Correções religiosas

Livres dos Fardos Religiosos

 

A escravidão brasileira foi terrível. [1] Milhões de negros foram comprados na África como se fossem meros produtos comerciais, pagos com tabaco e aguardente do Brasil ou manufaturas portuguesas. [2] Eles foram empilhados nos porões úmidos dos navios, onde viajaram com fome e com sede, durante mais de um mês, através do oceano Atlântico, até chegar à costa brasileira. [3], [4], [5] Para eles, o Brasil era um pesadelo intenso. No meio do desamor e do desespero, desembarcaram num inferno tristonho e sujo pelo pecado da escravização. Ao longo dos mais de 300 anos de escravidão brasileira, mais de 10 milhões deles foram arrastados para o Novo Mundo, onde trabalharam nos risonhos lindos campos, que para eles tinham mais espinhos, menos vida e muitas dores.[6] Maridos foram separados de suas esposas. E os pais, afastados dos seus filhos. [7] Muitas mulheres negras foram abusadas sexualmente pelos seus senhores. [8] Trabalharam de sol a sol para os senhores de engenhos. [9] Hoje em dia, muitos querem se exibir andando por ai, dirigindo seu automóvel. Naquele tempo, muitos gostavam de sair pelas ruas, altaneiros, assentados numa liteira, carregada por dois escravos. [10], [11]

 

E a Igreja? Alguns condenaram esses males:

 

·       No século XV, o papa Eugénio IV, através da bula Sicut Dudum, pediu que os cativos das ilhas Canárias ganhassem a liberdade.

·       No século XVI, o papa Paulo III, por meio da bula Sublimus Dei e da encíclica Veritas ipsa disse que os índios "das partes ocidentais, e os do meio-dia, e demais gentes", eram seres livres por natureza.

·       No final desse mesmo século, o papa Gregório XIV publicou a bula Cum Sicuti.

·       Na primeira metade do século XVII, o papa Urbano VIII fez o mesmo na Commissum Nobis.

·       No século XVIII, o papa Bento XIV, na Immensa Pastorum, também deu a sua contribuição.

·       No século XIX, o papa Gregório XVI também falou sobre o tema na bula In Supremo.

·       Em 1888, na época da abolição, o papa Leão XIII, na encíclica In Plurimis, dirigida aos bispos do Brasil pediu que eles apoiassem ao imperador Dom Pedro II e a Princesa Isabel para que a abolição pudesse acontecer. [12], [13], [14], [15], [16]

 

 

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Descrição: Braços erguidos: o escravo preso às correntes, no pelourinho, e o padre preso em suas formalidades, na capela da casa grande. Lá os gemidos de dor. Cá os enunciados das fórmulas litúrgicas dos acomodados que já não mais se incomodavam com os gritos do Mestre no Calvário para que todos pudessem ser livres. Data: agosto/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

Mas a Igreja não procurou corrigir esses erros gravíssimos como deveria. Ela tinha poder para impor suas doutrinas e seus rituais com ferro e fogo, e foi assim com a Inquisição. [17] Todavia, não lutou eficazmente contra o regime escravocrata. Não usou o poder que tinha contra esse mal. Não promoveu uma mobilização verdadeira como fez, por exemplo, Joaquim Nabuco. [18], [19]  Em vez disso, ela, contraditoriamente, por outros lados, deu o seu apoio, como vemos na bula Dum Diversas do papa Nicolau V de 1452. [20]  O regime de escravidão imposto aos negros africanos era considerado um meio de ajudá-los a se purificarem dos seus pecados e assim poderem se salvar. (Que absurdo! Pecar contra os negros para que eles ficassem livres de seus pecados. [21], [22] Que idéia maluca!)  Por isso, até setores da Igreja tinham seus escravos. [23], [24] Os grandes líderes da Igreja não corrigiram esse mal e, por causa disso, essa asneira manchou a história do Brasil ao longo de três séculos. Mais humilde foi o papa João Paulo II que, para corrigir o catolicismo desse e de outros abusos contra a humanidade, ao contrário de muitos, pediu perdão, reconhecendo essa falta da Igreja. [25], [26]. Se esse mal foi erradicado, o mérito ficou por conta dos negros que lutaram conscientes de que podiam ser livres e dos abolicionistas. [27] A Igreja, na verdade, apesar desses documentos papais, estava lá, ao lado dos senhores de engenho, com sua capela, onde também estavam as senzalas, ouvindo os gemidos dos negros no pelourinho, sendo “corrigidos” pelos tiranos católicos que os massacravam como se fossem bagaços de canas. [28], [29]. E o que precisava mesmo ser consertado permanecia torto. Por isso, o abolicionista Joaquim Nabuco disse:

