Extorsões religiosas

Livres dos Fardos Religiosos

 

A igreja de Roma, depois que se tornou a religião oficial do Império Romano, a partir do século IV, fez de tudo para impedir que qualquer outra igreja ou religião aparecesse em seu caminho. [1] Queria manter o privilégio de ser a única religião e a única igreja da terra. Não é a toa que usa o adjetivo grego de católica que quer dizer universal. [2]

 

 

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Descrição: Uma xilogravura ilustrando uma execução por queima na fogueira. Data: século XIX. Data da foto: 16/08/2008.  Autor da foto: Robert Benner.  Fonte. Licença CC BY.

Como ela conseguiu ser a religião mais poderosa durante muitos séculos?  Para muitas pessoas, uma das ferramentas utilizadas foi extorsão religiosa. Quem não fosse católico fiel poderia ser perseguido, preso e condenado à morte. Judeus, islâmicos, albigenses, valdenses, ninguém foi poupado. A liderança da Igreja não estava preocupada se as pessoas estavam ou não seguindo os ensinos de Jesus. O que interessava era se as pessoas estavam indo às missas, seguindo os seus rituais, acreditando em seus dogmas e contribuindo com a igreja. Quem não estivesse nessa linha poderia pagar com a vida e provar as calorosas chamas da “Santa” Inquisição. [3], [4], [5]

 

Extorsão é o ato de fazer com que uma pessoa faça ou deixe da fazer ou que tolere que outro faça alguma coisa, usando, para isso, uma ameaça ou algum ato de violência, com o desejo de conseguir alguma vantagem, recompensa ou lucro. [6] Muitos entendem que a Inquisição foi uma extorsão religiosa, pois ela ajudou a Igreja Católica conseguir a vantagem de ser a única religião por longo tempo, no solo europeu. Com as ameaças desse tribunal eclesiástico, ela conseguiu, por longos séculos, impedir o avanço das outras religiões e doutrinas, obrigando, através do medo, que cada cidadão fosse seu adepto.

 

Muitos alegam que a Igreja apenas julgava as pessoas. As duras penas da Inquisição eram executadas pelo poder secular. [7], [8] Todavia, a Igreja tolerava tudo, inclusive a pena máxima na fogueira. Ela foi conivente com essa pena capital. Quem matou e quem entregou as vítimas para serem executadas, todos foram culpados. Não há justificativas. E tudo isso serviu para intimidar as pessoas, evitando a proliferação de outras religiões e igrejas.

 

 

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Desc.: Almas no Purgatório. Data: 1700. Data da foto: 17/09/2007. Autor: Wolfgang Sauber. Fonte.  Licença CC BY-SA.

 

Outro exemplo de extorsão religiosa. Existe uma crença antiga, desde o século III, que afirma que uma pessoa, quando morre, sua alma vai para um lugar, onde permanecerá até ser totalmente purificada de seus pecados. Esse suposto lugar recebeu o nome de Purgatório. [9], [10], [11] Antes não havia nenhuma doutrina oficial sobre ele, mas no século XV, nos Concílio de Florença e no século XVI, no Concílio de Trento, essa crença foi aprovada. [12] Para confirmar a sua existência, foram usados os seguintes textos bíblicos, sendo o primeiro do livro de Macabeus, não aceito pelos evangélicos e protestantes: II Macabeus 12:41-45; Mateus 5. 25-26; Mateus 12.32; II Coríntios 3.12-15. [13], [14] Nesses versículos, não encontramos nada claro, mas a Igreja tenta ver neles um fundamento para essa crença. Por exemplo: o fato de alguém pecar contra o Espírito Santo e não ser perdoado, nem aqui e nem no porvir, conforme Mateus 12.32, é uma idéia implícita, pois o porvir pode estar se referindo ao julgamento final. É interessante ver que Jesus não falou de nenhum lugar desse tipo. Falou de vida eterna, salvação e condenação, mas não citou claramente nenhum lugar semelhante. (Marcos 16:16, Mateus 25.31-46, etc.) [15] É uma doutrina que contradiz o texto: “o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado.” (1 João 1:7, RA.) [16] Esse texto diz explicitamente, claramente: “nos purifica de todo pecado.” Mas a Igreja insiste na purificação pelo fogo do Purgatório.

