Seminários

Livres dos Fardos Religiosos

 

Você já deve ter visto, na contracapa de livros evangélicos, em DVDs de mensagens ou nos cartazes, como certos pregadores são apresentados. Por exemplo, eu estava vendo um que se apresentava como Mestrado em Teologia, Pós-graduado em Línguas Originais (grego e hebraico), Lato Sensu em Apologética e Heresiologia e ainda com o título Honoris Causa de Doutor em Divindade. Vi um pastor que possuía mais de 30 diplomas. Essas pessoas conseguem todos esses e muitos outros títulos nos seminários.

 

 

image

Descrição: Seminário. Data: Agosto/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

Seminário é o estabelecimento de ensino, onde as pessoas são preparadas para exercerem ministérios sagrados nas igrejas. [1] Se alguém quer ser bacharel, ter cursos lato sensu ou cursos stricto sensu para se tornar mestre ou doutor em alguma área religiosa, o seminário é o caminho. Quem gosta de títulos e diplomas para sair por ai se exibindo deve estudar num seminário. Ah! Aquele que realiza um grande trabalho gospel, mesmo sem estudar, poderá adquirir, em alguma escola eclesiástica, um título honoris causa de doutor como, por exemplo, doutor em divindade.

 

Muitos acham que quem não estuda num seminário não está apto para exercer cargos na obra de Deus. Cargos!? Jesus criou cargos? É melhor a gente voltar às origens e ver o que aconteceu ao longo da história eclesiástica.

 

Jesus foi andando junto ao mar da Galiléia. Então avistou dois homens que estavam pescando com redes. Os dois eram irmãos. Um se chamava Pedro, e o outro, André. Aproximando-se deles, Jesus os convidou para serem seus discípulos dizendo: “Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens.” (RA, RC.) Mais adiante, viu mais dois irmãos consertando as suas redes: Tiago e João. Ele convidou os dois também. (Mateus 4.18-22.) [2]

 

Esses quatro, juntamente com outros oito, formaram o grupo dos doze apóstolos de Jesus. Eles não eram doutores. Eram homens simples da Galiléia. Como disse Atos 4.13: eram iletrados e indoutos, ou seja: eram simples e não tinham a mesma instrução que os doutores da lei tinham, mas eram intrépidos e deixaram os grandes homens da religião judaica boquiabertos. [3] Não estudaram em nenhuma escola religiosa, mas andaram com Jesus e, com ele, aprenderam, na prática, como andar com Deus de verdade, sem aquele mundaréu de elementos religiosos tradicionais sem sentido, pregado pelos líderes religiosos judeus e pagãos. Eles não eram doutores: eram simples pescadores. E pescaram muita gente para o verdadeiro reino de Deus.

 

Lendo os evangelhos, podemos ver que Jesus ensinou aos seus discípulos, andando pra lá e pra cá, nas estradas, nas praias, no barco sobre o mar da Galiléia, nos montes, pelas ruas, no pátio do templo, nas casas... Foi um ensino dinâmico, não apenas com blá-blá-blás, mas com exemplos práticos. Sem hipocrisia, ele ensinou amar amando. Ensinou perdoar perdoando. Ensinou a solidariedade sendo solidários com as pessoas que sofriam com os seus problemas. Deu exemplos claros sobre o que é importante e o que é mera religiosidade. Não deu nenhuma lista de rituais e fórmulas religiosas. Não entrou nos profundos mistérios de Deus, tentando explicar o que o homem não pode entender, estabelecendo doutrinas confusas e inquestionáveis. Dessa forma, ele treinou os seus discípulos. [4] E eles, com as palavras e os exemplos dados por Jesus e com a força do Espírito Santo de Deus, tornaram-se grandes pequenos homens, propagadores dos ensinos de Jesus. E foi assim que multidões se converteram ao evangelho puro, singelo, descomplicado, libertador, leve, carregado de paz, perdão, amor, bondade, sem estruturas caras, sem mistérios, sem dogmas, sem os pesados preceitos judaicos. Eles eram verdadeiramente livres. Os mais velhos, os mais amadurecidos eram considerados os anciões da fé cristã, ou presbíteros. Esses, por causa da experiência, aram aqueles que ajudavam a igreja a caminhar no caminho certo. [5] Não havia escolas religiosas. Uns aprendiam com os outros, no dia a dia, principalmente com exemplos. Por isso, Pedro disse para os presbíteros: “Sejam um exemplo para o rebanho.” (I Pedro 5.3, NTLH.) [6] E Paulo disse: “Sigam o meu exemplo como eu sigo o exemplo de Cristo.” (1 Coríntios 11:1, NTLH.) [7] Paulo era homem e errou como todo ser humano erra. Mas a sua vida foi um belo exemplo de cristão verdadeiro. Foi um livro aberto, uma escola ambulante para todos aqueles que desejavam ser seguidores do verdadeiro Jesus Cristo da Galiléia.

