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Cismas religiosos

Livres dos Fardos Religiosos

 

No século X antes de Cristo, a nação do povo hebreu era uma teocracia formada por doze tribos e dirigida por juízes. [1] Depois o povo quis ter um rei, e Saul foi o seu primeiro soberano. (1 Samuel 10.) [2] Em seguida, Davi tornou-se rei no seu lugar. (1 Samuel 16.) [3] Salomão, após a morte de seu pai Davi, assumiu o trono. (1 Reis 2.12.) [4] Quando Salomão morreu, Roboão, seu filho, reinou em seu lugar. (1 Reis 11.43.) [5]

 

 

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Descrição: Divisão do reino dos hebreus. Data: maio/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

Dez tribos, lideradas por Jeroboão, procuraram o novo rei (Roboão) e disseram para ele: “Teu pai agravou o nosso jugo; agora, pois, alivia tu a dura servidão de teu pai e o seu pesado jugo que nos impôs, e nós te serviremos.” (1 Reis 12:4, RC.) [6] Ele prometeu dar a resposta em três dias.

 

Depois de ouvir os conselhos dos jovens que cresceram com ele, tomou a decisão. No terceiro dia, disse para o povo: “Meu pai agravou o vosso jugo, porém eu ainda aumentarei o vosso jugo; meu pai vos castigou com açoites, porém eu vos castigarei com escorpiões.” (1 Reis 12:14, RC.) [7]

 

Então as dez tribos do Norte se revoltaram e promoveram a divisão do reino, formando o reino de Israel, e Jeroboão foi escolhido para ser o primeiro rei. Apenas duas tribos ficaram com Roboão (as tribos de Judá e Benjamim) e formaram o reino de Judá. Foi o fim do reino próspero de Davi e Salomão. Foi uma separação política e também religiosa, pois o rei Jeroboão construiu dois bezerros de ouro e lugares de adoração no alto dos morros, além de escolher sacerdotes que não eram da tribo de Levi, como fora determinado por Moisés. (1 Reis 12.) [8]

 

Cisma religioso é a separação de uma pessoa ou de um grupo de pessoas que acontece dentro de uma religião. É a formação de um grupo religioso a partir de uma igreja ou religião original. “Divergência, diferença de pensamento ou de opinião, ou a separação de um grupo causada por essa diferença.” [9]. Foi o que aconteceu com povo hebreu e tem acontecido em muitas religiões.

 

Uma religião é como uma célula. O tempo passa, e ela vai se dividindo em novos grupos. Esses também acabam se dividindo noutros subgrupos.

 

As diversas religiões do mundo tiveram cismas.

 

·       O islamismo se dividiu em:

·       Xiitas;

·       Sunitas;

·       Kharijitas;

·       Sufismo;

·       Outros.

 

Esses estão divididos em outros grupos e subgrupos. [10], [11].

 

·       O hinduísmo está dividido em quatro principais denominações:

·       Vaishnavismo;

·       Shaivismo;

·       Shaktismo;

·       Smartismo.

     

Essas se subdividem em diversas outras [12],[13].

 

·       O budismo está distribuído em várias escolas e subescolas como:

·       Theravada ou Hinyana;

·       Mahayana:

·       Zen/chan;

·       Terra Pura;

·       Tiantai;

·       Ichiren;

·       Shingon;

·       Tendai;

·       Budismo tibetano;

·       Vajrayana, etc.

 

Essas se subdividem em várias outras. [14], [15], [16].

 

·       No sikhismo temos:

·       Khalsa

·       Amritdhari

·       Namdhari

·       Ravidasi Ravidasi dentre outros: [17].

 

·       No taoísmo temos as seguintes escolas:

·       Dān Ding;

·       Fú Lù;

·       Jīng Dian;

·       Jī Shàn;

·       Zhān Yuàn. [18]

 

·       O jainismo está dividido em dois grupos principais:

·       Digambara ("Vestes de céu");

·       Svetambara (ou Shvetambara, "Vestes brancas").

 

Em cada um desses grupos, há vários subgrupos. [19], [20].

