Pastores e mestres (Parte II)

 
 
 
Quem são os verdadeiros pastores da igreja, que é o rebanho espiritual de Deus?
 
 
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Descrição: Pastor de ovelhas. Data: 1984. Autor: Jim Padgett. Fonte. Licença CC BY-SA.
As pessoas que Jesus escolheu para serem apóstolos receberam dele o conhecimento para que pudessem, como mensageiros, levar adiante, para as ovelhas perdidas, o mesmo conhecimento, para que todos pudessem ser como ovelhas em locais seguros. Ele disse para os seus discípulos: “Procurem as ovelhas perdidas do povo de Israel.” (Mateus 10:6, NTLH.) [1] Disse ainda: “Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor.” (João 10:16, RC.)  Em outras palavras, ele estava dizendo que tinha outras pessoas que não eram do povo de Israel e que precisavam ouvir os suas palavras. Por isso, ele disse para os seus discípulos: “Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-as a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado.” (Mateus 28:19-20, RC.) [2] “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.” (Marcos 16:15, RC.) [3] Por isso, eles também acabaram sendo comparados a pastores. [4] Ele disse para Pedro: “Apascenta os meus cordeiros.” “Apascenta as minhas ovelhas.” (João 21-15-17, RC.) [5]
 
Pedro, chamando a si mesmo de presbítero e falando com os presbíteros da Ásia Menor, disse para eles apascentarem o rebanho que havia entre eles, se referindo à igreja. (1 Pedro 5:1-2.) [6]. Paulo, falando aos presbíteros (anciãos) de Éfeso disse: "Olhai, pois, por vós e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue. Porque eu sei isto: que, depois da minha partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não perdoarão o rebanho.” (Atos 20.28-29.) [7]. O escritor da carta aos Hebreus também se refere a eles como pastores ou guias. (Hebreus 13.7 e 17.) [8].
 
Os apóstolos, claro, tinham a capacidade para ensinar. Paulo, de acordo com Atos e diversas epístolas do Novo Testamento, nas diversas igrejas, pessoalmente e por cartas, ensinou muitas pessoas o evangelho de Cristo. O bispo ou presbítero também tinha que ser uma pessoa apta para ensinar. (1 Timóteo 3:2.)  Mas havia outros mestres que não eram apóstolos ou presbíteros. Na Igreja, considerada como o corpo de Cristo, cada pessoa é como um membro com uma função específica. Dentre as diversas funções, temos aqueles que têm o dom de ensinar. Independentemente da idade, jovens ou anciãos, homens ou mulheres recebem de Deus a capacidade para instruir os outros. Esses são os mestres ou professores espirituais, escolhidos para guiarem as pessoas no bom caminho, assim como pastores guiam as ovelhas. (Romanos 12.4-8, Efésios 4:11.) [9] Timóteo, ainda jovem, era uma pessoa que os presbíteros tinham reconhecido com esse dom de exortar e ensinar. (1 Timóteo 4.12-13.) [10] Apolo tinha esse dom (Atos 18.24-28.). [11] Podemos dizer que eles podiam, como os apóstolos e os presbíteros, serem tratados como pastores, pois eles guiavam as pessoas através de seus ensinos. Então podemos concluir o seguinte:
 
·         Os apóstolos ensinavam. Eles eram mestres, guindo as pessoas como se fossem pastores guiando ovelhas.
·         Os anciãos (presbíteros ou bispos) ensinavam. Eles eram mestres, guindo as pessoas como se fossem pastores guiando ovelhas.
·         Outras pessoas também tinham o dom de ensinar. Eles eram mestres, guindo as pessoas como se fossem pastores guiando ovelhas.
 
São esses os verdadeiros pastores que a carta aos hebreus se refere dizendo: “Lembrai-vos dos vossos pastores, que vos falaram a palavra de Deus, a fé dos quais imitai, atentando para a sua maneira de viver.” (Hebreus 13:7, RC.) [12] “Obedecei a vossos pastores e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossa alma, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso não vos seria útil.” (Hebreus 13:17, RC.) [13]
 
Todos devem e podem ensinar uns aos outros. Paulo escreveu: “Que a mensagem de Cristo, com toda a sua riqueza, viva no coração de vocês! Ensinem e instruam uns aos outros com toda a sabedoria.” (Colossenses 3:16a, NTLH.) [14]. Mas algumas pessoas recebem o dom especial para ensinar com muito mais profundidade e sabedoria. Esses são os pastores e mestres. (Efésios 4:11.) [15] Sempre encontramos pessoas que têm vontade e capacidade para ensinarem o bom caminho. Não são maiores ou melhores e nem cabeças da igreja. São membros do corpo como todos são, porém com a função e capacidade de ensinar de uma forma especial. Essas pessoas podem ser consideradas como pastores, pois elas, com seus ensinos, procuram guiar os outros no bom caminho. Mas nenhum mestre é infalível. Por isso, as palavras deles também precisam ser recebidas com bom senso. Eles poderão nos ajudar com os seus ensinos, mas a nossa direção precisa vir, acima de tudo, do Espírito Santo de Deus. 
 
