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Cargos religiosos

Livres dos Fardos Religiosos

 

Nas igrejas institucionalizadas, encontramos diversos tipos de cargos como: presidente de igreja local, presidente de igreja regional, presidente de igreja nacional e até internacional, tesoureiros, secretários, professores, porteiros, faxineiros, cantineiros, motoristas, músicos e muitos outros.

 

 

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Desc.: Cargos eclesiásticos. Data: Agosto/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

Cargos religiosos são funções que as pessoas exercem dentro de alguma religião. Alguns são exercidos voluntariamente, enquanto muitos outros são remunerados.

 

Na Bíblia, no Antigo Testamento, desde o tempo de Moisés, encontramos diversos cargos religiosos. A tribo de Levi foi escolhida para ocupar diversos cargos dessa natureza. (Números 3.5-8.) [1] Além do sumo sacerdote e de sacerdotes menores, o capítulo 4 de Números descreve outras atividades com detalhes. [2] No final do reinado de Davi, “foram contados os levitas de trinta anos para cima; seu número, contados um por um, foi de trinta e oito mil homens. Destes, havia vinte e quatro mil para superintenderem a obra da Casa do SENHOR, seis mil oficiais e juízes, quatro mil porteiros e quatro mil para louvarem o SENHOR com os instrumentos que Davi fez para esse mister.” (I Crônicas 23.3-5, RA.) [3] Toda essa estrutura religiosa, carregada de funções diversas, era sustentada pelo povo com seus dízimos. (Números 18.21-24.) [4] Na tribo dos levitas, todos nasciam com emprego garantido na obra de Deus.

 

Quando Jesus apareceu pregando no século I, ele criou uma nova religião bem diferente, sem rituais e sem um monte de atividades religiosas que exigem um profissional qualificado. Dessa forma, não há espaço para cargos e mais cargos religiosos que precisam ser remunerados. Para Jesus, todos devem ser servos uns dos outros. Ninguém é melhor ou maior. Ele lavou os pés dos seus discípulos e disse que devemos lavar os pés uns dos outros. Ele não estava instituindo uma cerimônia de lava-pés, mas estava, com esse gesto, mostrando que devemos servir uns aos outros com humildade. (João 13:14.) [5] O ato de lavar os pés dos seus discípulos foi apenas um exemplo. São muitas as maneiras que temos para servir. Por isso, Pedro disse: “Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus.” (I Pedro 4.10, RA.) [6]

 

Na obra de Deus, cada um tem a sua função, mas nenhuma é um emprego propriamente dito. Tudo que fazemos deve ter o objetivo de servir os outros por amor. Alguns ocupam muito tempo e têm o direito de ser ajudado. Mas não se trata de salário fixo. Ninguém pode ser mercenário, pensando apenas no pagamento.

 

Na igreja primitiva, não vemos ninguém ocupando altos cargos e ganhando altos salários. No livro dos Atos dos Apóstolos, podemos ver que algumas pessoas foram escolhidas para auxiliarem os apóstolos, cuidando dos pobres, das viúvas e dos necessitados em geral. Eles foram chamados de diáconos. (Atos 6.1-8.) [7] Essa palavra, do grego diákonos, significa servo. [8]

 

Os apóstolos também atuavam como servos. Paulo, por exemplo, realizou uma grande obra missionária sem nenhum salário definido. Veja o que Paulo disse: “Sou um homem livre; não sou escravo de ninguém. Mas eu me fiz escravo de todos a fim de ganhar para Cristo o maior número possível de pessoas.” (1 Coríntios 9:19, NTLH.) [9] Na mensagem “Salários religiosos”, mostramos como ele evitou explorar as pessoas, abrindo mão até mesmo dos seus direitos. [10] Nem ele e nem os demais apóstolos atuavam como se fossem empregados da igreja. Eles trabalhavam como servos por amor.

 

Ao contrário de hoje, naquele tempo, o trabalho dos pastores das igrejas, chamados de presbíteros ou anciões, ou bispos, não eram empregos religiosos, mas eram obras voluntárias. Um defensor da igreja primitiva escreveu: “Os anciãos bíblicos não eram considerados especialistas religiosos, mas irmãos fiéis. Não eram clérigos profissionais, mas (normalmente) homens de família que tinham trabalhos seculares (Mateus 10:8; Atos 20:17, 32-35; 2 Coríntios 2:17; 1 Tessalonicenses 2:9; 2 Tessalonicenses 3:7-10; 1 Timóteo 6:5; 1 Pedro 5:2, 3). [11] Devido ao seu labor incansável, alguns dos anciãos recebiam oferendas voluntárias dos irmãos como prenda de bênção (Gálatas 6:6; 1 Timóteo 5:17, 18). [12] No entanto, não se deve confundir as dádivas periódicas que recebiam, com os cargos com salário fixo dos ministros profissionais de nossos dias. Não se deve confundir também com a sustentação biblicamente justificada dos obreiros apostólicos itinerantes que viajam de região a região para estabelecer assembléias locais (1 Coríntios 9:1-18). [13] (Frank A. Viola, Reconsiderando o odre)

