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Condenações religiosas de inocentes

Livres dos Fardos Religiosos

 

Além de absurdas, muitas penas religiosas foram aplicadas a diversas pessoas inocentes, que não tinham nada a ver com os crimes ou supostos crimes religiosos.

 

 

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Descrição: Acã morto a pedradas depois de ser julgado por meio de um sorteio. A sua família, além de ser apedrejada, foi queimada também. Data: século XIX. Autor: Gustave Doré (1832-1883)  Fonte e licença domínio público.

Quando Josué preparava os hebreus para atacarem a cidade de Jericó, ele deu a ordem para que ninguém pegasse nada daquele lugar para si. Quase tudo ali deveria ser destruído, menos uma prostituta chamada Raabe e a sua família, porque ela havia protegido os espiões que antes tinham passado por lá, ficando algum tempo, certamente, libidinoso, na sua casa. Os objetos de prata, ouro, bronze e ferro que seriam saqueados daquela cidade teriam que separados para Deus. Foi o que eles fizeram. Mas um dos homens chamado Acã desobedeceu à ordem e pegou para si uma capa babilônica, duzentos siclos de prata e uma cunha de ouro e escondeu tudo em sua tenda.

 

Mais adiante, quando foram conquistar a cidade de Ai, eles foram derrotados. A causa da derrota seria o pecado de alguém. Então, depois de um sorteio, descobriram o que Acã havia feito. Então Josué e o povo o pegaram, juntamente com as coisas que ele havia apanhado da cidade de Jericó, os seus filhos e filhas, os seus bois, jumentos, ovelhas, a sua tenda e tudo mais que ele possuía e levaram tudo para um vale. Mataram Acã a pedradas. Também apedrejaram e queimaram a sua inocente família com tudo o que ele tinha. E puseram em cima do seu corpo morto um montão de pedras (Josué 2; 6; 7.) [1]

 

Condenação religiosa de inocente é o ato de condenar uma pessoa sem culpa por causa dos erros de outro ou por causa de um crime que nunca existiu. Suponhamos que Acã realmente merecesse a pena de morte. Mas e a sua família? O que a sua mulher, os seus filhos e os seus animais tinham a ver com isso?

 

O Código de Hamurabi, de caráter religioso, também previa a pena de morte para pessoas inocentes. Se uma casa fosse mal construída e causasse a morte do filho do proprietário dela, então o filho do construtor daquela casa seria condenado à morte. O filho do construtor, que não tinha nada a ver com o trabalho mal feito do pai, acabava perdendo a vida, inocentemente. [2]

 

A lei de Moisés diz: “Os pais não morrerão pelos filhos, nem os filhos, pelos pais; cada qual morrerá pelo seu pecado.” (Deuteronômio 24.16, RC.) [3] Mas na prática não foi assim. No caso que acabamos de ver, por causa do pecado de um homem, toda a sua família e os seus animais foram mortos. Muito estranho! Uma chacina por causa do erro de um homem. Se a pena de morte devia ser aplicada, essa não teria que ser aplicada apenas a Acã, que tinha cometido um erro?

 

Há outros casos semelhantes na história religiosa. Quando os hebreus estavam caminhando pelo deserto, vindo do Egito, em busca da terra de Canaã, eles foram cercados pelos amalequitas, uma tribo de nômades que vagavam no sul da Palestina. (Êxodo 17.8-16.) [4] Alguns séculos depois, o profeta Samuel, em nome de Deus, deu uma ordem para o rei Saul atacar os amalequitas e destruir completamente tudo que fosse deles. Era para ele matar homens e mulheres, meninos e crianças de peito, bois e ovelhas, camelos e jumentos. Por quê? Porque os antepassados dos amalequitas, alguns séculos antes, havia lutado contra o povo de Israel no deserto. Todas as pessoas inocentes desse povo, até mesmo as criancinhas, foram assassinadas por causa do erro praticado pelos seus ancestrais, vários séculos, muito antes do tempo do rei Saul. (I Samuel 15.) [5]

 

 

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Descrição: A carnificina provocada por Davi e os gibeonitas. Rispa, a mãe de dois deles, ficou perto dos cadáveres evitando que os animais devorassem os corpos. (Sinistro! Muito macabro!) Data: século XIX. Autor: Gustave Doré. Fonte e licença Domínio Público.

Num dos livros do profeta Samuel encontramos outro exemplo. “E houve, em dias de Davi, uma fome de três anos, de ano em ano; e Davi consultou ao SENHOR, e o SENHOR lhe disse: ‘É por causa de Saul e da sua casa sanguinária, porque matou os gibeonitas.’” (II Samuel 21.1, RC.) [6]

 

Esse povo era um pequeno grupo de pessoas que os israelitas tinham prometido proteger. (Josué 9.) [7] Mas Saul havia tentado acabar com eles.