De acordo com o Novo Testamento, os pastores da igreja primitiva eram bem diferentes dos pastores modernos.
 
O termo pastor não era um título. Hoje em dia, no rádio, na televisão e na internet, nas revistas, nos livros, CD’s e DVD’s, muitos fazem questão de ostentar o título de pastor. Mas nem Jesus e nem os apóstolos deram nenhum título de pastor pra ninguém. Eles apenas consideraram aqueles que cuidam das pessoas como se fossem pastores cuidando de suas ovelhas. Não vemos, na Bíblia, nenhum pastor fulano, pastor sicrano, pastor beltrano. Isso porque ser pastor é um dom de Deus. Não é nenhuma forma de ostentação.
 
O pastorado não era um curso. Muitos fazem um curso teológico, adquirem um diploma e vira pastor. Cursos podem ser importantes. Mas não podem transformar nenhuma pessoa num verdadeiro pastor segundo os ensinos de Jesus e dos apóstolos. O verdadeiro pastor pode ter ou não ter cursado um seminário. Na igreja primitiva, não havia seminário teológico. Alguns apóstolos eram iletrados e incultos. (Atos 4.13.) [16]  Eram indoutros e não doutores como muitos, hoje em dia, que até fazem questão de serem chamados de doutores. Pedro e André, Tiago, filho de Zebedeu e João, o seu irmão, eram simples pescadores. (Mateus 4.18-21.) [17] A capacidade deles vinha da convivência com Jesus e do Espírito Santo de Deus. (Atos1.8.) [18]
 
O pastorado não era uma profissão. Muitos amam ser pastores porque acham que é uma profissão, onde terão chances para ganharem um bom salário e gordas ofertas e cachês para pregações em eventos especiais. Mas o pastorado não é profissão de pregador. Os verdadeiros pastores da igreja do primeiro século não eram empregados, nem patrões ou profissionais liberais.
 
Não havia um pastor, num templo, dominando uma igreja local, mas vários pastores ajudando o povo. Como já vimos noutra mensagem, a igreja primitiva não era como hoje, onde uma congregação tem apenas um líder (pastor ou padre) ocupando uma posição separada e privilegiada, em um templo, dando uma de chefe do povo cristão. Numa única e pequena igreja local, que se reunia nas casas e em outros locais públicos, além do viver uns pelos outros, havia vários (isso mesmo!) havia vários presbíteros que ajudavam os cristãos ali mesmo, no meio deles, sem nenhum destaque especial, procurando guiá-los nas questões mais difíceis. Em cada igreja, os apóstolos escolhiam não um, mas vários presbíteros ou anciãos. (Atos 14:23.) [19]. Um dia, Paulo mandou chamar não o presbítero, mas os presbíteros da igreja de Éfeso. (Atos 20:17-35.) [20]. Na casa de Tiago, certa vez, Paulo encontrou não o presbítero, mas os presbíteros da igreja de Jerusalém. (Atos 21.17-18.) [21]. Paulo citou não o bispo, mas os bispos da igreja de Filipos . (Filipenses 1.1.) [22].Paulo exorta aos tessalonicenses para reconhecerem não aquele, mas aqueles que pastoreavam entre eles. (I Tessalonicenses 5.12.) [23]. O mesmo Paulo roga a Tito para nomear, em cada cidade, não o presbítero, mas os presbíteros. (Tito 1:5.) [24]. O escritor da carta aos Hebreus pede que eles se lembrem não do pastor, mas dos pastores deles; que eles obedeçam não ao pastor, mas aos pastores deles. (Hebreus 13:7,17.) [25]. Tiago disse para chamar, para quem estiver doente, não o presbítero, mas os presbíteros da igreja. .” (Tiago 5:14.) [26]. Pedro disse que estava dando conselhos não ao presbítero que estava sobre, mas aos presbíteros que estavam entre os cristãos da Ásia Menor. (1 Pedro 5:1.) [27].
 
O pastor não era um dominador. A maioria dos pastores das igrejas institucionalizadas, na verdade, estão sobre o povo e não entre o povo. Na igreja primitiva, não era assim. Pedro, falando com os presbíteros das províncias do Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia, pediu para que eles respeitassem aqueles que trabalhavam não sobre, mas entre eles. (1 Pedro 5.1.) [28] Dentro do mesmo contexto, Pedro continua falando aos presbíteros o seguinte: “Não procurem dominar os que foram entregues aos cuidados de vocês, mas sejam um exemplo para o rebanho.” (1 Pedro 5.3, NTLH.) [29] Paulo pede aos tessalonicenses para respeitarem não aquele que trabalhava sobre eles, mas aqueles que trabalhavam entre eles. (1 Tessalonicenses 5:12.) [30] Observe que, na Bíblia Revista e Corrigida e em outras traduções, se referindo aos pastores, foi usada a expressão “trabalham entre vós, e que presidem sobre vós”, dando a entender que eles eram superiores. Todavia, em muitas outras traduções, não encontramos essa expressão. A Bíblia Revista e Atualizada, por exemplo, diz: “Agora, vos rogamos, irmãos, que acateis com apreço os que trabalham entre vós e os que vos presidem no Senhor e vos admoestam.” Observe que não temos a expressão “sobre vós”.   E as diversas traduções, por outro lado, não deixam de usar a expressão “trabalham entre vós”. Observe que os apóstolos estão falando de presbíteros entre e não de um presbítero sobre as pessoas. Mas o que temos visto são pastores dominadores, agindo como se fossem donos ou gerentes de igrejas. Eles eram muitos num único lugar porque não eram chefes ou cabeças, mas apenas ajudadores, com o dom de ensinar, de pastorear o rebanho.
 