 

Mas o tempo passou e, principalmente depois que o Imperador Romano apoiou o cristianismo no século IV, o que era simples ficou complicado demais. [8]

 

·       Filosofias. A partir do século II, os bispos eram muito influenciados pela filosofia grega, principalmente pelas idéias dos filósofos Platão e Aristóteles. Isso aconteceu porque alguns, antes de sua conversão, eram filósofos e oradores. [9] Justino Mártir, por exemplo, no século II, vestia-se com uma batina de filósofo. Esse homem acreditava que a filosofia era uma revelação divina aos gregos. Para ele, Sócrates, Platão e outros filósofos foram guias para o povo gentio.[10] Depois desse século, a cidade de Alexandria, no Egito, tornou-se a capital do ensino filosófico-cristão. [11] Ali, o filósofo e teólogo Panteno, educado na filosofia estóica, fundou a escola de Alexandria. [12] Orígenes, um dos principais professores de Alexandria, também era bastante influenciado pela filosofia grega. [13] Na virada do século IV para o século V, Agostinho de Hipona, o famoso Santo Agostinho, depois de ter contato com as obras do filósofo e orador romano Cícero, se converteu ao cristianismo, virou bispo da cidade norte-africana de Hipona e escreveu livros tentando sintetizar o pensamento do filósofo grego Platão com o cristianismo. [14], [15]

 

·       Doutrinas e dogmas. Após a morte dos apóstolos, surgiram fortes debates teológicos e filosóficos sobre diversos pontos doutrinários. No ano 325, aconteceu o Primeiro Concílio de Nicéia. Nessa reunião, com 318 bispos convocada pelo imperador romano Constantino, foi feito um esforço no sentido de acabar com as diversas polêmicas. Nesse encontro, foi proclamado o dogma da Santíssima Trindade, declarando a existência de um único Deus manifesto em três pessoas: Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. Tentaram definir, com todas as letras, o lado misterioso de Jesus e de Deus. Nesse concílio, também foi condenada qualquer outra interpretação contrária sobre as três pessoas, como o subordinacionismo e o arianismo. Nos séculos seguintes, outras doutrinas foram sendo criadas e impostas à comunidade. Qualquer outra doutrina diferente foi perseguida. Outras formas de pensamento foram consideradas heresias. [16] Já não mais defendiam a simplicidade do evangelho de Cristo, onde reina a paz, a bondade, o amor e outras virtudes. Agora os líderes da igreja defendiam suas doutrinas com todas as forças. Por isso, muitos foram perseguidos a ferro e fogo. Dessa forma, ao longo do tempo, outras doutrinas foram criadas e impostas.

 

·       Novas ciências religiosas. A Teologia (ciência sobre Deus) que já era complicada, ficou ainda mais confusa. Para tentar explicar as doutrinas e os dogmas, foram desenvolvidas, ao longo do tempo, diversas outras ciências ligadas à Teologia: a Hermenêutica, a Exegese, a Hamartiologia, a Soteriologia, a Cristologia, a Eclesiologia, a Escatologia, a Pneumatologia, a Angelologia, a Missiologia e a Heresiologia. A igreja deixou de ser aquele povo livre e humilde, cheio de amor, se encontrando nas casas. Agora era um povo escravizado nas mãos de líderes que tentavam explicar suas complicadas doutrinas com um emaranhado de ciências contraditórias, misteriosas e cheias de misticismos. [17] O que era claro foi misturado com coisas obscuras e virou uma salada doutrinária que, na verdade, ninguém consegue explicar e entender completamente.

 

·       Rituais. Evangelho de Jesus é tão libertador que não impõe às pessoas nenhum rito, além do simples rito de passagem chamado batismo. Mas a simplicidade do batismo foi substituída por um conjunto de cerimônias novas. Além disso, mergulharam no Antigo Testamento e nas religiões pagãs e buscaram diversos rituais como queima de incenso, vestes sacerdotais, templos, uso de velas, procissões, veneração de mortos, uso de imagens de escultura e muitas e muitas outras coisas.  As reuniões dos cristãos foram transformadas em liturgias carregadas de regras. As refeições de confraternização, celebradas nas casas, foram levadas para os templos e foram transformadas no ritual da Eucaristia. [18] Tudo ficou confuso e difícil. O cristão agora já não era mais cristão livre, mas um religioso debaixo das imposições dos líderes da igreja, deturpada sob o peso de rituais repetitivos e enfadonhos.

