Concílios religiosos

Livres dos Fardos Religiosos

 

Já falamos, noutra mensagem, sobre o conselho de anciãos. Agora, vamos falar sobre os concílios realizados por eles. [1]

 

No Brasil, todo mundo sabe que existe uma assembléia política chamada senado. Esse tipo de assembléia existe em vários países. Aliás, essa reunião de pessoas existe há milênios. Surgiu lá no fundo do baú da Antiguidade, acima de 4000 anos, bem antes da era cristã. [2].

 

 

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Descrição: Concílio de Trento, detalhe. Santa Maria em Trastvere, Roma. Data: 1588. Autor: Pasquale Cati da Iesi. Fonte. Licença CC BY-SA.

Desde os tempos remotos, os homens mais velhos das tribos primitivas, considerados mais sábios e mais experientes, eram as pessoas que representavam o povo e tomavam certas decisões importantes. Por isso, a palavra senador, originada da palavra latina senator, significa velho, idoso, ancião. E a palavra senado, do latim senatus, significa assembléia de anciões. Da mesma raiz, temos as palavras senhor, sênior, dentre outras. [3], [4], [5], [6].

 

Uma assembléia de idosos era muito respeitada, porque era um grupo de pessoas maduras, honestas, cheias de experiências de vida, longe dos atos irresponsáveis da juventude. Por isso, em sinal de respeito, chamamos os mais velhos de senhores. Com essa mesma idéia, a Bíblia chama Jesus de Senhor e Deus de Senhor dos senhores. É claro que ela não está dizendo que Deus é um velhinho, mas alguém correto e merecedor de todo respeito.

 

Durante a história romana, na época da monarquia, na república e no império, sempre encontramos a presença do senado romano. Durante a monarquia, a sociedade era dividida em quatro grupos de pessoas: patrícios, clientes, plebeus e escravos.

 

·       Os patrícios estavam no topo da sociedade. Eram homens livres, considerados descendentes dos fundadores de Roma. Somente eles eram considerados cidadãos, com direito de voto, de exercer cargos públicos, comercializar, possuir terras conquistadas, ter propriedades e pertencer ao exército e, é claro, fazer parte do senado.

·       Os clientes eram estrangeiros, vivendo sob a proteção dos patrícios.

·       Os plebeus eram o povão sem cidadania.

·       Os escravos, você já sabe: não preciso dizer nada.

 

 

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Descrição: Família, gens, pater. Data: Junho/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.  

As famílias descendentes de um passado comum, por parte do pai, formavam uma gens (no plural, gentes). O pai dos pais de famílias, que para nós seria o avó (aquele velhinho querido) para eles era o pater (no plural, patres,), daí a palavra patrício. Cada gens era, pois, chefiada por um pater ou avô. Várias gens (no plural, gentes) se reuniam em assembléias chamadas de comícios. E os seus patres ou avôs, os velhos de cabelos brancos, formavam o senado, um conselho superior de anciões, atuando juntamente com o rei, procurando estabelecer leis favoráveis para as pessoas. Os candidatos ao senado colocavam mantos compridos e brancos para mostrarem que eram velhos puros, honestos e direitos.  [7], [8]

 

Era mais ou menos assim em outros reinos da Antiguidade. Em Esparta, uma cidade-estado da antiga Grécia, no século VIII a. C., foi criada a Gerúsia, um conselho de 28 anciãos com mais de 60 anos e mais dois reis. [9]. A Bíblia fala de anciãos da terra do Egito, dos midianitas, dos moabitas, dos gibeonitas, de Sucote, de Gebal. (Gênesis 50:7; Números 22:4; Números 22:7; Josué 9:11; Juízes 8:14; Ezequiel 27:9.) [10].  Em muitos lugares, na Bíblia, encontramos também os anciãos de Israel. (Deuteronômio 21:20; 22:15; 22:16; 22:17; 22:18; 25:7; 25:8; 25:9; 27:1; 29:10; 31:9; 31:28; 32:7, etc.) [11], [12], [13], [14], [15], [16]. No tempo de Moisés, foi formado um conselho de 70 anciões. (Números 11.) [17]. Mais tarde, não se sabe exatamente quando, entre os hebreus, foi criado o grande Sinédrio em Jerusalém, que era um tribunal religioso composto de setenta e uma pessoas, incluindo sacerdotes, escribas e anciãos.  Nas demais cidades, foram criados sinédrios menores com 23 juízes. Reunidos, eles julgavam diversas questões criminais, religiosas e administrativas. [18], [19], [20], [21].

