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Comércio religioso

Livres dos Fardos Religiosos

 

Um dia, quando Jesus foi a Jerusalém, ele encontrou o pátio do templo repleto de vendedores e compradores. Aquele lugar, que devia ser um espaço religioso, estava transformado numa feira. Ele ficou indignado e expulsou todo mundo de lá. Não apoiou aquele comércio religioso. (João 12.13-17.) [1]

 

 

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Descrição: Jesus expulsando os vendilhões do templo de Jerusalém. Data: Século XIX. Autor: Gustave Doré (1832-1883). Fonte e licença Domínio Público.

Comércio religioso é a atividade econômica que, por meio de troca, compra e venda, algumas pessoas transferem produtos e serviços para outros dentro da área religiosa.

 

Jesus pregou o seu evangelho em diversos lugares. Em nenhum momento, nós o encontramos vendendo alguma coisa dentro do seu ministério. Ele enviou os seus discípulos numa missão e terminou dizendo: “de graça recebestes, de graça dai.” (Mateus 10.8.) [2] Com isso, ele deixou bem claro que o seu evangelho não é um negócio. Os primeiros cristãos entenderam isso muito bem. Não vemos nenhum comércio dentro do cristianismo primitivo.

 

Com o tempo, em muitos lugares, surgiram santuários com badaladas romarias. [3] Nesses locais, foi desenvolvido um intenso comércio de produtos e serviços religiosos. A Igreja deixou de se preocupar com a religiosidade desenfreada dos seus fiéis, pois a religiosidade popular tem gerado muito lucro, principalmente nesses lugares.

 

Por outro lado, muitas igrejas protestantes e evangélicas também acabaram se transformando num palco de negócios. Muitos pastores deixaram de cuidar da verdadeira obra de Deus para administrarem as suas empresas, muitas vezes construídas com recursos e influências da igreja. Alguns pastores, de olho nas comissões e nos royalties oferecidos, fizeram alianças com empresas diversas como, operadores de cartão de crédito, fábrica de alimentos, empresas de transportes, etc., e têm induzido os membros de suas igrejas para que comprem os produtos ou serviços das empresas com as quais fizeram acordos comerciais. Uma grande igreja, por exemplo, fez um acordo com uma multinacional para lançar um telefone celular gospel. Alguns pastores, nos cultos e nas diversas mídias utilizadas, vendem produtos e serviços gospel e até seculares. Boa parte do espaço dos programas evangélicos na televisão tem sido usada para vender coisas. Não sabemos se o pregador está anunciando o evangelho ou se está anunciando produtos e serviços. Não sabemos se muitos pregadores estão procurando convertidos ou clientes. Alguns pastores até acham que Jesus foi um grande executivo, um grande homem de negócios. Por isso, se enveredaram pelo caminho do comércio religioso.

 

 

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Descrição: Pastor-vendedor. Data: Agosto/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

Digno é o obreiro do seu salário. (Lucas 10.7.) [4] Quem trabalha exclusivamente na obra de Deus tem o direito de receber recursos financeiros para se manter. O problema é que muitos se tornam pastores titulares de algumas igrejas, pregam uma meia dúzia de sermões durante o mês e gastam o resto do seu tempo escrevendo livros, fazendo gravações, realizando turnês, se envolvendo com política, administrando empresas e uma série de outras coisas com o intuito de ganhar dinheiro. E muitos não resistem à tentação de poderem transformar a igreja numa feira, onde possam negociar. Muitas celebridades do meio gospel estão usando a Igreja para venderem as suas mensagens e as suas apresentações artísticas. Tudo isso para bancarem o alto custo da ostentação religiosa ou mesmo para saciarem a sede de dinheiro.

 

No início do século XXI, no Brasil, os evangélicos e protestantes alcançaram a movimentação de cerca de 3 bilhões de reais por ano. Isso mostra como a Igreja vem se transformando num Shopping Center. Algumas coisas comercializadas são importantes. Mas muitas, na verdade, são desnecessárias e acabam estimulando o consumismo. [5], [6]

 

A mão-de-obra, os impostos, as taxas, os fretes e outros custos podem nos impedir de sair por ai doando tudo. Muitas vezes é preciso vender alguma coisa por causa do custo de sua produção e distribuição. Na verdade, comprar e vender coisas não são atitudes pecaminosas. O problema é o espaço da igreja utilizado pelos comerciantes e o alto preço daquilo que é comercializado. Comparando os preços de algumas mercadorias gospel com as seculares, podemos perceber que o intuito é mesmo o lucro e que muitos estão mesmo é querendo ganhar muito dinheiro.

 

Tudo tem o seu limite, e a Igreja atual já passou dos limites. Os evangélicos estão crescendo. Mas não podemos nos iludir. Nem todos são convertidos. Muitos estão convencidos de que podem faturar com essa nova religião.

 

Pedro, falando dos falsos mestres que viriam, alertou dizendo que por avareza, eles farão de nós negócio, com palavras fingidas’ (2 Pedro 2.3a) [7] Em outras palavras, ele está dizendo que em sua ambição pelo dinheiro, esses falsos mestres vão nos explorar, usando palavras cheias de astúcia. É o que muitos estão fazendo.

 

Podemos ver, nos evangelhos, que o desejo de Jesus é que deixemos de lado as coisas erradas e que procuremos viver uma nova vida de virtudes e que precisamos anunciar isso para as outras pessoas, com palavras e, acima de tudo, com o nosso testemunho. O seu evangelho é um novo modo de vida. Não é uma oportunidade de negócio. Que cada um de nós possa aprender isso. E que não haja mais vendilhões no seio da igreja, correndo o risco de serem definitivamente expulsos.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br