Templos (parte VI)

Continuação do post anterior.

 

Livres dos Fardos Religiosos.

 

Ao longo de muitos séculos, os seguidores do cristianismo se acostumaram com a tradição de ficarem enfiados nos templos, praticando rituais. Esse costume se tornou o carro-chefe da cristandade. Quando se fala em Jesus, a pessoa logo imagina uma igreja-templo. Essa prática se tornou tão séria que se uma pessoa, mesmo produzindo os melhores frutos do mundo, não estiver frequentando uma igreja dessa natureza, ela não é vista como um cristão verdadeiro, segundo o pensamento preconceituoso de muitos cristãos templários. E Jesus, como fica diante de tudo isso? Será que foi isso que ele ensinou?

 

 

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Diálogo: O Manoel  é um exemplo de pessoa. É honesto, justo, bondoso, respeita o próximo, não gosta de intrigas... Mas não adianta! Está afastado do evangelho, pois não vai à igreja!  Data: abril/2013. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.  

 

De acordo com os evangelhos, podemos ver que Jesus se reunia com os seus discípulos em qualquer lugar: nas casas, no monte, no barco, na praia, no pátio do templo, aquele reconstruído por Herodes, etc. (Mateus 8:14; 5:1; 8:23; 13:2; 26:55, etc.) [1] Em Lucas 5.3, por exemplo, diz: “Entrando em um dos barcos, que era o de Simão, pediu-lhe que o afastasse um pouco da praia; e, assentando-se, ensinava do barco as multidões.” (RA) [2] Instruindo os seus discípulos, ele nunca disse que deveríamos sair pelo mundo construindo templos.

 

 

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Descrição: Jesus ensinando no mar da Galiléia.  Data: século XIX.  Autor: Gustave Doré (1832-1883). Fonte e licença DP.

 

Uma mulher samaritana perguntou a Jesus: “’Os nossos antepassados adoravam a Deus neste monte, mas vocês, judeus, dizem que Jerusalém é o lugar onde devemos adorá-lo.’ Jesus disse: ‘Mulher, creia no que eu digo: chegará o tempo em que ninguém vai adorar a Deus nem neste monte nem em Jerusalém. Vocês, samaritanos, não sabem o que adoram, mas nós sabemos o que adoramos porque a salvação vem dos judeus. Mas virá o tempo, e, de fato, já chegou, em que os verdadeiros adoradores vão adorar o Pai em espírito e em verdade. Pois são esses que o Pai quer que o adorem. Deus é Espírito, e por isso os que o adoram devem adorá-lo em espírito e em verdade.’” (João 4.20-24, NTLH.) [3]

 

 

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Descrição: “Chegará o tempo em que ninguém vai adorar a Deus nem neste monte nem em Jerusalém.” (João 4.21, NTLH)  Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

Ele buscou a Deus nos montes. Por exemplo:E, despedida a multidão, subiu ao monte para orar à parte. E, chegada já a tarde, estava ali só.” (Mateus 14:23, RC.) [4] Confira também Marcos 6:46; Lucas 6:12; 9:28. [5] Além disso, ele nos ensinou a orar trancados em nosso quarto, dizendo: “Mas você, quando orar, vá para o seu quarto, feche a porta e ore ao seu Pai, que não pode ser visto. E o seu Pai, que vê o que você faz em segredo, lhe dará a recompensa. (Mateus 6:6, NTLH.) [6]

 

 

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Descrição: Jesus no monte. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

Ele nos mostrou que Deus é Espírito e que podemos buscá-lo em qualquer lugar. Quem nasce do Espírito adora a Deus em espírito, isso é, em qualquer lugar, sem depender de lugares e horas determinadas. Por isso, Jesus disse também: “O vento sopra onde quer, e ouve-se o barulho que ele faz, mas não se sabe de onde ele vem, nem para onde vai. A mesma coisa acontece com todos os que nascem do Espírito.” (João 3:8, NTLH.) [7]. Quem vive guiado pelo Espírito de Deus não sabe para onde vai. Por isso, ele disse também que o reino de Deus não está aqui ou acolá: ele está dentro de cada um. (Lucas 17.21.) [8]. Sendo assim, a igreja não tem endereço determinado. O reino de Deus, a igreja, estará onde você for. A Igreja precisa ser livre e itinerante como o vento, que vai levando o clima refrescante para todos. É o vento puro do Espírito Santo de Deus que faz a igreja respirar com bastante vivacidade em qualquer lugar.

 

 

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Descrição: Vento a triplicar. Data: 13 de fevereiro de 2012.  Autor: Aires Almeida.  Fonte. Licença CC BY.