 

Essa tradição percorreu os anos e ainda temos o senado em vários países, embora não seja exatamente como era no princípio. Hoje, por exemplo, na Inglaterra, existe a Câmara dos Lords (senhor em inglês). [22] No Brasil, pessoas com mais de trinta e cinco anos podem se candidatar para ocuparem uma vaga no senado. Nem todos são velhos e vovôs, representando um clã, mas representam as diversas unidades da federação. [23], [24] No entanto, na atualidade, o senado não lida mais com as questões religiosas. Todavia, muitas igrejas realizam reuniões, chamadas de concílios, para tratarem dos temas mais sérios. E somente participam as pessoas mais amadurecidas. [25]

 

As pessoas mais velhas, por causa do tempo de vida, geralmente têm mais experiências. Mas isso não significa que todas as suas decisões são corretas. Os plebeus romanos sofriam por causa das decisões interesseiras dos velhos patrícios que compunham senado romano. [26] Nem todos os senadores de hoje merecem o respeito do povo. Na história dos hebreus, podemos ver que eles cometeram muitos erros absurdos, incluindo a perseguição e a condenação de Jesus. Eles foram “pedras no sapato do mestre.” Sacerdotes, escribas e anciões aparecem várias vezes perseguindo Jesus como, por exemplo: Mateus 27:1, que diz: “E, chegando a manhã, todos os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo formavam juntamente conselho contra Jesus, para o matarem.” (RC.) [27] Por isso, Jesus quebrou essa tradição e fundou a sua igreja contrariando a autoridade dos anciões judeus. Jesus não desprezou os idosos, mas não lhes deu autoridade simplesmente pelo fato de serem mais velhos. A idade indica mais experiência, mas não significa que todo idoso está no caminho certo. Por isso, a igreja de Jesus, que lembra uma assembléia, não é, todavia, uma reunião carregada de formalidades. Ela é, no sentido lato ou amplo, um conjunto de pessoas de todas as idades e em qualquer lugar. A igreja, do termo grego ekklesia, significa chamados para fora. Ek significa para fora e klesia, chamados. Então, a igreja de Jesus é um conjunto de pessoas que foram chamadas para sair para fora da velhas tradições, do pecado e de todo mal para uma nova vida. [28], [29]

 

No início da igreja, percebemos que os apóstolos quiseram manter essa tradição. Então, eles resolveram eleger, em cada igreja local, um conselho de anciões, também chamados de presbíteros. “E, havendo-lhes por comum consentimento eleito anciãos em cada igreja, orando com jejuns, os encomendaram ao Senhor em quem haviam crido.” (Atos 14:23, RC.) [30]. Paulo, escrevendo para o seu cooperador Tito, disse: “Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam e, de cidade em cidade, estabelecesses presbíteros, como já te mandei.” (Tito 1.5, RC.) [31]. Por isso, em toda parte, havia presbíteros, como na região da Judéia, por exemplo. (Atos 11.29-30.) [32]. Esse conselho de idosos recebeu o nome de presbitério. (1 Timóteo 4:14.) [33].

 

A palavra presbítero, do grego presbyteros, significa mais velho, sendo, portanto, sinônimo de ancião.  Algum tempo depois, eles passaram a ser chamados de bispos, do grego apískopos, significando supervisores, superintendentes. [34], [35].

 

Esses idosos não eram qualquer idoso, mas idosos que realmente eram cristãos de verdade. Para ser um ancião da igreja não bastava ser velho: tinha que ter certas qualidades, que Paulo descreveu para Timóteo e Tito, seus cooperadores, para que eles pudessem escolher corretamente esses homens. Paulo disse que era necessário, portanto, que o bispo fosse irrepreensível, esposo de uma só mulher, moderado, prudente e simples, hospitaleiro, apto para ensinar; que não fosse bebedor de vinho, nem briguento, mas pacífico e calmo. Não podia ser avarento (muito apegado ao dinheiro). Tinha que ser um bom pai de família, com capacidade de criar os filhos sob disciplina e com todo o respeito. Não podia ser alguém convertido há pouco tempo. Tinha que ser também uma pessoa respeitada até mesmos por aqueles que não eram cristãos. (I Timóteo 3.1-7 e Tito 1:5-9.) [36].

