Apologia religiosa do crime

Livres dos Fardos Religiosos

 

Muitos pregadores, sem escrúpulos, tentam retirar, de certos trechos criminosos da Bíblia, uma mensagem que, na verdade, acabam se tornando uma espécie de apologia do mal.

 

Chamo de apologia religiosa do crime qualquer discurso proferido em público, gravado ou escrito ou qualquer arte que sirva para louvar, justificar ou defender fatos criminosos ou o autor de algum crime.

 

Na Bíblia, em I Samuel 25.2-44, temos uma história envolvendo: Nabal, Abigail, Davi e o seu bando. [1]

 

 

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Descrição: Afresco ”Assunção de Maria”, mostrando várias pessoas, entre elas, Davi e Abigail, juntos sobre uma nuvem, num ambiente divino. Data: 1743. Autor: Joseph Ignaz Mildorfer (1719-1775). Data da foto: 04 de junho de 2011. Autor da foto: Wolfgang Sauber. Fonte. Licença CC BY SA

Nabal era um homem rico. Tinha três mil ovelhas e mil cabras. A sua esposa se chamava Abigail. Ela era muito formosa. Ele era mau e grosseiro. Como muitos já sabem, Davi foi ungido pelo profeta Samuel para ser o rei dos hebreus, no lugar de Saul. (I Samuel 16.13-15.) [2] É claro que o antigo rei não gostou nada de saber que o jovem Davi tinha sido ungido para ocupar o seu lugar. Por causa disso, o rei Saul resolveu perseguir Davi. (I Samuel 19.) Então ele, Davi, fugiu da presença de Saul e formou um grupo de quatrocentos homens que se achavam em aperto, endividados e amargurados de espírito. (I Samuel 22.1-2.) [3] Ele e o seu bando de quatro centenas de homens atacavam as pessoas, matavam homens e mulheres e depois saqueavam suas ovelhas, bois, jumentos, camelos e vestuários. (I Samuel 27.8-11.) [4]

 

Um dia, Nabal estava tosquiando as suas ovelhas num lugar chamado Carmelo. Davi soube que ele estava lá. Então enviou dez rapazes do seu grupo até ele pedindo uma ajuda. Mas Nabal disse: “Quem é Davi, e quem é o filho de Jessé? Muitos são, hoje em dia, os servos que fogem ao seu senhor. Tomaria eu, pois, o meu pão, e a minha água, e a carne das minhas reses que degolei para os meus tosquiadores e o daria a homens que eu não sei donde vêm?” (RA.)

 

Então os rapazes de Davi se puseram a caminho e, voltando, vieram anunciar-lhe todas estas palavras. Davi não suportou as palavras ditas por Nabal. Pediu que cada um dos seus homens pegasse a sua espada. Ele também pegou a sua espada, e foram atacar a propriedade de Nabal. Ele disse que destruiria tudo que fosse daquele homem. Não deixaria nenhum varão sobrando.

 

Abigail, a linda mulher de Nabal, ficou sabendo e preparou rapidamente uma porção grande de comida e foi ao encontro de Davi e procurou apaziguá-lo. Davi desistiu de atacar Nabal. Quando este ficou sabendo do fato, sofreu um ataque e ficou paralisado. Alguns dias depois, estranhamente, ele morreu. Então Davi levou a viúva formosa para ser sua mulher. (I Samuel 25.2-44). [5]

 

Resumindo, os seus crimes, nessa época, foram: formação de quadrilha, latrocínio, que é roubo à mão armada, homicídios e tentativa de homicídios. Como ele e o seu bando eram assassinos, e ele ficou com Abigail, a mulher de Nabal, então, tudo indica que ele seja o autor da morte misteriosa desse homem. Não há nada de bom para se aproveitar nesses atos de Davi. Nada encontramos aqui que possa estar em harmonia com o evangelho puro.

