Vestes sacerdotais (parte I)

Livres dos Fardos Religiosos

 

Os sacerdotes de diversas religiões eram considerados pessoas especiais no meio da sociedade. Eram tidos como mediadores entre as pessoas e os deuses. Por causa disso, muitos se vestiam de forma diferente. [1]

 

Vestes sacerdotais são as roupas usadas pelos sacerdotes em suas cerimônias, incluindo todos os paramentos ou adornos. [2]  São também conhecidas como vestes litúrgicas, vestes clericais ou vestes sagradas. [3], [4]

 

Na história religiosa dos hebreus, podemos ver a presença de vários sacerdotes, além do sumo sacerdote. De acordo com as instruções dadas por Moisés, eles foram vestidos com peças de roupas especiais, cheias de decorações e muito significativas. Em Êxodo 28:1-43, encontramos as diversas instruções sobre tais vestimentas, que proporcionavam dignidade e beleza ou glória e ornamento. [5]. Mais adiante, Êxodo 39:1-31 mostra que tudo foi feito de acordo com as instruções. [6]. E Levítico 8:5-9 e 13 mostra Moisés colocando essas roupas em Arão e em seus filhos, consagrando-os como os sacerdotes de Israel. [7] Essas vestimentas foram feitas com muitos detalhes decorativos. Os materiais usados foram: pano azul, púrpura, carmesim, linho fino, ouro e pedras preciosas.

 

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Descrição: Sumo sacerdote. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

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Descrição: Sacerdote Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

 

Quais eram as peças?

 

1.     Calções. Eram feitos de linho. Tinham pernas e cobriam da cintura até as coxas.

 

2.     Túnica. Era uma roupa parecida com uma camisola, feita de linho fino, para ser usada sobre os calções.

 

3.     Manto do éfode ou sobrepeliz. Era uma roupa para ser colocada sobre a túnica, tecida inteiramente de fios de lã azul. Em volta de toda barra, em forma de franja, havia decorações em forma de romãs e sininhos de ouro, colocados alternadamente.

 

4.     Éfode ou estola sacerdotal. Era uma espécie de manto, produzido com linho fino, bordado, enfeitado com ouro para colocado sobre o manto do éfode ou sobrepeliz.

 

5.     Peitoral. Era uma bolsa quadrada de mais ou menos um palmo de comprimento e largura, confeccionada com ouro, azul, púrpura, carmesim e de linho fino torcido, para ser colocado por cima do éfode, na altura do peito. Nessa bolsa, do lado de fora, foram pregadas 12 pedras preciosas: sárdio, topázio, esmeralda; turquesa, safira, diamante; jacinto, ágata, ametista; berilo, ônix e jaspe. Dentro dessa bolsa, ficavam duas pedras, chamadas Urim e Tumim, usadas para fazer consultas ao Senhor.

 

6.     Cinto ou faixa. Era tecida com linho azul, púrpura e escarlate entrelaçado com linhas douradas para ser amarrado na cintura, sobre o éfode.

 

7.     Turbante ou tiara. Era feito de linho fino. O turbante do sumo sacerdote, também chamado de mitra, era mais incrementado. Nele ficava presa uma placa, onde estava escrito: Santidade ao SENHOR”. [8]

 

O sumo sacerdote se destacava entre o povo e entre os sacerdotes com todos esses paramentos. (Êxodo 28.1-4.) [9] Os sacerdotes também se destacavam entre o povo, mas muito pouco. Eles usavam apenas calções, túnica, cinto e um turbante mais simples na cabeça. (Êxodo 28.40-42.) [10]

 

Quando Jesus veio anunciando o seu evangelho, ele criticou a atitudes dos escribas e dos fariseus que gostavam de se destacar entre o povo e aproveitou para dizer que entre os seus discípulos ninguém seria maior que o outro. (Mateus 23.1-12.) [11] O versículo 5 diz, se referindo a eles: “E fazem todas as obras a fim de serem vistos pelos homens, pois trazem largos filactérios, e alargam as franjas das suas vestes.” Jesus não usou roupa especial e não mandou nenhum de seus discípulos usar nenhuma roupa diferente.

 

Já disse noutras mensagens e não posso deixar de repetir, pois é importante. Conforme o evangelho de Jesus, hoje não precisamos mais ter sacerdotes humanos para interceder por nós junto a Deus, pois Jesus, de certa forma, se tornou o nosso eterno sumo sacerdote. (Hebreus 4.14-15 e Hebreus 5.5-6.) [12] E todos nós somos sacerdotes com ele. (I Pedro 2.5 e 9; Apocalipse 1.6 e 5.10.) [13] Sendo assim, não precisamos de roupas especiais, pois ninguém, além de Jesus, é sumo sacerdote. E se todos somos sacerdotes, então ninguém precisa se vestir diferente de ninguém, no sentido religioso. Por isso entre os primeiros cristãos não vemos ninguém com vestes diferentes, como se fossem sacerdotes entre o povo. Nem mesmo Pedro, que muitos julgam ser o primeiro papa, se vestia de outra forma.