 

 “Nem os bispos, nem os vigários, nem os confessores, estranham o mercado de entes humanos; as bulas que o condenam são hoje obsoletas.” “Grande número de padres possuem escravos, sem que o celibato clerical o proíba.”  “A deserção, pelo nosso clero, do posto que o Evangelho lhe marcou, foi a mais vergonhosa possível: ninguém o viu tomar a parte dos escravos, fazer uso da religião para suavizar-lhes o cativeiro, e para dizer a verdade moral aos senhores. Nenhum padre tentou, nunca, impedir um leilão de escravos, nem condenou o regime religiosos das senzalas. A Igreja Católica, apesar do seu imenso poderio em um país ainda em grande parte fanatizado por ela, nunca elevou no Brasil a voz em favor da emancipação.” “Que lhe aconselha a Igreja, cujos bispos estão mudos vendo os mercados de escravos abertos?” (O Abolicionismo, Joaquim Nabuco, publicado em 1884.) [30]

 

Correção religiosa é a atitude daqueles que, dentro de uma religião, procuram corrigir ou eliminar os erros existentes. Isso deve ser feito com reconhecimentos, advertências, avisos, exortações, admoestações ou conselhos e ações eficazes. Também pode ser definida como ato de endireitar o que está tortuoso ou fora da linha reta. Não foi o que a igreja fez com a escravidão brasileira.

 

 

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Desc.: Arrependimento e conversão para que os caminhos tortuosos sejam corrigidos ou endireitados. Data: Maio/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

Na estrada da vida, quando erramos, saímos da linha reta e precisamos nos endireitar. Cometemos erros diversos em todas as áreas. Tudo que possa nos desviar do bom caminho precisa ser eliminado de nossas vidas. Todos os nossos erros precisam ser corrigidos para que possamos nos manter dentro da estrada correta.

 

Além do regime de escravidão, o mundo ocidental praticou muitos outros erros gravíssimos, porque os líderes do cristianismo não souberam ou não quiseram corrigir as pessoas. Preocuparam-se com meras questões doutrinárias e deixaram o pecado arrebatar multidões do caminho da vida eterna. Se a Igreja realmente tivesse seguido o evangelho de Cristo, maldades e mais maldades não teriam acontecido no Ocidente. O que a Igreja fez foi castigar, com a Inquisição, quem saía dos seus dogmas e dos seus rituais estabelecidos. [31]. Uma instituição que estava acostumada a ver “hereges” presos nas estacas, assando nas fogueiras, não ficaria indignada vendo os supostos descendentes de Cão nos postes, sob as chicotadas dos carrascos dos senhores de engenho.

 

Pastor é aquele que cuida das ovelhas, procurando evitar que elas se dispersem ou se afastem do lugar seguro. Nós somos frágeis como as ovelhas. E Jesus é o bom pastor para nos conduzir dentro do bom caminho, nos impedindo de extraviar pelos lados. “Eu sou o bom Pastor, e conheço as minhas ovelhas, e das minhas sou conhecido.” Foi o que ele disse. (João 10:14, RC.) [32]

 

Ele também colocou pessoas para pastorearem a sua igreja. O pastor não é aquele que domina e explora o povo, mas é aquele que procura ajudar a todos a andarem no bom caminho. Pedro escreveu para os pastores: “Aconselho que cuidem bem do rebanho que Deus lhes deu e façam isso de boa vontade, como Deus quer, e não de má vontade. Não façam o seu trabalho para ganhar dinheiro, mas com o verdadeiro desejo de servir. Não procurem dominar os que foram entregues aos cuidados de vocês, mas sejam um exemplo para o rebanho.” (1 Pedro 5:2-3, NTLH.) [33] Infelizmente, muitos que são chamados de pastores são, na verdade, lobos ou mercenários, ofuscando e denegrindo a verdadeira imagem do bom pastor. Esses não estão se preocupando em ajudar as pessoas a não se desviarem do verdadeiro evangelho. Não querem corrigir suas ovelhas dos seus erros com medo de perdê-las do seu redil. Ao contrário, procuram agradá-las, colocando, perto delas, não as coisas que elas realmente precisam, mas as que mais as atraem. Por isso, os líderes da Igreja se calaram diante da escravidão para não magoarem os grandes senhores, os donos do poder, dos latifúndios, dos cafezais, dos canaviais, das minas e do dinheiro. É assim que a Igreja ainda se cala diante das injustiças do mundo.