 

·       O Xintoísmo está dividido entre diversos grupos como:

·       Koshintō;

·       Koshintō;

·       Yoshida Shintō;

·       Konkokyo;

·       Tenrikyo;

·       Ōmoto;

·       Seicho no Ie;

·       Sekai Kyūseikyō;

·       Shinji Shūmeikai;

·       Shinmei Aishinkai;

·       Shinmei Aishinkai;

·       Shinmei Aishinkai e muitos outros grupos. [21]

 

·       Judaísmo se ramificou como:

·       Judaísmo dos saduceus;

·       Judaísmo dos fariseus;

·       Judaísmo dos essênios;

·       Judaísmo dos zelotas;

·       Judaísmo dos ebionitas;

·       Judaísmo rabínico:

·       Judaísmo ortodoxo:

·       Judaísmo hassídico ou chassídico;

·       Judaísmo moderno ortodoxo;

·       Judaísmo haredi;

·       Judaísmo conservador ou masorti;

·       Judaísmo reformista;

·       Judaísmo progressivo;

·       Judaísmo caraíta;

·       Judaísmo samaritano;

·       Beta Israel ou falachas;

·       Judaísmo messiânico e ebionismo;

·       Outros.

 

Dentro desses grupos, encontramos diversos subgrupos. [22], [23], [24].

 

Jesus ensinou ao mundo uma nova maneira de buscar a Deus. Ele deixou bem claro que o seu reino não é deste mundo. (João 18.36.) [25] Em outras palavras, os seguidores das mensagens de Jesus formam a sua igreja, uma comunidade de pessoas que não é uma nação e nenhuma organização religiosa que possa ser dividida como a nação dos hebreus. É um reino espiritual, que não tem um governo humano. Cada um, com o seu dom, é servo um do outro. Ninguém é maior, ninguém é dono, ninguém pode dominar o outro. Por isso, a verdadeira igreja de Jesus não pode ser dividida. Assim foi a igreja primitiva. [26]

 

Algum tempo depois, a igreja começou a se transformar numa organização religiosa, e alguns bispos das cidades maiores começaram a controlar os bispos das comunidades locais de sua região. Nas cidades de Antioquia, Jerusalém, Alexandria, Constantinopla e Roma ficavam os principais bispos ou patriarcas no comando da cristandade. [27] Mas a Igreja nem sempre permaneceu unida. Houve diversos desentendimentos e, consequentemente, vários cismas ou divisões.

 

Montanismo. No século II, por volta de 150, Montano, um dos mais conhecidos pais da Igreja, arrastou, com suas doutrinas, um grande número de pessoas. [28], [29], [30]

 

 

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Descrição: Cismas. Data: julho/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

Hipólito de Roma, no início do século III, se opôs ao papa Calisto I por considerá-lo demasiadamente relaxado com a Igreja. Dessa forma, ele acabou se tornando um antipapa, dirigindo outro grupo em oposição à Igreja dirigida por Calisto. [31]

 

Novacianismo. O bispo Novaciano foi eleito papa em oposição ao papa Cornélio, desenvolvendo uma seita paralela à Igreja romana em meados do século III, tornando-se o segundo antipapa. [32], [33], [34]

 

Donatismo. No século IV, em Cartago, norte da África, o bispo Donato criou uma seita que ficou conhecida como donatismo. Os donatistas eram rigorosos e diziam que os sacramentos administrados por certas pessoas não tinham nenhuma validade. Por causa disso, muitas pessoas deveriam ser rebatizadas. [35], [36], [37], [38]

 

Priscilianismo.  No final do século IV, na Península Ibérica (Espanha) que na época era uma província romana, o bispo Prisciliano criou um movimento religioso com práticas e doutrinas diferentes. Ele não aceitava o dogma da Trindade e fora acusado de práticas religiosas estranhas, ascetismo rigoroso e doutrinas ligadas ao gnosticismo e ao maniqueísmo. A sua doutrina foi condenada no concílio de Saragoça, na Espanha, e ele recebeu a pena de morte, juntos com alguns de seus seguidores. [39]

Apolinarismo. O bispo Apolinário de Laodicéia, também no final do século IV, ensinava que Jesus tinha um corpo humano, mas uma mente exclusivamente divina. Provocaram um cisma, mas foi condenado em 381, no sínodo de Constantinopla. Para os seus condenadores, Jesus era totalmente homem e totalmente Deus. [40].