 

·       No século IV, o imperador romano Constantino deu liberdade ao cristianismo e resolveu promover a organização da igreja segundo os moldes romanos. Nessa época, a Igreja já estava sobrecarregada de rituais e doutrinas complicadas, exigindo certos profissionais religiosos. Dessa forma, o ministério dos bispos ganhou um tom diferente. Esses se transformaram em oficiais religiosos com características de oficiais romanos. Como eles, os bispos passaram a vestir roupas diferentes, receber honras, isenção de impostos e de serviços públicos obrigatórios e ainda passaram a receber salários. Todos esses privilégios despertaram, em muitas pessoas, o desejo de se tornarem oficiais da igreja. Foi assim que os trabalhos de servos simples da igreja primitiva idealizada por Jesus se transformaram em altos cargos religiosos cobiçados por muitos dentro da Igreja romanizada. [14], [15]

 

·       Ainda no século IV, o governador Ambrósio da região norte da Itália (Ligúria e Emília) com sede em Milão, foi eleito bispo de Milão antes mesmo de ter recebido o batismo ou imediatamente após ser batizado.[16]

 

·       No século V, o Cânon 26 do Concílio de Calcedônia criou a função de mordomo para os bispos. A partir de então, muitos outros cargos foram sendo criados nas igrejas. [17]

 

·       No início do século IX, Carlos Magno foi coroado como rei do Sacro Império Romano-Germânico pelo papa Leão III.  Esse rei nomeou praticamente todos os bispos e abades do seu reino. [18]

 

·       No século X, o papa João XII coroou Oto I como o imperador do Sacro Império Romano-Germânico, tentando impor um regime teocrático, onde novamente dois chefes, um político e outro religioso, pudessem comandar o povo. [19] Mas houve desentendimentos entre as partes. Oto I retirou o papa João XII do trono e colocou Leão VIII no seu lugar. [20], [21] A igreja não deixou de graça e houve disputas. [22]

 

·        Entre os séculos XI e XII, aconteceu a questão das investiduras, durante mais de cinquenta anos. Nessa época, os imperadores e os senhores feudais nomeavam padres e bispos para ocuparem os cargos eclesiásticos dentro dos feudos do Sacro Império Romano-Germânico, mas o papa queria que esse direito fosse dele. O conflito iniciou-se em 1075 entre o Papa Gregório VII e Henrique IV, imperador do Sacro Império Romano, provocando uma guerra civil. [23], [24] Como podemos ver, os cargos eclesiásticos eram tão cobiçados que até houve várias intervenções de nobres e imperadores na escolha dos bispos.

 

·        No século XII, o imperador Frederico I Barba-Roxa, apesar de ter sido coroado pelo papa Adriano IV, entrou em conflito com Roma e nomeou o antipapa Vitor IV no lugar de Alexandre III. [25]

 

·        Entre 1378 a 1449, aconteceu o Cisma do Ocidente. Nessa época, treze homens disputaram o papado.

 

Urbano VI

X

Clemente VII

Bonifácio IX

X

Clemente VII e o antipapa Bento XIII

Inocêncio VII, Gregório XII e Martinho V

X

Antipapa Bento XIII e o Antipapa Alexandre V

Gregório XII

X

Antipapa João XXIII (não confundir com o outro João XIII)

Martinho V

X

Clemente VIII, depois Bento XIV (o Cardeal Garnier) e também o outro Bento XIV (Jean Carrier)

Eugênio IV

X

Bento XIV (Jean Carrier) e em seguida Félix V, [26], [27]

 

·       No século XVIII, surgiu, pela Europa, a onda do regalismo (intervenção dos reis em questões religiosas). Eles queriam fazer da igreja uma espécie de serviço público controlado pela administração do reino. [28], [29] Luiz XIV fez isso na França e ficou conhecido como galicismo. Na região da Alemanha, houve o febronianismo de Febrônio, apelido do bispo João Nicolau, que era auxiliar do bispo eleitor Tréveris e que defendia essa idéia. [30] Na Áustria, surgiu o josefismo. [31] O imperador Pedro, o Grande na Rússia também fez o mesmo. Dessa forma, os cargos religiosos ficaram nas mãos dos poderes imperiais e viraram alvo de disputa das aristocracias. [32]

 

·       Na Idade Média, em 756, surgiu os Estados Pontifícios na parte central da Itália. Esse território foi tomado durante a unificação italiana no século XIX. Mas em 1929, Benito Mussolini, futuro ditador italiano, que na época era o chefe de governo do rei Vitor Emanuel III, e o cardeal Gaspari, representante do papa Pio XI, firmaram um acordo, conhecido como Tratado de Latrão, dando ao papa o atual Estado do Vaticano. Ali o papa é chefe da Igreja e chefe de Estado, com polícia, diplomacia, exército e a famosa Guarda Suíça. Ali se encontram os principais cargos religiosos e seculares ligados à igreja romana. [33]

 

Com o desenvolvimento da hierarquia eclesiástica, alguns cargos se tornaram maiores. Por isso, o desejo de muitos era alcançar os postos mais elevados como o bispado e o papado. Ao longo da história, houve várias disputas para a conquista desses cargos religiosos. [34] Alguns conquistaram o seu posto religioso por meio do assassinato. Antes, os papas nãos eram escolhidos como hoje. Assim, segundo algumas fontes, uns mataram outros para ocupar esse cargo tão cobiçado.

