Identidades religiosas

Livres dos Fardos Religiosos.

 

Uma coisa que me deixou bastante desconcertado foi quando recebi a minha carteira de identidade “cristã” em uma determinada igreja, onde congreguei por algum tempo. Senti-me como um hipócrita ou fariseu. Afinal, para que usaria aquele documento? Qual a sua utilidade?

 

Identidade religiosa é qualquer coisa que sirva para identificar uma religião ou uma igreja, ou um adepto dela como: nome, logomarca, slogan, carteirinhas, bandeira, hino, emblemas, etc.

 

 

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Descrição:  Vexilloid do Império Romano.  Data:  20 de junho de 2008. Autor: Ssolbergj. Fonte. Licença CC BY.

 

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Descrição: Modelos do brasão papal. Data: 2008.  Autor: Odejea. Fonte. Licença CC BY-AS.

 

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Descrição: Modelo do brasão de cardeais. Data:  18 V 2005r. Autor:  Piotr Michał Jaworski, PioM. Fonte. Licença CC BY-SA.

Na Antiguidade, os impérios usavam objetos semelhantes às bandeiras, mas não exatamente iguais às bandeiras modernas. Esses foram denominados de vexilo. [1], [2], [3], [4]. No Império Persa, na época da dinastia dos Aquemênidas, por exemplo, foi usada a figura de um falcão. Alexandre, o Grande do Império da Macedônia usou uma figura parecida com um sol cheio de raios. O vexilo do Império Romano exibia a sigla S.P.Q.R., que significava, em latim: “Senatus Populusque Romanus” Traduzido: "o Senado e o povo romano". O Império Bizantino usava uma águia de duas cabeças. [5]. Os hebreus, que foram bravos guerreiros, também usaram algo semelhante. Veja o que disse Moisés: “Os outros israelitas ficarão cada um no seu próprio acampamento, perto da sua própria bandeira, de acordo com o seu grupo.” (Números 1.52, NTLH.) [6]. “Quando os israelitas armarem o acampamento, cada um ficará perto da bandeira do seu grupo e do estandarte do seu grupo de famílias. Eles acamparão em volta da Tenda Sagrada e de frente para ela.” (Número 2.2, NTLH.) [7].

 

Era também comum usar uma figura no escudo, aquela peça da armadura que protegia o corpo do guerreiro. Essa figura, conhecida como brasão, por causa disso, também ficou conhecida como escudo e servia para identificar o exército no meio das batalhas. [8]. Os vexilos, e depois, as bandeiras também eram usados para a identificação dos exércitos. [9].

 

Já vimos, em oura mensagem, que Jesus pregou o evangelho do reino de Deus dizendo: “O reino de Deus não é anunciado por sinais visíveis, nem se poderá dizer que começou aqui ou acolá, porque está entre vocês.“ (Lucas 17:20-21, OL.) [10]. Ele deixou bem claro que o reino de Deus não tem aparência exterior. Ninguém pode dizer que ele está aqui ou ali, pois o reino de Deus está dentro de nós. (Lucas 17.20-21.) [11]. O seu reino, como ele falou, “não é deste mundo” (João 18:36.) [12]. Sendo assim, não precisamos de nenhuma bandeira ou brasão para representar o reino de Deus. Ele é espiritual e  não pode ser representado por coisas materiais.

 

No passado, como vimos, as pessoas usavam pesadas armaduras e uma identificação para não serem confundidos nas batalhas. Mas nossa luta é espiritual. Nossas armas são espirituais. No nosso escudo da fé não é possível desenhar nenhum emblema. (Efésios 6.12-18.) [13].

 

Nos primeiros séculos da era cristã, a igreja foi duramente perseguida. [14]. E tudo indica que os cristãos usaram algumas figuras para que eles pudessem identificar uns aos outros. As figuras mais comuns foram o peixe e a cruz. Com o fim das perseguições, essas figuras continuaram como decorações simbólicas. [15], [16]. E algumas, como a cruz, viraram elementos místicos e uma espécie de ídolos para o povo.

 

Para a cristandade da Idade Média européia, o uso de escudos e bandeiras virou uma febre. Indivíduos, famílias, clãs, corporações, instituições de ensino, cidades, principados, reinos entraram nessa tradição e passaram a usar seus próprios brasões. A figura do brasão também passou a ser usada em bandeiras, selos, vestuários e até na arquitetura. [17]. Então, é claro, a Igreja não ficou de fora. A Igreja Católica criou o seu brasão, cada papa, os cardeais, os arcebispos, os bispos, os presbíteros e diáconos, cada um adotou o seu escudo pessoal. [18], [19], [20], [21]. Cada um desses escudos eclesiásticos é regulamentado por cores e figuras próprias, de acordo com o grau hierárquico que a pessoa ocupa. O do papa é uma tiara juntamente com as chaves de são Pedro e outras partes acessórias. Para os demais membros da hierarquia, no lugar da tiara e das chaves, ficam o chapéu de peregrino e borlas, além de outras figuras livres.

