Refeições religiosas (Eucaristia, Ceia do Senhor, parte II)

Continuação do post anterior.

 

Livres dos Fardos Religiosos

 

Refeições fúnebres, pão e vinho, alimentos como fonte de vida, tudo isso encontramos nas refeições religiosas. Vamos ver isso com mais detalhes.

 

Refeições religiosas fúnebres. Oferendas para os mortos, em forma de refeições, colocadas nos túmulos, foram muitos comuns na Antiguidade.

 

·           Na Bíblia católica, no livro de Tobias, está escrito: “Põe o teu pão e o teu vinho sobre a sepultura do justo; mas não o comas, nem o bebas em companhia dos pecadores.” (Tobias 4.18.) [1], [2].

 

·           Os egípcios colocavam os defuntos embalsamados nas tumbas, juntamente com oferendas de alimentos de vários tipos. [3]

 

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Descrição: Refeição fúnebre. Data: 04 de janeiro de 2007. Autor da foto: Marcus Cyron. Obra completa. Licença CC BY-SA.

 

·           Na ilha de Creta, durante a civilização minóica, as pessoas colocavam vasos com alimentos nos túmulos. [4].

 

·           Gregos e romanos tinham o costume de realizar refeições fúnebres nos túmulos dos seus antepassados. [5], [6], [7], [8], [9]. Essa prática era conhecida como Refrigerium. [10]

 

·           Os romanos celebravam uma festa em honra aos mortos chamada de Parentália, entre os dias 13 e 21 de fevereiro, quando eram oferecidos trigo, sal, pão molhado no vinho, além de flores. [11]. O último dia, 21 de fevereiro, era também conhecido como Ferália. [12]. Aqui está a origem do costume que os católicos têm de homenagearem os mortos. Apenas mudaram a data para o dia 2 de novembro e deixaram de levar alimentos, mas ainda continuam levando flores para os cemitérios.

 

·       Jesus pediu para que as pessoas, em suas refeições, usando o pão e o vinho, se lembrassem de sua morte por causa do evangelho. Ele, tomando um pão, tendo dado graças, o partiu e deu aos seus discípulos dizendo: “Isto é o meu corpo oferecido por vós; fazei isto em memória de mim.” Depois, ele deu para eles um cálice de vinho, dizendo: “Este é o cálice da nova aliança no meu sangue derramado em favor de vós.” (Lucas 22.19-20, RA.) [13]. Aquela ceia foi uma despedida de Jesus. Ele sabia que a sua morte se aproximava. Por isso disse: “Nunca mais beberei deste vinho até o dia em que beber com vocês um vinho novo no Reino de Deus.” (Marcos 14.25, NTLH.) [14]. O apóstolo Paulo, escrevendo aos coríntios, disse: “Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor, até que venha.” (1 Coríntios 11:26, RC.) [15].

 

Como podemos ver, foi uma comemoração fúnebre diferente. A comemoração de uma morte que trouxe vida. Quem coloca o evangelho de Jesus em prática, lembra da sua morte, não como o fim de tudo, mas o início de uma nova vida inaugurada por ele.

 

Apesar da ceia de Jesus ser um memorial de sua morte, ela não é um ritual funerário para ser praticado nos sepulcros. Mas muitos cristãos continuaram com a prática pagã das refeições fúnebres nos túmulos. O teólogo Tertuliano escreveu: "Fazemos oblações pelos falecidos, a cada ano, nos dias de aniversário." (De Corona 3.) [16], [17]. O bispo romano Felix I (269-274) colocado na lista dos papas, decretou que a missa devia ser celebrada nos túmulos dos mártires. Nos altares passaram a ser colocadas relíquias das pessoas martirizadas. [18]. Querendo ser diferentes, substituíram a prática do Refrigerium pela Eucaristia, que era celebrada numa mesa diante ou sobre o túmulo. [19], [20]. O pão e o vinho que eram para ser memoriais da morte de Jesus, acabaram virando elementos de rituais fúnebres de qualquer defunto. Esse costume acabou preservando a prática romana de cultuar os mortos, colocando a Igreja no caminho da antropolatria, culto do ser humano. Alguns acreditam que a Eucaristia daquele tempo não tinha nenhuma ligação com os banquetes funerários. [21]. Mas não podemos negar que quando era realizada junto aos túmulos eram sim uma variante do Refrigerium romano.

 

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Desc.: Pão e vinho. Data: 05/01/2007. Autor: Beatrice Murch. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

O pão e o vinho. O pão é considerado um dos primeiros alimentos elaborados pela humanidade. [22]. O vinho é uma bebida muito antiga. Acredita-se que o vinho tenha surgido há longos anos atrás, no sul da Ásia, de onde se estendeu por todo o mundo. [23]. Por causa desses longos anos de existência, esses alimentos se tornaram símbolos religiosos. Por isso, encontramos esses elementos em diversas refeições religiosas antigas.