 

Nestorianismo. O bispo Nestório de Constantinopla dizia que em Cristo há duas naturezas: a divina e a humana. Afirmava que essas duas naturezas, embora presentes numa única pessoa, eram totalmente distintas. Dessa forma, Maria era apenas mãe da natureza humana de Jesus e não podia ser chamada de Mãe de Deus. Mas a maioria acreditava que Cristo tinha as duas naturezas juntas. Essa doutrina foi condenada no Concílio de Éfeso em 431 e no II Concílio de Constantinopla em 553. O papa Celestino excomungou e depôs Nestório. Assim surgiu o cisma que deu origem à igreja nestoriana. [41].

 

Igrejas não calcedonianas. O Concílio de Calcedônia decidiu depor e desterrar o patriarca de Alexandria, no Egito, que defendia o monofisismo, doutrina que dizia que Cristo possuía apenas a natureza divina. Não possuía a natureza humana e a divina juntas, segundo a crença da maioria. Dessa forma, houve outro cisma, e surgiram as igrejas não calcedonianas, aquelas que rejeitaram as decisões do Concílio de Calcedônia sobre as duas naturezas de Cristo. [42], [43].

 

Cisma dos Três Capítulos. Esse cisma, no norte da Itália, que durou 145 anos (553 a 698) foi provocado por contendas relacionadas às igrejas não calcedonianas. [44], [45], [46]

 

Igreja Ortodoxa e o Grande Cisma do Oriente. Em 1054, houve o Cisma do Oriente, quando aconteceu uma grande divisão da Igreja. De um lado, ficou a Igreja do Ocidente (a Igreja Católica). Do outro, a Igreja do Oriente (a Igreja Ortodoxa). Isso aconteceu porque os patriarcas de Constantinopla não admitiam a superioridade do bispo de Roma sobre toda a Igreja. Os desentendimentos com o patriarca Fócio e finalmente com o patriarca Miguel Cerulário acabaram causando a ruptura. Esse último e o papa Leão IX se excomungaram mutuamente. [47], [48], [49]

 

Cisma do Ocidente. Entre os anos 1378 e 1417, mais um cisma aconteceu. Agora, na Igreja Católica, já separada da Igreja Oriental, houve desentendimentos sobre a sucessão dos papas. Em 1309, o papa Clemente, pressionado pelo rei da França, transferiu a sede do papado de Roma para cidade francesa de Avignon. Ali seis papas de origem francesa permaneceram até 1377, quando o papa Gregório XI resolveu voltar para Roma, onde morreu em 1378. (Observe que os franceses dominaram a Igreja por 68 anos consecutivos.)

 

Após a morte do último papa francês da época, foi escolhido um papa Italiano: Urbano VI. Mas esse papa não agradou a ninguém. Ele tornou-se colérico e autoritário. Então, um grupo de cardeais elegeram Clemente VII, que assumiu o papado residindo novamente na França. Esse atraiu a atenção de boa parte da Europa, enquanto o outro mantinha influências sobre outra parte. Então houve discórdias entre os dois papas. Em Roma, Bonifácio IX sucedeu a Urbano VI. Depois vieram os papas Inocêncio VII e Papa Gregório XII. Em Avignon, Benedito XIII sucedeu a Clemente VII.

 

Em Avignon, houve outro desentendimento, e Alexandre V, sucedido pelo antipapa João XXIII, criaram outro papado na cidade francesa de Pisa, e a Igreja ficou com três papas ao mesmo tempo. Foi outro cisma dentro do cisma. Mas esse último papa de Pisa convocou o Concílio de Constança, que elegeu Martinho V, aceito por todos, colocando assim um ponto final no grande cisma do Ocidente. [50], [51]

 

