceu a asneira praticada e transformou a supliciada numa santa. [1], [2], [3], [4], [5] Meus Deus, que “tenebrosi temporis”!

 

Em 1561, na região dos Países Baixos, Walter Kapell, um homem benevolente e muito querido dos pobres, foi queimado numa estaca porque tinha idéias diferentes dos dogmas da igreja oficial. Um pobre doente mental, ao ver aquela cena medonha, disse para os carrascos: “Sois assassinos sangrentos; esse homem não fez nada de errado, e me dava pão para comer.” Depois de dizer essas palavras, ele pulou no meio das chamas para morrer com o amigo. Mas foi socorrido.

 

Outro dia, ele foi visitar o local da execução e encontrou o resto do esqueleto de Walter. Ele pegou aqueles restos mortais em seus ombros e levou para o lugar, onde estavam os magistrados sentados em uma sessão. Colocou o esqueleto enfumaçado aos pés deles e disse: “Seus assassinos! Vocês comeram a carne dele, agora comam os ossos!” [6], [7], [8]

 

No século XV, outro exemplo triste dessas atrocidades. O sacerdote e reformador Jan Hus (João Huss) na Boêmia, na cidade de Praga, viu a praga da intolerância religiosa cair sobre ele. Por não ter concordado com os desvios do catolicismo, foi condenado à morte numa fogueira. Enquanto as chamas ardentes o consumiam, Hus cantava seu último “Kyrie eleison”: "Cristo, Tu o Filho do Deus Vivo, tenha clemência de mim". [9], [10], [11]

 

Execução religiosa é a aplicação da pena de morte envolvendo a religião. [12] Foi o que aconteceu com Joana, Walter e Hus. Houve várias execuções desse tipo, na história das religiões. Como aquele pobre, ficamos indignados. Vamos ver alguns exemplos.

 

Um hebreu no tempo de Moisés.

Século XIII ou XV a.C.

Crime religioso: apanhou lenha no dia de sábado.

Execução: foi assassinado a pedradas, fora do acampamento, por uma multidão de judeus seguidores da religião mosaica, que procuraram cumprir o que determinava as suas leis religiosas. (Números 15.32-36.) [13]

 

Filósofo Sócrates.

Início do século IV a.C., na Grécia.

Crime religioso: não fez caso dos deuses oficiais gregos do seu Estado.

Execução: envenenado com cicuta. [14], [15]

 

Chineses confucionistas.

Século III a. C., na China.

Crime religioso: conheciam os textos sagrados do confucionismo de memória.

Execução: o imperador Qin Shi Huangdi, para acabar com a tradição feudal, mandou queimar todos os livros sagrados e matar os confucionistas que tinham conhecimento desses livros.[16], [17]

 

Jesus Cristo.

Século I, em Jerusalém.

Crime religioso: pregou mensagens diferentes da religião dos judeus.

Execução: foi pregado vivo numa cruz, onde ficou pendurado, sangrando, até morrer. Sua execução foi promovida pelos líderes religiosos judeus. [18]

 

 

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Descrição: Apedrejamento de Estêvão. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

Estevão.

Século I.

Crime religioso: foi seguidor de Jesus.

Execução: condenado à morte pelo Sinédrio, o maior tribunal religioso dos judeus. Foi apedrejado por uma multidão de religiosos histéricos. (Atos 7.54-60.) [19]

 

Bispo hispano-romano Prisciliano.

Século IV, em 385.

Crime religioso: Seguir crenças e práticas religiosas diferentes do catolicismo.

Execução: decapitado depois de ter sido condenado no concílio de Saragoça e considerado um herege. Com ele, seus seguidores Felicíssimo, Armênio, Eucrócia, Latroniano, Aurélio e Asarino também foram executados. [20]

 

Político e escritor Thomas More (Tomás Morus).

Século XVI, Inglaterra.

Crime: não aceitou a ruptura do rei Henrique VIII com a Igreja Católica e não o reconheceu como o chefe supremo da Igreja Anglicana.

Execução: teve a cabeça cortada (decapitação). [21], [22]

 

Arcebispo Anglicano Thomas Cranmer.

Século XVI, Inglaterra.

Crime: não apoiou o catolicismo proposto pela rainha católica Maria I (Maria Tudor).

Execução: queimado numa fogueira. [23]

 

Filósofo, religioso e astrônomo Giordano Bruno.

Ano 1600, na Praça do Campo das Flores, em Roma.

Crime: teve pensamentos diferentes dos dogmas e crenças católicas.

Execução: morte na fogueira. [24]

 

Dramaturgo luso-brasileiro Antônio José da Silva (o Judeu).

Século XVIII, Lisboa, Portugal.

Crime: ser judeu.

Execução: morte na fogueira. [25]

 

Houve muitos outros casos de execuções religiosas ao longo da história, em diversas religiões, em todo o mundo. [26] Como podemos ver, muitas execuções foram arrepiantes, e as causas foram muito absurdas. Qualquer execução, até mesmo as mais simples, são muito piores do que os supostos crimes religiosos cometidos por esses diversos mártires.

 

A humanidade precisa deixar de lado a hipocrisia. De que adianta cultivar uma religião que não respeita a liberdade religiosa, a liberdade de pensamento e de crença dos outros? Devemos respeitar as diversas religiões do mundo. Mas não podemos concordar com atitudes autoritárias como essas. Religião ou igreja que tira vidas não parece ser de Deus.

 

Pelo amor de Deus! Vamos semear amor e vida. Vamos apagar as chamas do ódio.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br