Batismo (Parte III)

Livres dos Fardos Religiosos

 

Continuação do post anterior.

 

Além dos diversos elementos acrescentados ao simples ritual do batismo, surgiam também várias doutrinas divergentes em torno dele, complicando tudo ainda mais. Vamos ver as diversas contendas que surgiram.

 

·       Contenda sobre a idade: batismo adulto e batismo infantil. Quem defende o batismo somente de adultos pode argumentar usando as palavras de Jesus: “Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado.” (Marcos 16.16, RC, NTLH). [1] Pode dizer que uma criança inocente não tem condições de crer. [2], [3] Além disso, delas é o reino de Deus, conforme Lucas 18.16. [4] Mas os que defendem o batismo infantil podem replicar dizendo que a criança pode ser batizada e crer depois. A ordem dos fatores não altera o produto. E se a criança é do reino de Deus, ela é digna do batismo. (Marcos 10:14.) [5]

 

 

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Descrição: Batismo adulto. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

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Descrição: Batismo infantil. Data: 1755. Autor: Pietro Longhi (1702–1785). Reprodução: O projeto de Yorck: 10000 Meisterwerke der Malerei DVD-ROM, 2002. ISBN 3936122202 . Distribuído por Direct Media Publishing GmbH. Fonte e licença domínio público

 

Os que defendem o batismo adulto certamente lembrarão que o batismo infantil surgiu entre os séculos IV e V, quando Agostinho de Hipona (Santo Agostinho) desenvolveu a idéia do pecado original, alegando que a criança já nasce pecadora e precisa ser batizada para ser salva. [6], [7], [8] Dessa forma, podem dizer que o ritual do batismo se transformou num sacramento necessário para a salvação, até mesmo das crianças, apesar de Jesus ter dito que delas é o Reino de Deus. (Lucas 18:16.) [9] Poderão argumentar dizendo que, no norte da Europa, acreditava-se que a criança estava nas garras do demônio por causa do pecado original. O batismo então era também considerado um ritual de exorcismo. [10] Mas os defensores do batismo infantil certamente vão atestar que há provas explícitas que, desde o século II, crianças eram batizadas. “Os batizandos se despirão e serão batizadas, primeiro, as crianças.” (Hipólito de Roma, Tradição Apostólica, 3.5.) [11] O teólogo Orígenes, no início do século III, escreveu: "A igreja recebeu dos Apóstolos a tradição de dar batismo também aos recém-nascidos". (Orígenes - 185-255 dC. Epist. ad Rom. Livro 5,9.) [12], [13] No mesmo século, o bispo Cipriano de Cartago frisou: "Do batismo e da graça não devemos afastar as crianças” (Cipriano em 258 dC. - Carta a Fido) [14], [15] Mesmo de forma implícita, em Atos dos Apóstolos, quando vemos famílias inteiras sendo batizadas, certamente que as crianças estavam incluídas. Os reformadores da igreja no século XVI como Martinho Lutero, João Calvino, o Rei Henrique e o suíço Zwínglio não se incomodaram com o batismo infantil. Eles sabiam que Jesus não havia definido a idade do batizando. Mas um grupo minoritário de cristãos que ficou conhecido como anabatistas resolveram se levantar contra o batismo de crianças. [16], [17] Muitas novas igrejas seguiram esse pensamento.

 

·       Contenda sobre o modo: imersão, efusão e aspersão. Algumas igrejas alegam que o batismo somente pode ser administrado por imersão (mergulho do batizando na água), enquanto outros admitem administrá-lo por aspersão (respingo de água na pessoa a ser batizada) ou efusão (derramamento de água sobre a pessoa). [18], [19], [20]

 

 

