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Dinâmicas de ensino

Livres dos Fardos Religiosos

 

Os discípulos de Jesus chegaram perto dele e perguntaram quem seria o maior no Reino do Céu. Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles e disse: “Eu afirmo a vocês que isto é verdade: se vocês não mudarem de vida e não ficarem iguais às crianças, nunca entrarão no Reino do Céu. A pessoa mais importante no Reino do Céu é aquela que se humilha e fica igual a esta criança. E aquele que, por ser meu seguidor, receber uma criança como esta estará recebendo a mim.” (Mateus 18.1-5, NTLH.) [1]

 

 

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Descrição: Jesus e uma criança. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

Dinâmica de ensino é qualquer atividade capaz de ajudar as pessoas a entenderem, com bastante clareza, o que está sendo ensinado. O que Jesus fez foi um exemplo de dinâmica de ensino. A criança serviu para mostrar para os discípulos que o mais importante é aquele que tem um coração puro, modesto, amoroso e perdoador como as criancinhas e não quem está no auge da fama, quem é considerado o melhor, quem tem cargo de destaque ou coisas parecidas.

 

Jesus disse: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém comer desse pão, viverá para sempre; e o pão que eu der é a minha carne, que eu darei pela vida do mundo. Na verdade, na verdade vos digo que, se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último Dia. Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim, e eu, nele.” (João 6.51, 53-56, RC.) [2]

 

É claro que ele não está dizendo isso no sentido literal. Ninguém deveria e nem poderia comer a sua carne e nem beber o seu sangue. Seus discípulos não eram canibais e nem morcegos. O que ele quis dizer é que, por causa da sua luta em prol do bem, da verdade, do amor, da paz, da justiça, da fé, do perdão e outras coisas, ele ia perder a sua vida. Ele sabia que a sua mensagem não era bem vista pelos líderes religiosos hipócritas da sua época. Naquele tempo, quem pregava contra certos princípios religiosos judaicos era julgado com a pena de morte. Segundo a lei de Moisés, quem blasfemava contra Deus devia ser morto por apedrejamento. (Levítico 24:16.) [3] Fazer o que Jesus fez foi considerado pelos líderes religiosos judeus uma blasfêmia contra Deus. (Mateus 9:3; 26.55; Marcos 2.7; 14.64; Lucas 5:21, João 10.33.) [4] Mas em vez de ser apedrejado, ele foi entregue às autoridades romanas. Naquele tempo, o Império Romano dominava o povo de Israel (os judeus). E, de acordo com a pena de morte romana, o condenado era pregado num madeiro com cravos. [5], [6] Nos furos jorrava sangue. Comer a sua carne e beber o seu sangue não seria transformar o seu cadáver em alimento, mas prosseguir com a sua mensagem. Mensagem que, conforme ele sabia, custaria a vida do seu corpo e faria derramar o seu sangue. Aceitar, viver e anunciar a sua mensagem é participar com ele desse sofrimento. O seu corpo e sangue na cruz por causa da sua mensagem acabaram virando, simbolicamente falando, alimento para a humanidade. A ceia que ele tomou com os seus discípulos foi uma dinâmica de confraternização e de ensino. (Mateus 26.26-29; Marcos 14; 22-26; Lucas 22.14-20.) [7] Ele usou o pão da ceia para representar o seu corpo, que seria ferido e morto por causa de suas mensagens. Usou também o vinho para representar seu sangue, que seria derramado. Trigo ceifado se transformara naquele pão. Uvas colhidas e esmagadas se transformaram naquele vinho. Da mesma forma, o seu corpo torturado, ferido e morto se transformaria num alimento espiritual para a humanidade. É uma pena que muitos ainda não entenderam isso e mistificaram tudo.

