Ordenação ou consagração religiosa (parte II)

Continuação do post anterior.

 

Livres dos Fardos Religiosos

 

A Igreja, como sempre, não ficou com a simplicidade do evangelho e da igreja do primeiro século. Atraída pelas cerimônias romanas, criou seus rituais de ordenação religiosa, que acabaram virando tradições, que ainda estão enraizadas no catolicismo e em muitas igrejas orientais, protestantes e evangélicas. Vamos ver como isso aconteceu.

 

·       Entre os séculos II e III, o reconhecimento de pessoas para atuarem na obra de Deus se transformou em um ritual de passagem, onde as pessoas eram consagradas para ocuparem uma posição especial entre os cristãos. Como vimos na mensagem sobre hierarquia na igreja, nessa época, presbíteros, bispos e patriarcas já estavam acima do povo. [1] Sendo assim, a consagração dessas pessoas passou a significar uma porta de entrada para uma posição superior. Nessa época, Hipólito de Roma escreveu a obra Tradição Apostólica, onde fala da ordenação do bispo, do presbítero e do diácono. Ainda era um ritual bem simples, mas já começavam a aparecer as primeiras formalidades. Nessa obra, ele apresentou como seria essa cerimônia, incluindo uma oração montada para cada tipo de ordenação. [2]

 

·       Entre os século III e IV, sob a influência do costume romano de designar homens ao serviço civil, a igreja incrementou sua cerimônia de ordenação. Palavras utilizadas para a nomeação de cargos governamentais romanos passaram a ser usadas na ordenação de pessoas na Igreja. [3] No Sacramentário Veronense, sem data bem definida, na oração de ordenação de bispos, presbíteros e diáconos, encontramos termos como grau, honra e dignidade, próprios do ambiente imperial romano. [4] Observe que palavras como essas não combinam com a humildade e a igualdade propostas por Jesus. São termos que combinavam perfeitamente com a corte romana.

 

 

clip_image002[4]

Descrição: Tonsura. Data: 1473. Autor: Carlo Crivelli. Fonte: The Yorck Project: 10.000 Meisterwerke der Malerei. DVD-ROM, 2002. ISBN 3936122202. Distributed by DIRECTMEDIA Publishing GmbH. Licença DP.

·       No século IV, com o apoio do Império Romano, a cerimônia de ordenação se aproximou ainda mais dos costumes romanos de ordenar funcionários públicos graduados. Essa idéia de copiar os costumes romanos fez com que os bispos da igreja se achassem dignos de reverência e honra, assim como os oficiais romanos eram reverenciados e honrados. Surgiu, assim, um ritual solene e pomposo, como acontecia entre os romanos. [5], [6] O clero foi colocado numa posição ainda mais elevada sobre o povo. Nessa época, disse o bispo Gregório de Nissa, se referindo ao bispo ordenado: “Embora no dia anterior ele fosse apenas uma pessoa no meio das massas, alguém do povo, ele é repentinamente convertido em guia, presidente, mestre de justiça, instrutor de mistérios ocultos…” [7]

 

·       Nesse mesmo século, para complicar um pouco mais, surgiu o costume dos padres cortarem os cabelos na época da ordenação deles. [8], [9], [10]. Ainda nessa época, surgiu o costume de colocar o livro dos Evangelhos sobre a cabeça daquele que estava sendo ordenado, durante a oração de ordenação. [11], [12]

 

·       No século V, foi implantada a tonsura para diferenciar os padres das demais pessoas. A tonsura, no Oriente, era o corte total do cabelo. No Ocidente, era um corte do cabelo de forma circular e rente, no alto da cabeça e passou a fazer parte do sacramento da Ordem e era feita pelo bispo no momento da ordenação. No século XVI, a tonsura passou a ser um pequeno círculo no alto da cabeça. [13], [14], [15]. No século XX, na década de 70, o papa Paulo VI acabou com a tonsura, que foi substituída por um juramento público de fidelidade à Igreja. [16], [17]. É interessante observar que a tonsura era um costume pagão, surgido na Mesopotâmia, praticada por sumérios e babilônios, e fazia parte de um rito de luto e também era um símbolo da devoção a Shamash, o deus-sol da religião dos babilônios. [18].

 

·       Depois, copiado do Antigo Testamento, resolveram também ungir a cabeça e as mãos do candidato com óleo. [19], [20], [21], [22]. Por causa disso, muitos ainda acham que são ungidos especiais do Senhor, que não podem ser criticados e corrigidos. Consideram a crítica como uma perseguição e sempre dizem que não devemos tocar no ungido do Senhor.

