Exploração religiosa (parte V)

Livres dos Fardos Religiosos

 

Continuação do post anterior.

 

Lamentavelmente ainda temos mais exemplos de exploração religiosa no meio gospel.

 

Venda de congressos. Estão realizando congressos em locais caros. Por exemplo: em 2012, pude observar um desses encontros de pouco mais de um dia no valor de R$ 170,00 o casal mais a diária do hotel incluindo dois almoços, um jantar e café por R$ 490,00. Total: 660,00. Isso pode ser uma ninharia para alguns ricaços. Mas para a maioria é um absurdo. A duração era apenas de 28 horas no local. Valor por hora: 23,57. Congressos podem ser necessários e importantes. Mas alguns estão promovendo gastanças sem nenhum resultado satisfatório, sobrecarregando a igreja e encarecendo a obra de Deus.

 

 

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Descrição: Venda de congressos. Data: Agosto/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Criação de empresas. Alguns pastores, vendo o sucesso de suas vendas, resolveram criar empresas, usando o evangelho para fazerem marketing. Deixaram de serem apenas pastores para serem empresários gospel também. Todos têm o direito de terem seus negócios. Todavia, não é nada interessante pegar carona no evangelho para fazer marketing de suas empresas.

 

 

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Descrição: Empresa gospel. Data: Agosto/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Os shows gospel. Alguns cantores gospel querem 15, 20, 25, 30, 50 mil reais, hotel cinco estrelas, água mineral, seguranças, carro brindado, etc. Realmente eles precisam de alimentação, hospedagem e dinheiro para cobrirem as suas despesas. Alguns, com banda ao vivo, realmente precisam ser mais caros. Mas explorar além do limite é um absurdo. Li uma denúncia de um pastor dizendo que, na festa de aniversário de uma cidade do Rio de Janeiro, um cantor gospel havia cobrado um cachê de 25 mil reais para se apresentar. [1] Observe que em vez de aproveitar a oportunidade para divulgar o evangelho, esse cantor aproveitou para superfaturar. Ele poderia cobrar certa quantia para bancar suas despesas. Mas esse valor é mera exploração. Como esse, muitos hipócritas vão pros palcos cantar com aquela cara de santo, dizendo palavras “espirituais”. Puro farisaísmo moderno. Mas estão com a consciência tranquila, pois muitos tomaram o antídoto da teologia da prosperidade.

 

 

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Descrição: Show gospel. Data: Agosto/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Produtos diversos com a marca Jesus ou marca gospel. Os termos Jesus e gospel, dentre outros, viraram marcas comerciais. Muitos, de olho no número de evangélicos que crescem a cada dia, resolveram apostar no comércio religioso. Já tem muitos produtos assim no mercado gospel. Além dos tradicionais produtos como CDs, DVDs e livros vazios de verdadeiros conteúdos cristãos, temos ainda produtos variados como: refrigerantes, óleo de soja, água mineral, leite longa vida, cosméticos, produtos de higiene e limpeza, jóias, massas, arroz, feijão, fubá, pescados, salgadinhos, chocolates, biscoitos, roupas, brinquedos, etc. Um pastor de uma grande igreja e sócio de uma marca de água mineral fez uma campanha com a sua marca de água. Ele orou sobre as garrafas, e a água foi distribuída, operando grandes milagres. Foi assim que sua água virou água mineral milagrosa. Os fiéis compram as garrafas da água mineral na cantina da igreja, e muitas vezes, elas são colocadas no púlpito, para serem abençoadas pelo pastor.  E alguns, como esse empresário, usam até testemunhos de pessoas curadas com o uso de seus produtos.

 

 

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Descrição: Produtos gospel. Data: Agosto/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

 

O marketing gospel é bem mais forte que o marketing tradicional. E é isso que tem atraído muitos investidores. Os vendilhões de hoje não só usam o “pátio do templo”, como usam também o nome de Jesus e de Deus para ganharem mais e mais. No século I, o evangelho era o evangelho de Jesus. Hoje temos um evangelho store, shopping center, business, trade. Além dos produtos made in Brazil, ainda temos os made in USA e os made in Israel. Não é a toa que o mercado de produtos e serviços religiosos movimenta bilhões de reais. [2] Enquanto ambientalistas lutam para barrarem o consumismo, que mata o nosso planeta azul, muitos religiosos têm outra visão. Com os olhos cheios de cifrões, vêem, no povo de Deus, uma nova oportunidade de negócio, a cada dia.