 

O problema grave não é provar se existe ou não existe um lugar de tormento para a purificação das almas depois da morte. Os mistérios do além não podem ser desvendados totalmente por ninguém deste mundo. Mas o problema está nas vantagens financeiras que essa doutrina assustadora tem causado. Mesmo sendo uma doutrina implícita, obscura, sem esclarecimentos dados por Jesus e pelos apóstolos, a Igreja vem falando dele com bastante ênfase, causando pavor entre as pessoas. A doutrina, os sermões, as histórias e as ilustrações mostrando cenas de pessoas ardendo em chamas têm causado horror e medo nos fiéis. Se tudo fosse apenas uma questão de crença, não seria uma extorsão. Todos são livres para acreditarem no que quiseram. Mas a partir do momento que a igreja, usando todos esses recursos arrepiantes, faz dessa crença obscura e assustadora uma fonte de renda, ai podemos dizer que é uma doutrina extorsiva. Apregoar uma crença, com bastante ênfase, induzindo as pessoas, constrangidas pelo medo, a comprarem missas e indulgências, com o intuito de libertarem seus entes queridos do fogo do Purgatório, isso caracteriza uma extorsão religiosa. De acordo com a doutrina católica, as almas, no Purgatório, podem ser aliviadas, e a sua permanência ali abreviada pelas preces dos fiéis, principalmente com o sacrifício da missa. [17], [18], [19] Dessa forma, a Igreja vem celebrando missas em troca de pagamentos em dinheiro, tornando-se um negócio lucrativo para a Igreja.

 

Multiplicando o número de mortos pelo preço médio de uma missa vai dar milhões em dinheiro. Considerando que cada morto pode receber inúmeras missas, então o valor pode ser multiplicado inúmeras vezes. É evidente que nem todos levam essa prática a sério. Então é ai que a Igreja luta para divulgar essa crença e acaba fazendo isso com atitudes extorsivas.

 

Entre muitos evangélicos também existe extorsão. Um dia, um pregador dizia corretamente que, com Jesus, estamos livres da lei de Moisés. Ficamos livres de praticar as obras da sua lei. Fomos libertos dela (Romanos 7.6.) [20] Não estamos mais debaixo da lei, e sim debaixo da graça. (Romanos 6.14.) [21] As epístolas escritas para os gálatas e para hebreus falam da superioridade do evangelho de Cristo em relação à Lei de Moisés. A igreja é livre para viver pela fé, praticando o evangelho sem as obras da lei. Isso está muito claro. No concílio de Jerusalém, para combater a judaização do evangelho, os apóstolos decidiram que as únicas coisas necessárias em relação à lei mosaica seriam: abstenção das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição. (Atos 15.29.) [22]

 

Mas outro dia, alguém perguntou para aquele pregador: “Qual a maldição a lei prescreve para quem não entrega o dízimo?” Então, ele respondeu dizendo: “Algo tremendamente horrível para qualquer ser humano suportar.” Então, esse pregador vai lá ao Velho Testamento, mergulha na lei de Moisés e cita Deuteronômio 28.15-68, onde temos 54 versículos falando de maldições diversas para os hebreus que não cumprissem com todos os mandamentos da lei. “Será, porém, que, se não deres ouvidos à voz do SENHOR, teu Deus, não cuidando em cumprir todos os seus mandamentos e os seus estatutos que, hoje, te ordeno, então, virão todas estas maldições sobre ti e te alcançarão.” (RA.) [23] A partir daqui, há uma enorme lista de maldições que ele fez questão de mostrar. E continuou dizendo que, se caso a enfermidade e o mal que estivessem afligindo a pessoa não estivessem naquela lista de maldições, então era necessário observar o versículo 61, que diz que toda a enfermidade e toda praga que não estiverem escritas nesse livro também fazem parte da maldição.

 

É interessante como alguns pregadores gostam de enganar as pessoas até com contradições. Primeiro, aquela lista de maldições fora anunciado para os hebreus que não cumprissem todos os mandamentos da lei. Segundo, se não estamos mais debaixo da lei, então porque correr atrás de bênçãos e maldições destinadas para quem cumpre ou deixa de cumprir os mandamentos da lei de Moisés? Astuciosamente, muitos buscam, na lei, somente o que lhes interessam. Quando é algo que não é conveniente, então apelam para Jesus dizendo que estamos livres da lei. Mas por que aquele pregador, mesmo sabendo que não estamos mais debaixo da lei, buscou um monte de versículos escritos nela, para ameaçar quem não paga o dízimo, que é um mandamento do passado? O dízimo é um mandamento da lei em forma de produtos agropecuários, mas foi adaptado para ser em forma de dinheiro. [24] E para evitar que as pessoas soneguem essa lei catada no Velho Testamento e adaptada segundo as conveniências, então, mesmo sabendo que não estamos debaixo do Antigo Testamento, muitos resolvem extorquir as pessoas com ameaças de maldições que não foram dirigidas para nós, mas para os hebreus que não cumprissem com todos os mandamentos e estatutos daquela lei. Note que usar indevidamente um texto bíblico que ameaça as pessoas é algo vantajoso para esses homens sedentos de dinheiro. Por isso, Malaquias 3.8-11 já virou o texto áureo mais pregado que qualquer ensino de Jesus. [25] Não querem nem saber que Malaquias falava com hebreus e que está fora do contexto cristão. Então apregoam, com bastante ênfase, os versículos 8 e 9 onde lemos: “Roubará o homem a Deus? Todavia, vós me roubais e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas. Com maldição sois amaldiçoados, porque a mim me roubais, vós, a nação toda.” (Malaquias 3.8-9, RA.) [26]