O pastor não era um estrategista para conseguir dinheiro. Muitos pastores modernos são especialistas em venderem produtos e serviços. Usam todos os espaços possíveis para fazerem seus anúncios. É claro que o pastor pode comercializar, mas não deviam fazer isso nos espaços que consideram sagrados, como aqueles vendilhões do templo. (Mateus 21.12-13; Marcos 11.15-17; Lucas 19.45-46; João 2.14-16.) [31] Muitos são pastores vendedores, estranhos ao verdadeiro evangelho. Outros inventam um monte de artifícios para conseguirem ofertas volumosas. Para esses, tudo é válido: numerologias, promessas de altos retornos com data marcada, vendas indiretas de elementos místicos e muitas outras artimanhas. Onde encontramos, no Novo Testamento, pastores agindo dessa forma? Quem corre atrás do dinheiro do rebanho é o mercenário, e não o pastor. Pedro, no mesmo contexto anterior, ainda disse o seguinte: “Aconselho que cuidem bem do rebanho que Deus lhes deu e façam isso de boa vontade, como Deus quer, e não de má vontade. Não façam o seu trabalho para ganhar dinheiro, mas com o verdadeiro desejo de servir.” (1 Pedro 5.2, NTLH.)
 
O pastor não era um homiliastra. Homiliastra é aquele que prega sermões ou homilias, como os sofistas da antiga Grécia. Hoje em dia, muitas vezes, para uma pessoa ser pastor, ela precisa saber pregar sermões. Microfone, Bíblia, planteia e púlpito são coisas ligadas à imagem do pastor moderno. Mas, do ponto de vista do verdadeiro evangelho original do reino de Deus, temos pastores que nunca subiram num púlpito. Muitos homiliastras podem ser sim verdadeiros pastores. Mas não exatamente por causa dos sermões, mas por causa da verdadeira vocação e do verdadeiro cuidado das ovelhas, sendo a homilia apenas uma das ferramentas usadas. Você não encontra nenhuma homilia ou sermão do tipo sofista, nas páginas do Novo Testamento. Mesmo assim, lá estavam os verdadeiros pastores.
 
O pastor não era um sacerdote especial. Jesus, de certa forma, se tornou o nosso eterno sumo sacerdote. (Hebreus 4.14-15 e Hebreus 5.5-6.) [32] E todos nós somos sacerdotes com ele. (I Pedro 2.5 e 9; Apocalipse 1.6 e 5.10.) [33] Sendo assim, não existe lugar para sacerdotes especiais acima do povo. Muitos estão nas igrejas templos, realizando liturgias e rituais em favor do povo, atuando como sacerdotes e sacerdotisas. Isso não tem nada a ver com o pastor espiritual do evangelho original de Jesus. Muitos pastores modernos são sacerdotes acima do povo. Os pastores originais eram servos no meio do povo. Os cristãos daquele tempo não tinham templos, onde buscavam trabalhos sacerdotais.
 
Todos aqueles que realmente cuidam das pessoas, ensinando-as a permanecerem seguras no reino de Deus, independentemente de cursos, de títulos, de paletó e gravata, de homilias, de cerimônia de ordenação e de igreja institucionalizada, são pastores. Muitos outros, apesar de toda ostentação, até mesmo dos grandes sinais e prodígios, são simplesmente lobos disfarçados de ovelhas ou mercenários. Muitas pessoas que realmente se preocupam com os outros, muitas vezes, são desprezadas, enquanto muitos que apenas querem levar vantagens são glorificados e idolatrados. Dessa forma, a cristandade tem jogado fora os verdadeiros pastores, acolhendo muitos falsos pastores.
 
Vamos reconhecer e acolher os verdadeiros pastores que estão entre nós sem nenhum destaque, sem ostentações, sem interesses financeiros, sem desejos de glória, sem proselitismos, sem astúcias, sem vontade de dominar, de estar por cima. Pelos frutos, não pelos prodígios, podemos reconhecê-los. Fique de olhos abertos. Há lobos disfarçados de ovelhas entre nós. Há mercenários com aparência de pastores. Os verdadeiros pastores não estão lá em cima, nas tribunas, nos templos luxuosos, com roupas diferentes... Eles estão entre nós, nas estradas poeirentas, no mato, pisando nos dejetos dos apriscos, sempre nos guiando, nos protegendo do perigo, por meio de seus ensinos e sem segundas intenções.
 
Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, juntamente com essa informação final, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2014. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br