 

·       Cardeais: chapéu e 30 borlas vermelhas;

·       Arcebispos: chapéu e 20 borlas verdes;

·       Bispos: chapéu e 12 borlas verdes;

·       Presbíteros: chapéu e 2 borlas pretas;

·       Diáconos: Apenas um chapéu preto.

 

Demais membros intermediários na hierarquia, partindo dessa regra básica, têm seus escudos com algumas variações. Todos expressam a posição hierárquica, dignidade, honra e poder. [22], [23], [24].

 

Outras igrejas históricas também criaram seus emblemas. Depois da Reforma do século XVI, as igrejas protestantes também continuaram com essa tradição, mas com figuras diferentes dos padrões católicos. [25], [26].

 

No século XVIII, na Inglaterra protestante, aconteceu a Primeira Revolução Industrial, com o uso do carvão como fonte de energia, a invenção de máquinas industriais a vapor e a locomotiva. Em meados do século XIX, essa revolução saiu da Inglaterra e atingiu outros países protestantes como Estados Unidos, Bélgica e Alemanha. [27]. No século XIX, principalmente entre os protestantes dos Estados Unidos, aconteceu a Segunda Revolução Industrial, com o uso da energia elétrica, produtos químicos como o petróleo, o motor a combustão, o automóvel e outras novidades. [28]. O mundo encheu-se então de diversas empresas industriais, comerciais e prestadoras de serviços, cada uma com um nome próprio. Surgiu assim a necessidade de uma identificação mais clara. E, em vez de usarem as requintadas figuras heráldicas, criaram logomarcas ou logotipos para cada empresa ou produto. Uma logomarca é feita a partir de uma imagem e/ou o nome escrito com letras especiais, com efeitos e/ou cores próprias. [29], [30].

 

Entre os séculos XVIII e XIX, surgiu um movimento entre os protestantes, chamado pelos historiadores de o Grande Despertar. Esse movimento afetou a Europa e a América do Norte, influenciando as igrejas Presbiteriana, Congregacional, Reformada Holandesa, Reformada Alemã, Batista e Metodista. [31]. Por outro lado, fez surgir novas igrejas como: Igrejas de Cristo, Igreja Cristã (Discípulos de Cristo), Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (apelidada de Mórmons), Igreja Adventista do Sétimo Dia, Igreja Cristã Evangélica no Canadá, dentre outras. [32].

 

No século XVIX, surgiu entre as igrejas americanas, ainda na época do Grande Despertar, o movimento de santidade. Novas idéias e novas crenças fizeram surgir novas igrejas como: Igreja de Deus, Igreja do Nazareno, Igreja Wesleyana, Igreja Metodista Livre, Igreja de Cristo (Santidade) e muitas outras. [33]. Todos esses movimentos provocaram grandes mudanças, principalmente nos Estados Unidos. E a partir do início do século XX, por volta de 1906, o movimento de santidade fez surgir o movimento pentecostal. Novas igrejas foram criadas como: Igreja Assembléia de Deus, Igreja Deus é Amor, Igreja Cristã no Brasil, Igreja do Evangelho Quadrangular, Igreja Unida, Igreja de Nova Vida e muitas outras. Em meados do século XX, o pentecostalismo foi evoluindo, e vieram mais dois movimentos: o carismático e o neopentecostal. E novas igrejas foram criadas com idéias audaciosas. [34], [35], [36], [37], [38].

 

Surgiu então uma grande disputa por fiéis. A mesma concorrência existente entre as empresas, onde cada uma tenta ser melhor que a outra, foi trazida para o seio da cristandade. E assim, muitas coisas usadas no mundo capitalista passaram a ser utilizadas pelas igrejas, emporcalhando, descaracterizando e depreciando o verdadeiro evangelho.

 

 

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Desc.: Logomarca apenas para ilustrar.  Não temos nenhuma igreja com esse nome. Caso exista alguma com essa designação é mera coincidência. Data: Junho/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

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Desc.: Símbolo religioso. Data: Julho/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

 

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Desc.: Identidade religiosa apenas para ilustrar. Não temos carteirinhas. Data: Julho/2012. Autor: Maralvestos. Licença CC BY-SA.

Nome. Como tudo é designado por um nome, toda igreja nova que apareceu recebeu um nome próprio como: Igreja Pentecostal A, Igreja Apostólica B, Igreja Evangélica tal, Comunidade Cristã tal... São milhares de nomes. Alguns, inclusive, são meio estranhos. Se você criar um grupo de pessoas em torno de certas crenças e não colocar nele nenhum nome, mesmo assim ele terá algum nome criado pelas pessoas. Mas essas igrejas receberam um nome à moda empresarial, um substantivo próprio, como se fossem várias empresas concorrentes na prestação de serviços litúrgicos e eclesiásticos.