 

Quer ver outra extorsão religiosa? Os pregadores que inventam seus meios para conseguirem arrecadar dinheiro do povo, para não serem repreendidos ou criticados, gostam de ficar citando 1 Crônicas 16:22 ou Salmos 105:15, onde está escrito: “Não toqueis nos meus ungidos, nem maltrateis os meus profetas.” (RA.) [27] O mesmo versículo se encontra na Bíblia católica traduzido assim: “Não ouseis tocar nos que me são consagrados, nem maltratar os meus profetas” (Salmo 104.15.) [28]

 

Vamos ver isso direito. O povo de Israel não tinha rei. Então pede ao profeta Samuel um rei. (1 Samuel 8.) [29] Então Samuel ungiu a Saul para ser o primeiro rei de Israel. (1 Samuel 10.) [30] Saul pecou e perdeu a sua chance de continuar como rei. (1 Samuel 13.8-14.) [31] Mais adiante, Saul desobedeceu às ordens dadas por Samuel, e esse confirmou a perda do seu reinado. (1 Samuel 15.) [32] Então Samuel ungiu a Davi para ser rei em seu lugar. (1 Samuel 16.1-13.) [33] Davi, todavia, não ocupou o trono antes da morte de Saul. Por causa disso, Saul andou perseguindo Davi. Em 1 Samuel, capítulos 18; 19; 20; 21; 22 e 23, temos a descrição detalhada sobre a fuga de Davi e a perseguição de Saul. [34] O capítulo 24 mostra que Davi teve uma oportunidade de matá-lo, mas disse: “O SENHOR me guarde de que eu faça tal coisa ao meu senhor, ao ungido do SENHOR, estendendo eu a minha mão contra ele, pois é o ungido do SENHOR.” (1 Samuel 24:6, RC.) [35] No capítulo 26, outra vez Davi tem a oportunidade de acabar com ele. Abisai, seu comandante, quis assassiná-lo com a sua espada. No entanto, Davi não permitiu maltratá-lo dizendo: “Nenhum dano lhe faças; porque quem estendeu a sua mão contra o ungido do SENHOR e ficou inocente?” (1 Samuel 26:9, RC.) [36]

 

Pegando carona nesses fatos, pregadores que andam fazendo o que não devem, sofrem críticas e, em vez de se humilharem, se enchem de orgulho e alegam que são ungidos do Senhor, que não podem ser tocados. Ora, Davi matou muitas pessoas, mas não quis matar Saul. Por quê? Porque era ungido. O profeta Samuel o havia ungido para ser primeiro rei de Israel. Por isso, Davi não quis assassiná-lo. Agora, quando alguém critica as façanhas desses pregadores, por acaso alguém está querendo matá-los? Não! O próprio Saul não foi criticado por Samuel? Mas esses pregadores espertos querem continuar ludibriando as pessoas com suas artimanhas, dando uma de ungidos do Senhor. E, para evitarem críticas, ameaçam com o versículo que já virou chavão: “Não toques nos ungidos do Senhor.” E quem disse que pastor, apóstolo, missionário são pessoas com unções especiais isentos de erros que não podem ser criticados e exortados?

 

Essa mania de ser especial sobre o povo surgiu há muito tempo. No século IV, um livro dizia o seguinte: “O Bispo, eis o ministro da Palavra, o guardião do conhecimento, o mediador entre Deus e você em várias partes de sua adoração divina… Ele é seu soberano e governante… Ele está em segundo lugar depois de Deus, seu deus terreal, que tem o direito de ser honrado por tua pessoa.” Esse texto conclui dizendo que não devemos falar mal dos deuses. Conclusão: Se o bispo é um deus, então não podemos criticá-lo. (Constituições Apostólicas, Livro II, XXVI.) [37] Seguindo esse raciocínio, esses homens ficam isento de críticas, como se fossem deuses infalíveis.

 

Vimos alguns exemplos fortes. Mas se prestarmos a atenção, podemos encontrar muita coisa semelhante por ai. Fiquemos atentos com as extorsões religiosas.

 

Qualquer um tem o direto de seguir e divulgar a religião ou crença que quiser. Qualquer pessoa ou instituição que gasta tempo e recursos com a sua religião precisa de dinheiro para cobrir suas despesas. Mas vamos ser honestos. Deixemos de lado qualquer tipo de extorsão. Temos que encorajar as pessoas a contribuírem com boas causas ou a acreditar numa religião ou doutrina de forma racional, não por atos extorsivos. Extorsão não combina com o evangelho de Cristo. É falta de ética, é crime, é pecado que não deveria existir na cristandade. Por isso, se afaste dessas coisas.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br