Comemorações litúrgicas

Livres dos Fardos Religiosos

 

As diversas religiões da Antiguidade tinham dias reservados para a celebração de festas religiosas. A liturgia do culto público, em vários dias do ano, era composta de festas sagradas. Vamos mergulhar no tempo e ver tudo isso com mais detalhes.

 

·       Na antiga Suméria, no sul da Mesopotâmia, as pessoas celebravam festas para os seus deuses. Akiti, por exemplo, era um importante feriado relacionado à agricultura. Eles celebravam a semeadura e a colheita, tudo dentro do contexto religioso. [1]

 

·       Os gregos realizavam jogos olímpicos, representações teatrais, tragédia e comédia, tudo ligado à religião. [2]

 

·       No zoroastrismo, na Pérsia, ao longo do ano, encontramos a celebração de sete festas obrigatórias. Seis foram chamadas de Gahanbars e a sétima, a festa do fogo, ficou conhecida como Noruz.

 

As sete festas do zoroastrismo

1.     Maidyozarem (festa do meio da primavera)

2.     Maidyoshahem (festa do verão)

3.     Paitishahem (festa da colheita)

4.     Ayathrem (trazendo os rebanhos para casa)

5.     Maidyarem (festa do meio do ano/inverno)

6.     Hamaspathmaidyem (festa de todas as almas)

7.     Noruz (festa do fogo) Essa é a sétima festa principal, celebrada no novo, no equinócio de primavera. [3], [4], [5]

 

·       No antigo Egito, ao longo do ano, dentre as diversas festas realizadas, temos: festa das lamentações de Isis ou morte de Osíris, que era uma festa de luto e de lágrimas; festa do aparecimento de Osíris, que era de alegria; festa da ressurreição de Osíris; festa do nascimento de Hórus, dentre outras. [6], [7], [8].

 

·       Os romanos também tinham suas festas religiosas marcadas em seu calendário.

 

Festas

Características

Saturnais

Essa festa, realizada de 17 a 23 de dezembro (solstício de inverno), era uma época de alegria e troca de presentes.

Lupercais

Honra do deus pastoril Luperco, realizada no dia 15 de fevereiro

Equiria

Honra do deus da guerra Marte, que acontecia entre os dias 27 de fevereiro e 14 de março

Ambarvais

Busca da proteção dos deuses, principalmente de Ceres, deusa da semente.

Paganálias

Também conhecida como paganais, essa era outra festa em honra de Ceres

Caprotinas

Honra da deusa Juno, a rainha dos deuses, realizada em julho

Junónias

Outra festa antiga em honra da deusa Juno

Compitais

Honra dos deuses Lares

Florálias

Honra da ninfa Flora, deusa das flores, feita na primavera

Fontinais

Honra das ninfas das fontes

Lamptérias

Honra de Baco, deus do vinho.

Latinas

Honra de Júpiter, celebradas no Lácio

Palília

Honra de Palés, deus pastoril, celebrada por pastores no dia 21 de abril

Ramálias

Honra de Ariadne e de Baco

Quinquátrias

Honra de Palas, de quatro em quatro anos

Parílias

Festa onde as mulheres grávidas buscavam bons partos

Portunais

Honra de Portuno, deus dos portos

Fontanálias

Honra das ninfas das águas, que acontecia no dia 13 de outubro

Vulcanais

Honra do deus do fogo Vulcano, realizada no dia 23 de agosto

Vinálias

Festas do vinho realizadas nos meses de maio e setembro

Vicenálias

Celebradas de vinte em vinte anos para buscar a saúde do imperador

Venerais

Honra da deusa Vênus, deusa do amor e da beleza

Vestálias

Honra de Vesta, deusa do lar

Vacunais

Honra de Vacuna, uma deusa sabina

Targélias

Honra de Diana, deusa da lua e da caça

Septimátrias

Honra de Minerva, deusa da sabedoria

Sabázias

Honra de Baco, deus do vinho, e de Júpiter, soberano dos deuses [9]

 

·       Os hebreus também tinham uma liturgia marcada por dias especiais.

 

Sábado. (Levítico 23.1-6.) [10]

O sétimo dia da semana dos hebreus era considerado um dia de descanso e de adoração. Começava no pôr-do-sol da sexta-feira e terminava no pôr-do-sol do sábado. Nesse dia, não era permitido fazer nenhum trabalho. Esse dia lembrava o sétimo dia depois da criação quando, segundo o livro de Gênesis, Deus teria descansado. Nome em hebraico: Shabbath. [11]

Festa da Lua Nova. (Números 28.11-15.) [12]

Os hebreus usavam um calendário baseado na trajetória da Lua em torno da Terra. O dia de lua nova, considerado o início de cada mês, era feriado e dia de festa. Nome em hebraico: Rosh Chodesh. [13]

Festa de Ano Novo ou Trombetas. (Levítico 23.23-25; Números 29.1-6.) [14]