 

Outro dia, Jesus ficou perto da caixa de ofertas do templo observando as pessoas colocarem dinheiro ali. Os ricos colocavam muito dinheiro. Mas uma viúva pobre veio e colocou duas moedinhas de pouco valor. Então Jesus aproveitou para ensinar para os seus discípulos que a oferta da viúva, na verdade, era maior. Ela dava praticamente tudo que tinha para viver. Os ricos davam o que estava sobrando. (Marcos 12.41-44.) [8]

 

“Certa vez Jesus estava reparando como os convidados escolhiam os melhores lugares à mesa. Então fez esta comparação: ‘Quando alguém convidá-lo para uma festa de casamento, não sente no melhor lugar. Porque pode ser que alguém mais importante tenha sido convidado. Então quem convidou você e o outro poderá dizer a você: Dê esse lugar para este aqui. Aí você ficará envergonhado e terá de sentar-se no último lugar. Pelo contrário, quando você for convidado, sente-se no último lugar. Assim quem o convidou vai dizer a você: Meu amigo, venha sentar-se aqui num lugar melhor. E isso será uma grande honra para você diante de todos os convidados. Porque quem se engrandece será humilhado, mas quem se humilha será engrandecido.’” (Lucas 14.7-11, NTLH. Grifo meu.) [9]

 

Ele transformou a cena real de um banquete, com pessoas encolhendo os melhores lugares, para dar uma lição de exaltação e humildade. Na sequência, aproveitando a cena do banquete, ele disse para o que o havia convidado que é melhor gastar com os pobres do que com os amigos, parentes e vizinhos ricos. Por isso, o banquete com pobres, aleijados, coxos e cegos é mais importante para Deus. (Lucas 14.12-14.) [10] Em seguida, um dos que estavam à mesa disse: “Felizes os que irão sentar-se à mesa no Reino de Deus! (NTLH.)” Então Jesus respondeu contando a parábola da grande ceia, mostrando que todos são convidados para a festa no Céu. Mas muitos ficarão de fora porque recusam o convite, alegando ter outros compromissos. (Lucas 14.15-24.) [11]

 

 

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Descrição: Jesus e a samaritana. Data: Julho/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.  

Outra dia, quando Jesus viu uma mulher samaritana se aproximando dum poço para tirar água, disse: “Qualquer que beber desta água tornará a ter sede, mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna.” (João 4.13-14, RC.) [12] Ele aproveitou aquele momento, quando o assunto era água, para dizer para a mulher que o seu evangelho é como água para matar a sede espiritual e dar vida eterna.

 

Um dia, ele lavou os pés dos seus discípulos, não como um ritual de purificação, mas para demonstrar para eles que devemos servir uns aos outros com humildade. Foi uma dinâmica de ensino, onde ele concluiu dizendo: “Vós me chamais o Mestre e o Senhor e dizeis bem; porque eu o sou. Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros.” (João 13.5-16, RC.) [13]

 

Como Jesus, podemos ensinar muitas coisas usando dinâmicas de ensino. Por exemplo: para falar sobre o perdão, peça que as pessoas citem algumas coisas desagradáveis que outras pessoas fizeram contra elas. Com um lápis, escreva as coisas citadas num pedaço de papel. Depois, com uma borracha, apague tudo, explicando que perdoar significa apagar da memória tudo aquilo que nos ofendeu.

 

Outro exemplo. Arrume algumas pedrinhas e dê uma para cada pessoa do grupo. Peça para elas colocarem a pedrinha dentro do calçado. Em seguida, peça para elas caminharem. Vai ser difícil. Então aproveite para dizer que erros conservados em nossas vidas são como pedras no sapado: eles precisam ser retirados.

 

Mais um exemplo. Consiga uma rosa com um ramo cheio de espinhos e uma flor singela com o ramo sem espinhos. Pergunte para as pessoas qual das duas flores é a mais bela. Certamente que a maioria ou todos dirão que é a rosa. Peça para uma pessoa segurar a rosa pelo ramo com bastante força. Ela não vai conseguir por causa dos espinhos. Peça outra pessoa para fazer o mesmo com a outra flor. Aproveite para mostrar que muitas coisas, apesar de serem atraentes, são insuportáveis ou causam danos. Não podemos nos iludir com as aparências.