 

·           Na Mesopotâmia, havia um banquete religioso com carne de vaca e de carneiro, leite, cerveja, vinho e pão. [24].

 

·           No mitraísmo, a antiga religião romana, antes do cristianismo, os fiéis realizavam uma refeição com pão e vinho. (Justino, I Apologia, Cap. 66.) [25].

 

·           Para os gregos, Dionísio era o deus do vinho. [26]. Os romanos o chamavam de Baco. [27]. Esses povos realizavam, todos os anos, festivais em honra ao deus do vinho, conhecidos como Dionísias ou Dionisíacas e Bacanais, com procissões, danças, cantos, concursos e representações teatrais. [28], [29], [30].

 

·           Os romanos ofereciam pão ensopado no vinho para os mortos. [31].

 

·           Os essênios, um grupo religioso judeu, surgido antes de Jesus, também realizavam um ritual alimentício com pão e vinho. [32].

 

·           Na Bíblia, as palavras pão e vinho são citadas mais de duzentas vezes cada uma. A Bíblia cita o vinho pela primeira vez em Gênesis 9.21, quando Noé ficou embriagado. [33].

 

·           Quando Abraão retornava de uma batalha, Melquisedeque, o rei e sacerdote de Salém, foi encontrar-se com ele e lhe ofereceu pão e vinho. (Gênesis 14:18-20.) [34].

 

·           Na lei de Moisés, o pão e o vinho também estão presentes em vários lugares. (Êxodo 29:23; 29:40 etc.) [35].

 

·           Na ceia da Páscoa dos israelitas, como já vimos, o pai de família dividia o pão e dava um pedaço para cada um dos participantes. Também era oferecido vinho quatro vezes.

 

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Desc.: A última ceia. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

·           Jesus, durante a ceia da Páscoa, usou esses dois alimentos para representarem o seu corpo e o seu sangue. Ele fez aquele mesmo gesto que os pais de família faziam, oferecendo o pão e o vinho para os participantes. Através desse gesto, ele demonstrou que a sua carne e o seu sangue eram como se fossem pão e vinho que estavam sendo oferecidos para todos os que nele cressem. As verdades que ele pregava e que entravam em choque com a religião dos judeus iriam causar o seu fim. Os judeus achavam que ele blasfemava ao pregar e viver o seu evangelho. (Mateus 9:3; 26.65; Marcos 2.7; 14. 64; Lucas 22:65; João 10:33.) [36]. Quem blasfemava o nome do Senhor era punido com a pena de morte. (Levítico 24.15-16.) [37]. Jesus sabia que, ao contrariar as tradições do seu povo, ele seria morto. Mas alguém precisava, sem covardia, dizer verdades libertadoras, mesmo custando a sua vida. Esse seria um sacrifício agradável a Deus. E para que seus discípulos jamais se esquecessem dessa sua obra de amor e coragem em prol da humanidade, ele destacou o pão e o vinho para servirem de lembranças sua. Ele disse para os seus discípulos que, ao comerem pão e beberem vinho, para se lembrarem dele. Não foi a primeira missa como muitos têm ensinado. Foi apenas uma reunião de confraternização com belos ensinos, usando um costume antigo. Ele não instituiu uma cerimônia religiosa. Apenas aproveitou a tradicional refeição pascoal dos judeus para indicar o pão e o vinho, dois alimentos populares antigos dentro do contexto religioso, como símbolos do seu corpo e do seu sangue. Não estava instituindo um sacramento ou ritual solene como muitos pensam e fazem. Na verdade, os seus seguidores devem se lembrar dele todas as vezes que for comer pão e beber vinho. (1 Coríntios 11:25-26.) [38].

 

Alimentos como fonte de vida eterna. Segundo as velhas crenças religiosas, alguns alimentos podiam dar vida eterna.

 

·       Os gregos acreditavam que os deuses usavam um alimento chamado ambrosia. Quem dele comesse se tornava imortal, ganhando uma vida eterna. Esse alimento tinha certa ligação com um néctar. [39].

 

·       Para os hindus, esse alimento divino da imortalidade seria o amrita ou soma. [40], [41].

 

·       No zoroastrismo, o haoma seria a bebida equivalente ao soma. [42].

 

·       Segunda a mitologia nórdica, havia um pomar, onde as maças podiam dar vida eterna. [43].

 

·       Na mitologia chinesa, encontramos os pêssegos da imortalidade. [44].

