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Liturgia do culto público (parte III)

Continuação do post anterior.

 

Livres dos Fardos Religiosos.

 

Prosseguindo com a história da liturgia do culto público nas igrejas, podemos ver que a missa e os cultos protestantes e evangélicos não foram criados por Jesus e nem pelos apóstolos, mas pelos bispos do século II. Isso aconteceu a partir do momento em que começaram a venerar o pão e o vinho da ceia, que passaram a ser chamados de Eucaristia. Mas como isso aconteceu?

 

Antes de tudo, observando os evangelhos, podemos ver que Jesus comparou a si mesmo com várias coisas. Ele disse que era:

 

·       A luz do mundo. (João 8:12; 12:46.) [1]

·       A porta. (João 10:9.) [2]

·       O bom pastor. (João 10:11, 14.) [3]

·       A videira. (João 15:1- 5.) [4]

·       O pão. (João 6.51.) [5]


É claro que Jesus não é nada disso no sentido literal. São comparações. Ele, por causa do seu evangelho (o conjunto dos seus ensinos) é como o sol que pode iluminar as pessoas. É também como uma porta para dar acesso a um novo ambiente. Como um bom pastor que cuida das ovelhas com dedicação, ele veio cuidar de nós, o seu rebanho. Ele é como uma videira, onde nós somos os ramos que podem produzir bons frutos. E é também como o pão que mata a fome. Nesse caso, ele mata a nossa fome espiritual.

 

Então, ele fez outra comparação dizendo que o pão era o seu corpo, e o vinho era o seu sangue. Ele dissera ser o pão vivo descido do céu. Quem comesse dele ganharia a vida eterna. O pão que ele se referira era a sua carne. Quem não comesse a sua carne e não bebesse o seu sangue não teria vida. Mas quem comesse a sua carne e bebesse o seu sangue teria vida eterna, seria ressuscitado no último dia e permaneceria nele. Dissera ainda que a sua carne verdadeiramente era comida, e que o seu sangue verdadeiramente era bebida. (Marcos 14.22-24; João 6:50-58.) [6]

 

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Representa o seu corpo.

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Representa o seu sangue.

Descrição: O pão e o vinho, símbolos do corpo e do sangue de Jesus. Data: maio/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

·      No século II, essas palavras, que foram ditas no sentido figurado, passaram a ser interpretadas literalmente. Dessa forma, comer a carne e beber o sangue de Jesus seria, segundo o entendimento dos teólogos daquela época, comer o pão e beber o vinho transformados no corpo e no sangue de Jesus. Então,alguns bispos começaram a mistificar os elementos da ceia, afirmando que o pão e o vinho, depois de consagrados, literalmente, se transformavam no corpo e no sangue de Jesus (transubstanciação) ou, segundo o entendimento de alguns, o corpo e o sangue de Jesus se tornavam presentes junto ao pão e ao vinho (consubstanciação). [7], [8].

 

Transubstanciação

Consubstanciação

O pão e...

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...o vinho,

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No pão e...

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...no vinho,

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depois de consagrados, se transformam em:

após a consagração, se tornam presentes:

carne e...

...sangue de Cristo

a carne e...

...o sangue de Cristo

Descrição: Transubstanciação e consubstanciação. Data: maio/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

·       No início do século II, em 107, o patriarca Inácio de Antioquia disse que a Eucaristia é a carne de nosso Salvador Jesus Cristo. (Carta aos Esmirnenses, 6 e 7) [9], [10]. Então ele deu bastante ênfase ao ministério do bispo: "Segui ao Bispo, vós todos, como Jesus Cristo ao Pai. Segui ao presbítero como aos apóstolos. Respeitai os diáconos como ao preceito de Deus. Ninguém ouse fazer sem o bispo coisa alguma concernente à Igreja. Como válida só se tenha a Eucaristia celebrada sob a presidência do bispo ou de um delegado seu. A comunidade se reúne onde estiver o bispo e onde está Jesus Cristo está a igreja católica. Sem a união do bispo não é lícito balizar nem celebrar a Eucaristia; só o que tiver a sua aprovação será do agrado de Deus e assim será firme e seguro o que fizerdes". (Epístola aos Esmirnenses, 8.) [11].

