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Corrupção financeira religiosa

Livres dos Fardos Religiosos

 

Imagine um mar de lama podre e fedorenta. Não é nada agradável. Da mesma forma, quando as pessoas se envolvem em muitos negócios sujos, indignos ou desonestos, criam ambientes desagradáveis para a humanidade.

 

 

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Desc.: Mar de lama. Data: 25/07/2009. Autor: Ben Harris. Fonte. Licença CC BY-SA. 

Corrupção financeira religiosa é o ato ou efeito de tornar podre ou de provocar corrompimentos, estragos ou danos a área financeira religiosa. No Brasil, usa-se o termo mar de lama como sinônimo de corrupção. [1]

 

Há diversos tipos de corrupção religiosa semelhantes a algumas corrupções dos serviços públicos. Vamos ver algumas delas.

 

·        Nepotismo. Nepotismo é a palavra usada para indicar o favorecimento que as pessoas que estão no poder prestam aos seus parentes. No nepotismo, as pessoas qualificadas que não são parentes são deixadas de lado, enquanto os parentes, até mesmo aqueles que não são aptos para certas funções, acabam sendo beneficiados com cargos e salários bons, além de outros privilégios. [2], [3]  Em latim, o neto ou descendente é chamado de nepos. O sobrinho do papa era chamado de nepote. Assim surgiu o termo nepotismo. Como os papas geralmente não tinham filhos, eles nomeavam os seus sobrinhos para ocuparem posições privilegiadas. [4], [5] Ainda hoje, em muitas igrejas, parentes do pastor são beneficiados com certos cargos e funções para os quais, nem sempre, são qualificados.

 

·        Apropriação de dinheiro, bens e serviços da organização religiosa ou peculato religioso. [6] O líder religioso, por ser o cabeça, muitas vezes acha que pode fazer o que quiser com o dinheiro, com os bens e serviços da organização. Muitos usam tudo isso para beneficiarem a si próprio ou outras pessoas de seu interesse. Por exemplo: quando um pastor pega o carro da igreja, abastecido com combustível pago pela mesma, e vai passear ou realizar qualquer outra tarefa não relacionada à obra de Deus, isso é corrupção.

 

·        Emprego irregular do dinheiro da organização religiosa. É muito comum ver líderes arrecadando ofertas destinadas a certa tarefa específica. Muitos que apóiam certas iniciativas dão ofertas. Mas o líder, muitas vezes, desvia o dinheiro para outras coisas. Por exemplo: um pastor pede ofertas para pagar um programa de televisão, mas, no espaço patrocinado pelas pessoas, muitas vezes, são anunciados diversos produtos e serviços, inclusive do próprio pregador, que usa o espaço caro sem dar a sua contribuição como deveria. Se tantos segundos daquele horário têm um valor X, então esse deveria ser o valor pago pelo anúncio. Mas, muitas vezes, o pregador acha que pode usar o horário do jeito que bem entender.

 

·        Superfaturamento. Algumas empresas do meio religioso são acusadas de superfaturarem ao venderem a preços excessivos os seus produtos ou serviços. Empresas e pessoas evangélicas têm que atuarem contra a ganância e a avareza. Sendo assim, elas não devem vender seus produtos e serviços a preços abusivos. Vi uma igreja sendo acusada de intermediar a venda dos uniformes para os seus obreiros, cobrando preços avassaladores.

 

·        Compra e venda de votos. Muitos líderes religiosos têm recebido presentes e dinheiro de políticos em troca dos votos de seus adeptos. Isso tem acontecido bastante em muitas igrejas evangélicas. Uma vez participei de um evento evangélico, onde as faixas do candidato apoiado abafavam todo o ambiente. Parecia mais um evento político do que evangélico. Alguns têm deixado candidatos usarem os púlpitos para fazerem propagandas políticas em troca de favores.

 

·        Especulação. A palavra especulação, entre outros sentidos, significa o ato de usar o cargo que ocupa, as circunstâncias ou outras coisas para conseguir vantagens. Isso tem acontecido no meio religioso. Quando o pastor, por exemplo, usa a sua posição e procura se eleger com o voto dos seus seguidores, ele está praticando especulação. O evangélico pode e deve participar da política, mas se o pastor foi chamado para servir na obra de Deus e para isso ele ganha o seu salário, então ele não deve desviar o seu tempo para outras coisas. E muitos, além de irem para a política, se metem em corrupções políticas também. Nos escândalos de corrupção brasileira, sempre encontramos políticos que são pastores ou bispos.