 

 

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Descrição: Uma bela rosa vermelha. Data: 01 de novembro de 2008. Autor: Hamachidori. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

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Descrição: Espinhos de roseira, Kahakapao Gulch , Maui. Data: 18 de agosto de 2005. Autor: Forest & Kim Starr. Fonte. Licença CC BY

 

Ensinar com dinâmicas é melhor do que com longos sermões. Elas despertam a curiosidade das pessoas, atraem a atenção de todos e esclarecem bastante aquilo que queremos ensinar. Mas longos sermões cansam e geram poucos resultados. Por isso, use a imaginação e crie dinâmicas de diversas maneiras.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



Sermões (parte II)

Livres dos Fardos Religiosos

Continuação do post anterior

 

Os sermões das igrejas estão certos ou errados? E a Bíblia, o que diz?

 

Não é proibido usar certos recursos para explicar ou convencer pessoas. O problema é que certas técnicas têm sido usadas para disseminar doutrinas estranhas, bem longe daquilo que Jesus ensinou. Por outro lado, o sermão se transformou num verdadeiro ritual nas igrejas. Tornou-se difícil ver uma reunião cristã sem sermão. Os pregadores ignoram outros recursos que podem ser utilizados para ensinarem o povo. Jesus, por exemplo, ensinava com parábolas, sem pregar longos discursos. A música pode ser usada para ensinar as pessoas. Pena que nossas músicas têm sido, no século XX e agora, no início do século XXI, apenas de louvor, adoração e agora falando de vitória dentro do contexto da doutrina da prosperidade. É preciso fazer canções protestando contra os pecados, como a guerra, a ganância, a injustiça social, a destruição do meio ambiente e canções encorajando as pessoas a serem mais solidárias, mais respeitosas, mais tolerantes, etc. Se pelos menos a metade das músicas cantadas nas igrejas fosse desse tipo, não haveria necessidade de tantos sermões. O mesmo poderia ser feito com o teatro e outras artes. Mas a igreja ficou tão dominada pela arte do sermão que, sem ele, as pessoas acham que a palavra de Deus não foi anunciada. Muitos acham que quem não escuta um sermão não é cristão de verdade, mesmo aprendendo a ser cristão através de outros meios,

 

Outra coisa é o tempo. Ninguém merece ficar 30 minutos ou até duas horas ouvindo um longo sermão improdutivo só para cumprir com o ritual. Alguns dominam bem a arte de falar e deixam a platéia ouriçada, excitada. Mas alguns, com bastante redundância, se esforçam para preencherem o “tempo sagrado da palavra de Deus”. Afinal de contas, ritual é ritual. Mesmo sendo cansativo, muitos acham que tem que ser praticado.

 

 

A igreja, após o século III, deixou de viver o verdadeiro evangelho para defender suas doutrinas obscuras com bastante retórica e condenar quem não as aceitasse. Esse é o evangelho sepulcro caiado. Tudo bonito: o templo, o púlpito, as decorações, a roupa do pregador e os sermões requintados de oratória. Porém, por dentro, as pessoas, muitas vezes, estão vazias das virtudes cristãs. É bom lembrar que aqueles que atiraram a bomba em Hiroxima e Nagasaki, os que mataram os índios americanos, escravizaram africanos, perseguiram outras crenças, queimaram supostos hereges, destruíram o meio ambiente, praticaram corrupções ... Praticamente todos acreditavam na Santíssima Trindade, na transubstanciação, na liturgia, nos templos e em tantas outras coisas que a retórica das sofistas eclesiais andaram semeando das tribunas eclesiásticas Não se engane! Essas coisas ruins não puderam ser evitadas com sermões. Os pregadores tinham mais o que fazer. Tinham que zelar pela “sã doutrina”, pelos “santos dogmas.” (Tudo entre aspas, por favor). O mesmo acontece com muitos pastores modernos de várias igrejas institucionais. Muitos são corruptos, avarentos, hipócritas, cheios de santimônia, simoníacos, orgulhosos... Eles não têm tempo para refletir sobre essas coisas. Precisam saber como defender as doutrinas dos “pais da igreja.” Põem um pé no primeiro século, mas firmam mesmo é no século III e IV em diante.