Reforma. No século XVI, vários líderes católicos se rebelaram contra os abusos da Igreja e acabaram criando novas Igrejas como a Igreja Luterana e o calvinismo. Na mesma época, o rei da Inglaterra Henrique VIII, após desentendimentos com o papa, fundou a Igreja Anglicana. Essas igrejas, conhecidas como Igrejas protestantes, se espalharam principalmente pelo norte da Europa e América do Norte, de onde foram difundidas para outras partes do mundo. Nessas Igrejas, aconteceram centenas de novos cismas, e assim surgiram muitas outras igrejas ao longo dos anos. Hoje acontece um novo cisma ano após ano, e o número de igrejas vai se multiplicando. [52]

 

Igrejas vétero-católicas a partir das controvérsias do Concílio Concílio Vaticano I, surgiram as igrejas vétero-católicas. Os reformadores dessa época rejeitaram as novas decisões do papa, do Concílio Vaticano I e do Concílio de Trento, mas ficaram com muitos costumes, doutrinas e liturgias dos séculos anteriores. [53]

 

Assim, o cristianismo, até 2012, basicamente, está dividido em:

·       Igreja Católica (catolicismo);

·       Igreja Nestoriana ou Igreja da Assíria do Oriente (nestorianismo);

·       Igrejas não calcedonianas: [54].

·       Igreja Apostólica Armênia;

·       Igreja Ortodoxa Síria;

·       Igreja Ortodoxa Copta ou Alexandrina (egípcia ou etíope);

·       Igreja Ortodoxa Etíope;

·       Igreja Ortodoxa Indiana;

·       Igreja Ortodoxa Eritréia;

·       Igreja Ortodoxa Grega (ortodoxismo);

·       Igrejas protestantes:

·       Igreja Luterana;

·       Igreja Presbiteriana;

·       Anabatistas;

·       Igreja Anglicana;

·       Igreja Congregacional;

·       Igreja Batista;

·       Igreja Metodista;

·       Milhares de outras igrejas oriundas desses movimentos protestantes classificadas como:

·       Tradicionais

·       Adventistas;

·       Pentecostais;

·       Neopentecostais, etc.

·       Igrejas vétero-católicas (Várias igrejas autocéfalas, que rejeitaram as decisões do Concílio de Trento, do Concílio Vaticano e os novos dogmas). [55].

 

Obs.: Essa é uma classificação básica. Novos cismas vão acontecendo por todos os lados. O emaranhado de crenças, doutrinas e práticas religiosas dificultam a formação de uma classificação completa e satisfatória.  [56], [57]

 

A religião, quando se transforma numa organização religiosa, acaba gerando cismas. Muitas vezes é natural e até necessário que ele aconteça. Alguns cismas foram ruins, mas outros foram bons. Por causa deles, muitos líderes amadureceram e deixaram de lado a prepotência. A Igreja Católica tem muitas coisas para consertar. Todavia melhorou bastante. Hoje ela aprendeu a conviver com as diferenças doutrinárias sem causar tantos males às pessoas, como nos tempos passados. Isso aconteceu porque os cismas mostraram que a Igreja não tem um cabeça absoluto controlando tudo sozinho.

 

A Igreja não tem dono, e por isso ninguém pode tentar dominá-la com as suas idéias. Se uma pessoa não se sente bem dentro de uma comunidade religiosa, é melhor ela sair e procurar outra, ao invés de ficar ali provocando discórdias e mal-estar. Se não achar outra do seu agrado, quem sabe terá que fundar uma nova igreja ou religião. De qualquer maneira, a nova comunidade religiosa não deve viver brigando com a igreja ou religião de onde saiu, promovendo difamações, perseguições e outros males. Podemos viver separados de acordo com as nossas crenças e idéias. Mas temos que estar unidos pelo amor e pelo respeito. Independente da organização religiosa, quem realmente segue as mensagens de Jesus faz parte do seu reino indivisível. E o reino de Deus não tem nenhum opressor para nos castigar com açoites ou escorpiões. E ninguém é representante absoluto de Deus neste mundo para tentar dominar as pessoas. Saímos fora das organizações religiosas tradicionais e estamos aqui com uma nova proposta, porque não concordamos com os diversos elementos religiosos pregados por muitos. Todavia não estamos pregando o ódio e a discriminação contra ninguém. Amamos a todos igualmente, apesar das diferenças.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br