 

·        Abandono de função. É justo o líder religioso receber o seu salário. Mas muitos, inclusive pastores, recebem o seu salário e abandonam as suas funções, ocupando o tempo com outras atividades paralelas. Uns vão para a política, outros viajam cobrando para pregarem nas igreja e grandes eventos, outros trabalham como escritores, cantores, profissionais liberais, empresários, dentre outras coisas. Se estão ocupando o tempo com outras atividades, então deveriam abrir mão de seus cargo remunerados. Muitos pastores deixaram de cuidar da verdadeira obra de Deus para administrarem as suas empresas, muitas vezes construídas com recursos e influências da igreja.

 

·        Acumulação de cargos. Alguns líderes acumulam diversos cargos, ganhando diversos salários. A quantidade de cargos que alguns têm prova que eles não atuam em alguns ou em nenhum deles com dedicação. O pior é que o salário pago em cada um muitas vezes é alto. Estava observando como certo pastor conhecido ostentava ser pastor de uma grande igreja além de ser presidente de umas três outras instituições ligadas aos evangélicos, além de ser escritor gospel e conferencista internacional. O acúmulo de cargos religiosos é muito comum entre as instituições ditas cristãs.

 

·        Manobras engenhosas de textos bíblicos. Muitos usam certos textos bíblicos de forma engenhosa para conseguirem muito dinheiro das pessoas. Fazem promessas de prosperidades absurdas, explicam certos textos fora do contexto, ludibriam o povo de diversas formas e promovem misticismos de todos os tipos. Indiretamente vendem produtos ungidos e abençoados. Alguns, com promessa de prosperidade, arrecadam bens e muito dinheiro das pessoas simples e de boa fé.

 

·        Pregadores vendedores. Muitos pregadores se transformaram em verdadeiros vendedores. Muitos aprenderam a vender livros, revistas, assinaturas de TV a cabo, CDs DVDs, viagens e outras coisas mais. Alguns pastores, nos cultos e nas diversas mídias utilizadas, vendem produtos e serviços gospel e até seculares. Boa parte do espaço dos programas evangélicos na televisão tem sido usada para vender coisas. Não sabemos se o pregador está anunciando o evangelho ou se está anunciando produtos e serviços. Não sabemos se muitos pregadores estão procurando convertidos ou clientes. Ouvindo alguns pregadores, muitas vezes temos a impressão de que estamos numa reunião de negócios.

 

·        Sermões comerciais. Alguns pregam sermões que são verdadeiras propagandas de seus livros, CDs ou DVDs que são vendidos em seguida.

 

·        Parcerias comerciais. Alguns pastores, de olho nas comissões e nos royalties oferecidos, fizeram alianças com empresas diversas como, operadores de cartão de crédito, fábrica de alimentos, empresas de transportes, etc., e têm induzido os membros de suas igrejas para que comprem os produtos ou serviços das empresas com as quais fizeram acordos comerciais.

 

Esses são alguns exemplos. Se prestarmos bem a atenção, descobriremos muitas outras atividades corruptas no meio religioso.

 

Paulo, sem explorar ninguém, construindo suas barracas, sem carro, sem avião, trem, telefone, televisão, rádio, Internet, CD, DVD, livros impressos, panfletos e jornais, conseguiu evangelizar uma vasta região do mundo antigo. (Atos 18:3.) [7], [8], [9] Hoje as igrejas estão movimentando rios de dinheiro, têm meio de transporte e comunicação sofisticados e ainda não conseguiram evangelizar o mundo todo. Isso acontece porque a corrupção financeira engole a maior parte dos recursos destinados à evangelização. Muitos ainda agem com honestidade, mas muitos outros estão mergulhados num mar de lama. E enquanto estiverem na lama, jamais irão tirar pessoas da lama do pecado.

 

Por causa de tudo isso, Jesus foi contra a ganância e a avareza e disse que “ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há de odiar um e amar o outro ou se dedicará a um e desprezará o outro.” E conclui dizendo que não podemos servir a Deus e ao dinheiro (Mateus 6.24, RC. Ver Lucas 16.13.)

 

Se você é apenas membro de alguma religião, não ajude aqueles que são comprovadamente corruptos. Se você é líder religioso, aprenda a ser honesto. Não use o dinheiro e o tempo patrocinado da obra de Deus de qualquer maneira. Não arrecade recursos financeiros usando métodos desonestos. Como trabalhador na obra de Deus, você tem direito de receber recursos financeiros das pessoas, mas não do jeito que muitos estão fazendo. Seja fiel. Saia da lama fétida. Não seja como um porco lavado que volta a rolar no barro. (2 Pedro 2:22.) [10] Se a igreja não promover a limpeza espiritual, ela se tornará apenas mais um ambiente sujo.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br