 

·       Com o tempo, ainda foram incluídos a longa e cansativa Ladainha de Todos os Santos, um interrogatório para o candidato e a entrega de insígnias. [23]. Cada grau da hierarquia possui suas insígnias ou sinais distintivos próprios, que passaram a ser entregues durante a cerimônia de ordenação, mediante fórmulas próprias. Por exemplo, o bispo, ao receber o seu anel, ouve do celebrante a frase: "Recebe o anel, sinal de fidelidade, e integridade da fé e na pureza da vida, guarda a santa Igreja, esposa de Cristo.” Essas insígnias são objetos que simbolizam o poder, a jurisdição e a fidelidade do bispo à Igreja. [24], [25]

 

·       Com a formação da hierarquia, surgiu, é claro, uma cerimônia de consagração para cada degrau hierárquico, todas cheias de formalidades. [26]

 

Esse ritual passou a ser chamado de sacramento da Ordem, e foi incluído na lista dos sete sacramentos. [27], [28] Ficou divido em quatro graus menores (Hostiário, Leitor, Exorcista e Acólito) e quatro graus maiores (Subdiaconato, Diaconato, Presbiterado e Episcopado). Após o Concílio Vaticano II, as ordens menores foram eliminadas, e passaram a ser ministérios leigos, independentes do sacramento da ordem. [29], [30]

 

A ordenação de um sacerdote católico é mais ou menos assim:

 

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Descrição: Cerimônia de ordenação. Data: 08 de janeiro de 2006. Autor: Whoiswho. Fonte. Licença CC BY-SA.

 

·       Entrada do bispo;

·       Liturgia da palavra sobre o sacerdócio;

·       Chamada daquele que será ordenado, que despedirá de seus pais;

·       Uma pessoa apresenta-o para o bispo;

·       Outras dão testemunho, garantindo a sua vocação para o sacerdócio;

·       Em seguida, em nome da Santíssima Trindade, o bispo demonstra aceitar o candidato na classe do clero;

·       Homilia proferida pelo bispo;

·       Na sequência, o celebrante faz diversas perguntas para o candidato, que deverá responder conclusivamente dizendo: “eu quero”;

·       Depois, o candidato prostra-se por terra em sinal de humildade, enquanto o povo, ajoelhado, recita a Ladainha de Todos os Santos;

·       O bispo impõe as mãos sobre o candidato e faz a oração consagratória;

·       Antigamente, nesse momento era praticada a tonsura (corte de parte do cabelo do futuro sacerdote);

·       O novo padre coloca as roupas sacerdotais com o auxilio de outro escolhido;

·       Depois, o celebrante unge as suas mãos e prossegue a celebração de uma missa habitual. [31], [32], [33], [34].

 

Apesar da Reforma protestante, as igrejas protestantes e evangélicas não descartaram todas essas idéias e também realizam ordenações com muita solenidade. Há variações de detalhes, mas geralmente os pastores das diversas igrejas passam por um ritual de passagem. [35], [36], [37], [38], [39], [40] Infelizmente, nesses rituais, quem está sendo ordenado ou consagrado acaba recebendo honras e glórias acima dos demais fieis. E isso não está de acordo com o que Jesus pregou. Além disso, o requisito exigido para que uma pessoa seja ordenada, em muitas igrejas, é o diploma de alguma escola teológica, aquele famoso canudo rebuscado e assinado, dando à pessoa algum título honorífico que os fariseus modernos adoram exibir.

 

A igreja primitiva conseguiu evangelizar muita gente com poucos recursos. Hoje, a obra de Deus ficou cara. Há muitos motivos para grandes gastos. Algumas escolas teológicas cobram uma boa soma de dinheiro para bancar o luxo de suas ordenações. Algumas vezes, para alguém ser reconhecido como pastor ou coisa semelhante, precisa pagar despesas como: jantar de gala, hospedagem, almoço, lanches, beca, filmagens, som, etc. [41] Essas faculdades, como dizem, não cobram para consagrar pessoas, mas arrumam uma boa despesa para algo desnecessário. Realmente tudo isso tem um custo. Mas nada disso é necessário para que alguém seja reconhecido como um obreiro de Deus. Na igreja primitiva, as pessoas não eram ordenadas com todo esse aparato cheio de formalidades e gastanças. Os apóstolos apenas reconheciam as pessoas com a imposição de mãos e oração. Atos simples como esses não precisam de muito tempo e não dependem de nenhum lugar especial e, consequentemente, de nenhum dinheiro.

 

Hoje, como nos tempos primitivos, precisamos parar com essas etiquetas religiosas, que têm muito sentido para as instituições eclesiásticas, mas que, no fundo, não têm nada a ver com o que Jesus realmente ensinou. Estamos no Novo Testamento e não precisamos copiar nada de Moisés. Também não podemos querer imitar as cerimônias do Império Romano. Simplesmente precisamos reconhecer as pessoas que têm o dom de Deus para nos ajudar como simples pastores, que mesmo tendo um dom diferente, é um ser humano igual aos outros irmãos da igreja. Vamos parar com essa cerimônia que eleva a figura do clero acima do povo. Estamos em outra dimensão. Não precisamos das bizarrices mosaicas e nem das formalidades romanas.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br



[10] ROMAG, Dagoberto. Compêndio da História da Igreja - v.1. Rio de Janeiro: Vozes, 1949, p. 275.

[15] ROMAG, Dagoberto. Compêndio da História da Igreja - v.1. Rio de Janeiro: Vozes, 1949, p. 275.