 

Logomarca. Todas essas igrejas fizeram algo mais. Imitando as empresas, cada uma criou sua logomarca, como se fossem empreendimentos prestadores de serviço do reino de Deus. As figuras mais utilizadas nas logomarcas eclesiásticas são: pomba, fogo, cruz, globo, dentre outras.

 

Slogan. As empresas e os produtos comerciais são também identificados com slogan, uma frase curta, fácil de ser lembrada, usada para divulgar alguma coisa. [39]. Algumas igrejas também resolveram criar slogan como: “A igreja dos milagres.” “Onde o fogo não pára.” “Recanto dos milagres.”

 

Documentos de identificação. Muitas empresas fornecem documentos para identificar seus funcionários.  Muitas igrejas passaram a emitir uma carteirinha para os seus adeptos com nome, retrato, data de admissão, assinatura do pastor, nome e logomarca da instituição, etc.

 

No capitalismo, há uma grande disputa entre as marcas comerciais. No cristianismo, há uma competição acirrada entre as marcas religiosas. Placas, jornais, revistas, TV e Internet estão recheados de nomes e logotipos de igrejas diversas. Todas essas coisas acabam estimulando disputas dentro do cristianismo.

 

Cristo não fundou nenhuma denominação cristã, não deixou nenhum símbolo, nenhuma marca ou coisa parecida para identificar a sua igreja. O que identifica os verdadeiros cristãos é a maneira como vivemos. Conforme disse Paulo, devemos andar como filhos da luz. (Efésios 5.8.) [40]. Jesus disse que nós somos a luz do mundo. Nossa luz deve resplandecer diante das pessoas para que vejam as nossas boas obras e glorifiquem o nosso Pai, que está nos céus. (Mateus 5.14-16.) [41]. Somos também o aroma de Cristo. (II Coríntios 2.15.) [42]. Mas o que vemos  por todos os lados é uma porção de nomes de igrejas, um monte de logomarcas coloridas, placas e slogans para identificá-las, além de cristãos com carteirinhas. Todas essas identidades servem para propagarem marcas religiosas, mas não têm valor diante de Deus, não servem para a propagação do verdadeiro evangelho de Cristo.

 

Jesus alerou: “Cuidado com os falsos profetas! Eles chegam disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos selvagens. Vocês os conhecerão pelo que eles fazem. Os espinheiros não dão uvas, e os pés de urtiga não dão figos. Assim, toda árvore boa dá frutas boas, e a árvore que não presta dá frutas ruins. A árvore boa não pode dar frutas ruins, e a árvore que não presta não pode dar frutas boas. Toda árvore que não dá frutas boas é cortada e jogada no fogo. Portanto, vocês conhecerão os falsos profetas pelas coisas que eles fazem.”

 

“Não é toda pessoa que me chama de ‘Senhor, Senhor’ que entrará no Reino do Céu, mas somente quem faz a vontade do meu Pai, que está no céu. Quando aquele dia chegar, muitas pessoas vão me dizer: ‘Senhor, Senhor, pelo poder do seu nome anunciamos a mensagem de Deus e pelo seu nome expulsamos demônios e fizemos muitos milagres! ’  Então eu direi claramente a essas pessoas: ‘Eu nunca conheci vocês! Afastem-se de mim, vocês que só fazem o mal!’” (Mateus 7.15-23, NTLH.) [43].

 

Está muito claro que a pessoa, no reino de Deus, será identificada pelos frutos, isto é, pelo que ela faz, pelos seus comportamentos. Não adianta emblemas, bandeiras, placas de igreja, logomarcas, carteirinha de membro... Nada disso tem valor no reino de Deus. Devemos divulgar a mensagem de fé, amor, paz, salvação, esperança, respeito, justiça e bondade proposta por Jesus Cristo. A verdadeira igreja de Cristo não é um reino do mundo com bandeira e brasão, não é produto, nem serviço, nem uma empresa ou organização religiosa com nome, slogan e logomarca, e sim uma comunidade espiritual. Por isso, não precisamos de nenhuma identidade material. Você não será identificado por nenhum documento eclesiástico, mas pelos seus frutos. Esqueça as camisetas, bonés, distintivos, adesivos... Eles não são proibidos. Mas para a identificação do verdadeiro cristão apenas os frutos são necessários e seguros.

 

Não estamos aqui para divulgar marcas religiosas. Não temos e nem recomendamos o uso de nenhuma identidade religiosa, além do comportamento cristão de cada um. Mas pedimos a todos que respeitem qualquer identidade religiosa usadas nas religiões e igrejas. Acima de tudo, faça da sua vida uma verdadeira identidade cristã. Que todos possam ver, através de seu viver diário, um modelo de cristão segundo o evangelho original.

 

Autor: Maralvestos Tovesmar. Este texto (não o site inteiro) está disponível nos termos da licença CC BY-NC-ND. Pode ser copiado e distribuído, informando o autor e o link seguinte, mas não pode ser modificado e nem comercializado. Data: 2013. Veja outras mensagens em http://livresdosfardosreligiosos.blogspot.com.br