 

·       No primeiro século, como já vimos noutra mensagem, os anciões (também chamados de bispos ou presbíteros) não passavam de pessoas com o dom e a maturidade para apascentarem a igreja. Não eram pessoas diferentes acima do povo, mas estavam no meio das pessoas. [14] Certamente não se vestiam de forma diferente dos demais cristãos. Não vemos, no Novo Testamento, nenhuma instrução nesse sentido. Mas com o tempo, as vestes litúrgicas foram surgindo sob as influencias da cultura greco-romana. [15]

 

·       A partir do início do século II, o bispo começou a ganhar destaque e começou a ser tratado como sacerdote. [16]

 

·       No século II, o teólogo Justino, educado na filosofia neoplatônica, se vestia com uma capa de filósofo. [17]

 

 

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Descrição: Provável roupa do clero entre os séculos II e IV.. Data: abril/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

·       No final do século II, Clemente de Alexandria achava que o clero deveria vestir roupa diferente das pessoas comuns. Mas ela deveria ser “simples” e “branca”. Ele, que era profundamente instruído na filosofia neoplatônica, talvez tenha sido influenciado pelo que dissera o filósofo Platão: “a cor branca era a cor dos deuses”. [18]

 

·       No século IV, a coisa mudou completamente. Os bispos, sob as influências do Império Romano, por causa do grande apoio concedido pelo imperador Constantino, foram tratados com as mesmas honras que eram concedidas aos oficiais romanos. [19] Influenciados pela idéia de serem autoridades semelhantes às autoridades romanas, arrumaram roupas religiosas semelhantes às roupas dos oficiais romanos. A estola e o pálio teria surgido nessa época. [20] “Os cerimoniais pontificais e as vestes litúrgicas passaram a ser uma adaptação daqueles utilizados na corte imperial.” [21]  São Jerônimo teria dito que a religião tinha um vestido para o serviço sagrada e outro para as coisas ordinárias. [22]

 

·       Ainda nessa época, um documento falava do bispo na hora da preparação para a missa dizendo: “Deixe o sumo sacerdote, portanto, juntamente com os sacerdotes, rezar por ele mesmo, e deixar que ele vista a sua veste brilhante...”  (Constituições Apostólicas, Livro VIII, XII.) [23], [24].

 

·       A partir do século IV, os povos bárbaros foram invadindo o Império Romano do Ocidente, e as roupas das pessoas que eram uma espécie de batina, foram mudadas para a túnica curta dos godos. O clero entendeu que aquela nova moda não ficaria bem para eles e continuaram usando as batinas romanas. Por isso, ao longo dos séculos, se tornou comum os padres, mesmo fora dos cultos litúrgicos, usar batinas em casa e nas ruas, no dia a dia, diferenciando-se das demais pessoas.[25]

 

·       Do século IV ao século IX, surgiram várias outras peças de roupas litúrgicas. [26]

 

·       No século V, o papa Celestino I, escrevendo aos bispos da Gália, disse que os eclesiásticos deviam ser diferentes do povo pela doutrina, pela conduta e pela pureza de espírito e não pela veste, pelo hábito ou ornamento. [27] Falou bonito, mas não adiantou.

 

·       A partir do século VII, com a crença de que eram sacerdotes, porque a liturgia havia se transformado numa espécie de sacrifício, as suas roupas começaram a ser identificadas com os paramentos dos sacerdotes do Antigo Testamento. [28] Foi mais um passo para a judaização do evangelho.

 

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Desc.: Sacerdotes paramentados numa missa tridentina. Data: Março/2009. Autor: Lumen Roma. Fonte. Licença CC BY.

 

·       No século XIII, os paramentos já eram cerca de 17 peças. [29] Foram usados novos tecidos, vestes bordadas e bem ornamentadas. [30] Assim surgiram as seguintes paramentos usados no catolicismo romano: batina, alva, estola, túnica, amito, sobrepeliz, casula ou planeta, pluvial, capa magna, mozeta, luvas, barrete, manípulo, mantelete, roquete, dalmática e cíngulo (cordão). [31], [32] Para os bispos e o papa ainda encontramos, o pálio, o solidéu, a mitra, o báculo (cajado com ponta curva), a férula papal (cajado com cruz na ponta) o anel e a cruz peitoral. [33], [34], [35] Antes havia sandálias, botinas e meias. [36], [37] O bastão, a mitra (barrete frígio) e o anel  parecem ser influencias do mitraísmo, a antiga religião romana que predominava em todo o Império Romano antes da oficialização do cristianismo. [38] As insignias do Pai, o sete grau de iniciação dessa religião, eram esses elementos. [39]   O solidéu também é de origem pagã. Foi usado da adoração do deus sol na Babilônia e também fazia parte da religião de Mitra, a divindade solar do mitraismo. Embora possa significar somente Deus em latim, alguns afirmam que o termo solidéu é a junção das palavras soli + deo e que significa deus sol em latim. Observando o famoso mural de Mitra no Vaticano, realmente vemos a inscrição “Soli Invicto Deo” (deus sol invencível). [40], [41]

 

Algumas peças das vestes sacerdotais, dependendo da época do ano, variam de cores como: vermelho, verde, roxo, branco dourado, rosa, azul e preto: cada uma com um significado diferente. [42], [43], [44] A batina do papa é branca, dos cardeais é escarlate, dos bispos é avermelhada, e dos outros membros do clero, preta. [45] Algumas peças são decoradas com símbolos como: cachos de trigo, cachos de uvas, cálices, cruzes, siglas como IHS, (significa, em latim: Iesus Hominium Salvator) diversos bordados, etc. [46]

 

Outro costume introduzido na igreja foram as orações predefinidas para serem rezadas em voz baixa, enquanto se veste os paramentos litúrgicos. O sacerdote coloca o amito rezando. Coloca a alva e faz outra oração. Cinge-se com o cíngulo e reza mais uma vez. A estola, e reza de novo. A casula, mais oração. [47]

 

Continuaremos no próximo post.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



[17] Cristianismo Pagão. Frank A. Viola, p. 116.

[18] Cristianismo Pagão. Frank A. Viola, p. 90.

[19] Cristianismo Pagão. Frank A. Viola, p. 75.

[20] Cristianismo Pagão. Frank A. Viola, p. 90.

[25] Cristianismo Pagão. Frank A. Viola, p. 90.

[28] Cristianismo Pagão. Frank A. Viola, p. 91.