 

Como podemos ver, o pão e o vinho não eram mais vistos como simples memoriais de Cristo. O uso do pão e do vinho, nas ceias da igreja, nas Festas do Ágape, se transformava num ritual que não podia ser realizado por qualquer um. Somente o bispo podia ministrar a Eucaristia. Na ausência dele, era preciso ter pelo menos um representante seu. Por causa dessa crença, teve início o ministério do bispo sobre o povo. Antes, conforme vimos noutra mensagem, os anciões, presbíteros ou bispos (todos esses termos significavam a mesma coisa) estavam entre o povo. [12], [13], [14]. Agora eles estavam sendo colocados acima do povo. Mais do que isso, ainda segundo Inácio de Antioquia, já estava iniciando a formação de uma hierarquia formada por diáconos, presbíteros e bispos. Numa carta que ele escreveu à igreja de Filadélfia, disse: “Sede solícitos em tomar parte numa só Eucaristia, porquanto uma é a carne de Nosso Senhor Jesus Cristo, um o cálice para a união com seu sangue; um o altar, assim como também um é o Bispo, junto com seu presbitério e diáconos”. (Epístola aos Filadelfos, capítulo III.) [15], [16] Contrariando os ensinos de Jesus que não colocou ninguém acima de ninguém na sua igreja, conforme Mateus 23.8-11 e Marcos 10.35-44, estava surgindo uma classe sacerdotal hierarquizada acima do povo, como era no judaísmo e nas demais religiões do passado. Essa idéia iria calar a participação mútua do povo e abriria espaço para o clero atuar praticamente sozinho o tempo todo, como se fosse uma pessoa mais santa. [17]

 

Antes, todos podiam manipular...

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Agora, apenas o bispo podia manipular...

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...o pão e...

...o vinho,

...o pão e...

...o vinho,

que eram vistos como símbolos...

que passaram a ser vistos como...

...da carne e...

...do sangue de Cristo

...a carne e...

...e o sangue de Cristo

Descrição: A ceia antes e depois da elevação do bispo. Data: maio/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

·       Em meados desse mesmo século, o filósofo e teólogo Justino ensinou o seguinte, se referindo ao pão e ao vinho da santa ceia: “Nós não recebemos essas espécies como pão comum ou bebida comum; mas como Cristo Jesus nosso Salvador, que se encarnou pela Palavra de Deus, se fez carne e sangue para nossa salvação, assim também nós temos ensinado que o alimento consagrado pela Palavra da oração que vem dele, de que a carne e o sangue são, por transformação, a carne e sangue daquele Jesus Encarnado." (Justino, I Apologia, Cap. 66.) [18], [19]. Para ele, a consagração do pão e do vinho que, segundo a crença, os transformavam no corpo e no sangue de Jesus, era um sacrifício agradável a Deus. Veja o que ele diz num diálogo com um homem chamado Trifão: “Assim são os sacrifícios oferecidos a Ele, em todo lugar, por nós os gentios, que são o pão da Eucaristia e igualmente a taça da Eucaristia, que Ele falou naquele tempo; e Ele diz que nós glorificamos Seu nome, enquanto vocês O profanam." (Diálogo com Trifão, 41.) [20]. "Deus tem portanto anunciado que todos os sacrifícios oferecidos em Seu Nome, por Jesus Cristo, que está, na Eucaristia do Pão e do Cálice, que são oferecidos por nós cristãos em toda parte do mundo, são agradáveis a Ele." (Diálogo com Trifão, Cap. 117), [21], [22]. Além de acharem que o pão e o vinho viravam o corpo e o sangue de Jesus que somente podiam ser manipulados pelos bispos, também encaravam a celebração com pão e vinho como um sacrifício, semelhante aos sacrifícios cruentos dos judeus.

 

·       Ainda nesse século, por volta de 180, o bispo Irineu de Lyon também defendeu essa tese dizendo: "Somente como o pão que vem da terra, tendo recebido a invocação de Deus, não é mais pão comum, mas Eucaristia, consistindo de duas realidades, divina e terrestre, assim nossos corpos, tendo recebidos a Eucaristia, não são mais corruptíveis, porque eles têm a esperança da ressurreição.” (Cinco Livros = Desmascarando e Refutando a Falsidade. Livro 4,18; 4-5.) [23]. Ele também considerou a Eucaristia como um sacrifício (oblação). (Fragmentos dos Escritos Perdidos de Irineu de Lyon, 37.), [24].