Na lua nova ou o primeiro dia do sétimo mês ou mês sabático era um dia sagrado de descanso, festejado com toques de trombetas; e todos se reuniam para adorar a Deus. Nome em hebraico: Rosh Hashanah. [15]

 

Festa da Páscoa e, em seguida, Festa dos Pães Asmos, ou Pães Ázimos, ou Pães sem Fermento. (Êxodo 12.1-28; Levítico 23.4-8; Números 28.16-25; Deuteronômio 16.1-8.) [16]

Festas realizadas para a comemoração da saída dos hebreus da escravidão do Egito. Nome em hebraico: Pessah. [17]

 

Festa de Pentecostes ou Semanas, ou Primícias, ou Sega, ou Colheita, ou Ceifa. (Levítico 23.9-22; Números 28.26-31; Deuteronômio 16.9-12.) [18]

Festa realizada no 50º dia depois do segundo dia da Páscoa ou sete semanas depois da Páscoa. Esse dia lembrava o 50º dia após a saída do Egito, quando Moisés recebeu a lei no Monte Sinai. Nome em hebraico: Shavuot. [19]

 

Dia da Expiação ou Perdão. (Levítico 16.1-34; 23.26-32; Números 29.7-12.) [20]

Comemoração anual na qual o sumo sacerdote oferecia sacrifícios pelos pecados dos hebreus. Nome em hebraico: Yom Kippur. [21]

 

Festa dos Tabernáculos ou Barracas. (Levítico 23.33-43; Números 29.12-40; Deuteronômio 16.13-17.) [22]

Festividade para lembrar o tempo em que os antepassados dos hebreus ficaram morando em tendas (barracas) pelo deserto, quando saíram do Egito com destino à terra de Canaã. Nome em hebraico: Sukkot. [23]

 

Festa de Purim. (Ester 9.20-32.) [24]

No passado, o Império Persa dominou os judeus. Certa ocasião, o rei Persa Assuero, instigado pelo primeiro-ministro Amã, decretou o extermínio dos judeus. Mas a judia Ester, casada com o rei, através da sua intervenção, impediu o massacre. Essa festa comemora a salvação dos judeus da Pérsia. Purim quer dizer sorte em hebraico. [25]

 

Festas das Luzes ou da Dedicação. [26]

Citada na Bíblia apenas em João 10.22, era uma festa para comemorar a purificação do templo e a reedificação do altar, depois que Judas Macabeu expulsou os sírios no século II antes de Cristo. Nome em hebraico: Chanucá. Nessa época, luzes também eram acesas nos lares. [27], [28]

 

 

De acordo com o evangelho de Jesus, não estamos debaixo da lei de Moisés e, por isso, não temos que realizar festas judaicas. Por outro lado, também não precisamos nos preocupar com as diversas festas religiosas dos outros povos.  Mas os líderes da Igreja arrumaram um monte de celebrações, algumas até mesmo de origem pagã. Então, no mundo dito cristão, o ano ficou cheio de comemorações tradicionais de vários tipos: Natal, Semana Santa, Páscoa, Corpus Christi, etc. Quase todas essas festas não são vistas nas páginas do Novo Testamento. Jesus e os apóstolos não determinaram nenhum tipo de festa especial. Então de onde elas surgiram? Vamos ver isso a partir de agora.

 

·       O Novo Testamento fala muitas coisas sobre Jesus, mas não falam nada sobre a data do seu nascimento. Entretanto, entre os séculos II e V, no Egito, em Alexandria, surgiram as primeiras manifestações a cerca da celebração do nascimento de Jesus Cristo, o Natal. Mas sem uma data de nascimento definida, várias datas foram propostas como 20 de maio, 19 ou 20 de abril, 28 de março, 10 ou 6 de janeiro e finalmente 25 de dezembro. [29]

·       Provavelmente, no século II, surgiu o costume de comemorar a Páscoa. [30]

·       Ainda nessa época, há evidências de que o Pentecostes já era comemorado. [31]

·       No século IV, Efrém da Síria fala da comemoração do nascimento de Jesus na Mesopotâmia, em 6 de janeiro. Na mesma época, no Chipre, segundo Epifânio, a data do nascimento de Jesus seria 6 de janeiro. Em Antioquia, João Crisóstomo também defendeu o dia 25 de dezembro como a data do Natal.

