Sermões (parte I)

Livres dos Fardos Religiosos

 

Só de ouvir a palavra sermão, alguns se sentem entediados. A menos que seja um sermão bastante artístico daqueles pregadores super treinados na homilética. Esses fazem o povo aplaudir, sorrir, pular, chorar... Ouvir pessoas como o pastor batista Martin Luther King discursando “I have a dream” contra as desigualdades raciais nos Estados Unidos ou o arcebispo anglicano Desmond Tutu falando contra o apartheid na África do Sul com certeza não foi algo cansativo. [1], [2] Entretanto, muitos sermões...

 

 

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Descrição: Martin Luther King. Data: 1960. Autor: Sociedade Histórica de Minnesota. Fonte. Licença CC BY-SA.

Sermão é um discurso longo, também chamado de homilia, muito comum nas igrejas. [3], [4], [5] Alguns são agradáveis. Outros, porém, são bastante enfadonhos. Por causa disso, de forma figurada, qualquer fala longa e cansativa costuma ser chamada de sermão. [6]

 

Veja, passo a passo, como surgiu o sermão nas igrejas.

 

·        Depois do século II, influenciados pela filosofia grega, que era muito conhecida no grande Império Romano, alguns homens da igreja começavam a traçar suas complicadas doutrinas para serem incutidas na cabeça das pessoas. Isso aconteceu porque alguns, antes de sua conversão, eram filósofos e oradores. Nessa época, os bispos eram bastante influenciados pelas idéias dos filósofos Platão e Aristóteles. [7] E as reuniões cristãs já começavam ganhar algumas pitadas das formalidades litúrgicas. [8]

 

·        No século III, as reuniões da igreja continuaram ganhando mais roupagem litúrgica. [9] Naquela época, os presbíteros ou bispos deixavam de ser aqueles simples homens amadurecidos, cheios de experiências de vida, no meio do povo, supervisionando o dia a dia dos cristãos nas pequenas comunidades. Agora eles se sentiam como autoridades sobre o povo e eram tratados como sacerdotes. [10], [11] A igreja estava deixando aqueles bate-papos informais sobre temas simples como: amor ao próximo, perdão, solidariedade, justiça e outros temas parecidos. Os irmãos estavam deixando de corrigir e ensinar uns aos outros. Agora, com alguns recursos filosóficos, os bispos procuravam mergulhar nas profundezas dos mistérios do além, tentando explicar os enigmas de Deus. Foi a partir dessa época, que surgiram crenças e doutrinas como: Santíssima Trindade, transubstanciação, imaculada conceição de Maria, virgindade de Maria, detalhes da natureza de Cristo, etc. [12], [13], [14], [15], [16] E a propagação desses temas complicados tomava todo o tempo da igreja. Assim, o ancião (bispo, presbítero) virou aquele homem que dominava a maior parte das reuniões, falando sozinho, com longos discursos, tentando ensinar coisas difíceis. Alguns não entendiam direito. Outros entendiam, mas discordavam do que era ensinado. Então surgiram várias contendas doutrinárias e diversos grupos. [17], [18] Então precisavam de recursos para convencerem as pessoas sobre os seus ensinos. E foi ai que entrou a arte da retórica sofista grega para fazer apologia às suas doutrinas. [19]

 

Na antiga Grécia, por volta do século V antes de Cristo, surgiu um grupo de pessoas chamado de sofistas. Essas pessoas tinham muito conhecimento, eram eruditos e procuravam ensinar as pessoas através de seus discursos. Para conseguirem fazer isso, usavam certas técnicas especiais como: retórica e gramática. Através da retórica, eles falavam usando a arte da eloqüência, procurando convencer as pessoas com palavras muito bem colocadas. Essa retórica falada ficou conhecida como oratória. Através da gramática, eles procuravam falar as palavras da melhor maneira possível. Essa mania de fazer belos discursos convincentes se transformou numa arte que dominou o mundo greco-romano. Nos primeiros séculos da era cristã, muitos oradores pagãos se tornaram cristãos. Eles trouxeram consigo a arte da retórica, que se tornou a ferramenta utilizada para convencerem as pessoas sobre as doutrinas complicadas que iam sendo criadas, fazendo calar as pessoas mais simples. [20], [21], [22], [23]

 

·        No século IV, quando o imperador romano Constantino apoiou a igreja, templos foram construídos, acabando de vez com as reuniões nos lares. Os edifícios sagrados construídos por Constantino, como já foi dito na mensagem sobre templos, tinham também características semelhantes às basílicas romanas. Basílicas eram prédios públicos. Como eram os prédios dos magistrados e oficiais romanos, assim foram construídas as igrejas: com plataforma elevada, que era acessada por uma escadaria de vários degraus. Ali em cima, na tribuna ou púlpito, os padres ministravam os seus sermões, seguindo a moda sofista. Na parte de baixo, no longo salão, a platéia, passiva, tinha a obrigação de ouvir tudo com reverência e sem poder interferir. [24]

 

Muitos pregadores à moda sofista surgiram naquela época. O padre e doutor João Crisóstomo foi um deles. Embora tenha pregado sobre os evangelhos e sobre os Atos dos Apóstolos, não deixou de defender as novas doutrinas com sua arte de pregar bonito, em meio aos aplausos delirantes da platéia. [25], [26] O bispo e teólogo Agostinho de Hipona conseguiu, com os seus discursos, levar uma boa dose da filosofia neoplatônica para o seio da igreja. [27] E foi assim que as pequenas igrejas nos lares, cheias de bate-papos informais, viraram grandes templos cheios de formalidades, rebuscadas pela arte da homilética. Entretanto, pouco a pouco, esses artistas da retórica foram se perdendo no tempo.