 

·       A partir desse século, conforme já vimos noutra mensagem, se a ceia era tratada como um sacrifício (oblação) então o bispo, ao celebrá-la, passou a ser considerado como um sacerdote. Afinal, nas outras religiões, incluindo a religião dos judeus, quem oferecia sacrifícios era o sacerdote. [25] Dessa forma, como já foi dito, o bispo passou a ocupar uma posição elevada entre o povo.

 

O bispo, como sacerdote, consagrava...

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...o pão e...

...e o vinho.

Segundo a crença, acontecia, dessa forma, o milagre da transubstanciação ou da consubstanciação, que era uma nova espécie de...

...SACRIFÍCIO

Descrição: O sacrifício eucarístico. Data: maio/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

·       Ainda no século II, diante de todas essas crenças, alguns bispos e teólogos imaginaram que o pão e o vinho precisavam de uma reunião solene, mais santa, ministrada pelo bispo. Então houve a separação do pão e do vinho das Festas do Ágape. [26], [27]. A celebração com pão e vinho passou a ser realizada na manhã de domingo e passou a ser chamada, dentre outros nomes, de Eucaristia, que em grego significa ação de graças. [28]. Ora, se deixava de ser realizada a noite, então, é claro, não podia mais ser chamada de ceia. Mas as Festas do Ágape ainda permaneciam à noite de sábado, que para eles era o início do primeiro dia da semana. Segundo Hipólito, nas ceias ou Festas do Ágape, ainda havia pão e vinho, mas não eram mais considerados como a Eucaristia, mas sim uma eulogia (bênção). (Tradições Apostólicas 4.5), [29], [30].

 

Festas vespertina do Ágape.

Nova reunião matutina.

 

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Sábado, à noite.

 

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Domingo, pela manhã.

Celebração com pão e vinho (Eulogia).

Celebração com pão e vinho (Eucaristia).

Descrição: No nascer do sol, surgiu a liturgia do culto público. Data: maio/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 
O novo culto era uma imitação dos cultos das sinagogas judaicas: havia leitura de textos sagrados, comentários, orações e cânticos. [31], [32]. Além dessas coisas, então foi acrescentada uma refeição com pão e vinho, a Eucaristia, que se tornou a parte mais importante dessa reunião. É aqui que nascem a missa e os posteriores cultos protestantes e evangélicos. Então, como podemos ver, não foi Jesus e nem os apóstolos que criaram a liturgia do culto público, mas os bispos da igreja do século II. Essa foi a semente que deu origem às reuniões litúrgicas, que com o tempo, foram recebendo novas fórmulas repetitivas, tornando-se rituais cansativos. Antes, os cristão se reuniam para celebrar a festa do Ágape, fazer orações, leituras, tudo de maneira informal e descontraída. Agora passavam a ter uma reunião carregada de misticismo, formalidades e santimônia, idolatrando o pão e o vinho.

 

·       O filósofo e teólogo Justino descreveu um culto matutino dessa época dizendo:

 

 “No chamado dia do Sol (domingo) reúnem-se em um mesmo lugar todos os que moram nas cidades ou nos campos. Lêem-se as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas, na medida em que o tempo permite. Terminada a leitura, aquele que preside toma a palavra para aconselhar e exortar os presentes à imitação de tão sublimes ensinamentos.”

 

“Depois, levantamo-nos todos juntos e elevamos as nossas preces; como já dissemos acima, ao acabarmos de orar, apresentam-se pão, vinho e água. Então o que preside eleva ao céu, com todo o seu fervor, preces e ações de graças, e o povo aclama: ‘Amém!’ Em seguida, faz-se entre os presentes a distribuição e a partilha dos alimentos que foram eucaristizados, que são também enviados aos ausentes por meio dos diáconos.”