 

Os sermões congelam as pessoas no banco e não deixam elas questionarem nada. A igreja torna-se submissa a certos pregadores eloquentes, como se eles realmente fossem a boca de Deus. Não entendem que eles podem ser excelentes profissionais de púlpito, mas que podem também ser péssimos cristãos, enquanto muitos que não têm nenhuma eloqüência são pessoas cristãs verdadeiras. Muitos pregadores se sentem um homem de Deus, acima dos outros, que não podem ser corrigidos por um leigo. O corrigir uns aos outros não vale pra eles. “Eles são os bons.” E quando alguém denuncia os seus erros e os exorta, clamam com seus discursos eloquentes, dizendo que estão sendo perseguidos. Tentam constranger as pessoas dizendo: “Ai dos que tocam os ungidos do Senhor.”

 

No mundo, muitas coisas erradas são rapidamente transmitidas de um para o outro. Ninguém faz um sermão para passar adiante uma fofoca, uma mentira. Ninguém faz um sermão ensinando trapacear... As pessoas aprendem uns com os outros, na prática. A igreja primitiva aprendia a viver o evangelho assim, de boca em boca, na prática. E hoje tem que ser assim. Se o mal se aprende sem sermões, por que as coisas puras precisam ser diferentes?

 

Muitos membros de igreja, em seus relacionamentos uns com os outros, não sabem falar de coisas que edificam. Não sabem corrigir, ensinar, edificar uns aos outros. Para eles, isso é tarefa do pregador. Como não sabem pregar sermões, apenas vivem fofocando e difamando uns aos outros. Muitos vivem uma vida carregada de pecado. Depois vão ao templo, escutam um sermão e voltam do mesmo jeito, achando que cumpriram com a sua obrigação. Não são sacerdotes uns dos outros porque aprenderam a depender do sacerdote eclesiástico, que sempre pratica seu ritual homilético. Os sermões enchem as pessoas de teorias arrebatadoras, mas muitos voltam para casa e não sabem ou não têm oportunidade de colocar tudo em prática.

 

Alguma coisa está errada. As pessoas que promoveram a maioria das guerras do mundo, incluindo as duas Guerras Mundiais, os que promoveram o apartheid na África do Sul, o imperialismo econômico, o massacre de povos americanos... Eram todos esquentadores de banco, embalados nas ondas sonoras dos sermões dos oradores das igrejas. Eles erraram porque seus mestres nãos lhes ensinaram, na prática, como Jesus. João Calvino pregou bonito, mas no seu cantão suíço não hesitou em eliminar seus opositores. [1] Por que seus seguidores seriam diferentes? Se o papado promoveu cruzadas sangrentas, porque os líderes políticos ergueriam bandeiras brancas? [2] Para muitos, sermão é pura arte ritualística. Virou costume não colocar nada em prática. Nem os puritanos tiveram êxito.

 

Qualquer um poderá se defender dizendo que os evangelhos e Atos dos Apóstolos estão cheios de discursos. É verdade, mas eles são bem diferentes. Os sermões daqueles tempos bíblicos não eram constantes como agora. Hoje se houver uma reunião eclesial, tem que haver pelo menos um sermão. Naquela época, eles aconteciam por acaso, dependendo das circunstâncias. Nem todo encontro de cristãos tinha sermão. Não era uma regra. Mas hoje, o pregador, vestido diferente, sobe no púlpito, acima do povo, lê um texto, faz uma oração, faz uma introdução, desenvolve uma mensagem, faz a conclusão e mais alguma coisa, tudo dentro do cronograma, no meio de uma reunião litúrgica. Naquele tempo, não havia nada disso. Dependendo da situação, Jesus ou os apóstolos às vezes pregavam para responderem a alguma situação repentina. Nada era programado como os discursos de hoje, que são preparados de antemão. Era tudo informal e improvisado, dentro do contexto, sem cerimônias, sem púlpito requintado, sem decorações, sem templo, sem roupa diferente.

 

A diferença das pregações de Jesus em relação aos sermões modernos

 

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Descrição: Sermão moderno. Data: Julho/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

 

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Descrição: Jesus ensinando. Data: Julho/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.  

