Templos (parte XI)

Continuação do post anterior.

 

Livres dos Fardos Religiosos.

 

Mostramos, anteriormente, que as igrejas tradicionais do Ocidente e do Oriente edificaram muitos templos em diversos estilos requintados. E as novas igrejas que surgiram depois do século XVI, após a Reforma protestante? Elas se libertaram disso? Não! Elas trilharam um caminho com diversas mudanças nas doutrinas e na liturgia, mas preservaram muitas outras coisas. E o uso de igrejas-templos foi um dos costumes tradicionais que as igrejas protestantes, evangélicas, pentecostais e neopentecostais têm preservado com muita ênfase, construindo locais sagrados em diversos estilos. Apesar de eliminarem alguns elementos do catolicismo, continuaram mergulhadas na mesma idéia de um templo místico, recheado de cerimônias, rebuscado de elementos distantes daquilo que Jesus realmente ensinou. Entre as maiores igrejas do mundo, se encontram algumas que são protestantes. No Brasil, em 2011, uma denominação famosa resolveu investir centenas de milhões na construção de um templo que diz ser uma réplica do templo de Salomão. [1] Outra igreja concorrente decidiu edificar um local sagrado com capacidade para abrigar cerca de 150 mil fiéis. [2] Na Coréia, uma igreja comporta mais de 200 mil pessoas. [3]

 

 

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Descrição: Igreja do Redentor, Goerlitz, Alemanha. Faz parte da Igreja Luterana. Data: 1839.  Data da foto 02 janeiro de 2009. Autor: Alma. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

O cristianismo ficou abarrotado de santuários simples e luxuosos, encarecendo e dificultando a obra de evangelização. Transformaram a obra de Deus em obras de construções e de arte. Tudo seria maravilhoso se, com tudo isso, não fossem gastos rios de dinheiro, enquanto muitos morrem de fome, sem teto, sem roupa... Muitos líderes tornaram-se demasiadamente ocupados com a construção, gerenciamento e manutenção desses edifícios sagrados. E para bancarem todo o custo dessas obras caras, vários dirigentes de igrejas acabaram arrumando um monte de artifícios para conseguirem dinheiro do povo. Dessa forma, acabaram descobrindo que um templo, juntamente com certos artifícios, é um bom lugar para arrecadarem dinheiro fácil. Por isso, muitos jamais vão desistir deles.

 

 

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Descrição: “Trazei todos os dízimos à casa do Tesouro. Dê também a sua oferta. Temos muitas despesas.” Data: maio/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Muitos cristãos tornaram-se acomodados e encurralados no conforto e na comodidade dos edifícios religiosos, onde vivem uma vida de solenidades, praticando rituais e se esquecendo do “IDE” de Jesus. Muitos vivem a “vida cristã” apenas cumprindo as formalidades dos cultos públicos. Esqueceram-se ou não sabem que o véu se rasgou, que não há mais separação entre nós e Deus, que ele está conosco em todo tempo e lugar e que não precisamos mais de templos. (Mateus 27:51.) [4] Hoje muitos não sabem, e alguns fingem não saber que o evangelho de Jesus não é nenhum estilo arquitetônico, mas um novo estilo de vida, onde cada um que deseja ser cristão deixa de lado tudo que não presta e adorna a sua vida com as belas virtudes ensinada por Cristo.

 

 

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Descrição: Momento de um culto litúrgico. A vida cristã de muitos se resume nisso. Data: 29/04/2007. Autor: Nostrifikator. Obra completa. Licença CC BY-SA.

 

Hoje temos:

 

·        Capelas. São pequenas igrejas, que não são sede da paróquia ou locais sagrados de hospitais, presídios, escolas, palácios, etc. [5], [6]

·        Paróquias ou matrizes. São os templos principais de uma localidade servida por um padre, chamado de pároco. [7]

·        Semicatedrais, às vezes chamadas de abadias. São igrejas, onde fica um abade com alguns dos poderes dos bispos. [8]

·        Catedrais. São as igrejas, onde está o trono (cátedra em latim) do bispo da diocese. É uma espécie de matriz diocesana. [9]

·        Basílicas.  Os edifícios em que os antigos cidadãos romanos tratavam de assuntos públicos, jurídicos ou de negócios eram chamados de basílicas. As primeiras igrejas foram construídas de acordo com o estilo das basílicas romanas. Hoje algumas igrejas históricas e importantes ganharam esse título honorífico. [10], [11]

·        Igrejas protestantes. Os protestantes tradicionais continuaram construindo igrejas semelhantes aos templos católicos.

·        Igrejas evangélicas. Entre os evangélicos as igrejas são templos com arquitetura um pouco diferente, mas com alguns resquícios da velha tradição. Alguns são lojas ou galpões alugados.

 

Hoje muitos tratam essas construções como se fossem os antigos templos sagrados, onde as pessoas procuravam seus sacerdotes para poderem ter acesso a alguma divindade. O termo igreja, então, tornou-se também sinônimo de templo cristão. Essa idéia é tão séria que alguns chamam o edifício onde se reúnem de “Casa do Senhor”, “Casa de Deus”, “Santuário do Senhor”. Fora dali, as pessoas “pintam e bordam”. Mas ali elas procuram, embora nem todos, ter reverência.  Algumas denominações até exigem a retirada dos calçados antes das pessoas entrarem em seus templos. [12] Somente podem colocar pés descalços no piso sagrado. Os calvinistas e puritanos implantaram uma rígida disciplina nos templos protestantes. Esse costume fez com que a maioria das igrejas protestantes e evangélicas posteriores adotassem essa idéia de templo sagrado digno de toda reverência, como se o cristão, no seu dia a dia, em todo lugar, não estivesse diante do Deus onipresente. [13]

 

 

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Descrição: “Reverência na casa de Deus.” Data: maio/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Muitos poderão pensar que essas construções são lugares importantes para aprenderem a Palavra de Deus, para a oração, para o louvor e para a comunhão dos irmãos. Vamos então analisar cada questão:

 

·        Para aprender a Palavra de Deus. Na igreja primitiva, quando nem sequer havia a imprensa, os cristãos aprendiam sobre o evangelho sem terem templos. Hoje temos a imprensa, livros eletrônicos, rádio, televisão, Internet e um monte de recursos de multimídia, mas mesmo assim ainda insistem em construir igrejas para ensinarem a Palavra de Deus através de longos sermões.

