Opulência religiosa

Livres dos Fardos Religiosos

 

Deus é o Senhor do Universo infinito, cheio de todo esplendor visível e de uma magnificência jamais imaginada. Mesmo assim, muitos acham que podem oferecer o melhor para Deus, como se ele não fosse o dono de todas as coisas.

 

Opulência quer dizer acúmulo de riquezas, luxo excessivo. [1] Opulência religiosa é a abundância de riqueza das religiões, incluindo os seus luxos e os seus rituais pomposos.

 

 

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Desc.: Interior da Basílica de são Vital, Ravena, Itália. Observe a opulência do estilo bizantino. Data: Século VI. Autor: Tango7174. Data: 19/09/2007. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

A opulência tem sido muito comum em diversas religiões. Os templos ornados com ouro e prata, as vestes sacerdotais cheias de galas, os rituais bastante solenes, tudo cheio de muito brilho, têm sido coisas marcantes na vida religiosa de vários povos. Muitas pessoas acreditavam (e muitos ainda acreditam) que é possível agradar a Deus com o luxo. Nas religiões mesopotâmicas, egípcias, gregas e em muitas outras, podemos perceber a presença de magníficos elementos sagrados.

 

Há mais de 2.000 anos antes de Cristo, na Babilônia, foram construídos grandes zigurates. Essas construções eram templos em forma de torre piramidal e se destacavam no meio da cidade com muitos metros de altura. [2], [3] Uma dessas construções, o grande templo do deus Marduk, era decorada com ouro e pedras preciosas. [4]

 

No tempo da lei de Moisés, quando o povo de Israel caminhava pelo deserto em busca da terra prometida, foi construído um tabernáculo. Era um santuário portátil, em forma de tenda, feito de madeira de acácia, ouro, prata, bronze, com cortinas de algodão, linho fino, pêlo de cabra, peles de carneiro e golfinho, onde o povo adorava a Deus e onde eram realizadas as ofertas e os sacrifícios. Havia duas repartições cobertas: lugar santo ou santo lugar e lugar santíssimo ou Santo dos Santos. Separando os dois compartimentos, havia uma cortina (véu) de linho fino. Na parte da frente, o santo lugar, ficavam um candelabro de ouro maciço, uma mesa de madeira de acácia chapeada de ouro e sobre ela os pães oferecidos a Deus e o altar de madeira de acácia, coberto de ouro, onde queimavam incenso todos os dias. Depois da cortina, na parte de trás, o Santíssimo Lugar, ficava a arca da aliança, que era coberta de ouro, contendo uma vasilha com maná, a vara de Arão e as duas placas de pedra com os mandamentos. Sobre ela, um propiciatório de ouro puro e sobre ele, dois querubins, também de ouro, de asas abertas, virados um para o outro. Em volta desse tabernáculo, havia um pátio sem cobertura, fechado por cortinas de linho fino, sustentados por varas de bronze. Nesse pátio, ficava uma pia de bronze com água e um altar de madeira de acácia revestido de bronze para a realização de sacrifícios. Nesse altar, havia fogo constantemente. Além dos sacrifícios, nesse pátio, eram realizadas as demais atividades religiosas públicas. [5] Além de todo esse aparato religioso, ainda existiam as vestes sacerdotais feitas com fios de lã e linho fino, incrementadas de vários paramentos e recheadas de ouro. [6]

 

No século X a.C., o rei Salomão construiu o primeiro templo de alvenaria para Deus em Jerusalém para substituir o santuário em forma de tenda. No início século VI a.C., o Rei Nabucodonosor destruiu esse templo. No final do mesmo século, ele foi reconstruído por Esdras. No final do I século a.C., Herodes, o Grande, o reconstruiu novamente. Esses templos foram todos construídos com muita pompa. O rei Davi ajuntou mais de três mil e quatrocentas toneladas de ouro, mais de trinta e quatro mil toneladas de prata e uma abundância de cobre e ferro para a construção do primeiro templo. [7]