 

Mas não é só pastor que pode e deve fazer isso. Todos nós devemos ajudar uns aos outros a não se desviar do bom caminho. Paulo escreveu: “A palavra de Cristo habite em vós abundantemente, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros, com salmos, hinos e cânticos espirituais; cantando ao Senhor com graça em vosso coração.” (Colossenses 3:16, RC.) [34] “Irmãos, se algum homem chegar a ser surpreendido nalguma ofensa, vós, que sois espirituais, encaminhai o tal com espírito de mansidão, olhando por ti mesmo, para que não sejas também tentado. Levai as cargas uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo.” (Gálatas 6:1-2, RC.) [35] “Pelo que exortai-vos uns aos outros e edificai-vos uns aos outros, como também o fazeis.” (1 Tessalonicenses 5:11, RC.) [36] E o escritor da carta aos hebreus falou: “Exortai-vos uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama Hoje, para que nenhum de vós se endureça pelo engano do pecado.” (Hebreus 3:13, RC.) [37] Na verdadeira igreja livre de Cristo, onde todos podem ecoar suas vozes de protestos, críticas e exortações, não precisa jamais se tornar refém de supostos líderes eclesiais acomodados em seus templos, tolerando maldades .

 

Jesus disse: “Se o seu irmão pecar contra você, vá e mostre-lhe o seu erro. Mas faça isso em particular, só entre vocês dois. Se essa pessoa ouvir o seu conselho, então você ganhou de volta o seu irmão. Mas, se não ouvir, leve com você uma ou duas pessoas, para fazer o que mandam as Escrituras Sagradas. Elas dizem: ‘Qualquer acusação precisa ser confirmada pela palavra de pelo menos duas testemunhas.’ Mas, se a pessoa que pecou não ouvir essas pessoas, então conte tudo à igreja. E, se ela não ouvir a igreja, trate-a como um pagão ou como um cobrador de impostos. (Mateus 18.15-17, NTLH.) [38]

 

Nessa passagem, Jesus deixa claro que devemos mostrar às pessoas os seus erros em particular. Caso alguém insista em continuar no erro, então podemos tratar do caso com mais duas pessoas. Se não for resolvido, o caso pode ser levado para a igreja. Se mesmo assim a pessoa não consertar, Jesus não manda praticar nenhum ato de violência contra ela. Apenas devemos ignorá-la, afinal ela decidiu continuar pecando por sua conta e risco.

 

Apesar dessas orientações sobre o dever de todos, principalmente dos pastores, de exortar uns aos outros, essa atitude não é levado a sério. As pessoas dizem que se conselhos fossem bons, eles não eram dados, mas vendidos. A igreja moderna somente quer falar de bênçãos e vitórias. Não quer ser exortada, pois o orgulho de ser grande ofuscou a humildade. Muitos pastores, para não perderem a sua popularidade e os seus membros, têm medo de corrigir as pessoas. Entre os irmãos, se alguém canta bonito, faz longas orações, fala línguas estranhas, profetiza, cai ou faz outras coisas parecidas é visto como alguém abençoado. Mas se exortar, acaba sendo odiado e desprezado. Esse é o perfil da igreja orgulhosa, que sonha em voltar ao primeiro amor, mas fica embaraçada em sua soberba.

 

Devemos corrigir os erros uns dos outros, não com grosserias e orgulho, mas com mansidão e humildade, para que possamos caminhar livres, se desviando sempre de toda escravidão do pecado. Estamos dizendo isso, porque algumas exortações, na verdade, são xingamentos.

 

Devemos ouvir os conselhos e as orientações uns dos outros. Não quer dizer que devemos acatar tudo que é dito, pois alguns fazem exortações equivocadas. Mas conversas saudáveis, educadas e humildes poderão nos conduzir para o bom caminho.

 

Voltemos ao evangelho original, onde devemos, com humildade, corrigir uns aos outros para que possamos estar sempre caminhando na vereda dos justos. Chega desse cristianismo de fachada, onde as pessoas já praticaram de tudo, usando a religião.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br