 

 

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Descrição: Pastor marqueteiro. Data: Agosto/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

 

Esses exploradores querem um milhão de reais ou de dólares. Como disse certa pessoa indignada com a exploração gospel: “Bons tempos aqueles em que os verdadeiros evangelistas sonhavam com um milhão de almas.” [3]. Hoje muitos não são verdadeiros, mas vendedores.

 

Temos que tomar cuidado com muitos exploradores. Eles não estão querendo simplesmente nos ajudar. Querem levar vantagens. Usam o espaço de Deus para ganharem dinheiro, assim como muitos usaram o pátio do templo de Israel para o comércio. [4] Muitos líderes religiosos estão querendo viver regaladamente como Salomão, à custa do povo. Estão traindo Jesus por causa do dinheiro.

 

Não é errado vender produtos e serviços religiosos. Eu seria hipócrita afirmando o contrário. Não é possível sair por ai distribuindo tudo de graça. Mas a minha crítica é para os pastores que ganham seu salário e usam a igreja como meio para obterem inúmeras outras vantagens. Critico também aqueles que usam espaço nos cultos, nos eventos evangélicos e nos programas de rádio e televisão patrocinados pelo povo para venderem coisas, dando a impressão que não são ferramentas evangelísticas, mas estratégias comerciais. Não sou contra o cristão ocupando um cargo político, mas sou contra aqueles que fazem da igreja um colégio eleitoral e, ainda por cima de tudo, não honram o evangelho com o bom testemunho, não lutam em benefício do povo sofrido e ainda se envolvem em corrupções. Critico também os que botam o nome de Jesus e os adjetivos cristão, evangélico e gospel nos seus negócios com o intuito de atrair a massa evangélica, depreciando assim o verdadeiro evangelho. Não estou condenando os cantores da música gospel que vendem seus CDs e seus shows. Condeno os que cantam com cara de santo, mas, cheio de avareza, querem fama e muito dinheiro. Desaprovo os que pedem ofertas em troca de supostas bênçãos e em troca de elementos místicos. Reprova ainda os que querem superfaturar com o evangelho. Tenho nojo dos oportunistas que, em tudo, vêem uma oportunidade de ganho. Detesto ver um monte de produtos e serviços que, na verdade, não edificam ninguém. Chega de simonia.  É preciso comercializar aquilo que realmente seja necessário sem esses abusos.

 

 

A questão do dinheiro não foi problema para a igreja primitiva. Mas com o tempo, o dinheiro virou uma pedra de tropeço. Corrupções, salários religiosos abusivos, tráficos de coisas sagradas, estelionatos, extorsões e opulências são coisas que sujaram o evangelho de Jesus. Todavia, estamos restaurando o evangelho original, onde o dinheiro não seja um deus competindo com Jesus. Não temos cargos religiosos, não somos uma instituição religiosa e por isso não pagamos salários para ninguém, pois todos são livres, sem nenhum vínculo empregatício com quem quer que seja. Apenas estamos oferecendo a nossa ajuda. Também não exigimos e nem pregamos a favor do dízimo, que é coisa da lei de Moisés. Não estamos fazendo das pequenas igrejas um conjunto de clientes.

 

 

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Descrição: Tropeçando no dinheiro. Data: Julho/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

 

Salomão tinha o direito de receber impostos do seu povo. Mas ele abusou de todos. Você acha justo o que Salomão fez? É justo explorar os outros para conseguir conquistar riquezas, luxo e esplendor com todos aqueles excessos? Não foi isso que Jesus mandou seus discípulos fazerem. Temos a obrigação de pregar o que Jesus ensinou, ajudar as pessoas nas suas necessidades sem esperar delas alguma coisa em troca. Cada obreiro que gasta o seu tempo todo com a obra de Deus tem o direito de ser sustentado pela igreja, mas não do jeito que estão querendo. E muitas coisas podem muito bem ser feitas de graça. A pregação do evangelho de Jesus precisa ser, acima de tudo, um trabalho humanitário.

 

Chega desse evangelho poluído pelo comércio. Formate a sua cabeça e instale nela o evangelho original.

                                           

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br