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Descrição: As três formas de batismo. Data: junho/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Os que defendem a imersão dizem que a palavra batismo na língua grega usada na escrita do Novo Testamento indica mergulho. Mas outros dizem que a palavra tem sentido mais amplo como "imergir", "banhar", "lavar", "derramar", "cobrir", “aspergir”, etc. [21], [22] Por exemplo: quando Paulo, em I Coríntios 10.1-2, disse que os seus antepassados seguiram Moisés e foram batizados na nuvem e no mar, ele não está dizendo que eles foram mergulhados na nuvem e no mar. [23] Isso não aconteceu literalmente. Foram os egípcios que perseguiam os hebreus que foram submergidos pelas águas do mar vermelho. E os hebreus estiveram sob as nuvens, mas não mergulhadas nelas. Outros textos que falam sobre batismo no Espírito Santo e batismo de fogo não estão dizendo isso no sentido de um mergulho propriamente dito. Jesus disse: “Porque João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias.” (Atos 1.5, RA.) [24] No capítulo seguinte, mostra que esse batismo aconteceu. (Atos 2.) [25] E Pedro diz lembrando as palavras do profeta Joel: “e acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne... até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito.” (Atos 2:17, RA.) [26]

 

Os fariseus e escribas, que tinham o costume de lavar as mãos antes das refeições como ritual religioso, ficaram admirados ao ver que Jesus e os seus discípulos não faziam o mesmo. Em Lucas 11:38 lemos “O fariseu, porém, admirou-se ao ver que Jesus não se lavara (no grego: batizara) primeiro, antes de comer”. (RA.) [27] Tudo isso serve de argumento para os que não defendem a imersão.

 

Os defensores da imersão podem citar João 3.23, onde diz que João batizava em Enom, perto de Salim, porque lá havia muita água. [28] Podem dizer também que Felipe batizou o eunuco, e ambos saíram da água. (Atos 8.38-39.) [29] Mas os outros podem contestar dizendo que apenas o fato de ter muita água não significa que as pessoas eram mergulhadas. O ato de Felipe e o eunuco saírem da água também não prova que o batismo foi por imersão. Será que naquela região desértica havia algum poço profundo onde pudesse mergulhar? Na Bíblia, não há nenhuma prova que alguma pessoa foi imersa durante o seu batismo. Alguns batismos citados demonstram a impossibilidade da imersão. Por exemplo: Paulo foi batizado depois de ficar em pé dentro de uma casa. (Atos 9.17-18.) [30] Além disso, em Jerusalém, como os apóstolos batizaram quase três mil pessoas em um só dia por imersão, conforme Atos 2.41? [31] Jerusalém não tinha local apropriado para isso. Era uma cidade de pouca água, e mesmo que houvesse tanques com água suficiente, não estaria à disposição dos apóstolos. Lembrando que o rio Jordão fica distante cerca de 30 km de Jerusalém. [32] Lendo Atos 10, podemos ver Cornélio e a sua família sendo batizados em casa. [33] Em Atos 16.24-35 diz que o carcereiro de Filipos e a sua família foram batizados ainda de noite, onde? [34] Será que havia algum tanque em sua casa? Eles foram a algum rio à noite? [35]

 

Os que são a favor da imersão argumentam que foi durante a Idade Média que o batismo por aspersão se tornou comum. Nessa época, sob as influências das doutrinas de Agostinho de Hipona, as crianças passaram a ser batizadas, e a aspersão foi a forma mais indicada para uma região gelada como a Europa. [36] Mas os outros afirmam que a aspersão faz parte dos ritos de purificação desde os tempos antigos como podemos ver em Números 19.11-20. [37] Mas muitos, por preconceito, associam a aspersão e a efusão com o catolicismo. O batismo apenas por imersão serviu para dificultar a obra de evangelização, visto que nem sempre temos água disponível para isso. Isso obrigou muitas igrejas construírem tanques apropriados. Aquelas que não possuem tanque precisam levar os batizandos para locais distantes, onde nem sempre a água é pura. Por isso, segundo o Didaquê, um livro antigo que expõe a doutrina dos apóstolos, admite o batismo de ambas as formas, dependendo da disponibilidade de água. [38]  O batismo por imersão é um grande obstáculo para os que vivem em regiões geladas e áridas, para os velhinhos, para os doentes em seus leitos e para os que têm necessidades especiais.

