Teologia da prosperidade

Livres dos Fardos Religiosos

 

Nos Estados Unidos, o estado do Arizona tem, em seu emblema, a seguinte frase em latim: “Ditat Deus”. Traduzido quer dizer: Deus enriquece. [1] Muitos americanos, tipicamente protestantes, acreditam que Deus enriquece as pessoas. Foi nessa terra do Tio Sam que cresceu a teologia da prosperidade, hoje em dia, bastante divulgada em muitas igrejas. [2], [3], [4]

 

 

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Descrição: Money. Data: 08/11/2010. Autor: 401K 2012.  Fonte. Licença CC BY-SA.

Teologia da prosperidade é a doutrina que prega que o verdadeiro servo de Deus, através da fé, jamais passará por dificuldades financeiras, pois está destinado a viver com abundância. [5] Os difusores dessa doutrina estão de acordo com o lema do Arizona.

 

Muitas acham que essa doutrina surgiu nos Estados Unidos, mas as suas raízes estão em terrenos históricos e religiosos mais profundos.

 

·       A partir do século XVI, João Calvino, um dos reformadores da igreja, confirmava a dupla predestinação. Muitos protestantes, após Calvino, de forma equivocada, chegaram a afirmar que o homem predestinado para a salvação é aquele que prospera economicamente. [6], [7], [8] Dessa forma, muitas igrejas protestantes e evangélicas foram contaminadas com o desejo ardente de ganhar dinheiro. As idéias de Calvino, alimentadas pelas pregações de seus seguidores, fizeram nascer um capitalismo, que se tornou cada vez mais agressivo. Foi por isso que os países protestantes tornaram-se precursores na indústria, na tecnologia e no comércio globalizado.

 

·       No século XVIII, o escocês e protestante Adam Smith, com o seu famoso livro, “A Riqueza das Nações”, fez o mundo protestante dar um grande salto na indústria e no comercio. [9]

 

·       Ainda no século XVIII, na Inglaterra protestante, aconteceu a Primeira Revolução Industrial, com o uso do carvão como fonte de energia, a invenção de máquinas industriais a vapor e a locomotiva. [10]

 

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Descrição: Livro “A Riqueza das Nações”. Data: 1776. Reprodução: Gerhard Streminger.  Fonte e licença DP.

 

 

·       Em meados do século XIX, essa revolução saiu da Inglaterra e atingiu outros países protestantes como Estados Unidos e Alemanha. [11]

 

·       No século XIX, principalmente nos Estados Unidos, um país com a maioria da população protestante, aconteceu a Segunda Revolução Industrial, com o uso da energia elétrica, produtos químicos como o petróleo, o motor a combustão, o automóvel e outras novidades. [12]

 

·       No início do século XX, o sociólogo e economista alemão Max Weber, escreveu o livro: “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, onde os ideais capitalistas são considerados os frutos daqueles que foram predestinados por Deus. Ele via o capitalismo como uma mudança comportamental provocada pela Reforma protestante. [13]

 

·       Na primeira metade do século XX, nos Estados Unidos, surgiu a teologia da prosperidade, impulsionada pelas pregações de diversos pastores como E. W. Kenyon, Kenneth Hagin e outros. [14], [15]

 

·       Na segunda metade do século XX, nos mesmos países protestantes como Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos, aconteceu a Terceira Revolução Industrial com o advento da informática, da microeletrônica, das telecomunicações, biotecnologia, robótica, etc. Essa deu o impulso para a globalização da economia. [16], [17], [18] Hoje o planeta geme debaixo desse capitalismo sem limites.

 

·       No final do século XX, surgiram igrejas neopentecostais com as idéias dos pastores americanos. No Brasil, elas surgiram com toda força, ainda no final do século XX, na época em que o Brasil atravessava uma grande crise econômica. [19] Hoje ela contaminou diversas igrejas, e muitos estão contradizendo o que Jesus ensinou sobre as riquezas.

 

Como podemos ver, a teologia da prosperidade nasceu a partir da doutrina da predestinação pregada por Calvino e ganhou muita força nos países protestantes, principalmente nos Estados Unidos, de onde se alastrou para muitas igrejas. Sem generalizar, podemos usar as palavras de Francis Frangipane: “Em Jerusalém, o cristianismo era um estilo de vida, em Roma, se tornou uma instituição, na Europa, se tornou uma cultura e nos Estados Unidos, se tornou um EMPREENDIMENTO.” [20] Isso mesmo, afinal, muitos pregadores americanos que defendem essa teologia mais parecem empreendedores do que pregadores do evangelho. Eles tornaram-se estrategistas para conseguirem muito dinheiro do povo.