 

Davi chamou os gibeonitas e perguntou o que ele podia fazer por eles. Eles pediram sete pessoas descendentes de Saul para serem enforcadas diante de Deus. Davi então entregou sete homens inocentes da família de Saul. Eles foram enforcados num monte, em Gibeá. Sete inocentes morreram enforcados por causa do erro do rei Saul. (II Samuel 21.2-14.) [8]

 

Como será que Davi consultou a Deus e como foi que Deus lhe respondeu? Podemos perceber que o diálogo de Davi com Deus não foi exatamente o que parece. Tudo tem aparência de crendice.

 

A parir do século XIII, com a Inquisição, duras penas foram aplicadas em milhares de pessoas. Além das penas serem injustas, muitas pessoas eram inocentes. Há quem diga que até os descendentes de muitos dos condenados sofreram vários tipos de penas por algumas gerações como, não andar a cavalo, não usar seda, etc. [9], [10]

 

O astrônomo italiano Galileu Galilei, em 1633, foi pego pela Inquisição porque afirmava, como todos sabem hoje em dia, que a Terra e os demais planetas giram em torno do Sol. Mas a Igreja ensinava que tudo girava em torno da Terra. Por causa disso, Galileu foi acusado de heresia pela Inquisição e recebeu, como pena, a prisão perpétua. E o mundo foi girando, até que em 1992, depois que o nosso planeta azul deu 359 giros em torno do Sol, o papa João Paulo II reconheceu que a condenação desse cientista tinha sido um erro. (Demorou! O que faziam os papas, ex-cathedra, há mais de três séculos e meio?) O velho cientista estava certo. Foi condenado, inocentemente, por causa de uma verdade que a igreja ignorava. [11], [12], [13]

 

O velho sábio Salomão escreveu: “E nasce o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu lugar, de onde nasceu.” (Eclesiastes 1:5, RC .) Isso é uma verdade aparente. A realidade verdadeira é que esse astro de luz própria apenas é ocultado e, depois, descoberto pelo movimento de rotação da terra, quando, no espaço de vinte quatro horas ou um dia, ela dá um giro completo em torno do seu próprio eixo, dando a impressão que os demais astros é que estão girando em torno dela. [14] Diante dessa impressão e com textos bíblicos, escritos com essa mesma idéia, a Igreja não pensou que o papa, “infalível”, em sua cadeira pontifical, perderia para um velho cientista. E o pobre acabou vendo o “sol nascer quadrado” o resto da sua vida.

 

Note bem: a Igreja criou uma série de dogmas que são ensinados para as pessoas. Aqueles que se tornam cristãos, mas não aceitam esses dogmas ou não os aceitam completamente, na íntegra, são tratados como hereges. Essas pessoas, no passado, foram condenadas de diversas formas. Esses dogmas são artigos de fé, baseados em textos da Bíblia, interpretados com uma boa dose de hermenêutica e exegese. Não são doutrinas cientificamente comprovadas. Assim como a Igreja errou no caso de Galileu, sobre questões planetárias visíveis, imagine quantos erros não devem existir nas questões espirituais. Agora imagine quantos inocentes, como Galileu, foram penalizados por causa de simples questões de fé que podem ser meros equívocos.

 

A igreja Católica e o judaísmo praticaram muitas coisas absurdas no passado. Hoje não podemos condenar os católicos e os judeus atuais por tudo que aconteceu há anos atrás. Os adeptos da Igreja e do judaísmo de hoje não têm nada a ver com os crimes religiosos do passado. Milhões de católicos e judeus foram e são inocentes. Jamais tiveram ligações com certos erros religiosos graves. Não podemos perseguir e nem discriminar ninguém por isso. Apenas devemos deixar bem claro que ninguém deve louvar ou defender os crimes da Igreja e do judaísmo ou de qualquer outra religião.

 

A humanidade precisa acordar e parar de condenar pessoas inocentes. O profeta Ezequiel, há mais de quinhentos anos antes de Cristo já dizia: “A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a maldade do pai, nem o pai levará a maldade do filho; a justiça do justo ficará sobre ele, e a impiedade do ímpio cairá sobre ele.” (Ezequiel 18.20, RC.) [15] Hoje nem sequer devemos praticar a pena de morte por causa de supostos erros religiosos. Por isso, mais do que nunca, devemos trilhar o caminho da verdadeira justiça.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br