 

·       A parábola dos primeiros assentos e a parábola da grande ceia. Lucas 14.7-24 mostra que Jesus transformou a cena real de um banquete, com pessoas encolhendo os melhores lugares, para dar uma lição de exaltação e humildade. Na sequência, aproveitando a cena do banquete, ele disse para o que o havia convidado que é melhor gastar com os pobres do que com os amigos, parentes e vizinhos ricos. Por isso, o banquete com pobres, aleijados, coxos e cegos é mais importante para Deus. Quando um dos que estavam à mesa disse: “Felizes os que irão sentar-se à mesa no Reino de Deus!” (NTLH.) Então Jesus respondeu contando a parábola da grande ceia, mostrando que todos são convidados para a festa no Céu. Mas muitos ficarão de fora porque recusam o convite, alegando ter outros compromissos. [3] Percebeu a diferença? Ele aproveitou a circunstância, falou pouco, assentado à mesa. Houve um comentário e uma parábola como resposta. Não foi nenhuma multidão de palavras ditas diante e acima de uma platéia passiva.

 

 

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Descrição: Jesus ensina os seus discípulos num monte.  Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

·       O sermão do monte. Em Mateus, capítulos 5, 6 e 7, temos o primeiro sermão, conhecido como sermão do monte. Foi um sermão, mas bem diferente dos sermões sofistas. Jesus pregou para os seus discípulos assentado num monte. Não fez um longo discurso sobre um tema. Falou sobre as bem-aventuranças, sobre o cumprimento da lei, sobre adultério, juramentos, pena de talião, amor aos inimigos, prática da justiça, oração, jejum, tesouros no céu, a luz e as trevas, os dois senhores, ansiedade, julgamento, o pedir a Deus as coisas, os dois caminhos, os falsos profetas e os dois fundamentos. [4] Foram 18 temas. Tudo isso cabe em apenas três páginas de papel A4, com uma fonte de tamanho 10. Jesus estava lá, assentado no chão com os seus amigos, batendo papo. Não havia púlpito, retórica grega e nenhuma formalidade.

 

·       A missão dos doze. Em Mateus 10.5-42, Jesus dá algumas instruções para seus discípulos que saiam para uma missão. Tudo foi resumido em 37 versículos. [5]

 

·       Sermão profético. Em Mateus 24 e 25, ele profetiza algumas coisas sobre o fim dos tempos. Quando ele saiu do pátio do Templo, e, quando já estava indo embora, os seus discípulos chegaram perto dele e chamaram a sua atenção para os edifícios do Templo. Ele disse: “Vocês estão vendo tudo isso? Pois eu afirmo a vocês que isto é verdade: aqui não ficará uma pedra em cima da outra; tudo será destruído!” (NTLH.) Depois, quando estavam no monte das Oliveiras, seus discípulos lhe perguntaram: “Conte para nós quando é que isso vai acontecer. Que sinal haverá para mostrar que chegou o tempo de o senhor voltar e de tudo acabar?” (NTLH.) Então ele fez uma breve explanação sobre diversos acontecimentos, que foram colocados em 94 versículos, tudo enriquecido com três parábolas: a dos dois servos, das dez virgens e dos talentos, além de algumas exortações. [6]

 

·       Em João, capítulos 14, 15 e 16, ele fala sobre a sua volta, sobre a vinda do Espírito Santo, sobre a videira e os ramos, e dá as últimas instruções para os seus discípulos. Ele foi interrogado seis vezes. Então esse discurso foi na verdade um diálogo e não um monólogo homilético. Tudo está em apenas 85 versículos. [7]

 

·       Discurso de Pedro no dia de pentecostes. Quando o Espírito Santo foi derramado sobre os discípulos de Jesus, muitas pessoas ficaram surpresas e com dúvidas. E alguns criticaram dizendo que eles estavam bêbados. Pedro aproveitou para dar uma resposta com um pequeno discurso que foi resumido em 23 versículos. (Atos 2.14-36.) [8]

 