 

Jesus disse: “Ouvistes que foi dito: ‘Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo’.” (Mateus 5.43, RA.) [6] Moisés deixou escrito, em sua lei: “Não se vingue, nem guarde ódio de alguém do seu povo, mas ame os outros como você ama a você mesmo.” (Levítico 19.18, NTLH.) [7] Mas, na prática, não era assim. A vingança era muito comum, como podemos ver no caso Nabal. Por isso, os escribas ensinavam que devemos amar o próximo, mas que devemos odiar os nossos inimigos. [8] Todavia, Jesus concluiu dizendo: ”Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem.” (Mateus 5.44, RA.) [9] Paulo, seguindo o pensamento de Jesus, escreveu: “Meus queridos irmãos, nunca se vinguem de ninguém; pelo contrário, deixem que seja Deus quem dê o castigo.” (Romanos 12.19, NTLH.) [10] Mas o pintor Joseph Ignaz Mildorfer, ofuscado pela religiosidade, sem consciência do verdadeiro evangelho, no afresco ”Assunção de Maria”, numa igreja em Hafnerberg, na Baixa Áustria, mostra várias pessoas no céu, cercadas de anjos, num ambiente místico e divino, entre elas, Davi e Abigail, juntos sobre uma nuvem celestial. Esse artista fez uma obra espetacular, mas não levou em consideração a fúria vingativa de Davi sobre Nabal e sobre pessoas inocentes e uma suspeita grave de um crime. [11], [12] Essa arte, carregada de aspectos divinos, inconscientemente, acaba fazendo apologia do crime. A vingança de Davi não combina, nem de longe, com o evangelho do perdão proposto por Jesus.

 

Certo pregador, tentando mostrar que Deus condena as pessoas más, resolveu fazer uma ilustração, usando o caso Nabal. Na verdade, ingenuamente, a sua pregação foi uma verdadeira apologia do crime cometido por Davi e os seus homens. Jamais os atos de Davi, nesse caso, podem ser usados para ilustrarem o julgamento justo de Deus.

 

E por falar em Davi e a sua quadrilha (sem eufemismo, por favor!) ouvi um pregador dizendo que esse rei, antes de ocupar o trono, fora treinado por Deus, liderando quatrocentos homens. (Que barbaridade!) Seguindo esse raciocínio, esses que formam facções por ai poderão pensar a mesma coisa.

 

Muitos exaltam Davi como um grande homem de Deus. Ouvindo certos pregadores, até parece que esse homem foi uma grande fonte de bênçãos. Mas quando vemos a sua história, não é bem assim. Encontramos, em suas obras, além do que já vimos anteriormente, um monte de crimes dos mais horrendos. Por exemplo:

 

·       Um dia, Davi e os seus homens mataram 200 filisteus e retiraram deles o prepúcio para entregar para o rei Saul. Essa grande chacina foi para cumprir um trato que fizera com o rei, que lhe oferecera a sua filha Mical para ser sua mulher. (I Samuel 18.25-27.) [13]

·       Outro dia, quando já era rei, raptou uma mulher casada com quem cometeu um adultério, provavelmente um estupro, dentro do seu palácio. Em seguida, armou um plano para matar o seu marido. Depois que o seu marido morreu, Davi buscou a viúva e fez dela mais uma de suas mulheres. (II Samuel, capítulos 11 e 12.) [14]

·       Certa vez, ele colocou as suas dez concubinas presas numa casa vigiada, como se fossem bandidas. Ali elas ficaram encarceradas até o dia da sua morte, vivendo como viúvas, no cárcere privado. (II Samuel 20.3.) [15]

·       Já quase na hora da sua morte, deu instruções para o seu filho Salomão assassinar mais duas pessoas: Joabe e Simei. (I Reis 2.1-12.) [16]

 

Esses são alguns exemplos. Ele cometeu ainda outras coisas horríveis.

 

Escritores bíblicos têm exaltado o nome de Davi. Muitos pregadores têm feito a mesma coisa. Muitos que se dizem cristãos são, na verdade, “davidianos”. Esse louvor constante, dado a uma pessoa, com uma ficha criminal desse tipo, não serve para induzir muita gente ao crime?

 

O Antigo Testamento está recheado de coisas boas, mas também está infestado de coisas más. Encontramos nele diversos crimes terríveis como se fossem aprovados por Deus. Isso tudo, quando é tratado como a palavra de Deus para nós, acaba se tornando um incentivo ao crime. Fatos e mandamentos do Antigo Testamento, às vezes, combinam com o evangelho, mas, em muitos casos são uma grande contradição. Veja, a seguir, alguns exemplos.