 

·       Contenda sobre a validade do batismo: ele salva ou ele não salva. Os defensores do batismo para a salvação costumam dizer que Jesus falou que “quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado.” (Marcos 16:16.) [39] Mas outros podem dizer que é preciso observar com cuidado as duas frases. Quem será salvo? Quem crer e for batizado. Quem será condenado? Quem não crer no evangelho puro pregado que diz que a pessoa precisa deixar o caminho do mal e seguir o caminho do bem. A segunda frase não diz quem não crer e não for batizado será condenado. Mas apenas quem não crer. Os que entendem que o batismo é apenas um ato simbólico podem mostrar que pessoas foram salvas sem serem batizadas, como o ladrão que implorou por perdão, quando agonizava numa cruz ao lado de Cristo, ouvindo dele a resposta: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso.” (Lucas 23.39-43.) [40]

 

Batismo salva

Batismo não salva

 

Aqueles que dizem que o batismo não salva certamente vão lembrar que depois de enraizar a doutrina de Agostinho sobre o pecado original, o batismo passou a ser considerado necessário para a salvação de todos, inclusive das crianças e virou um sacramento obrigatório. Mas muitos poderão dizer que seria duro demais achar que as criaturas inocentes fossem para o inferno apenas por falta de um simples ritual. Por isso, Agostinho criou a doutrina do limbo, onde as crianças mortas sem batismo ficariam privadas da plena felicidade dos eleitos, mas gozando de uma felicidade natural. [41]

 

·       Contenda sobre a fórmula: em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo ou em nome do Senhor Jesus. A maioria dos cristãos entende que o batismo, conforme Mateus 28.19, deve ser ministrado em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. [42] Mas alguns, conforme Atos 8.16; 10.48; 19.5 defendem que deve ser em nome do Senhor Jesus. [43], [44], [45]

 

 

Em nome do Pai,

Em nome do Senhor Jesus

do filho e

do Espírito Santo

 

·       Contenda sobre quem pode ministrar o batismo: todos podem ministrar o batismo ou somente os ministros podem ministrar o mesmo.  Alguns podem achar que qualquer cristão pode batizar os outros. Jesus disse: “Ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo.” (Mateus 28.19.) [46] Ele não definiu quem deve pregar e quem deve batizar. A ordem é para todos. Se apenas os líderes podiam batizar as pessoas, então como eles conseguiram batizar quase três mil pessoas em um só dia, conforme Atos 2:41? [47] Mas outros podem replicar dizendo que somente os ministros credenciados pela igreja podem batizar as pessoas. Isso evita que qualquer um que não esteja bem preparado seja batizado. Mas os outros podem contradizer lembrando que somente Deus conhece o coração das pessoas. Somente ele sabe quem realmente está preparado. Cabe a nós apenas ministrá-lo para quem quiser. O resto é com o batizando e Deus. Por isso, em Atos dos Apóstolos, vemos pessoas sendo batizadas assim que aceitavam a pregação do evangelho, conforme já vimos anteriormente.

 

Todos

Apenas os líderes da igreja

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˜

Batismo

 