 

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Descrição: Jesus e a mulher samaritana. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

·       Jesus, dentro desse contexto religioso, mostrou um novo tipo de alimento capaz de dar vida eterna. Ele disse para uma mulher samaritana: “Quem beber desta água tornará a ter sede; aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna.” (João 4:13-14, RA.) [45]. “Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede.” (João 6:35, RA.) [46]. “Se alguém tem sede, venha a mim e beba.” (João 7:37, RA.) [47]. “Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tendes vida em vós mesmos. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeira comida, e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem comer a minha carne e beber o meu sangue permanece em mim, e eu, nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e igualmente eu vivo pelo Pai, também quem de mim se alimenta por mim viverá. Este é o pão que desceu do céu, em nada semelhante àquele que os vossos pais comeram e, contudo, morreram; quem comer este pão viverá eternamente.” (João 6.53-58, RA.) [48]. “Enquanto comiam, tomou Jesus um pão, e, abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, dizendo: ‘Tomai, comei; isto é o meu corpo.’ A seguir, tomou um cálice e, tendo dado graças, o deu aos discípulos, dizendo: ‘Bebei dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados.’” (Mateus 26.26-28, RA.) [49].

 

Quando Jesus disse essas coisas, ele não estava falando no sentido literal. Estava usando uma figura de linguagem. O seu corpo que seria morto e o seu sangue que seria derramado por causa da pregação de suas mensagens libertadoras eram como se fossem alimentos para a humanidade. Seu corpo foi comparado ao pão. Seu sangue, comparado ao vinho. Comer o seu corpo e beber o seu sangue é aceitar e seguir tudo que ele ensinou. A prática dos seus ensinos (o evangelho) é a ingestão do alimento espiritual capaz de nos dar a vida eterna. Ele usou o pão e o vinho como símbolos do seu corpo morto e do seu sangue derramado, que se tornaram, espiritualmente falando, o pão e o vinho que dão vida eterna.

 

Não são o pão e o vinho que dão vida eterna, literalmente falando, mas o seu evangelho, que causou a morte do seu corpo e o derramamento do seu sangue, representados pelo pão e pelo vinho. Mas muitos, influenciados pelas crenças pagãs, acabaram achando que a vida eterna está na ingestão do pão e do vinho da Eucaristia e deixaram de “comer” o verdadeiro evangelho.

 

E foi assim que Jesus deu um novo sentido para os banquetes religiosos.

 

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Descrição: Pão e vinho. Data: 23 de novembro de 2008. Autor: Kevin Rawlings. Fonte. Licença CC BY.

 

Podemos criar uma ceia ou jantar especial, como Jesus e os seus discípulos fizeram, formando uma família espiritual, para celebrarmos, com pão e vinho, a morte dele. Mas não precisa ser toda semana como era o Ágape e nem tampouco todos os dias como aconteceu com a Eucaristia. Também não precisa de nenhuma fórmula com palavras, orações e cânticos predefinidos. Isso pode ser feito livremente, sem intervenções de nenhuma organização religiosa. Não há necessidade de pastor, bispo, padre ou sacerdote nos moldes atuais. A ceia de Jesus foi num cenáculo (sala de jantar) de uma casa. Ela não depende de um templo. Todos os cristãos reunidos em suas casas, em qualquer dia, sem desordens, podem realizar refeições juntos. Não é um ritual, não é oferta para Deus, não é sacrifício. Trata-se de uma festa de confraternização, como fizeram os primeiros cristãos, onde o pão e o vinho precisam nos lembrar da morte de Jesus Cristo, não como o fim de uma vida, mas como o princípio de uma nova vida para todos nós. O que poderia ser uma refeição fúnebre, tornou-se uma festa de grande júbilo. Os elementos da ceia não são elementos místicos, mas alimentos que servem para nos lembrar da obra de Jesus que custou a morte do seu corpo e o derramamento do seu sangue. Além desse dia especial, qualquer refeição, em qualquer lugar, onde houver pão e vinho, deve nos recordar da obra de Jesus, não com tristeza, mas com alegria, pois ele nos mostrou o caminho da vida eterna, da verdadeira liberdade.

 

Jesus morreu, mas acabou se tornando o alimento espiritual nas festas de vida eterna. Ele se foi porque seu reino não é deste mundo. (João 18:36.) [50]. Na outra dimensão, ele nos aguarda para beber conosco um vinho novo no Reino de Deus. (Marcos 14.25.) [51]. Enquanto esse dia não chega, podemos comer e beber o seu evangelho, que é pão da vida e vinho novo em odres novos. Voltemos à mesa do verdadeiro evangelho original. Chega de meros rituais. Chega de misticismos. Vamos parar com essas Ceias e Eucaristias romanizadas com um monte de formalidades cansativas. Como os povos antigos, sem glutonarias e embriaguês, vamos nos alegrar, comendo e bebendo juntos, principalmente agora que tudo isso tem um novo sentido. Celebremos, com júbilo, festas de confraternizações, procurando jamais nos esquecermos daquele que morreu a fim de nos descortinar uma nova dimensão de vida. Essa nova vida com Deus sem rituais, sem formalidades, sem leis religiosas, sem dominação, sem templos, sem toda aquela velha parafernália religiosa antiga é motivo de muita comemoração.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br