 

Numa lista de pastores ricos apresentada, encontramos:

 

·       Um que possuía um jatinho de 17 milhões de dólares, uma mansão de 6 milhões de dólares. Enfim, sua fortuna seria cerca de 70 milhões de dólares.

·       Outro com mansão de um milhão de dólares, um apartamento de 2,5 milhões de dólares, um jatinho e um dos carros mais caros do mundo.

·       Outro vive, ironicamente falando, “discretamente” em uma mansão de mais de 10 milhões de dólares.

 

A transformação da obra de Deus em empreendimentos comerciais é a causa da riqueza de muitos pastores. A fama que conquistam faz com que eles vendam milhares de livros, CDs, DVDs, além de outros produtos e serviços, sem falar de royalties.

 

Essas idéias trouxeram para o mundo um capitalismo selvagem, que arrastou consigo a segregação racial, ondas de preconceitos, escravidões, desigualdade social, guerras, incluindo as duas grandes Guerras Mundiais, além de uma terrível e generalizada destruição do meio ambiente. Empresas transnacionais, principalmente da Alemanha, Estados Unidos e Inglaterra invadiram o mundo, impondo o imperialismo econômico. [21] Os países industrializados e protestantes, nas mãos de burgueses, viraram países de primeiro mundo, enquanto muitos outros se tornaram nações de terceiro mundo. Tudo poderia ser divino se muitos não tivessem explorado, marginalizado e oprimido multidões. Seria uma maravilha se não tivessem acabado com o nosso planeta azul e verde. Seria muito bom se não fossem a concentração de rendas e os grandes contrastes sociais; se uns não tivessem roupas chiques e outros andassem seminus; se uns não tivessem andando de automóveis caros e outros, de pé no chão; se uns não tivessem grandes mansões e outros, sem teto e nas favelas e nos locais de grandes riscos; se uns não tivessem fazendo cirurgias e mais cirurgias de embelezamento, enquanto outros morrem por falta de um tratamento básico de saúde; se uns não fizessem passeios turísticos consumindo milhões nos ambientes luxuosos, enquanto outros não podem tomar sorvete com a sua família, na sorveteria do seu bairro.

 

Alguém escreveu dizendo que os países protestantes são os mais equilibrados financeiramente, possuem governos estáveis e são bem alfabetizados, enquanto os outros países vivem mergulhados em diversas crises. Dinamarca, Noruega, Inglaterra, Estados Unidos foram citados como exemplo de países prósperos com a maioria da população protestante. Países africanos e latino-americanos foram mencionados como países que vivem em estado de pobreza. Observe o orgulho e o preconceito de alguns seguidores da teologia da prosperidade. [22], [23]

 

Para algumas pessoas, quem é pobre está debaixo das garras de Satanás, que quer roubar, matar e destruir. Mas quem, verdadeiramente, está com Jesus vive uma vida de abundâncias espirituais e materiais. Está sempre prosperando economicamente. [24] Os pregadores desse tipo de doutrina usam as seguintes palavras de Jesus: “O ladrão não vem senão a roubar, a matar e a destruir: eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância.” (João 10.10, RC.) [25] Essa idéia discriminatória tem colocado uma boa dose de pessimismo na cabeça dos pobres. Se vivem na pobreza, então, segundo esses pregadores, não foram predestinados para a salvação, mas para a perdição. Além de vítimas do colonialismo, do imperialismo, dos latifúndios, das ganâncias e outros males do capitalismo selvagem, ainda têm que conviver com essa doutrina cheia de preconceito dos religiosos donos do dinheiro. Para os protestantes e evangélicos dos países imperialistas, que no passado exploraram as Américas, a África, a Ásia e as ilhas do Pacífico, é muito fácil sair por ai pregando essas coisas. Os cristãos dos países explorados, empobrecidos por causa da ganância do imperialismo econômico, continuam sendo vítimas dos poderosos executivos da fé que, preconceituosamente, ensinam que quem está na pobreza está fraco na fé. Medem a fé das pessoas através daquilo que elas possuem. Quanto mais rica, mais é a sua fé. Mas a abundância prometida por Jesus não tem nada a ver com a opulência pregada pelos teólogos da prosperidade sem limites.