 

Assim como os sacerdotes, escribas e anciões de Israel se reuniam para julgar as questões do judaísmo, os apóstolos e os anciões da igreja se reuniam para tomarem certas decisões difíceis do cristianismo. Eles atuavam como juízes da igreja. Em Atos 15, vemos os apóstolos se reunindo com os anciões, também chamados de presbíteros, para resolverem se os cristãos deviam ou não seguir certos preceitos da lei de Moisés como a circuncisão, que estava sendo exigida por alguns. Na assembléia que os apóstolos fizeram com os anciões, ficou decidido que as únicas coisas necessárias em relação à lei mosaica seria: abstenção das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição. (Atos 15.29.) [37]

 

A idéia dos apóstolos em seguir os conselhos das pessoas mais velhas e mais idôneas foi muito boa. Tudo ficou muito “bonitinho”, aparentemente. O problema é que a igreja de Cristo não era para ser controlada por homens, mas pelo Espírito Santo de Deus. Os homens, mesmo sendo os melhores cristãos, cometem erros. E eles acabaram indo longe demais. Ao longo da história, muitas doutrinas e práticas religiosas equivocadas foram determinadas por eles, e a igreja acabou se desviando do verdadeiro evangelho. Eles acharam que eram donos das verdades misteriosas sobre as coisas sobrenaturais e impuseram coisas que Jesus nunca determinara, enquanto as coisas que Jesus mandara praticar foram sendo abandonadas.

 

·        No início do século IV, o imperador romano Constantino, após promulgar o Edito de Milão, apoiou o cristianismo, e a classe clerical ganhou mais poder. [38]. Os clérigos (bispos, presbíteros) passaram a vestir roupas diferentes do povo e iguais aos oficias romanos. [39], [40]. Também começaram a receber honras, salários, isenção de impostos e de serviços públicos obrigatórios. [41]. O título de padre, do latim “patre”, que já vinha sendo usado antes por alguns, lembrando os chefes das famílias patrícias, a principal classe social de Roma, se estendeu a todos os membros do clero, acima dos diáconos. [42], [43]. Isso acabou contrariando Mateus 23.9, onde Jesus disse, no sentido religioso: “E a ninguém na terra chameis vosso pai, porque um só é o vosso Pai, o qual está nos céus.” (RC.) [44].  Por isso, se tornou comum chamar alguns homens notáveis de pais da igreja. [45] Em assembléia, como os anciões dos diversos povos antigos, como faziam os primeiros cristãos, mas agora também como os anciões do senado romano, eles tomaram muitos decisões sérias que ajudaram ou atrapalharam o curso da igreja. Muitas decisões, por causa de certos interesses que falaram mais alto, acabaram condenando, mais uma vez, a obra perfeita de Jesus. Como em todo classe, alguns se corrompem, entre os anciões da igreja, alguns se corromperam, aceitando os privilégios oferecidos pelo rei de Roma. E os que estavam do lado do rei, calaram a voz dos outros anciões. A partir dessa época, as decisões dos diversos concílios tornaram-se leis a serem cumpridas por todos sob pena de excomunhão, desterro e mais tarde, prisão, tortura e até morte na fogueira.

 

·        Em 325, o imperador romano Constantino convocou o I Concílio de Nicéia. Nessa reunião com 318 bispos, foi estabelecido o Credo de Nicéia, contendo um resumo das crenças cristãs aceitas por muitas igrejas. Ali estava escrito aquilo que eles consideravam ser as verdades espirituais. Era o artigo de fé da parcela do cristianismo apoiada pelo imperador romano. Foi proclamado também o dogma da Santíssima Trindade, afirmando que há um único Deus manifestado em três pessoas distintas (o Pai, o Filho e o Espírito Santo). É uma complicada doutrina cheia de mistérios, onde Jesus, o Filho, e o Espírito Santo também são Deus sem serem outros deuses, mas outras pessoas consubstanciais (da mesma natureza e substância) ao Pai. A partir dai, qualquer doutrina contrária foi perseguida. O trinitarismo foi imposto como um dogma. Não poderia mais ser contrariado ou rejeitado. Até hoje é uma doutrina imexível. Quem tiver idéias diferentes poderá ser vítima de discriminação e ter seu nome na lista dos hereges. Por isso, nesse mesmo concílio, outras formas de pensamento foram condenadas. O subordinacionismo, que dizia que Jesus estava subordinado a Deus e submetido à sua vontade, e o arianismo, que acreditava que Cristo era uma divindade menor de natureza intermediária entre Deus e a humanidade, foram condenados. [46], [47], [48]

 