 

Na antiga Grécia, também havia o brilho da sua religião. No século V a.C., em Atena, foi construído o Pártenon, um templo de mármore com dezessete colunas em cada lado e mais oito nas partes de trás e da frente. Ao todo eram cinquenta colunas.  No centro, ficavam o altar e uma colossal imagem da deusa Atena, feita de ouro e marfim. [8], [9], [10]

 

Mas Jesus, no século I, apareceu pregando uma religião simples. Com uma roupa comum, sem rituais solenes, sem nenhum luxo, sem nenhuma instrução para se construir templos suntuosos, ele iniciou uma nova maneira de se buscar a Deus. Foi tão simples que nem os grandes historiadores falaram a seu respeito. Assim foram os primeiros cristãos, até que:

 

·        No século III, se tornou comum o uso de objetos litúrgicos. O bispo romano Zeferino, considerado o 15º papa, teria mandado substituir os cálices sagrados, que eram de madeira, por cálices feitos pelo menos de vidro. [11] Com o passar dos anos, ele foi sendo transformado em uma rica peça de ouro ou prata. [12]

 

·        No início do século IV, no ano 313, o imperador romano Constantino deu liberdade ao cristianismo, proclamando o edito de Milão. Ele mandou construir os primeiros templos cristãos como a Basílica do Santo Sepulcro em Jerusalém, a Igreja da Natividade em Belém e um templo no bairro nobre de Roma, o Vaticanus. A partir de então, o cristianismo ficou abarrotado de santuários luxuosos.[13]

 

·        Ainda no século IV, os líderes da Igreja começaram a vestir roupas diferentes. Ao longo dos séculos, novas peças forma surgindo, transformando o clero numa classe de pessoas destacadas com vestimentas feitas de tecidos finos, decorados, coloridos, tudo confeccionado com esmero e elegância. [14] 

 

·        No século VI, no Império Romano do Oriente, a arquitetura bizantina deu um grande passo. Em Constantinopla (atual Istambul), o imperador Justiniano I mandou construir a Igreja de Santa Sofia. Os mosaicos construídos por pequenas peças cúbicas de cristal, coloridos ou revestido com folha de ouro, serviram para decorar as diversas igrejas. O poder da Igreja e a majestade do imperador se manifestavam na magnificência dos templos bizantinos. [15]

 

·        Nos séculos seguintes, igrejas em diversos estilos suntuosos, carregadas de arte, luxo, riqueza e esplendor, surgiram por todos os lados. Igrejas pré-românicas, românicas, góticas, renascentistas, barrocas, rococós, neoclássicas, neogóticas, dentre outros estilos arquitetônicos, mostraram o lado opulento de uma igreja já bem distante do evangelho original.[16]

 

Todas essas igrejas magníficas, mais a pompa e a magnificência dos eventos religiosos arrastaram as pessoas para um cristianismo totalmente modificado. A simplicidade do evangelho daquele homem simples da Galiléia se perdera no meio de tantas opulências. Os protestantes e evangélicos também não ficaram atrás. Hoje podemos ver muitos dos seus gigantescos templos carregados de esplendor. Pastores com trajes elegantes fazem turnês de pregações com altos cachês e estadias em hotéis cinco estrelas.

 

Mas a opulência tem preço alto. Por isso, as igrejas católica, ortodoxa, protestantes e evangélicas acabaram, por causa disso, aumentando bastante o custo da evangelização. Para cobrirem os altos custos das suas obras pomposas, muitos líderes de diversas igrejas resolveram buscar recursos financeiros de todas as formas. Criaram o dízimo medieval, apelaram para a simonia (comércio de coisas sagradas, tais como sacramentos, dignidades, relíquias, indulgências, benefícios eclesiásticos, etc.) praticaram estelionatos e extorsões e criaram empresas comerciais de vários tipos. A igreja virou um grande palco de negócios. Pastores, nos cultos e nas diversas mídias utilizadas, vendem produtos e serviços gospel e até seculares. Fazem alianças com empresas e transformam seus fiéis em clientes. Tem alguns pastores que até acham que Jesus foi um grande executivo, um grande homem de negócios. Por isso, se enveredaram pelo caminho do comércio religioso.Tudo isso para bancarem o alto custo de suas obras ostentosas. Por causa de tudo isso, sempre apareceram pessoas fazendo protestos.