 

Em Levítico 21.16-24, encontramos algumas palavras discriminatórias em nome de Deus. De acordo com o texto, pessoas com necessidades especiais e alguns tipos de doenças não podiam realizar certas tarefas no templo. São elas: pessoas cegas, coxas, de nariz chato, de membros demasiadamente compridos, com o pé ou a mão quebrados, corcundas, anões, com belida (mancha esbranquiçada na córnea), com sarna, impigens ou com testículo lesado. [17] Será que Deus, criador de todas as coisas, discrimina as pessoas? Textos religiosos como esse será que não estimulam a discriminação? Isso combina com o que Jesus ensinou?

 

O profeta Samuel disse para o rei Saul, em nome de Deus, para ele atacar os amalequitas, procurando destruí-los completamente, não poupando ninguém, porém matando a todos: homens e mulheres, meninos e crianças de peito, bois e ovelhas, camelos e jumentos. O motivo seria uma vingança, pois os atepassados desse povo havia lutado com os hebreus no deserto. (I Samuel 15.2-3, Êxodo 17.8-16.) [18], [19] Isso não incentiva os outros a cometerem vinganças em cima de pessoas inocentes? Como podemos encaixar esse absurdo no evangelho?

 

Deuteronômio 7.5-6, se referindo à religião dos povos da terra de Canaã, diz: “Porém assim lhes fareis: derribareis os seus altares, quebrareis as suas colunas, cortareis os seus postes-ídolos e queimareis as suas imagens de escultura. Porque tu és povo santo ao SENHOR, teu Deus; o SENHOR, teu Deus, te escolheu, para que lhe fosses o seu povo próprio, de todos os povos que há sobre a terra.” (RA.) [20] Será que isso não serve para promover a intolerância religiosa, atos de vandalismos, vilipêndio, chauvinismo, que o nacionalismo exagerado? Jesus mandou pregar o seu evangelho em todo o mundo, mas nunca mandou ninguém promover coisas dessa natureza. (Mateus 28.19-20.) [21]

 

Em Deuteronômio 20.16-17 lemos: “Porém, das cidades destas nações que o SENHOR, teu Deus, te dá em herança, não deixarás com vida tudo o que tem fôlego. Antes, como te ordenou o SENHOR, teu Deus, destruí-las-ás totalmente: os heteus, os amorreus, os cananeus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus.” (RA.) [22] Os hebreus promoveram muitas guerras. Deus até foi chamado de homem de guerra. (Êxodo 15.3.) [23] Muitos pregadores, friamente, pregam exaltando as guerras dos hebreus. Cegamente, acabam fazendo apologia das guerras, dos genocídios e da xenofobia (aversão a pessoas estrangeiras). Jesus não promoveu coisas desse tipo.

 

Deuteronômio 21.10-14 diz: “Quando saíres à peleja contra os teus inimigos, e o SENHOR, teu Deus, os entregar nas tuas mãos, e tu deles levares cativos, e vires entre eles uma mulher formosa, e te afeiçoares a ela, e a quiseres tomar por mulher, então, a levarás para casa, e ela rapará a cabeça, e cortará as unhas, e despirá o vestido do seu cativeiro, e ficará na tua casa, e chorará a seu pai e a sua mãe durante um mês. Depois disto, a tomarás; tu serás seu marido, e ela, tua mulher. E, se não te agradares dela, deixá-la-ás ir à sua própria vontade; porém, de nenhuma sorte, a venderás por dinheiro, nem a tratarás mal, pois a tens humilhado.” (RA.) [24] Uma orientação desse tipo não incentiva a prática da guerra, do cativeiro e do abuso sexual de mulheres cativas? Onde Jesus ensinou tais coisas?

 

Em Êxodo 21.20-21: “Se alguém ferir com bordão o seu escravo ou a sua escrava, e o ferido morrer debaixo da sua mão, será punido;  porém, se ele sobreviver por um ou dois dias, não será punido, porque é dinheiro seu.” (RA.) [25] Esses versículos incentivam o uso do trabalho de escravos e da violência contra eles com pauladas. Eles só não podiam morrer antes de um dia, após a pancadaria, senão o dono seria castigado. Outros textos fazem apologia do trabalho escravo como Levítico 25.44-46 e Êxodo 21.2-8. [26] Outro absurdo que passa longe do Mestre que pregou o respeito ao próximo.