 

·       Regras litúrgicas. As reuniões fraternas dos irmãos se transformaram em meras liturgias e agora precisavam de diretrizes.  A partir do século V, surgiram diversos livros litúrgicos estabelecendo orações, cânticos, normas e ritos diversos. Então, ao longo da história, surgiram os seguintes livros:

 

·       Sacramentários: livros com orações predefinidas para serem recitadas pelo dirigente do culto. [19]

·       Lecionários: livros com leituras bíblicas também predefinidas. [20]

·       Missais, com a fusão dos dois livros anteriores, estabelecendo as fórmulas e todas as orações usadas nas celebrações das diversas missas a serem celebradas durante todo o ano litúrgico. [21]

·       Evangeliário: livro com textos predefinidos do evangelho de Jesus para ser lido durante o ano litúrgico. [22]

·       Rituais: livro estabelecendo normas para a realização de sacramentos como: ritual do batismo, ritual da crisma, da unção dos enfermos, da penitência (sacramento da confissão), do matrimonio, das bênçãos e do exorcismo. [23]

·       Graduais: livros estabelecendo cânticos litúrgicos. [24]

 

·       Leis religiosas. Jesus nos libertou das leis religiosas. Mas a liderança da igreja, sob as influências dos códigos romanos, depois de se desviar dos ensinos originais de Jesus, transformou a igreja em uma organização religiosa, carregada de leis de vários os tipos. [25]

 

·       Institucionalização da igreja. A igreja de Jesus deixou de ser uma simples comunidade cristã livre. Deixou de ser aqueles pequenos grupos de amigos e irmãos que se encontravam nas casas para se transformar em milhares de organizações religiosas complexas, cada uma com leis, regras, doutrinas, dogmas e rituais do seu jeito. Muitas igrejas institucionalizadas viraram uma espécie de igrejas-empresas que compram e vendem produtos e serviços diversos. E muitos pastores dessas igrejas modernas são obrigados a aprenderem técnicas de administração empresariais para poderem controlar tudo. Precisam aprender técnicas de marketing para poderem atrair adeptos e clientes. Precisaram aprender técnicas de vendas para conseguirem vender produtos e serviços gospel. E ainda tiveram que conhecer técnicas de compras para saberem comprar os shows de cantores gospel, as pregações de pastores famosos, além de serviços de manutenção, decorações, máquinas e equipamentos e tantos outros gastos infindáveis.

 

Diante de todo esse complexo religioso em que o cristianismo se meteu, fica claro que para ser líder de alguma dessas organizações a pessoa precisa estudar e estudar muito. E foi para isso que surgiram as instituições de ensino ligadas ao cristianismo. Agora, aqueles ensinos práticos e simples dos primeiros cristãos não fazem mais sentido. Se a igreja jogou fora o evangelho original, jogou fora também as formas simples de ensino e aprendizagem. Para explicarem as complicadas doutrinas e os dogmas recheados de filosofias, esclarecerem os mistérios das novas ciências, ensinarem como realizar os diversos rituais, darem entendimento dos diversos livros litúrgicos, instruírem os novos líderes sobre as novas leis religiosas e para ensinarem os novos líderes a serem bons administradores de igrejas-empresas, surgiram cursos e mais cursos dentro dessas instituições, que foram sendo aprimoradas ao longo da história.

 

·       No final do século II, em Alexandria, no Egito, foi criada uma escola, onde a filosofia grega se misturou com os conceitos bíblicos. Seus principais representantes foram: Panteno, Clemente de Alexandria, e Orígenes. Era uma espécie de universidade teológica. [26]

 

·       Entre os séculos III e V, aconteceu o que chamamos de educação episcopal. Nessa época, os bispos eram ensinados a cumprir os primeiros rituais e a liturgia da igreja, não em escolas, mas através de contatos pessoais. [27]

 

·       No século VI, o papa Gregório Magno, através de seus ensinos, tornou-se o grande educador dos líderes da igreja. [28]

 

·       No século VIII, foram criadas algumas escolas para a formação de bispos, baseadas nas instruções de Gregório. [29]

 

·       No século XI, surgiram as primeiras universidades como: Universidade de Bolonha, na Itália, a Universidade de Paris, na França e a Universidade de Oxford, na Inglaterra. Paris tornou-se o centro teológico e filosófico. A teologia era o carro-chefe das universidades. Era a época do conhecido movimento teológico e filosófico chamado Escolástica, onde os filósofos e teólogos Pedro Abelardo, Tomás de Aquino, Alberto Magno, dentre outros, influenciados pela filosofia de Aristóteles e inspirados nas idéias de Agostinho de Hipona, tentaram explicar a revelação de Deus através de Jesus Cristo. [30]