 

·        Até o século XVI, apesar das universidades, a maioria dos padres e pastores protestantes não tinha formação teológica acadêmica. [28] Não havia mais oradores sofistas convertidos para discursarem como antes. Muitos padres já não tinham preparo suficiente para pregarem bonito. Alguns eram analfabetos e nem podiam ler a Bíblia. [29] Mas a partir dessa época, foram criados seminários para o treinamento de todos, tanto do lado católico, como do lado protestante. A Igreja Católica, no Concílio de Trento, decidiu treinar melhor os seus padres, e seminários católicos foram criados. O mesmo aconteceu com os protestantes, com as mesmas contaminações filosóficas de sempre. [30], [31] O ensino nessas instituições era baseado nas idéias de Tomás de Aquino, que era uma mistura da filosofia de Platão e Aristóteles com ensinamentos cristãos. [32] A Reforma protestante resgatou a homilia. Martinho Lutero chamou o templo de “casa de oratória”, enquanto Calvino disse que o orador era a “boca de Deus”. Foi então que apareceram os sermões de mais de duas horas. [33]

 

 

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Desc.: Sermão em uma igreja evangélica. Data: 25/09/2007. Autor: Mvdiogo. Fonte. Licença CC BY.

 

·        No século XVII, na Inglaterra, os puritanos supervalorizaram os sermões para fazerem exposições da Bíblia e pregarem a sua rígida moral. Os pastores puritanos pregavam até mais de uma hora. [34]

 

·        No século XVIII, a onda de avivamento, conhecida como Grande Despertar, deu outra supervalorizada na arte de pregar sermões. A moda pegou de novo e virou ritual indispensável nas diversas igrejas antigas e novas. [35]

 

Hoje em dia, o sermão está enraizado na tradição e se tornou uma espécie de ritual.

 

Mais uma vez a igreja deixou de influenciar o mundo e foi influenciada por ele. Aqueles anciões das igrejas nos lares, servindo o povo com a sua experiência e testemunho de vida, tiveram que dar o lugar para uma classe clerical refinada com a arte grega de falar bonito, através dos púlpitos dos templos ornados. Por isso, na visão da igreja moderna, pastor que não prega sermão não é pastor. Ele precisa estudar homilética, a ciência que ensina como pregar de acordo com as regras greco-romanas. [36], [37], [38] Por causa disso, alguns chamam seus sermões de homilia. [39] Como Lutero e Calvino, muitos consideram a igreja-templo como um lugar, onde Deus fala através do pregador, que é considerado a boca de Deus. Esses pastores modernos depreciam a igreja primitiva nos lares, com a participação informal de cada cristão. Se templo e sermão são fundamentais, então antes do século IV não havia igreja de Cristo?

 

Os sofistas e os oradores profissionais das igrejas. 

 

·       Os sofistas usavam uma batina de púlpito. [40] Os padres, bispos, papas e pastores também se vestem diferente do povo. As roupas diferentes começaram no século II. Nesse século, Justino Mártir, por exemplo, vestia-se com uma batina de filósofo. A batina de filósofo e a toga dos juízes romanos serviram de inspiração para que os padres também se vestissem de forma diferente, principalmente ao se apresentarem na tribuna ou púlpito. Por isso, a partir de Constantino, vestir diferente do povo se tornou ago obrigatório. Esse costume ainda está enraizado na cabeça dos lides atuais. Dificilmente, pelo menos do século XX para trás, alguém tenha visto algum padre ou pastor, pregando sem estar com certos paramentos ou paletó e gravata. [41]

·       Os sofistas entravam no local do discurso e se assentavam, aguardando a sua vez de falar. É interessante ver como muitos pregadores fazem a mesma coisa. As pregações começaram a ser transmitidas da cadeira do orador (cátetra). Depois foi criado o ambo, que era uma espécie de mesa alta, usada nas sinagogas judaicas e também na cultura greco-romana. Depois, foi substituída pelo púlpito, que entrou na moda e acabou virando tradição para os pregadores das igrejas protestantes e evangélicas. [42]

 

·       Os sofistas apelavam para as emoções. [43], [44] Muitos pregadores de igrejas fazem o mesmo. Gritam no momento certo, usam voz de choro, pulam, contam histórias emocionantes e outras coisas mais. Convencem o povo que são pregadores ungidos com o Espírito Santo, mas muitos usam mesmo e a unção da oratória.

 

·       Os sofistas usavam versos de Homero para abrilhantarem seus discursos. [45] Os pregadores eclesiais fazem o mesmo com a Bíblia. Muitas vezes, sem necessidade, ficam buscando justificativas bíblicas e acabam usando textos bíblicos indevidamente, fora do contexto. Mas fazem isso para que as pessoas pensem que estão pregando a palavra de Deus.

 

·       Os sofistas ganhavam dinheiro com os seus sermões. [46] Vários pregadores itinerantes estão cobrando altos preços para pregarem em igrejas e em eventos especiais. Alguns querem hotel da melhor qualidade, inclusive aqueles com cinco estrelas. Quanto mais famosos se tornam, mais caros eles cobram. Não é errado eles receberem ajuda numa viagem missionária. Mas muitos vão longe, por um alto preço, para pregarem alguma mensagem, e muitos até aproveitam para venderem seus produtos e serviços. Vi um pastor acusando o outro de cobrar 15 mil para pregar numa conferência. Como podemos ver por ai, pregar virou negócio. Estão superfaturando com pregações. São sofistas modernos, rotulados de cristãos. Primeiro porque o sermão cheio de retórica foi inventado pelos sofistas gregos no século V a.C. Segundo porque cobram para pregarem, assim como os sofistas cobravam para proferirem seus discursos. Para muitos a arte de pregar é um emprego.

 

Alguma coisa está errada.

 

Continuaremos no próximo post

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



[35] Ibidem