 

Um dos extremos, a miséria, nos causa muitos problemas. Muita gente acha que se ficar rica não terá mais dificuldades. Mas não é assim. O rico tem muitos problemas. Por isso Jesus disse: “Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam; Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam.” (Mateus 6.19-20, RC.) [26] Os ricos vivem angustiados, com medo de ladrões, da concorrência, das crises econômicas, do mal tempo, da queda das bolsas de valores e de muitas outras coisas. Riqueza não é sinônimo de felicidade e de bem-estar.

 

Muitos vêem Jesus como um grande empreendedor, um executivo e tanto, que andou pela Palestina com as melhores roupas do mercado da moda. Você pode ouvir frases absurdas como: “Se Jesus estivesse entre nós, hoje, ele sairia num Boeing particular...” [27] Muitos pregadores passaram a falar de compra de carro, mansão, fazenda, empresas... Termos econômicos são misturados com o evangelho. O pecado da avareza e da ganância é varrido para debaixo dos caros tapetes orientais. Se o filósofo grego Teofrasto estive aqui, ele diria: “Tempo e templo custam muito caro.” E Benjamim Franklin diria: “Tempo e templo são dinheiro”. [28] Até parece que Jesus e Adam Smith eram a mesma pessoa. Mas tudo isso é pura fantasia desses pregadores. Jesus não tinha onde reclinar a cabeça. (Mateus 8.20.) [29]

 

Essa teologia poderia ser chamada também de teologia da barganha com Deus, afinal é isso que estão fazendo. Toma lá, dá cá. Parece um leilão divino. Quem dá mais leva mais bênçãos. E o que as pessoas querem? Querem todas as tentações impostas pelo comércio eletro-eletrônico, automobilístico, têxtil, imobiliário e por ai afora. Não querem o que realmente precisam. Querem o que a sociedade do consumismo nos impõe.

 

Muitos dos pregadores da teologia da prosperidade (não todos, pois alguns são vítimas) certamente são falsos profetas, aproveitando essa brecha para ganharem muito dinheiro. Sabem que estão errados, mas insistem em viver nesse erro para satisfazerem os seus desejos desenfreados. Mas não posso apontar quem é quem, pois no meio de tantos falsos, muitos são cristãos equivocados, precisando de se libertar da tentação do dinheiro. Também há aqueles que realmente usam a sua riqueza para socorrer pessoas necessitadas. A minha missão não é julgar ou arrancar o joio. Não sou Deus e posso maltratar o trigo sofrido entre as ervas daninhas. Por isso, mesmo vendo como alguns são verdadeiramente falsos, prefiro não apontar nomes. A parte do julgamento é de Deus. Muitos querem e precisam libertar-se da Babilônia moderna. Então eu digo as palavras do Apocalipse: “Sai dela, povo meu, para que não sejas participante dos seus pecados e para que não incorras nas suas pragas.” (Apocalipse 18:4, RC.) [30]

 

Jesus ensinou:

 

·       “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou há de dedicar-se a um e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.” (Mateus 6.24, RC.) [31]

·       “Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus.” (Lucas 6.20, RA, RC.) [32]

·       Ele demonstrou, numa parábola, que os cuidados do mundo e a fascinação das riquezas sufocam a mensagem de Deus no coração das pessoas, e elas se tornam como plantas infrutíferas. (Mateus 13:22.) [33]

·       “Acautelai-vos e guardai-vos da avareza, porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui.” (Lucas 12.15, RC.) [34]

·       “Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas!” (Lucas 18.24, RA, RC.) [35]

·       “Pois dizes: ‘Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma’, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu.” (Apocalipse 3:17, RA.) [36]

 

Paulo escreveu:

 

·       O que foi que trouxemos para o mundo? Nada! E o que é que vamos levar do mundo? Nada! Portanto, se temos comida e roupas, fiquemos contentes com isso. Porém os que querem ficar ricos caem em pecado, ao serem tentados, e ficam presos na armadilha de muitos desejos tolos, que fazem mal e levam as pessoas a se afundarem na desgraça e na destruição. Pois o amor ao dinheiro é uma fonte de todos os tipos de males. E algumas pessoas, por quererem tanto ter dinheiro, se desviaram da fé e encheram a sua vida de sofrimentos.” (I Timóteo 6.7-10, NTLH.) [37]