 

·       Depois da Reforma no século XVI, os seminários protestantes continuaram com as influências de Tomás de Aquino.  Hoje a maioria das igrejas estão debaixo de uma teologia deturpada de idéias filosóficas gregas. [31]

 

·       Até o século XVI, apesar das universidades, a maioria dos padres e pastores protestantes não tinha formação teológica acadêmica. Alguns eram analfabetos e nem podiam ler a Bíblia. Mas a partir dessa época, foram criados seminários para o treinamento de todos, tanto do lado católico, como do lado protestante. Foi assim que surgiram os padres e pastores treinados. A Igreja Católica, no Concílio de Trento, decidiu treinar melhor os seus padres, e seminários católicos foram criados. Esses foram, logo em seguida, imitados pelos protestantes, com as mesmas contaminações filosóficas de sempre. O ensino nessas instituições era baseado nas idéias de Tomás de Aquino, que era uma mistura da filosofia de Platão e Aristóteles com ensinamentos cristãos. [32]

 

·       No século XVIII, na Inglaterra, foi criado a escola dominical para educar crianças pobres. Essa idéia virou moda e se espalhou por diversas igrejas, principalmente nos Estados Unidos, de onde se espalhou por outros países. Tornou-se uma escola, não só para crianças pobres, mas para todos de qualquer idade e classe social. Apesar da baixa frequência, muitas igrejas ainda insistem em manter esse tipo de ensino cansativo, às vezes ainda enraizado nas doutrinas filosófico-religiosas. [33]

 

·       No século XIX, foram fundados cerca de 60 seminários e diversas faculdades bíblicas na América do Norte. Para alguns, as faculdades bíblicas são apenas seminários mais sofisticados. [34]

 

Essas escolas “cristãs” têm produzido líderes fora do verdadeiro contexto cristão. São instituições poluídas de tradições judaicas, pagãs e filosóficas, que ensinam um monte de coisa que Cristo não ensinou e desprezam aquilo que realmente é a verdadeira essência do evangelho de Jesus. Essas escolas preparam pessoas para ocuparem uma nova classe, considerada mais elevada, dentro da igreja: o clero. Ali as pessoas mergulham nas ciências religiosas e tornam-se bacharéis e doutores cheios de conhecimentos humanos, com diplomas rebuscados, mas vazios do evangelho genuíno e muitas vezes vivem uma vida bem diferente daquilo que ensinam. São coisas que ajudam a dificultar e a encarecer ainda mais a obra de Deus. Tudo isso precisa ser mudado a fim de podermos voltar às origens da verdadeira igreja.

 

Enquanto escrevo essa mensagem, uma igreja pentecostal famosa conta com mais de 30 mil pastores com diploma na mão. Outra tradicional com mais de 400 mil líderes formados. De que adianta tanta gente com cursos acadêmicos que não promovem o que Jesus mandou. Como podem ocupar o tempo com tantos afazeres religiosos, enquanto multidões de necessitados sofrem, marginalizados, dentro das nações ditas cristãs? Que evangelho estão pregando.

 

Acreditamos que o pastor, segundo era na igreja primitiva, não precisa de nenhuma escola carregada de filosofias e conceitos doutrinários confusos, num labirinto de ciências teológicas. Não precisa de livros e mais livros para aprender um monte de regras, rituais e leis. Qualquer um, principalmente quem possui o dom de ensinar, pode ler as nossas mensagens, independente de matrícula, mensalidades, diplomas, etc. São mensagens simples que podem ser aprendidas e retransmitidas para os outros. Todos nós, principalmente os que passaram pelos seminários, precisamos nos esvaziar de tantas coisas fora do verdadeiro evangelho. Precisamos acordar e entender que Jesus apenas quer que o ser humano se converta dos seus pecados e aprenda a andar no bom caminho, procurando fazer o bem a todos. Quem possui fé nessas novas diretrizes propostas por ele será salvo.

 

Todo mundo tem liberdade de pensamento e de crença. Todos têm a liberdade de criar suas instituições de ensino e todos podem estudar o que quiserem. Entretanto, estamos mostrando para as pessoas que todo esse aparato educativo que tem se desenvolvido na igreja, ao longo dos séculos, está, em muitas áreas, fora dos verdadeiros ensinos de Jesus, transmitidos aos seus discípulos pelas casas, ruas, praias e estradas da Palestina. Ninguém precisa de qualificação melhor do que aquela. Por isso, queremos viver um evangelho, onde todos ensinam e admoestam uns aos outros em qualquer lugar, no dia a dia, sob a supervisão, não dos melhores, mas dos mais amadurecidos no verdadeiro evangelho, como nos tempos primitivos da igreja.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br