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Vestes sacerdotais (parte II)

Continuação do post anterior.

 

Livres dos Fardos Religiosos.

 

Será que apenas os líderes católicos usam roupas diferentes? Não! Apesar das mudanças, pastores, bispos, presbíteros ou padres de outras igrejas também seguem o costume de usar vestes diferenciadas do povo.

 

·       No século XI, em 1054, a igreja oriental (conhecida como Igreja Ortodoxa) se separou da igreja ocidental (Igreja Católica). [1] Mas continuou usando as diversas vestes litúrgicas. [2]

 

Vestes e paramentos litúrgicos da Igreja Ortodoxa.

 

·       Do diácono: estichárion, orárion, epimaníkias.

·       Do sacerdote: estichárion, epitrachílion, epimaníkias, zone, felônion.

·       Do bispo: estichárion, epitrachílion, epimaníkias, zone, sakkos, homofórion, hipogonation, coroa, cruz, medalha de Jesus Cristo (eucópion), medalha da Mãe de Deus (Panaghia) e báculo, além de um tapete com a figura de uma água. [3]

 

·       No século XVI, aconteceu a Reforma protestante, mas apesar das mudanças, as igrejas protestantes continuaram com as vestes litúrgicas. A igreja luterana aboliu várias peças, mas manteve outras como a sobrepeliz, a alva, a casula, etc. [4], [5], [6] Na igreja Anglicana, não foi diferente. [7], [8], [9]

 

 

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Descrição: Colarinho clerical. Data: abril/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

·       No século XVII, os calvinistas puritanos rejeitaram muita coisa do catolicismo, incluindo as roupas. Para eles, o clero deveria usar toga preta, como os docentes e magistrados, dando a entender que são professores das Sagradas Escrituras. Por isso, a toga é usada em várias igrejas protestantes e ainda lembram as roupas dos magistrados romanos. [10], [11] O puritanismo descartou as roupas tradicionais romanas, mas colocou outra que continuou dando uma posição de honra aos líderes.

 

·       No século XIX, surgiu, na Igreja Presbiteriana, na Escócia, a camisa clerical, com colarinho circular, para substituir a tradicional batina. Em muitas igrejas protestantes e evangélicas, ela é usada. [12] Alguns acham que ela foi inventada pelos anglicanos ou católicos. [13]

 

·       No século XVIII, depois da Revolução Industrial, trajes da corte francesa foram transformados nos ternos atuais (paletós, calças, coletes e gravatas). E os burgueses (os donos dos negócios) se tornaram os donos do mundo. Esses passaram a usar esses trajes caros e elegantes. [14], [15] Nesse mesmo século, o título de pastor ganhou destaque entre protestantes e evangélicos. [16] Mas o pastor continuou como líder primaz e único sobre a congregação. Muitos deixaram os paramentos tradicionais, mas ainda, com resquícios romanos de que são autoridades de destaque entre o povo, entraram na onda, e resolveram usar paletó e gravata, como se fossem burgueses ou pessoas de destaque entre o povo.

 

·       No século XX, no Concílio Vaticano II, a Igreja Católica também adotou o uso da camisa de colarinho circular. Ela acabou se popularizando também nas igrejas Anglicana, Luterana, Metodista, dentre outras. [17] Tornou-se uma forma do líder religioso ser destacado entre o povo.

 

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Descrição: Terno e gravata. Data: Julho/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

·       Em pleno século XXI, alguns líderes de igrejas ainda insistem em ser diferentes. Alguns inventaram novos paramentos que se tornaram uma espécie de marca registrada. Um gosta de se apresentar com um lenço vermelho amarrado ao pescoço. [18] Outro usa chapéu. [19] Já vi muitos pastores usando jalecos brancos. [20] Outros estão usando túnicas alvas.  Estava observando um que usava uma túnica azul com uma grande cruz no peito.

 

Os pastores de terno e gravata lembram as autoridades desse mundo. Parecem executivos, presidentes de empresas. Aliás, muitas igrejas são verdadeiramente empresas disfarçadas de igrejas. Ainda não conseguiram descer de vez do pedestal que Jesus jamais construiu para os seus seguidores. Muitos ainda estão presos nessa onda, como se o púlpito fosse uma passarela de moda francesa chique. Não é de admirar que muitos fazem dos cultos públicos um lugar para ostentar suas roupas de grife, suas jóias e calçados sofisticados, além do “carrão” exibido no estacionamento. Fazem isso porque o exibicionismo sempre esteve presente na cabeça de seus líderes. Seguem o exemplo de seus mestres, mandando a humildade, a informalidade e a simplicidade do evangelho puro para lato de lixo dos ateliês das alta-costuras.

 

Como podemos ver, tudo isso tem se tornado um peso para os líderes religiosos. Por isso Jesus não criou nada disso. Todo mundo é livre para vestir o que quiser, mas todos precisam entender que Jesus não tem, como parece, nenhuma ligação com tais vestuários. Todos esses trajes colocam as pessoas longe do verdadeiro homem simples que andava pela Galiléia, pregando humildade e simplicidade. Distanciam a igreja dos humildes pescadores do lago de Tiberíades. Jesus disse para os seus discípulos: “Quem tiver duas túnicas dê uma a quem não tem nenhuma.” (Lucas 3:11, NTLH.) [21] Mas muitos querem ter guarda-roupas cheio de paramentos caros. E não se preocupam com quem está nu.


Vamos nos livrar de todo esse embaraço. Precisamos de novas vestes, mas vestes espirituais. Chega de roupas glorificantes. O ancião (presbítero, bispo, pastor) seja lá qual for o nome que quiser dar, não é nenhum sumo sacerdote para vestir roupas diferentes dos outros. É apenas mais um irmão com um dom diferente, porque na igreja todos somos corpo, mas cada um é uma parte diferente desse corpo, que chamamos de igreja. Aqui na terra, no corpo de Cristo, a igreja, tem muitos ministérios, mas cabeça, só Jesus. E nem ele usou roupas diferentes. Não foi com Jesus e os apóstolos primitivos que aprenderam a usar roupas diferentes, mas com as tradições romanas e burguesas. Eu fico com as idéias do Jesus simples da Galiléia.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



[13] Cristianismo Pagão. Frank A. Viola, p. 92.

[16] Cristianismo Pagão. Frank A. Viola, p. 81.