·       Contenta sobre quando batizar um convertido: esperar até que ele seja preparado ou imediatamente no ato da decisão. Algumas pessoas acham que quando uma pessoa aceita o evangelho de Jesus, ela tem que ser preparada primeiro com cursinhos, acompanhamentos, etc. Só depois de algum tempo ela pode ser batizada. Mas muitos podem defender a idéia de que quando alguém decide seguir o que Jesus ensinou, essa pessoa está tomando uma decisão que precisa ser marcada com o batismo, que é o rito de passagem de uma velha vida para uma nova vida. Ninguém, a não ser Deus, conhece o coração da pessoa para saber se ela está ou não preparada para isso. O batismo é a decisão de mergulhar nos ensinos de Cristo. Por isso, na igreja primitiva, no primeiro século, conforme Atos dos Apóstolos, as pessoas eram batizadas assim que decidiam seguir o evangelho. Em Jerusalém, logo após um discurso de Pedro, centenas de pessoas foram batizadas. (Atos. 2.38 e 41.) [48] Em Sumaria, depois da pregação de Felipe, também muitos foram batizados na água e também no Espírito Santo sem nenhum curso preparatório. (Atos 8.12-17.) [49] Num caminho deserto, Felipe pregou para um eunuco, que foi batizado em seguida, ali mesmo, no primeiro curso de água que encontraram. (Atos 8.34-38.) [50] Em Damasco, Paulo recebeu o batismo assim que tomou a decisão de seguir a Jesus. (Atos 9.18.) [51] Em Cesaréia, durante um discurso de Pedro, muitos foram batizados no Espírito Santo e em seguida na água. (Atos 10.44-48.) [52] Em Tiatira, uma mulher chamada Lídia ouviu a pregação de Paulo, recebendo o batismo em seguida. (Atos 16.14-15.) [53] Em Filipos, um carcereiro com a sua família foram batizados imediatamente. (Atos 16.27-33.) [54] Em todos esses casos, o batismo foi um ato e uma manifestação da fé de todos aqueles que resolveram mudar de vida de acordo com os ensinamentos de Cristo.

 

Novo Testamento

Aceitação do evangelho

Batismo

A partir do século II

Aceitação do evangelho

Período de preparação (catecumenato)

Batismo

 

Conforme já foi visto anteriormente, a idéia de preparar uma pessoa por algum tempo surgiu apenas no século II, quando alguns acharam que o batismo tinha que ser precedido de um período de preparação com estudos, orações e jejuns. Essa idéia foi levada a sério. No século III, os candidatos ao batismo tiveram que esperar até três anos, sob os olhares vigilantes daqueles que se achavam santos diante de Deus. Isso ajudou a complicar o simples ritual do batismo dos primeiros cristãos. [55]

 

A minha opinião. É hora de deixarmos de lado toda essa confusão. O desejo de Jesus é ver as pessoas realmente transformadas, longe do caminho do mal, praticando verdadeiras virtudes. Essa mudança de vida deve ser marcada com esse ritual simples. Ele não disse qual deve ser a idade do batizando, não deixou claro se era para mergulhar as pessoas na água ou se era apenas para borrifar ou derramar água sobre elas. Então é melhor batizar de acordo com a nossa fé. Vamos deixar essas contendas de lado. Na verdade, ele não falou que esse ritual era para purificar e salvar as pessoas. Se há uma contradição bíblica sobre a fórmula batismal, então não importa se ele vai ser em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo ou em nome de Jesus. Ele não disse quem deve ministrar o batismo. Quem quiser ser batizado deve ser batizado. Não precisamos ficar achando que um está preparado, e o outro não. Isso é problema pessoal de cada um. Vamos deixar de lado essas profissões de fé que defendem dogmas e organizações religiosas. E roupa diferente pra quê? A pessoa precisa mesmo é de novas vestes espirituais. Esqueça os padrinhos e os batistérios sofisticados. Vamos abandonar esse monte de cerimônias desnecessárias em torno desse simples ritual. Apenas precisamos de um pouco de água e um coração decidido a seguir uma nova vida segundo os verdadeiros ensinos de Cristo. Quem já foi batizado de alguma maneira e tem fé, está tudo bem. Quem acha que seu batismo não foi válido, então tem o direito de ser batizado novamente. Cada um deve decidir como quer ser batizado: por aspersão ou por imersão. Vamos fazer o evangelho original de Cristo ser conhecido por todos o mais rápido possível. Deixemos de lado todo esse nhenhenhém. Toda essa contenda não é cristianismo. O que realmente precisamos é mergulhar no evangelho, onde encontramos os mananciais de águas vivas, as chuvas de bênção e o derramar do poder de Deus.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br