 

·        Para a oração. Jesus disse que podemos orar dentro do nosso quarto. (Mateus 6.5-8.) Paulo, escrevendo aos tessalonicenses, diz para orar sem cessar. (I Tessalonicenses 5.17.) [14] Isso quer dizer que podemos e devemos ficar sempre com nosso pensamento voltado para Deus. É claro que Paulo não estava falando dessas orações repetitivas, cheias de formalidades, em forma de discursos. Estava falando de uma comunhão constante com Deus, naturalmente, independente de qualquer lugar especial.

 

·        Para o louvor. Os primeiros cristãos louvaram a Deus, livres de qualquer edificação sagrada. Hoje os grandes eventos de louvor, na verdade, estão sendo realizados em estádios, praças públicas, casas de eventos e locais similares. Por outro lado, nossa missão principal neste mundo é pregar o evangelho com palavras, e acima de tudo, com as nossas vidas transformadas. Na outra dimensão, teremos uma eternidade para louvar a Deus.

 

·        Para a comunhão dos irmãos. Os primeiros cristãos tiveram uma comunhão extremamente profunda a ponto de terem tudo em comum. (Atos 2.44.) [15] União e comunhão não têm nada a ver com reunião. Nem todos que se encontram reunidos dentro de quatro paredes estão em união ou em comunhão.

 

Como podemos ver, os benefícios dos templos são muitos poucos, enquanto que os custos são muito altos. A construção, a manutenção, as despesas com água, luz, telefone, conservação, limpeza, funcionários, etc. geram uma despesa enorme. Mas se não trazem tantos benefícios, por que muitos ainda insistem em criar novos templos a cada dia? Na verdade, para muitos dirigentes de igrejas, esses templos geram grandes benefícios financeiros. É lá que eles arrecadam dízimos e ofertas. É lá que muitos conseguem vender seus produtos e serviços gospel, conquistam votos e outras coisinhas mais. Para a obra de Deus, eles geram poucos benefícios e muitos custos. No entanto, para os pastores, geram mais benefícios que custos. Por isso, a cada dia, surge um novo templo em cada esquina. E alguns estão, lado a lado, disputando um quinhão desse negócio divino. Felizmente nem todos usam o templo com essas finalidades, mas simplesmente por causa da tradição.

 

 

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Desc.: Pastor-vendedor. “Aleluia! Pague dois e leve três!” Data: Agosto/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Alguns insistem em dizer que a pessoa que deseja ser cristã precisa se filiar a uma igreja (denominação) e precisa frequentar uma igreja (templo). Pura bobagem. Para ser um cristão, a pessoa precisa se converter e seguir os ensinos de Jesus Cristo. E é bom lembrar que, em seus ensinos, não encontramos a obrigação de prestar serviços em templos. Quando a pessoa faz o que Cristo mandou ela, automaticamente, torna-se parte da igreja no seu sentido original. Esta idéia pregada por muitos é mero proselitismo e um impedimento para que as pessoas realmente possam seguir o puro evangelho. Nos primeiros séculos, os cristãos não se reuniam em nenhuma casa do senhor, mas se encontravam nas casas dos irmãos como: casa de Maria, casa de Lídia, casa de Áquila, casa de Jasão e em muitas outras. O máximo que eles fizeram, como já vimos, foi se encontrarem no pátio do templo de Jerusalém, que foi destruído e jamais edificado pelos cristãos. [16], [17]

 

 

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Desc.: Mais uma cena de uma reunião da igreja primitiva. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

Podemos afirmar que a igreja pode se reunir nas casas e em outros locais possíveis (praças, montes, praias, Internet) em pequenos grupos, guiados por aqueles que têm o dom de ensinar. Não precisamos construir um templo em cada esquina, onde possamos viver o evangelho. Grupos menores estreitam a comunhão entre os cristãos, facilitam o conhecimento uns dos outros, desenvolvem a amizade e o amor e fazem com que o evangelho seja propagado por todos os lados de uma forma dinâmica, simples e praticamente sem nenhum custo financeiro. Nos pequenos grupos, os cristãos podem confessar os seus erros uns com os outros, fazer orações uns pelos outros, servir, ajudar, consolar, ensinar, admoestar e edificar uns aos outros (Tiago 5.16; Gálatas 5.13; 6.2; 1 Tessalonicenses 4.18; 5.11; Colossenses 3.16.) [18] O evangelho de Jesus não é um conjunto de rituais religiosos a serem cumpridos nos santuários. É um estilo de vida novo para ser vivido em qualquer lugar. No Novo Testamento, você encontra Jesus por todos os lados entre as pessoas, falando de Deus. Em nenhum lugar, ele e os apóstolos aparecem celebrando um culto carregado de rituais em um templo. Por isso, os cristãos, da mesma forma, podem se encontrar em qualquer lugar com qualquer número de fiéis. Não é preciso construir patrimônios caros e suntuosos.

 

 

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Descrição: Jesus entre as pessoas, independente de templo. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

Continuaremos no próximo post.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br