·        No ano 381, o imperador romano Teodósio I convocou o I Concílio de Constantinopla, onde foram reafirmadas as doutrinas do Concílio de Nicéia sobre a consubstancialidade das três pessoas da Santíssima Trindade. O arianismo e outros movimentos semelhantes foram considerados heréticos. Foi feita uma revisão dos artigos do Credo de Nicéia, que passou a ser chamado de Credo Niceno ou Credo Niceno-Constantinopolitano. Foi definida também a natureza da divindade do Espírito Santo. [49], [50]

 

·        Em 385, no concílio de Saragoça, na região da atual Espanha, o bispo hispano-romano Prisciliano, que não aceitava o dogma da Trindade, recebeu a pena de morte, e a sua doutrina foi condenada. [51], [52]

 

·        No ano 431, O Concílio de Éfeso, convocado pelo imperador romano do Oriente Teodósio II e presidido pelo patriarca Cirilo, excomungou Nestório, que dizia que Maria era simplesmente a mãe de Jesus. Não era a mãe de Deus como alguns estavam dizendo. Cirilo não tolerava os ensinos de Nestório. Quase todos os seus escritos foram queimados por ordem do imperador. Foi decretado o dogma da maternidade divina e Maria foi declarada a “Mãe de Deus”. Para os líderes da Igreja, que antes decretaram a divindade das três pessoas da trindade, se Cristo é Deus, então Maria é mãe de Deus. [53], [54]

 

·        Em 451, no Concílio de Calcedônia, eles tentaram calar os monofisistas, que acreditavam que Jesus tinha apenas a natureza divina. Não acreditavam que ele tinha uma natureza humana, conforme a crença da cúpula da igreja imperial. Decretaram o dogma da virgindade perpétua de Maria, afirmando que ela sempre fora virgem: antes, durante e depois do parto e definiram as naturezas divina e humana de Jesus. [55], [56]

 

·        No ano 533, no II Concílio de Constantinopla, condenaram os escritos do nestorianismo, que ensinavam que as naturezas humana e divina de Cristo eram separadas. Condenaram também os ensinos de Orígenes. [57], [58]

 

·        Em 589, no II Concilio de Toledo, foi acrescentada ao Credo de Nicéia a expressão “e do Filho” no penúltimo artigo, que ficou assim: “Cremos no Espírito Santo, o Senhor, a fonte da vida que procede do Pai e do filho; com o Pai e o Filho é adorado e glorificado. Ele falou pelos profetas.” [59], [60], [61].

 

·        No ano 680-681, no III Concílio Constantinopla, condenaram o monotelismo, que também pregava que as naturezas humana e divina de Cristo eram separadas. [62]

 

·        Em 787, no II Concílio de Nicéia, foi aprovada a veneração de imagens. [63], [64], [65]

 

·        No ano 850, no Concílio de Paiva, foi instituído o rosário e a doutrina da transubstanciação, afirmando a crença antiga que, na Eucaristia, o pão se transforma no corpo de Cristo, e o vinho, no sangue. [66]

 

·        Em 867, no IV Concílio Constantinopla, Fócio, patriarca de Constantinopla, que não concordava com a alteração do credo, foi deposto e excomungado. [67], [68]

 

·        No ano 1184, no Concílio de Verona, foi instituída a Inquisição para perseguir, torturar e condenar aqueles que não seguiam as doutrinas do catolicismo. [69]

 

·        Em 1215, no IV Concílio de Latrão, foram condenados os cátaros e os valdenses, que também tinham crenças diferentes. Foi também decretado o dogma da transubstanciação. [70], [71]

 

·        Entre os anos 1414-1418, no Concílio de Constança, foram condenados os reformadores da igreja John Wyclif e Jan Hus. Esse foi queimado numa fogueira. O outro, John Wyclif, que já havia morrido em 1384, teve os ossos desenterrados e queimados como sinal de punição. [72], [73], [74]

 

·        Entre 1431-1432, no Concílio de Basiléia-Ferrara-Florença, foi declarada a soberania papal. [75], [76]

 

·        E entre 1869-1870, no Concílio Vaticano I, foi declarado o primado e a infalibilidade papal. [77], [78]

 

Nesses e em muitos outros concílios ou sínodos, foram decididos um monte de coisas que desviaram a Igreja dos verdadeiros ensinos de Jesus. Não vamos citar tudo aqui, mas veremos outras questões em outras mensagens.