·       Discurso de Pedro no Alpendre de Salomão. Após a cura de um coxo, uma multidão correu para perto de Pedro e João. Então Pedro aproveitou para fazer um discurso registrado em 16 versículos. (Atos 3.11-26.) [9]

 

·       O discurso de Estêvão. Para responder às acusações de seus perseguidores, Estêvão fez um breve discurso no Sinédrio. Tudo foi registrado em 53 versículos. (Atos 7.1-53.) [10]

 

·       Discurso de Pedro em Cesaréia. O encontro de Pedro com Cornélio foi registrado em 25 versículos. Pedro faz um breve discurso, resumido em 10 versículos. Os outros versículos foram puro diálogo. (Atos 10.24-48.) [11]

 

·       Discurso de Paulo em Antioquia da Pisídia. Nessa cidade, numa sinagoga, atendendo a um convite, Paulo fez uma explanação que coube em 26 versículos. (Atos13.13-52.) [12]

 

·       Discurso de Paulo em Atenas. Respondendo algumas perguntas do pessoal da cidade e Atenas , Paulo fez um breve discurso que ficou registrado em 10 versículos.(Atos 17.22-31.) [13]

 

·       Discurso de Paulo em Trôade. Sobre o longo discurso de Paulo a noite inteira, em um cenáculo, é bom lembrar o seguinte: Ele pregou numa sala de jantar (cenáculo) de uma casa, no meio do povo. Não foi num templo, de cima de um púlpito. Seu discurso foi longo porque tinha muita coisa para dizer antes da sua partida, que seria no dia seguinte. Apesar de longo, não quer dizer que não houve perguntas e comentários entre os presentes. O jovem Eutico dormiu, como alguns dormem nos bancos das igrejas na hora do sermão. Mas ali era diferente. O discurso entrou noite adentro por necessidade. Foi uma exceção, não uma regra. (Atos 20.7-11.) [14]

 

·       Discurso de Paulo aos anciões (presbíteros) de Éfeso. Nesse discurso, ele dá algumas instruções básicas para os presbíteros da cidade de Éfeso. São 18 versículos. (Atos 20.18-35.) [15]

 

·       Discurso de Paulo em Jerusalém, em sua defesa. Quando Paulo foi preso em Jerusalém, ele discursou em sua defesa, usando poucas palavras. (Atos 22.1-21.) [16]

 

É claro que esses sermões foram escritos de maneira resumida, mas podemos ver que eles atenderam às diversas circunstâncias. Quase todos são respostas a algumas indagações. Nada foi planejado. Foi tudo de improviso. Não houve um cronograma, nem lugar específico. Foi tudo naturalmente, bem diferente dos sermões dos templos diversos espalhados por esse mundo.

 

Depois de tudo isso, qualquer um pode entender que não precisamos de sermões desse tipo para sermos cristãos amadurecidos. Quando a igreja não os tinha, ela era mais santa. Depois deles, vieram a frieza, a estagnação, a passividade da congregação, o orgulho, o monólogo e o isolamento da classe clerical. Definitivamente, precisamos mudar nossos discursos. Precisamos pregar como cristãos e não como sofistas ou “showmans”. Necessitamos voltar para os pequenos grupos, onde o pastor não seja doutor ou reverendo, acima de todos, diferente, inacessível. Precisamos de alguém que nos ensine fazer fazendo, que possa se assentar no chão conosco, que seja simples, vestindo como a gente, sem cerimônias, aberto ao diálogo, como nos velhos tempos do vinho novo em odres novos. Não é errado pregar sermões bem preparados para uma multidão, mas eles não podem ser uma regra imposta, uma vez que podemos aprender a andar com Deus de diversas outras maneiras. Com tantos recursos disponíveis, não podemos ficar bitolados numa arte milenar, exigindo que todos dependam sempre de discursos ritualísticos. Os pastores precisam descer do pedestal chamado púlpito e ensinar ao povo com mais versatilidade, incluindo exemplos de vida em primeiro lugar. Não podemos ser exatamente contra o sermão, pois ele não deixa de ser um recurso muito útil. Mas não podemos fazer dele um rito. Afinal, há muitas outras maneiras para ensinar ao povo.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br