 

Quando Jesus convidou os seus primeiros discípulos para segui-lo, ele não os chamou para frequentar um lugar determinado com cultos em horários fixos, como muitos estão fazendo. Não, ele os chamou para uma nova vida em qualquer lugar que fossem. (Mateus 4.18-22.) [9]. Não queria ver pessoas como aquelas palmeiras da praia, balançando, mas imóveis, plantadas num único lugar. Queria que todos pudessem ser levados pelo vento do Espírito. Não era mais tempo de ser como as palmeiras e como os cedros dos montes Líbanos. Não era mais para ficarem plantados na casa do Senhor, florescendo nos átrios do templo, como dizia o salmista. (Salmo 92.12-13 ou 91.13-14 conforme a versão.) [10].

 

 

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Descrição: Nascer do sol sobre Xcalak, Quintana Roo, México. Data: 07 de fevereiro de 2011. Autor: Gamweb. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

Ele disse mais: “Vocês são o sal para a humanidade; mas, se o sal perde o gosto, deixa de ser sal e não serve para mais nada. É jogado fora e pisado pelas pessoas que passam. Vocês são a luz para o mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte. Ninguém acende uma lamparina para colocá-la debaixo de um cesto. Pelo contrário, ela é colocada no lugar próprio para que ilumine todos os que estão na casa. Assim também a luz de vocês deve brilhar para que os outros vejam as coisas boas que vocês fazem e louvem o Pai de vocês, que está no céu.” (Mateus 5.14-16, NTLH.) [11]. Isso quer dizer que devemos ser um exemplo de cristão em qualquer lugar. Precisamos ser como o sal, fazendo com que todos sintam o sabor da vida. Ele não nos mandou para dentro de quatro paredes para ficarmos dando espetáculos carregados de uma aparente santidade e, depois dos cultos “abençoados”, sair por ai dando péssimos exemplos, fazendo as pessoas acharem que o evangelho é mais uma religião insípida e sem graça. Não! Nossa missão é ser tempero e luz em todo lugar. Não adianta nada tantas “glórias a Deus”, “aleluias”, palmas e danças, se depois, no dia a dia, a pessoa não é uma igreja ambulante, levando vida a todos. Não adianta ser uma luz artificial escondida lá dentro da igreja-templo, algumas horas por semana. Temos que brilhar sempre, cá fora.

 

 

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Descrição: Crepúsculo à beira do Guaíbe, Porto Alegre, Brasil. Data: 2007. Autor: Ricardo André Frantz. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

Sabe qual é uma das diferenças entre os milagres realizados por Jesus e os milagres ministrados em muitas igrejas? Jesus, de acordo com as necessidades das pessoas que encontravam pela frente, realizava seus prodígios em qualquer lugar e hora. Muitas igrejas institucionalizadas têm endereço e hora marcada para realizar seus milagres. Ele ensinou a igreja a ir a toda parte como o vento. Não mandou ninguém ficar estacionado num endereço aguardando o povo vir em busca de campanhas, correntes e misticismos. É por isso que você encontra Jesus, e depois, os apóstolos realizando maravilhas em todo lugar, independente de campanhas agendadas e outras coisas. “Jesus andou por toda parte fazendo o bem e curando todos os que eram dominados pelo Diabo, porque Deus estava com ele.”  (Atos 10.38b, NTLH.) [12] “Os discípulos então saíram de viagem e andaram por todos os povoados, anunciando o evangelho e curando doentes por toda parte.” (Lucas 9:6, NTLH.) [13]

 

 

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Descrição: Jesus realizava os seus milagres em qualquer lugar e hora. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

Na parábola do bom samaritano, ele mostrou que as pessoas que vivem atarefadas com suas obras religiosas dentro dos templos nem sempre se importam com os necessitados que estão caídos pelo caminho. O sacerdote e o levita, duas importantes figuras da religião templária dos israelitas, não se preocuparam com o homem caído e ferido. Desviaram-se dele. (Lucas 10.25-37.) [14]. Assim ainda são muitos religiosos de hoje. Deixam de fazer a vontade de Deus nas ruas e acham que poderão agradá-lo dentro de recintos fechados.

 

 

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Descrição: A indiferença de homens religiosos. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

O evangelho de Jesus pode até ser visto como mais uma religião. Mas é totalmente diferente de tudo que já se viu pelo mundo, através da história religiosa dos povos. Podemos dizer, então, que a mensagem original de Cristo é a primeira religião sem templos.

 

O evangelho que temos seguido é estranho. Não tem sido aquele evangelho simples, dinâmico, libertador, agradável, desimpedido... Acorde! Precisamos brilhar cá fora, na prática, no dia a dia, em todo lugar, longe do brilho das suntuosas construções religiosas. Chega de hipocrisia!

 

Continuaremos no próximo post.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br