 

Nesses concílios, alguns líderes cristãos poderosos entraram em acordo e decidiram quais seriam as doutrinas verdadeiras e quais as práticas religiosas que todos deveriam seguir e condenaram veemente o resto.  Na verdade, a conciliação aconteceu apenas entre aqueles que estiveram na ala poderosa desde os tempos de Constantino. Os outros, com suas idéias e crenças diferentes, foram excomungados, perseguidos, torturados, condenados, desterrados, humilhados e até executados na fogueira. Então chamar essas reuniões de concílios ecumênicos, como dizem alguns, não tem nenhum sentido. Esses homens perderam tempo com brigas e discussões, tentando serem donos do conhecimento dos mistérios divinos. Em vez de evangelizarem o mundo, ficaram brigando a cerca de doutrinas. Divulgaram e impuseram uma instituição religiosa ferrenha. Ainda hoje, muitos ainda estão perdendo tempo, divulgando suas igrejas institucionalizadas, e o verdadeiro evangelho, que é bom, fica perdido nesse labirinto religioso.

 

Jesus disse que o que ligamos na terra será ligado no céu; o que permitirmos na terra será permitido no céu. Mas muitos têm abusado dessas palavras, achando que podem fazer o que bem entendem, que Deus vai apoiar tudo. Por isso, vemos, na história da igreja, as coisas sendo impostas com ferro e fogo. É claro que as decisões da igreja aceitas por Deus têm que ser decisões realmente cristãs. Não basta serem deliberações religiosas. (Mateus 18.18.) [79]

 

Com o tempo, ser bispo, presbítero ou padre não era mais uma questão de idade. Havia se transformado num cargo religioso que acabou acolhendo pessoas mais novas. Hoje muitos são chamados de pastores, e não têm mais nenhuma ligação com a idade. Muitos não têm aquelas qualidades citadas por Paulo. Estão por ai querendo serem donos de igreja, colocando cabrestos doutrinários nas pessoas. Fazem qualquer coisa que decidem em seus concílios. Alguns líderes, ainda piores, nem procuram outros para decidirem certas coisas. Dão uma de papa infalível e decretam o que bem entendem.

 

Os anciões eclesiásticos, aqueles que são idôneos para supervisionarem a igreja e ajudarem o povo a andar no caminho certo, devem realizar encontros uns com os outros para trocarem idéias. Mas não devem, jamais, impor doutrinas e dogmas sobre os mistérios divinos. Não devem também impor nenhum ritual ou leis religiosas, pois Jesus nos libertou de tudo isso. Podem chegar num consenso e acreditar nisso ou naquilo, dessa e daquela forma, mas não podem decretar nada para a igreja. Cada um tem o livre arbítrio para seguir o que quiser. Todos podem ser guiados pelo Espírito de Deus. Todos deverão prestar contas de seus atos, não para homens, mas para Deus. Cabe a nós, como Jesus, ensinar o bom caminho com exemplos. Por isso, nada de perseguição, nada de condenação. As decisões do concílio de Jerusalém foram divulgadas, mas não foram impostas à força. Jesus não obrigou ninguém seguir os seus ensinos.

 

Se os anciões da igreja tivessem sido sempre escolhidos de acordo com as orientações de Paulo, nada disso teria acontecido. Não teríamos líderes imprudentes, orgulhosos, briguentos, descontrolados, amantes da contenda e do dinheiro e sem o respeito daqueles que não encontraram o verdadeiro evangelho. É lamentável ver políticos no senado que não merecem a consideração do povo. Mais lamentável é ver “falsos anciões” que dizem ser pastores de igreja, agindo como políticos corruptos. E o pior ainda, é ver esses mesmos pastores entrando para a política, onde se sujam ainda mais, desmoralizando, tanto a classe política, como a igreja.

 

Podemos continuar com a tradição dos anciões, reunindo em assembléias, em busca de soluções para o povo. Mas, como na igreja primitiva, isso não é pra qualquer um. Não basta ser velho, político ou religioso: tem que ter dom e certos requisitos indispensáveis. Na igreja não tem várias gens, patrícios, clientes, plebeus e escravos: tem irmãos livres, formando uma só família. Somos todos iguais. Alguns são mais velhos e mais experientes e podem trocar idéias para buscarem soluções conciliatórias para todos. Mas ninguém está na classe do clero, acima dos outros, decretando e impondo doutrinas e dogmas, como se fossem o poder legislativo de Jesus ou policiais eclesiásticos.

 

Respeite os mais velhos, com sabedoria, sem descartar o velho evangelho novo de Jesus. Deixe de lado todas as coisas velhas da Roma antiga e nasça de novo. (João 3:3.) [80]

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



[41] Cristianismo Pagão. Frank A. Viola, p. 74.