 

A Bíblia diz: “Formou o rei Salomão uma leva de trabalhadores dentre todo o Israel, e se compunha de trinta mil homens.” (I Reis 5.13, RA.) [27] “A razão por que Salomão impôs o trabalho forçado é esta: edificar a Casa do SENHOR, e a sua própria casa, e Milo, e o muro de Jerusalém, como também Hazor, e Megido, e Gezer”. (I Reis 9.15, RA). [28] Como podemos combater o trabalho escravo ou até mesmo os salários injustos enquanto houver discursos religiosos exaltando os feitos de Salomão?

 

Jesus, por causa da suas mensagens contra a religiosidade dos judeus, foi condenado à morte numa cruz. Numa linguagem figurada, o seu corpo e sangue, na cruz, por causa da sua mensagem, acabaram virando, simbolicamente falando, um sacrifício agradável a Deus. Não é o assassinato de Jesus que literalmente agradou a Deus. Mas a sua coragem de dizer a verdade sem se importar com a morte. Essa sua coragem de dizer a verdade mesmo sabendo que poderia receber a pena de morte promovida pelos religiosos judeus foi um sacrifício bom para todos nós, senão todos ainda estaríamos prisioneiros das maldades dos velhos tempos atreladas a alguma religião absurda. [29] Mas do jeito que muitos pregam sobre a sua morte, dá a impressão que Deus é um deus sanguinário, que gosta de assassinato bárbaro, que ama o homicídio de tal maneira que deu o seu único filho para ser crucificado e ver seu sangue correr pelo madeiro abaixo. Se fosse assim, seus acusadores, caluniadores, traidores, condenadores e torturadores teriam feito um favor para todos nós.

 

Muitos têm judaizado o evangelho puro de Jesus, voltando para o velho Testamento, baseando suas mensagens em textos criminosos daqueles antigos homens selvagens. A Igreja, como os antigos hebreus, se infiltrou pelo caminho da discriminação, do preconceito, da intolerância, da pena de morte, da guerra e outros males. Por exemplo: já ouvi muitos pregadores e cantores exaltando a fé de Abraão ao tentar sacrificar o seu filho Isaque para Deus, que seria morto com um cutelo e queimado num monte. (Gênesis 22.) [30] Foram criadas esculturas e pinturas de vários tipos sobre esse perigoso exemplo de fé praticado por Abraão e que se encontram em algumas igrejas. [31]

 

 

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Descrição: Triunfo do cristianismo sobre o paganismo. Data: século XVI. Autor: Tommaso Laureti Siciliano (c. 1530 -1602). Reprodução: Jean-Pol GRANDMONT. Data: não definida. Fonte e obra completa. Licença CC BY-SA.

Outra arte religiosa que chama a atenção é um fresco representando o triunfo do cristianismo sobre o paganismo, na sala de Constantino, no Palácio do Vaticano. A cena mostra, jogado pelo chão, um corpo todo esquartejado, representando os pagãos ou ídolos pagãos, derrotados pela Igreja.

 

No mesmo palácio, ainda podemos ver “A Batalha da Ponte Mílvia”, lembrando a vitória do imperador romano Constantino sobre o seu rival Maxêncio em 312, na referida ponte sobre o rio Tibre, na Itália, e a “A Batalha de Ostia”, lembrando a batalha naval de 849 entre sarracenos (islâmicos) e uma liga cristã. Essas artes sacras porventura não fazem apologia das guerras, contrariando o ideal de paz pregado por Cristo? [32], [33], [34], [35]

 

Precisamos rever nossos velhos livros sagrados, as nossas religiões e igrejas, nossas artes e todas as mídias religiosas. Há muitos discursos, onde pessoas, cegadas pela religiosidade, acabam cometendo esse tipo de apologia. Precisamos acordar! Não podemos mais usar o nome de Deus tentando justificar tantas barbaridades. Não mudaremos o mundo com esse evangelho estranho. Voltemos ao evangelho puro do homem simples da Galiléia, que pregou o respeito ao próximo.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br