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Seitas

Seitas

 

Livres dos Fardos Religiosos

 

Nas últimas décadas do século XIX, surgiu, de acordo com o livro “Os Sertões” de Euclides da Cunha, um "anacoreta sombrio, cabelos crescidos até aos ombros, barba inculta e longa; face escaveirada; olhar fulgurante; monstruoso, dentro de um hábito azul de brim americano; abordoado ao clássico bastão em que se apóia o passo tardo dos peregrinos..." [1] Era Antônio Conselheiro, percorrendo o sertão do nordeste brasileiro, pregando uma religiosidade simples. Às costas, tinha uma bolsa de couro, com dois livros religiosos. Em 1893, no norte da Bahia, ele fundou o arraial de Canudos, onde reuniu cerca de 30 mil seguidores pobres e marginalizados. [2]

 

 

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Descrição: A Jornada de Abraão para a Terra de Canaã. Data: 1866. Autor: Gustave Doré. (1832–1883). Fonte e licença DP.

Ao longo da história, sempre apareceram líderes religiosos que se tornaram insatisfeitos com a religião vigente e acabaram criando novas crenças e novos comportamentos religiosos. Foi assim que Abraão, no século XX a.C., resolveu deixar a sua família e a Suméria com os seus deuses variados e buscar uma nova vida numa nova terra, onde criaria uma nova religião baseada no Deus único. (Gênesis 12.1-9.) [3]

 

Pra entender o que é uma seita, primeiro precisamos entender o que é uma heresia. Uma heresia é um conceito doutrinário, nem sempre errado, mas diferente daquele que é aceito pela maioria e, muitas vezes, enraizado na tradição. [4], [5] Por exemplo: a doutrina da Santíssima Trindade foi aceita pela maioria dos bispos desde o século III e tem feito parte da tradição da maioria das igrejas. Qualquer idéia um pouquinho diferente é considerado uma heresia. [6], [7] E a seita? Uma seita surge quando uma pessoa, depois de criar uma heresia, consegue formar uma nova comunidade religiosa em torno dela. Costuma surgir como uma facção dentro de uma religião, fazendo oposição a ela e aos poucos vai se tornando independente. Seus membros, geralmente alienados, são contra o sistema religioso vigente. [8] Dentro desse conceito, no contexto religioso sumério, podemos dizer que Abraão fundou uma seita, o judaísmo e foi se isolar na terra de Canaã, onde o seu povo pôde viver isolados dos demais povos.

 

Por causa da oposição da maioria, a seita, às vezes, costuma se tornar uma comunidade religiosa radical e fechada, fazendo o mínimo de contato com aqueles que não compartilham as mesmas crenças. Alguns alimentam fortes esperanças na breve volta de algum messias ou em tempos melhores a serem alcançados de alguma forma. [9]

 

·       Dentro do judaísmo, no tempo de Jesus, havia algumas seitas. Os fariseus, os saduceus, os essênios e os zelotas eram os grupos mais conhecidos. No século VIII, surgiu o caraísmo e, no século XVIII, o hassidismo, além de outros grupos. Para muitos judeus, Jesus tinha formado uma seita, conhecida como seita dos nazarenos. [10], [11], [12], [13], [14], [15], [16], [17], [18], [19]

 

·       No hinduísmo, também se encontram muitas seitas como: Bhagavata, Brahmo Samaj, Arya Samaj, Hare Krishna e muitas outras. [20], [21], [22], [23]

 

·       No budismo, temos as seguintes seitas: Gelukpa, Rinzai, Shingon, Soto e muitas outras. [24], [25], [26], [27]

 

·       No Islã, temos os caridjitas, xiitas, sunitas, dervixes, drusos, ismaelitas, dentre outros grupos. [28], [29], [30], [31], [32], [33]

 

·       No cristianismo, desde os primeiros séculos, têm surgido diversas seitas.