 

·        No século XIII, um grupo de frades franciscanos, conhecido como Fraticelos ou Fraticelli, defendia as idéias de São Francisco de Assis, como a pobreza e condenava as riquezas da Igreja. Por isso, eles rejeitaram a autoridade de seus superiores e da hierarquia da Igreja. [17]

·        No século XIV, na Inglaterra, o teólogo John Wycliffe desenvolveu um movimento contra as riquezas da Igreja. [18]

·        No século XIV e XV, os lolardos queriam que a Igreja voltasse à vida simples do evangelho de Jesus. [19]

·        No século XV, na Boêmia, o padre Jan Hus, influenciado pelas idéias de John Wycliffe, desenvolveu um movimento de reforma que, entre outras coisas, também condenava as riquezas da igreja. [20]

·        No século XVI, o Concílio de Trento reconheceu e decidiu que era preciso controlar o excesso de luxo dos religiosos. [21], [22]

·        E o papa Francisco resolve dar um grande passo, deixando de lado muitas coisas luxuosas, optando por coisas mais simples. [23],[24]

 

Jesus apenas pregou uma mensagem simples, mostrando que as pessoas devem deixar de lado os seus erros e procurar viver uma nova vida cheia de virtudes. No lugar do ódio e do desamor, devemos cultivar o amor; no lugar do ressentimento, devemos colocar o perdão; a injustiça deve ser substituída pela justiça; a mentira, pela verdade; a incerteza, pela fé; a guerra, pela paz; o orgulho, pela humildade; a insolidariedade, pela solidariedade... Mas esse evangelho simples não combinava com as pompas e as solenidades romanas. O Império Romano apoiou o cristianismo e fez dele a religião oficial, mas teve que moldá-lo à sua maneira. E tudo ficou chique, reluzente, solene, difícil, caro...

 

Alguns defendem dizendo que a Igreja precisa de bens materiais para cumprir sua missão evangelizadora? [25] Mas será que para evangelizar o mundo ela realmente precisaria de tudo que tem? Na verdade, a Igreja, como uma instituição, que procura manter viva todas as tradições religiosas, necessita de grandes recursos materiais e financeiros. Mas evangelizar não é exatamente difundir e preservar um conjunto de tradições carregado de doutrinas e rituais que não têm nada a ver com o verdadeiro e original evangelho de Jesus.

 

As igrejas realizam várias obras sociais, mas ainda estão distante do verdadeiro objetivo do evangelho. Tem muita gente, muitas igrejas, muitos líderes acumulando riquezas, enquanto milhões passam fome, vivem sem teto, sem roupa, sem saúde. A Igreja tem que deixar de ser uma instituição do luxo para ser uma multidão de pessoas que lutam em favor das causas sociais e da verdadeira conversão das pessoas. Os pregadores da teologia da prosperidade sem limites (melhor chamá-la de teologia da opulência) perderam a vergonha. Com o dinheiro conseguido com a exploração religiosa, muitos estão comprando aviões e carros importados, construindo mansões extravagantes, adquirindo cavalos árabes “puro sangue”, dentre outros abusos. Numa pesquisa realizada, foi comprovado, por exemplo, que um pastor de uma determinada igreja africana tinha quatro jatos particulares.

 

Precisamos voltar às origens e recomeçar em cima da verdadeira base, onde a Igreja possa brilhar com o verdadeiro brilho celestial, longe do lustre do ouro e da prata.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br