 

Tiago alertou:

 

·       “Agora, ricos, escutem! Chorem e gritem pelas desgraças que vocês vão sofrer! As suas riquezas estão podres, e as suas roupas finas estão comidas pelas traças. O seu ouro e a sua prata estão cobertos de ferrugem, e essa ferrugem será testemunha contra vocês e, como fogo, comerá o corpo de vocês. Nestes últimos tempos vocês têm amontoado riquezas” (Tiago 5.1-3, NTLH.) [38]

 

Esses versículos não interessam aos pregadores da teologia da prosperidade. Eles se afastam deles como o jovem rico se afastou de Jesus, depois de escutar a frase: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem e segue-me.” (Mateus 19.20-21, RC.) [39]

 

Eles deixam o Novo Testamento de lado e mergulham no Velho Testamento, em busca de fundamentos para essa doutrina. O rei Salomão é um dos preferidos deles. Não percebem que enquanto ele consumia, diariamente, cerca de 3.000 kg de farinha de trigo, 6.000 kg de farinha de outros cereais, 10 bois gordos, 20 bois de pasto e 100 carneiros, fora veados, gazelas, cabritos e aves domésticas, conforme I Reis 4.22-23; [40] enquanto possuía quatro mil estrebarias ou quarenta mil, conforme algumas versões, de acordo com I Reis 4.26; [41] enquanto vivia num palácio requintado, que levou treze anos para ser construído, segundo diz I Reis 7.1; [42] enquanto tinha também a luxuosa casa do bosque do Líbano, conforme I Reis 7.2-12; [43] enquanto recebia, anualmente, mais ou menos vinte e três mil quilos de ouro, além dos impostos pagos pelos comerciantes, dos lucros do comércio e dos impostos pagos pelos reis árabes e pelos administradores dos vários distritos do país, de acordo com I Reis 10.14-15; [44] enquanto tinha duzentos grandes escudos (paveses), cada um folheado com quase sete quilos de ouro e trezentos escudos menores, cada um folheado com quase dois quilos de ouro, segundo informa I Reis 10.16-17; [45] enquanto se assentava num grande trono, revestido de marfim e de ouro puro, conforme I Reis 10.18; [46] enquanto bebia nas taças de ouro e usava os diversos objetos de ouro da casa do bosque do Líbano, de acordo com I Reis 10.21; [47] enquanto se deliciava sexualmente com suas setecentas princesas e trezentas concubinas, ou seja, um harém de mil mulheres, segundo informe I Reis 11.1-3, lá fora, trinta mil homens sofriam debaixo do trabalho forçado e seus súditos sofriam debaixo de pesados impostos. Seria isso uma prosperidade divina, em conformidade com as mensagens de Jesus? [48]

 

Deus supre todas as nossas reais necessidades. Mas a saciedade dos nossos desejos desenfreados não tem nada a ver com a provisão de Deus. A comida não é pecado. No entanto, comer demais é glutonaria, um vício que faz muito mal. Da mesma forma, ter bens materiais não é errado. Todavia, ter excesso de bens, além da nossa real necessidade, é o pecado do capitalismo, que causou muitos males pelo mundo afora. Temos que ser equilibrados dentro da visão do sábio Agur, que disse “Afasta de mim a vaidade e a palavra mentirosa; não me dês nem a pobreza nem a riqueza; mantém-me do pão da minha porção acostumada.” (Provérbios 30.8, RC.) [49] Paulo disse: “Tendo, porém, sustento, e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes.” (I Timóteo 6.8, RC.) [50] “Já aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas, estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas, naquele que me fortalece.” (Filipenses 4.11-13, RC.) [51] É isso que as pessoas precisam aprender. Não devemos buscar a pobreza e nem a riqueza: precisamos buscar o equilíbrio. O suprimento de Deus não é sinônimo de opulência. Não é uma vida superabundante de vaidades, de luxo, de ouro, de bens, mas uma vida abundante daquilo que realmente precisamos. Que nenhum cristão faça votos de pobreza e nem saia por ai embalado na gospel gold rush (corrida do ouro evangélica).

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br