 

·       No século I, os ebionitas não aceitavam a divindade de Cristo e exigiam o cumprimento da lei de Moisés. [34]

·       No século II, na antiga Frigia, na atual Turquia, os montanistas pregavam a eminente volta de Cristo e uma rígida moral. [35]

·       No século IV, no norte da África, os donatistas levantaram algumas controvérsias sobre os sacramentos. [36]

·       No século V, na Ásia Menor (Turquia), os monofisistas pregavam que Cristo só tinha natureza divina: não tinha natureza humana. [37]

·       No século X, na península dos Bálcãs, os bogomilos negavam os sacramentos, a Santíssima Trindade, o culto a Maria e os santos. [38]

·       No século XI, em Milão, Itália, os patarinos foram contra os ritos católicos. [39]

·       No final do século XI, na França, os albigenses ou cátaros eram contrários à hierarquia e a corrupção da Igreja e pregavam a não-violência. [40]

·       No século XII, na França, os valdenses não aceitavam a riqueza da Igreja Católica e faziam votos de pobreza. [41]

·       No século XIV, na Inglaterra, os lolardos eram contrários à guerra, negavam o dogma da transubstanciação, o culto às imagens e propunham vida simples para o clero. [42]

·       Século XVI, em Zurique, Suíça, anabatistas defendiam a não-violência e batizavam apenas adultos. [43]

·       No século XVII, na Inglaterra, os quakers (Sociedade dos Amigos), eram contra a guerra e a hierarquia da Igreja. [44]

·       Século XVII, na Alemanha, os seguidores da seita Amish começaram a pregar contra toda espécie de modernidade. [45]

·       No século XIX, nos Estados Unidos, os adventistas surgiram pregando a breve volta de Cristo. [46] Nesse mesmo século e no mesmo país, surgiram também as Testemunhas de Jeová negando o dogma da Trindade e declarando apenas Jeová como único Deus e os mórmons pregando uma trindade constituída de três deuses, além de outras doutrinas diferentes. [47], [48]

 

Algumas seitas promoveram coisas absurdas.

 

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Descrição: Seita. Data: Julho/2012. Autor: Maralvestos. . Licença CC BY-SA.

 

·       Século II, os adamitas ficavam nus para imitarem a inocência de Adão. [49]

·       Séculos XIII e XIV, na Europa, iniciado na Itália, os flagelantes se autoflagelavam com cordas ou cintos de extremidades cortantes. [50]

·       No século XIX, no Rio Grande do Sul, no Brasil, membros da seita dos muckers incendiaram várias residências e assassinaram os seus moradores.[51]

·       Século XX, no Japão, a seita Verdade Suprema foi acusada de provocar um atentado com gás venenoso no metrô de Tóquio, causando a morte de doze pessoas e o ferimento de mais de uma centena. [52]

·       Também no século XX, nos Estados Unidos, o líder da seita Ramo Davidiano, através de um incêndio em um rancho no Texas, provocou o suicídio de 80 seguidores. [53]

·       Ainda no século XX, membros da seita Ordem do Templo Solar cometeram suicídios coletivos. [54]

·       Também no século XX, a seita Templo do Povo, criada pelo americano Jim Jones, foi transferida para a Guiana, onde comandou o suicídio de mais de 900 seguidores. [55], [56], [57]

·       Ainda no século XX, na Califórnia, na seita Portão do Céu (Heaven’s Gate), 39 seguidores se suicidaram, acreditando que o cometa Hale-Bopp os levaria para um planeta, onde acreditavam poder alcançar uma forma superior de existência. [58]

 

Por ter uma doutrina diferente da maioria e por causa do fanatismo de alguns, os seguidores de uma seita geralmente são discriminados com fortes preconceitos. Não deve ser assim. As atitudes absurdas como suicídios, assassinatos, atentados, trabalhos em comunidades fechadas, onde as pessoas são privadas da liberdade e outras loucuras devem ser reprovadas e denunciadas. Contudo, devemos respeitar determinadas crenças e comportamentos de diversas religiões consideradas seitas. Se hoje podemos ter o cristianismo como uma grande proposta de liberdade, é porque Jesus Cristo desafiou o sistema religioso judaico da sua época e fundou uma comunidade com princípios religiosos totalmente renovados. Por isso, não podemos pensar que seita é simplesmente sinônimo de coisas ruins. Muitos irão dizer que somos uma seita, simplesmente porque saímos dos padrões tradicionais, impostos pelos líderes influentes ao longo da história do cristianismo, a fim de podermos voltar para o evangelho simples e original de Jesus. Todavia, não somos uma comunidade fechada e nem promovemos coisas absurdas. Apenas queremos ter o direito de pensar sem os embaraços das tradições. Queremos voltar às verdadeiras origens da igreja.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br