·       Ainda nesse século, em Constantinopla, 25 de dezembro também foi adotado como o dia do aniversário de Cristo. O mesmo aconteceu em Roma. O dia 25 desse mês, na verdade, era o dia da comemoração do nascimento do Sol. Embalados nesse costume, o sincretismo entrou em cena, e a Igreja acabou oficializando o Natal nesse dia do mês de dezembro. [32]

·       Ainda no século IV, o dia 6 de janeiro foi transformado no dia de comemoração da manifestação do Senhor (Epifania do Senhor). [33], [34]

·       Também no século IV, surgiu a Quaresma, quarenta dias de penitências. [35]

·       Mais uma vez no século IV, surgiu a comemoração da Semana Santa. [36]

·       Provavelmente, no século V, teve início a festa da Assunção de Maria. [37] 

·       Entre os séculos V e VI, alguns documentos da Igreja começam a falar sobre um período de preparação para o Natal, com cinco domingos, que ficou conhecido como Advento. [38]

·       No século VI, surgiu a Festa da Santa Maria Mãe de Deus. [39], [40]

·       Documentos do século VI falam também de uma festa para comemorar a Ascensão de Jesus. [41]

·       No século XI, o papa São Gregório VII (1073-1085) reduziu o período do Advento para quatro domingos e assim ainda é até hoje.[42]

·       No século XIII, surgiu a comemoração de Corpus Christi. [43]

·       No século XIV, o papa João XXII ordenou a Festa da Santíssima Trindade, no próximo domingo após o Pentecostes. [44]

·       No final de século XIX, 1893, o Papa Leão XIII instituiu a Festa da Sagrada Família. [45], [46]

·       Em 1925, o papa Papa Pio XI instituiu a Festa de Cristo Rei. [47]

 

Além dessas comemorações destacadas no ano litúrgico, ainda foram criadas muitas outras comemorações paralelas. [48] Assim como os romanos honravam diversos deuses com suas festas, a Igreja arrumou uma comemoração para cada pessoa colocada na lista dos santos. Por isso, temos festa de são Pedro, festa de são João, Festa de são Sebastião, e assim por diante. Na verdade, a Igreja possui muito mais festas que os antigos romanos.

 

Veja como o ano foi dividido e as cores usadas na liturgia do culto público em cada ocasião.

 

Ciclo do Natal

Advento (preparação para o natal)

1º domingo

Quatro domingos antes do Natal até a tarde do dia 24 de dezembro

2º domingo

3º domingo

4º domingo

Tempo do Natal

Natal

No dia 25 de dezembro até a festa do Batismo de Jesus, entre os dias 9 e 13 de Janeiro

Festa da Sagrada Família

Festa da Santa Maria Mãe de Deus

Epifania (manifestação de Deus na encarnação de Jesus)

Batismo do Senhor Jesus

Tempo comum

Pregação de Jesus

Mais ou menos 6 domingos

Segunda-feira após a festa do Batismo de Jesus até a véspera de quarta-feira de Cinzas

Ciclo da Páscoa

Quaresma

Semana Santa

Quarta-feira de cinzas

Quarta-feira de Cinzas até a quarta-feira da Semana Santa

1º domingo

2º domingo

3º domingo

4º domingo

5º domingo

Domingo de Ramos

Segunda-feira santa

Terça-feira santa

Quarta-feira santa

Tempo pascoal

Quinta-feira santa

Quinta-feira santa até o domingo de Pentecostes que ocorre cinqüenta dias depois do domingo de Páscoa

Sexta-feira santa (Paixão)

Sábado santo (Vigília)

Domingo de Páscoa

1º domingo

2º domingo

3º domingo

4º domingo

5º domingo

Ascensão do Senhor

Demais dias

Domingo de Pentecostes

Tempo comum

Mais ou menos 28 domingos

Festa da Santíssima Trindade – próximo domingo após o Pentecostes

Depois do Pentecostes até a véspera do Advento

Corpus Christi – quinta-feira após a festa da Santíssima Trindade

Festa da Assunção de Maria – 20º domingo

Demais dias

Festa de Cristo Rei

Além das cores acima, usadas ao longo do ano litúrgico, em alguns ritos, ainda podem ser usadas mais outras cores: preto, azul e amarelo.

Dia de Finados e missas de réquiem ou missas para os mortos.

Solenidades da Virgem Maria.

Quando não é especificada nenhuma outra cor.

[49], [50], [51], [52], [53], [54], [55], [56]

Descrição: Ano litúrgico. Data: maio/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

Após a Reforma protestante no século XVI, as novas igrejas que surgiram ainda continuaram comemorando algumas festas do calendário litúrgico tradicional, como a Páscoa e o Natal, por exemplo. [57]

 

Não podemos negar que todas essas festividades para quem não tem nenhum compromisso com elas podem ser, às vezes, interessantes, atrativas, divertidas, turísticas. Mas, na verdade, elas são um fardo religioso imposto às pessoas. E isso não é bom.

Muita gente acha que é cristão só porque participa de festividades religiosas. Não estou dizendo que você está cometendo pecado ao participar de certas comemorações. Mas quero dizer que Jesus Cristo não determinou nada disso para os seus seguidores. Sendo assim, você está livre dessas obrigações festivas. Qualquer um pode ser um cristão de verdade, independente de qualquer calendário litúrgico.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br