 

·        Em 903, o papa Leão V, depois de apenas dois meses no pontificado, morreu assassinado por um capelão (o antipapa Cristóvão) que assumiu o seu lugar.

·        Em 929, Marozia, mulher do papa Sérgio III, matou o papa Leão VI; e João XI, filho dela com o papa Sérgio III, assumiu papado.

·        Em 974, o antipapa Bonifácio VII assassinou o papa Bento VI e ocupou o seu lugar.

·        Em 984, o antipapa Bonifácio VII aprontou mais uma: matou o papa João XIV e tentou ficar com o trono papal.

·        Em1296, Celestino V foi envenenado pelo seu sucessor, Bonifácio VIII. [35]

 

Muitos arrumaram emprego na Igreja porque tinha parentes por lá ocupando altos postos. [36], [37] Nos pontificados dos papas Inocêncio IIII, Sisto IV e Alexandre VI, havia forte nepotismo. [38], [39], [40] Esse último era da família Borgia e encheu a administração da Igreja de parentes.

 

No século XVI, quando Martinho Lutero, Calvino e outros reformaram a igreja, muitas coisas mudaram, mas a idéia de empregos religiosos privilegiados permaneceu enraizada na cabeça de muitos. [41] Grande número de pastores da igreja moderna sempre tem defendido o ministério pastoral dentro dos moldes implantados por Constantino. Certas funções religiosas são verdadeiros empregos lucrativos. Diversos líderes, carregados do orgulho de ser cabeça, odeiam críticas, adoram ser honrados e não abrem mão de seus altos salários. E como se não bastasse, dentro das organizações religiosas, ainda surgiram muitos outros cargos importantes, bem remunerados, com direito de usar carros e até aviões, hospedar em hotéis de luxo e tantas outras mordomias financiadas pelo povo cristão. A transformação do cristianismo em um negócio vem fazendo, a cada dia, surgir novos cargos como: diretores de escolas, diretores e gerentes de empresas gospel e por ai afora. Não é problema uma empresa trabalhar com produtos religiosos. O problema é que alguns pastores usam o dinheiro da igreja para fundar empresas religiosas e até seculares, fazendo da igreja uma clientela. Assim, tudo vira fonte de emprego e lucro.

 

Entre as instituições evangélicas têm acontecido disputas acirradas durante as eleições para cargos importantes. Vi um pregador famoso da televisão denunciando os casos nojentos de disputas na eleição do presidente da convenção de uma grande e muita conhecida denominação evangélica brasileira.

 

Estava observando como certo pastor conhecido ostentava ser pastor de uma grande igreja além de ser presidente de umas três outras instituições ligadas aos evangélicos, além de ser escritor gospel e conferencista internacional. O acúmulo de cargos religiosos é muito comum entre as instituições cristãs. O pior é que o salário pago em cada um muitas vezes é alto.

 

Por outro lado, surgiram também muitos outros cargos simples e muitas vezes sem nenhuma remuneração, criados para manterem o funcionamento da igreja institucional como: jardineiros, porteiros de templo, cantineiros, professor de escola bíblica, presidentes de crianças, juniores, adolescentes, jovens, homens e senhoras, maestros de coral, coordenadores de estacionamentos e por ai afora. No entanto, eles não têm nada a ver com o que Jesus realmente instituiu. Muitas dessas funções sobrecarregam os cristãos de afazeres totalmente fora do verdadeiro evangelho. Muitos pastores de igrejas institucionalizadas, de tempo em tempo, aparecem com uma lista de cargos para ser preenchida. Muitos são nomeados para diversas funções religiosas. Trabalham servindo uma organização achando que estão fazendo algum serviço para Deus. Mas na verdade, no fundo, o que muitos estão fazendo é simplesmente mantendo a máquina religiosa bem longe do verdadeiro serviço cristão idealizado por Jesus e vivido pelos primeiros cristãos.

 

Seja livre. Você não é obrigado a manter nenhuma pessoa em cargos religiosos cheios de mordomias. Você deve ajudar aqueles que realmente gastam o seu tempo fazendo a obra de Deus, mas ninguém pode impor esse tipo de obrigação. Você deve trabalhar em prol do evangelho, todavia faça aquilo que esteja relacionado com o seu dom. Atue com liberdade. Não seja servo de homens. Nunca pense que tem cargo privilegiado. Você, eu, todos somos servos uns dos outros. No cristianismo livre, ninguém recebe cargos ou serviços impostos pelos lideres religiosos. É Deus quem dá o dom para cada um exercer o seu papel. E os que têm o dom de pastorear devem supervisionar a igreja com amor e humildade, independente de qualquer hierarquia criada por homens, sem se preocupar com salários e tantos privilégios.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br