 

“Os que possuem muitos bens dão livremente o que lhes agrada. O que se recolhe é colocado à disposição do que preside. Este socorre os órfãos, as viúvas e os que, por doença ou qualquer outro motivo se acham em dificuldade, bem como os prisioneiros e os hóspedes que chegam de viagem; numa palavra, ele assume o encargo de todos os necessitados” (Justino - I Apologia Cap. 66-67 : PG 6,427 - 431). [33]

 

Como podemos ver, os cultos públicos, que ainda não eram chamados de missas, já possuíam algumas características de uma missa moderna, com elementos da sinagoga judaica e a refeição com pão e vinho. [34]. Podemos resumir o culto da Igreja dessa época, segundo Justino, da seguinte forma:

 

·       Leitura das memórias dos apóstolos ou dos escritos dos profetas.

·       Discursos com aconselhamento e exortações.

·       Orações juntos.

·       Apresentação do pão e do vinho.

·       Preces e ações de graças proferidas pelo dirigente enquanto o povo respondia: ‘amém!’

·       Distribuição do pão e do vinho.

·       Ofertas para os necessitados.

 

·       Ainda nesse século, surgiu a Lei do Arcano, que impedia que os não cristãos e os que ainda se preparavam para o batismo (os catecúmenos) tivessem conhecimento de certas coisas, criando mistérios que eram revelados apenas às pessoas batizadas. [35], [36]. Jesus disse para os seus discípulos:O que estou dizendo a vocês na escuridão repitam na luz do dia. E o que vocês ouviram em segredo anunciem abertamente.” (Mateus 10:27, NTLH.) [37] O evangelho de Jesus não tem segredos para serem escondidos de ninguém. Mas a Igreja aprendeu a fazer isso com as religiões de mistérios como: mistérios de Elêusis, o orfismo, o pitagorismo, o culto à Ísis, o culto a Mitra. [38], [39]. Esse clima de mistérios acabou aumentando a fama mística da Eucaristia.

 

·       Entre os séculos II e III, o culto dominical com a Eucaristia recebeu vários nomes, até que, no século IV, passou a ser chamado de missa. [40], [41].

 

Encontros vespertinos no sábado, à noite:

Nova reunião matutina no domingo, pela manhã:

 

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Festas do Ágape,

 

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Missa,

...uma comemoração com pão e vinho

...um sacrifício místico com pão e vinho

Descrição: A liturgia do culto público recebe o nome de missa. Data: maio/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 
A intenção foi boa, pois o pão e o vinho, símbolos do corpo e do sangue de Jesus, estavam sendo esquecidos no meio das desordens das Festas do Ágape ou ceias (jantares) de confraternização. Mas em vez de resolverem um problema, acabaram criando outro. Na verdade, os cristãos, estejam onde estiverem, precisam agir como cristãos. O que eles precisavam ter feito era acabar com as desordens do Ágape e não criar outra refeição separada. Afinal, será que é certo agir desordenadamente no sábado à noite e, no domingo, numa reunião cheia de formalidades, com cara de santo, participar de um culto solene? Claro que não! Não eram o pão e o vinho, símbolos do corpo e do sangue de Jesus, que tinham que sair da Festa do Ágape, mas a confusão. Afinal, Jesus não mandou ninguém criar um culto com pão e vinho. O que ele quis dizer e que muitos não fazem, é que devemos nos lembrar dele todas as vezes que comermos pão e bebermos vinho. Mas eles criaram um culto que acabou virando a adoração do pão e do vinho. Além do misticismo, ainda acabaram com a participação mútua das pessoas e colocaram os bispos numa posição de honra. Hoje temos uma igreja, onde as pessoas não aceitam ser instruídas, corrigidas, exortadas por leigos e temos uma classe clerical que não aceita críticas. Muitos cristãos, quando se encontram, em vez de falarem coisas que edificam, falam mal uns dos outros. Em vez de ensinar, corrigir, exortar uns aos outros, destroem. Viciados em cultos e missas, fazem o que não devem e depois vãos às missas ou aos cultos, achando que poderão engabelar Deus. As exortações e os ensinos ficam por conta do padre ou pastor que ministram um sermão ritualístico, na maioria das vezes, falando sobre complicadas doutrinas que Jesus não ensinou, enquanto as coisas simples ditas por Jesus e pelos apóstolos, quase sempre, continuam abandonadas.

 

Continuaremos no próximo post.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



[11] Ibidem